Sexta-feira, 26 de Maio de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº943

CADERNO DA CIDADANIA > FIM DE SEMANA, 3 E 4/03

Diário do Nordeste

06/03/2007 na edição 423

TELEVISÃO
Diário do Nordeste

O desafio de Murilo Rosa, 22/2/07

‘O ator Murilo Rosa está completamente irreconhecível no longa-metragem ‘Orquestra de Meninos’, de Paulo Thiago, rodado em Sergipe e em fase de montagem. Deixou a barba crescer, emagreceu alguns quilos e mergulhou no universo nordestino para criar o maestro Mozart Vieira, protagonista no filme. Para realizar o trabalho, Murilo parou com todas as atividades. Deixou de fazer novelas – a última foi ‘América’ – e dedicou-se totalmente ao filme dirigido por Paulo Thiago, que deve estrear no final deste ano em todo o Pais.

Murilo Rosa está preocupado com o seu papel em ‘Orquestra de Meninos’. Elogia a direção de Paulo Thiago, que não deixa ninguém ‘brincar em serviço’. ‘Às vezes o ator está descontraindo, rindo, conversando e, logo, entra para gravar e faz a cena. Acho isso um desrespeito com a profissão e com o público. Não é fácil a profissão de ator. Precisa de disciplina, estudo. Inspiração não existe, mas, sim, um preparo muito grande. Isso nós fizemos em ´Orquestra de Meninos´. O filme foi construído cena-a-cena com muita seriedade’, comenta.

Rosa inspira-se nos grande atores e diretores para a realização de seus trabalhos. Quando encontra algum, a conversa é longa. ‘Não existe rebeldia como no passado, mas, sim, disciplina. Muita gente fala de Marlon Brando, que era ator rebelde, de personalidade difícil. Mentira. No início da carreira, ele era de uma dedicação absurda. Era um cara, talvez, complicado, mas era de uma dedicação exclusiva a arte. Os grande s atores e os grandes diretores são pessoas que pensam. Nada surge do nada. Temos uma tradição a respeitar. E através dela é que chegamos a bons resultados. O Paulo Thiago quando vai dormir, tenho certeza, sempre pensa no seu filme, nas melhores saídas, enquadramentos, mas também no belo, no sentido da arte que deve buscar todo bom diretor’, diz.

Sobre seu personagem em ‘Orquestra de Meninos’, o maestro Mozart Vieira, Murilo Rosa não agiu diferente dos ‘mandamentos’ para a construção da personagem. A história é baseada em fatos reais, ocorridos no agreste pernambucano, quando Vieira começa a formar uma orquestra com meninos da região – todos pobres, trabalhadores da roça -, ganha espaço na mídia, sendo, depois, envolvido em escândalos pelas oligarquias reinantes no interior pernambucano. Sua arte não era bem-vinda nem para os fazendeiros nem para os pais das crianças. É acusado de pedofilia e quase é preso, se não fosse a ingerência de Dom Helder Câmara, que mobilizou artistas de todo o País em defesa do maestro.

Desde o encontro que teve com Paulo Thiago, no Rio de Janeiro, quando o filme ainda era uma idéia embrionária, Murilo apaixonou-se pela personagem e logo começou a estudá-lo. Foi a Pernambuco, encontrou-se com o maestro levantou todos os meandros da história. Estudou o Nordeste com todas as suas questões sociais, complexidades e tragédias. Foi um aluno aplicado de música. Emagreceu e deixou a barba e o bigode crescerem. Revela que até o jeito de expressão do maestro Mozart Vieira Vieira foi motivo de preocupação.

– Desde do primeiro encontro com o Paulo e, depois do convite formal para o filme, senti que ali já existia um exercício de como compor esse personagem tão complexo. A gente começou um papo tão empolgado, tão vigoroso, com uma energia tão contagiante que é mesma energia do personagem. Quando começamos a trabalhar, mergulhei no universo do personagem. Freqüentei aulas de violão, aulas de flauta, aulas de regência. Fui a Sergipe conhecer as locações (o filme foi rodado em Aracaju e nas cidades de Santo Amaro e São Cristovão). Passeis dez dias em Sergipe antes do começo das filmagens de ‘Orquestra de Meninos’. Queria conhecer estes meninos – atores sergipanos e baianos convidados para participarem do filme – para mim uma grande fonte de inspiração. Além disso contei com a orientação importantíssima do Paulo Thiago. Ele é um diretor extremamente detalhista, aliás detalhista ao extremo, uma das virtudes que também comungo. Existe uma limpeza no filme que é muito interessante. Nada na trama do filme é superlativo, tudo está bem dimensionado. A parte musical, na minha opinião, é a alma do filme, a alma do meu personagem.

Composição do personagem

Por isso, segundo Murilo Rosa, tantas aulas de violão, piano, regência e pesquisa para a realização do trabalho. Ele não se cansa de elogiar os atores nordestinos, principalmente as crianças que tiveram um papel importantíssimo para a concretização da obra.’ Adquiri muitos valores também dessas crianças, como por exemplo, a questão do sotaque, uma das minhas preocupações. Não se pode fazer nada mais ou menos. No palco, como na vida, não podemos mentir. Não é apenas pelo fato de usarmos um bigode de mentira, que vamos passar para o público a verdade e a complexidade da personagem.

Murilo Rosa explica que seu personagem, Mozar Vieira, é extremamente apaixonada pelo que faz na vida real. Sempre foi um idealista, um cara que sonhou com a possibilidade de levar arte, através da música, ao sertão nordestino, onde persiste até hoje uma realidade cruel. ‘É um cara que peita mesmo os seus sonhos, as suas vontades e, em conseqüência, acabou criando problemas para ele. Não que ele seja o bonzinho da história, mas é uma pessoa vigorosa’.

