Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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CADERNO DA CIDADANIA > NEGROS NA TV

…e agora, Lázaro?

Por Renata Noiar em 07/11/2006 na edição 406

Como ficará a televisão brasileira depois de Cobras & Lagartos? Na verdade, como ficará a televisão brasileira depois de Lázaro Ramos? Após uma estréia brilhante, em que devorou a novela das sete da TV Globo, o ator baiano cria um grande dilema para as emissoras de televisão no Brasil: como inserir com qualidade os atores negros nas produções a partir de agora? Até que ponto as emissoras continuarão a ficar presa aos quantitativos que regem os sistemas de cotas?

Em 2002, a Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias da Câmara dos Deputados aprovou o projeto do deputado Paulo Paim (PT-RS), que previa a reserva de cota de 25% para negros em filmes nacionais, peças publicitárias e programas de TV. A lei foi recebida com enorme entusiasmo por aqueles que, ainda, acreditam numa igualdade racial alicerçada em mecanismos que em muitos casos podem ser vistos como tão segregacionistas quanto o próprio conceito de preconceito. A lei de 2002, que aumentava em 5% a ‘visibilidade’ dos negros nos veículos de comunicação, pretendia ser a solução para a ineficiência do modelo de 20% até então em vigor na época.

Entretanto, não eram raras as vezes em que, questionados, diretores, produtores e autores atribuíam o não-cumprimento das cotas à falta de bons profissionais na área. A lei de 2002 previa até punição para os veículos que não a cumprissem, mas não foi capaz de indicar caminhos para que esta inserção garantisse mais do que apenas aparecer na televisão, como presença obrigatória. A lei não era capaz de estabelecer uma inserção de qualidade, que colocasse os negros como parte efetiva da produção nacional.

Contudo, no mesmo ano, a teoria da falta de bons atores e atrizes negros começou a cair por terra com o lançamento dos premiados Cidade de Deus e Madame Satã (ambos de 2002), que revelaram ao Brasil uma geração de grandes atores negros. Mas, tanto na televisão quanto na publicidade, naquele momento, a visibilidade dos negros ficava restrita a personagens secundários e produções de época. O aumento do percentual das cotas, tão festejado, era marcado por uma presença figurante incapaz de consolidar a participação de profissionais negros na produção televisiva e publicitária nacional. Incapaz também de gerar questionamentos e de ir além do fato de estarem simplesmente aparecendo na televisão. O que ia de encontro à geração de atores que estavam surgindo no cinema naquele momento.

O incômodo

Lembro-me de sair da sala de cinema ao ver Cidade de Deus pela segunda vez e pensar em como a televisão conseguiria absorver aqueles jovens atores que estreavam no filme. Víamos ali, em Cidade Deus e Madame Satã, despontar uma geração que ia muito alám da beleza máxima que imperou ao longo dos anos 90. Nessa década, foi a hora de experimentarmos versão requentada do ‘black is beautiful’, movimento racial que sacudiu os Estados Unidos no fim dos anos 60 e que procurava aumentar a auto-estima da população negra do país, que já desfrutava, mesmo em clima de segregação muito forte, de muitas conquistas em termos de igualdade social. Não é muito lembrar que igualdade racial, nos Estados Unidos, passava muito mais pela conquista de direitos dos cidadãos afro-americanos do que a busca de igualdade com os brancos.

Pelo contrario: não são raros os exemplos vindos dos próprios negros americanos com seus produtos específicos, bairros de maioria negra e toda uma forma de se organizar – o conceito de segregação só é intransigente quanto afeta questão relativas à cidadania. Fica forte a sensação de que aos negros americanos com direito à cidadania plena está reservado também o direito de se ‘auto-segregarem’ sem a pecha de racismo. A questão racial – e as questões pertinentes à igualdade racial – ainda é muito forte e mal resolvida nos Estados Unidos, que é o principal exemplo para quem se dispõe a refletir sobre igualdade racial no Brasil.

Contudo, acreditar que o melhor exemplo a ser seguindo seja exatamente o do país cujo modelo de igualdade racial é baseado em segregacionismo conveniente pode fazer com que as mudanças neste campo, no Brasil, levem tempo demais. Lá, nos Estados Unidos, depois de muitas lutas, muitos direitos foram assegurados. Aqui a coisa vem vindo com as leis, que, acima de qualquer coisa, contribuem para o debate, mas que também geram um clima de incômodo numa parte grande da população, que não acredita ser esta a melhor maneira de se atingir a tão desejada igualdade racial no Brasil.

