Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Duas medidas num grande peso

Por Henrik Silter em 12/10/2010 na edição 611

Quando uma resolução do TSE proibia os programas humorísticos de fazerem ironias com os candidatos à presidência da República, vários humoristas foram às ruas protestar contra o que consideravam censura. Quando o desembargador Dácio Vieira, do TJDFT, impediu o jornal Estado de S.Paulo de publicar matéria sobre o empresário Fernando Sarney, filho de José Sarney, o grito contra a censura foi uníssono, gerando debates em praticamente todos os veículos de comunicação e, consequentemente, na sociedade.

A censura incomoda. Prejudica a democracia e causa mal-estar na sociedade. Vozes se levantam em protesto. Pessoas se articulam para conter as forças que possam parecer autoritárias. Natural em um país que amargou 20 anos de terror. Mas, e quando essas mesmas vozes se omitem e a censura se impõe de outra forma? A que prejuízos a democracia está sujeita quando o silêncio se mantém diante da mesma face da censura?

‘Dois pesos…’

Quando as vozes da sociedade se levantam para falar em controle social da mídia, os donos da comunicação de massa colocam as suas tropas de choque para protestar, dizendo que a censura voltará ao Brasil. Bem municiados, vão à guerra e se protegem com o escudo constitucional da liberdade de imprensa e com a livre manifestação do pensamento. Mas e quando um veículo de comunicação demite um profissional por ele ter destoado de sua opinião? A tropa de choque da liberdade de imprensa e da livre manifestação se cala. Cinicamente, silencia o silêncio da omissão. Alguns admitindo com tamanha natureza que ‘a vida é assim’ e outros consternados com a língua presa e as mãos atadas.

No início de outubro, a psicanalista e articulista do Estadão Maria Rita Kehl, que publicou o artigo ‘Dois pesos…’, foi demitida sumariamente. O mesmo jornal que ecoou aos quatro ventos a censura sofrida mostrou no absurdo da contradição como se faz um discurso objetivo e prático diante dos seus interesses em conflito.

Valendo-se do seu instrumento de poder, o jornal demitiu Maria Rita Kehl e jogou no lixo um dos alicerces básicos do Jornalismo, a contraposição. Até onde sei, ainda é assim que os estudantes de Jornalismo aprendem nas universidades e depois colocam em prática nas redações, sempre utilizando na forma ideal o contraditório. (Ou mudaram esse critério e estou precisando de uma reciclagem? Se estiver errado, por favor, me avisem.)

Na verdade, a punição a Maria Rita, que resultou em censura, teve motivações políticas. O jornal declarou apoio a Serra e por isso, ao escrever sobre a ‘desqualificação’ dos votos dos brasileiros mais humildes, cuja maioria praticamente é unânime em apoiar Lula e Dilma, a articulista foi deletada do jornal. Nos piores moldes, é claro. Nas palavras de Maria Rita Kehl, publicadas no site Terra Magazine, ela foi demitida ‘pelo que eles consideraram um delito de opinião’.

Enquanto isso, as vozes da tropa de choque da liberdade de imprensa e da livre manifestação se calaram, se omitiram. Ficaram aquarteladas, esperando que o desfecho se desse como todos os outros, o esquecimento.

A força das novas mídias

Felizmente, a discussão tomou outros rumos nas redes sociais. As pessoas opinaram e criticaram a censura. No Twitter, o caso esteve por vários dias entre os temas mais discutidos pelos tuiteiros. Milhares de blogs também repercutiram a barbárie.

A impressão que fica é que a mídia e muitos dos seus profissionais não se mostram interessados em promover um debate democrático no Brasil. Preferem sobrepor a tudo e a todos a vontade daqueles que mandam e influenciam no conteúdo jornalístico.

Seja por meio da edição das imagens ou da abordagem semiótica de textos e fotografias no Jornalismo, os profissionais da comunicação constroem os argumentos que melhor confortem os interesses da corporação, e não os verdadeiros interesses democráticos de um povo. Resultado: uma notícia parcialmente verdadeira.

Na contramão dos veículos de radiodifusão e impressos, milhares de blogueiros e tuiteiros usam a internet para mostrar outra realidade. E muitos deles enchem os olhos, as mentes e corações daqueles que ainda acreditam numa democracia plural no Brasil. A internet, sim, com toda a sua anarquia, é um verdadeiro instrumento de liberdade das vozes que nunca se calam.

E é nesse território livre, onde milhões de pessoas estão a todo instante complementando a outra metade da notícia, que o Brasil está se tornando mais forte. É na internet que cada vez mais milhões de cidadãos estão se sentindo sujeitos ativos do processo político. E essa participação na construção diária de uma realidade brasileira mais democrática é fundamental e irreversível. Viva o mundo virtual.

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Jornalista, Brasília, DF

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