Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

E agora, mercado?

Por Maria Lucia de Paiva Jacobini em 25/11/2008 na edição 513

A crise financeira mundial nos faz pensar ainda mais sobre o papel que o termo mercado tem no jornalismo econômico. E hoje ele não está só presente no jornalismo especializado; a crise colocou essa grande personagem em todas as suas matérias e, com isso, ela passa a ser agente atuante em todas as esferas da sociedade.

O termo mercado, na economia, possui um significado muito mais amplo do que sua redução ao mercado financeiro: inclui o mecanismo de oferta e demanda, com um preço de equilíbrio e um meio de troca, o dinheiro. Na verdade, existe um mercado não só para bens e serviços, mas também para trabalho, terra e o próprio dinheiro. Ou seja, existe para todos os elementos da economia, não só o mercado de bens ou o financeiro do dinheiro, em todas suas formas.

No entanto, o termo mercado, no jornalismo econômico brasileiro, é restrito apenas ao mercado financeiro. A definição mais usada se refere apenas ao mercado de dinheiro, no qual também funciona a instituição da oferta e da demanda, mas onde não há espaço para a troca de outros elementos, com menor destaque para mercadorias, ou mesmo qualquer menção ao mercado de trabalho.

É um mercado entendido numa visão abstrata, distante e impessoal, como se não existissem indivíduos concretos atuando dentro dele. Isso porque o termo é usado como referência a uma entidade compreendida como capaz de realizar e participar de movimentos econômicos independentes. É esse, justamente, o caso das notícias do jornalismo econômico, que fogem do entendimento de mercado por meio da análise dos mecanismos de oferta, demanda e preço, ou mesmo de uma composição de diversos agentes individuais.

Má informação e banalização da notícia

Mas quem de fato é o mercado? Existe um ‘quem’ que causou a crise financeira que hoje é notícia de capa de todos os jornais? Existe, claro. O mercado é repleto de agentes individuais, totalmente tangíveis que movimentam enormes quantidades de dinheiro através de ações, câmbio, juros e títulos e atuam por meio de bancos de investimentos, corretoras, fundos de pensão e seguradoras.

Todos eles estão envolvidos na criação de movimentos de especulação, da criação das tais ‘bolhas financeiras’ e dos ativos podres. Contudo, na tentativa de simplificar todo o conteúdo econômico a termos que facilitem a leitura e evitem uma linguagem hermética e especializada, para manter o leitor acompanhando o veículo de comunicação, tudo passa a se resumido ao mercado financeiro.

De um lado, o mercado tem humores, interfere pessoalmente nos movimentos da economia, atua em todos os campos e é onipresente. De outro, tudo também interfere nesse mercado, movimentações de um canto do mundo são capazes de agir sobre as bolsas de valores do outro. Claro que o mercado financeiro tem oscilações, mas a linguagem do jornalismo econômico parece tentar absorver todas as informações e criar contínuas relações de causa e efeito, muitas vezes exageradas e sem sentido. Com isso, todos os objetivos da linguagem jornalística de busca de clareza e objetividade se perdem em textos descontextualizados e simplificados. O resultado não é a criação de um público-leitor fiel, mas a má informação e banalização da notícia do mundo econômico.

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Jornalista e economista, Campinas, SP

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