O mérito

Mesmo sendo um modelo a ser seguindo por alguns, as raças nos Estados Unidos continuam sem se misturar. Aqui a situação é inversa, mas não da maneira como gostariam alguns que sonham com famílias negras na classe média, com produtos específicos, televisão segmentada e casamentos sem ‘mistura’. No Brasil a igualdade racial já está de certa maneira sendo feita. O que nos falta são todas as questões relativas a respeito aos direitos, mas até neste quesito já estamos, sim, sendo tratados da mesma maneira: somos todos desrespeitados quando não temos escolas para todas as nossas crianças, quando não asseguramos saúde a toda a população.

Mas os negros continuam impedidos de entrar em certos lugares, como aconteceu na década de setenta com a jornalista Gloria Maria, ao ser impedida de entrar no Hotel Glória (Rio de Janeiro). Deste episodio surgiu o primeiro grande ícone negro brasileiro da televisão brasileira, uma das principais jornalistas da maior emissora de televisão do país. Gloria Maria não se tornou a personalidade que é hoje porque foi vitima de preconceito, mas soube, sobretudo, tirar proveito e mostrar do que era capaz quando as atenções se voltaram para ela naquele momento. Capacidade e talento eram exatamente o que não pôde ser assegurado pelas cotas, que garantem maior visibilidade de atores e atrizes negros na produção nacional. E, durante um bom tempo, o que víamos era o requentado ‘black is beautiful’ em novelas e comerciais. A cada dia, negros e negras belíssimos apareciam e sumiam sem que consolidassem de fato a participação de negros neste mercado.

O grande mérito da sociedade afro-americana, fazendo coro com aqueles que gostam de tê-la como exemplo, foi saber antes de qualquer coisa que uma vida melhor e independente para os negros só seria possível com educação. Ter acesso à educação significava ter médicos, advogados, professores, jornalistas, políticos negros. A educação era o que lhes proporcionaria ester inseridos na racista sociedade americana como cidadãos, tornando-se protagonistas sociais, o que lhes possibilita ter em quem se espelhar, ter sobre o que falar, sobre o que escrever, sobre o que cantar ou contar. Muitos destes protagonistas tiveram suas vidas contadas e suas historias iam se tornando exemplo e dramaturgia, que geravam papeis para atores e atrizes negros.

O passo

Em 1996, a novela Xica da Silva (TV Manchete, 1996) trazia a primeira protagonista negra da teledramaturgia brasileira e também marcava a estréia da atriz Tais Araújo. Apesar do grande sucesso na novela na ocasião, tanto a atriz, quanto a Globo optaram por esquecer tal fato quando Taís voltou a fazer historia protagonizando a polemica e bem-sucedida Da cor do pecado (Globo, 2004). Mais do que o primeiro par romântico inter-racial da televisão brasileira, a novela refletiu a mudança que a sociedade brasileira havia experimentado ao longo de quase 20 anos, quando houve a primeira tentativa de um romance inter-racial.

Na novela Corpo a corpo (Globo, 1985), os personagens de Zezé Motta e Marcos Paulo foram não apenas rejeitados pela família do personagem branco, mas por uma parcela grande de telespectadores, para a qual a personagem de Zezé não servia para o de Marcos Paulo. Ao contrário da inserção dos personagens homossexuais. Mesmo que o primeiro beijo homossexual ainda na tenha acontecido, em menos de uma década houve uma sucessão de casais homossexuais, e o publico aprendeu a tolerar. Num contexto inter-racial, uma atriz negra bonita até pode beijar um galã de novelas – mas ainda no clima de ‘black is beautiful’.

Precisávamos dar o próximo passo. Já estávamos (e estamos) conscientes de que negros são bonitos, faltava provar a competência. E é neste cenário que chegou Lázaro Ramos e acabou levando a novela da sete da Globo. Cobras & lagartos, do autor João Emanuel Carneiro, cuja estréia na televisão foi com a bem-sucedida Da cor do pecado. Mais uma vez o autor se propunha a trazer negros em personagens de destaque, mas nem o próprio autor poderia imaginar a força do talento do ator baiano, que não se abalou em receber um personagem quase secundário e com menos de um mês de novela forçou roteiro e elenco a irem atrás de seu impagável Foquinho!