Esta complexidade da personagem levou Murilo Rosa a encontrar várias barreiras. Para ele, o personagem é complexo, múltiplo, cheio de nunances e contradições. Sabe que desde o desenvolvimentos dos estudos de Psicologia e Psicanalise, a idéia de que o homem possui uma mente extremamente complexa passa a influenciar a construção das personagens ficcionais. ‘Mozart é personagem emocionado, porém, um personagem nada frágil, mas sim forte em toda a sua dimensão da vida. Uma pessoa que enfrentou muitos problemas, teve momentos de depressão. Momentos em que ele quase desiste, afunda em questionamentos existenciais. Por isso, a complexidade de Mozart Vieira. Não é fácil viver numa cidade sertaneja e comprar brigas homéricas com os mandões do lugar. Acho que por todos estes elementos a personagem é fascinante’.

Ficção e realidade se misturam. Tanto na intersecção de linguagens – literatura, cinema, novelas e vida real. A ficção não é sinônimo de falsidade, mas de suspensão do limite que separa os conceitos de falso e verdadeiro. A idéia de que o homem poderia atingir um saber pleno sobre o universo e sobre si mesmo é substituída pela impressão de que a Verdade é sempre uma forma provisória de interpretação. O homem uno, indizível, senhor de sua identidade, é substituído pelo homem múltiplo, fragmentado. ‘Acho que o filme tem elementos importantes, mas para a construção de um País melhor também’. Murilo Rosa manteve vários contatos com o maestro Mozar Vieira. Inicialmente, Paulo Thiago desestimulou o encontro entre Murilo Rosa e o maestro, encontro que acabou por se concretizar.

Na verdade, Paulo Thiago queria que Murilo Rosa criasse um personagem totalmente distante do verdadeiro. ‘Ele queria que a gente criasse o nosso Mozar t porque o filme, apesar de baseado numa história verídica, é de ficção. Paulo não queria uma espécie de ‘doco-drama’, mas sim a recriação ficcional da realidade’. O filme, na verdade, traz elementos que são pura ficção aliados a uma espécie de ponte com a realidade. O objetivo era que Murilo criasse um Mozar a partir da ficção – com os seus sentimentos, suas vontades e emoções. ‘Isso ocorreu, segundo Murilo. Mas mesmo com todas as precauções, ele encontrou-se com o personagem real. ‘Isso só reforçou a idéia inicial do Paulo. Lógico que foi importante o encontro com o Mozart de carne e osso, mas jamais pensei em recriar o maestro a semelhança dele. Rosa passou um dia conversando com o maestro. Segundo ele, uma pessoa muito vaidosa e detalhista. Mas que contribuiu para o seu trabalho no plano da ficção.

Em busca de uma maior dimensão do ator

Murilo Rosa, bastante elogiado por Paulo Thiago, tem muitos planos para a sua carreira. Enveredou por um processo de trabalho mais independente, liberdade só encontrada em dois campos: o do teatro e o do cinema. Mesmo assim, não descarta a televisão. ‘Quando você começa um processo de trabalho independente, o ator surge em uma maior dimensão, o personagem é mais explorado num trabalho coletivo de criação. A tensão aliada à vontade de buscar e de conhecer coisas diferentes é fundamental. Assim, um grande motivo para aprender é quando você começa um novo trabalho como este filme do Paulo Thiago. Agora, ainda vou fazer muitas novelas, logicamente.’ Para ele, as novelas também renovam o ator, principalmente pelo estudo de época, das relações sociais e contextos políticos e sociais. ‘Quando trabalho em uma trama que se passa, por exemplo, em 1750, realizo um minucioso estudo sobre o personagem. Leio tudo que aconteceu na época. Muita coisa você não utiliza na composição do personagem, mas vejo como mais um motivo para aprofundar meus conhecimentos nos vários campos do saber’, diz.

Murilo Rosa sempre parte deste princípio em seus diversos trabalhos. Afinal, toda personagem é complexa e somente com muito estudo ele se diz apto a construir os tipos. Método, aliás, já descrito pelo diretor do Teatro Arte de Moscou, Constantin Stanislavski.

– Com metodologia e muito trabalho você não trata seus personagens com desrespeito – isso em qualquer suporte, seja televisão, cinema ou teatro. Se você não faz o dever de casa, o resultado do trabalho sempre é pífio. Na televisão, infelizmente, acontece muito isso diante da pressa da gravação de uma novela. Mas nunca deixo de fazer meu dever de casa antes de estruturar o personagem que vou interpretar.

Segundo Murilo Rosa, a televisão funciona, quase sempre, na primeira leitura. Mas a pressa é a inimiga da perfeição. Você ler rapidamente o script e, de repente, já entra no estúdio para gravar. ‘Acho isso um erro’, diz o ator. Seu método, mesmo na televisão é outro, e só grava depois de uma completa composição da personagem. Rosa acha que a televisão é superficial, não sendo necessário um mergulho na trama, nem dos personagens. ‘Acredito que você possa fazer na televisão trabalhos mais complexos, com maior nível de profundidade’, afirma.

Outro ponto citado por Murilo Rosa é com relação a dramaturgia na televisão brasileira. Segundo ele, a melhor do mundo. ‘Acho que a gente tem uma dramaturgia na televisão muito boa, além de atores de primeira qualidade. Isso faz com que a Rede Globo produza as melhores novelas do mundo. Os caras chegaram num nível muito alto, né. Isso não apenas no núcleo das novelas, mas também do jornalismo,, enfim, uma grade que, apesar de muitas críticas da intelectualidade, cumpre com a sua função social.’

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