A confiança

Atores e atrizes negros talentosos já estão por todos os lados, em todas as emissoras, mas com a força que a atuação de Lázaro impôs a produção global foi a primeira vez. Ate então, os atores negros estavam de certa maneira confortáveis em sua situação de presença figurante obrigatória. A maior contribuição de Cobras & lagartos é uma reflexão dos caminhos as serem seguidos a partir de agora. Um impasse para autores, produtores e diretores de televisão, trouxe também um grande problema para os patrulheiros dos movimentos negros, que se habituaram a dificultar a vida das emissoras no que diz respeito à já complicada tarefa de inserir nas telas uma camada da sociedade que nunca foi realmente retratada.

A ficção só fará algum sentido se puder andar alinhada com a realidade. Os movimentos negros brasileiros terão de entender que um grande personagem pode não ser o mocinho, que um bom vilão pode entrar para a historia. Este entendimento terá de ultrapassar a grande preocupação da chamada patrulha dos ativistas da igualdade racial com a imagem do negro na televisão – algo que nunca consegui entender bem, uma vez que não sabemos de verdade qual o real papel dos negros em nossa sociedade e o modelo americano que tais movimentos querem adotar está muito longe do que vemos nas ruas, nas escolas, nas universidades, enfim, na sociedade brasileira.

Vamos ter de aprender juntos a ver o preconceito de outra maneira, mas que seja com grandes atuações. Este aprendizado terá de superar outros obstáculos: permitir-se saber que ninguém é bom só porque foi vitima de preconceito ou que alguém seja terrível porque tem preconceito – todos temos os nossos. A leis e o bom senso já estão mais que inseridos em nosso inconsciente coletivo. Emissora de televisão nenhuma, no Brasil atual, se arriscaria tanto. Temos de aprender a dar este voto de confiança. Sobretudo porque vai caber à dramaturgia, como uma das melhores formas de propagar informações num país como o Brasil, a responsabilidade de mostrar a maneira como um negro está presente na sociedade brasileira.

O impasse

Seria muito bom se todos estivessem em suas casas de classe media dos bairros negros segregados americanos, como podemos ver nas séries e nos inúmeros filmes que o SBT (a emissora que mais exibe programas com negros protagonistas. Pioneirismo surgido depois da parceria com a Walt Disney Productions. A Disney nomeou o ator Sidney Poitier presidente em 1994. Em sua gestão houve um aumento significativo de produções protagonizadas por negros. Com a parceria no início dos anos 2000, o SBT alcançou, mesmo sem alarde, a posição de maior exibidor de programas protagonizados por negros do país.

Entretanto, apesar do pioneirismo do SBT, todas as séries e todos os filmes são importados, não retratam de fato quem são, onde e como vivem os negros brasileiros. Portanto, o aprendizado terá de ser conjunto, emissoras e sociedade, e terá de carregado de um bom grau de cumplicidade. Em vez de criticar apenas será preciso apontar caminhos. É preciso saber que atores e atrizes negros nos Brasil estão carentes de bons trabalhos, não de espaço. Aqui temos uma lei que de certa maneira castra as possibilidades dos negros como protagonistas. Não é fácil escrever para personagens quando a voz da luta pela igualdade racial no Brasil está centrada no patrulhamento da criação e do debate. Quem saberia do potencial de Lázaro Ramos se o autor da novela mudasse de rumo, temendo as criticas que foram feitas quando a novela estava começando?

Agora, depois das cotas, depois de sabermos que negros são bonitos e, sobretudo, depois de Lázaro Ramos, podemos contar com o talento. Exemplos da capacidade de atores e atrizes negros não faltam mais, eles já estão em todos os horários e em novelas de todas as emissoras. O impasse agora é saber como fazer para que sua presença seja cada dia mais sólida. Não é possível que para ver Lázaro Ramos de novo, em televisão, tenhamos de esperar pela próxima novela de João Emanuel Carneiro, como aconteceu com sua parceira de novela e vida, a atriz Taís Araújo.

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Autora do projeto para televisão ‘A contextualização do personagem negro’

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/11/2006 claudio vigas

    pois é… como dizia o Rauzito Seixas: ‘ a escuridão não existe, é apenas ausencia de luz…’

    Agora, parece-me haver um equívoco, quando o ‘monstro sist’; concede visibilidade, espaço, ou posiçao de destaque a um negro ou negra – não somene na mídia – ‘ as pessoas’ (por uma questão conjuntural/ circustancial. E, neste caso, é mais um raro exemplo…) venham a processar este ‘ fenomeno’ como o ínicio de uma nova era, onde se inicia um processo de ‘desaparecimento’ do racismo no país… bom, já vi esta ‘novela’ antes!

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