Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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A internet nos tempos do cólera

Por Marcelo Garcia em 14/02/2012 na edição 681

A internet e as redes sociais já mostraram potencial como espaço profícuo para manifestações sociais e luta política. Também têm ajudado a desvendar enigmas e acelerar o progresso da ciência por meio da construção de conhecimento colaborativo. Agora, uma pesquisa realizada no Haiti pela Universidade de Harvard sugere sua utilização, no futuro, como um importante indicador epidemiológico para o monitoramento de surtos e epidemias.

Em situações epidêmicas, a agilidade na obtenção de dados confiáveis de progressão da doença é fundamental para evitar o maior número possível de mortes. No entanto, as estatísticas oficiais costumam demorar dias para serem validadas e divulgadas. A análise do surto de cólera ocorrido no Haiti em 2010 mostrou, por outro lado, que as informações disponibilizadas na internet por fontes não oficiais poderiam ajudar no mapeamento epidemiológico da doença, com precisão e de forma mais rápida que os dados oficiais.

100 dias de cólera

Em 2010,o Haiti passou por maus bocados. Já contando com uma estrutura deficiente de saúde e de tratamento de água e esgotos, o país sofreu com o pior terremoto de sua história. Meses depois, foi atingido pelo furacão Thomas, que agravou a situação do cólera na região, impulsionando uma epidemia com quase 400 mil casos e milhares de mortes.

A pesquisa analisou os 100 primeiros dias do surto, de 20 de outubro de 2010 a 28 de janeiro de 2011, período que englobou a passagem do furacão pela região, em novembro. Foram avaliadas as correlações entre as menções ao cólera registradas no Twitter e na ferramenta HealthMap(“mapa da saúde”, em tradução livre), em comparação com os dados oficiais do governo haitiano.

O HealthMap é uma plataforma que agrega informações públicas de fontes como blogues e sites de notícias locais e internacionais, além de informações postadas diretamente pelos usuários. A plataforma também agrega dados do aplicativo para telefones celulares Outbreaks Near Me(algo como “surtos próximos a mim”), por meio do qual é possível relatar a localização de casos de doenças nas proximidades.

Os resultados mostraram que os registros da doença nas fontes informais mantiveram uma boa relação com as estatísticas oficiais, apesar de apresentarem, em geral, um dia de atraso. “No entanto, devido à necessidade de validação, os dados oficiais só são disponibilizados publicamente cerca de duas semanas depois, enquanto o acesso aos dados das fontes informais se dá quase em tempo real”, destaca a engenheira biomédica Rumi Chunara, coordenadora do estudo.

Baseados no HealthMap, os pesquisadores criaram um mapa atualizado em tempo realdo país, inserindo também informações relevantes como a localização de hospitais, centros de tratamento do cólera e novas instalações de água limpa. No Twitter, foram selecionadas todas as menções públicas que contivessem a palavra cholera (cólera).

Informalidade contra epidemia

No período estudado, as fontes oficiais indicaram três grandes picos de registro de casos da doença: um no início, outro em novembro – próximo à passagem do furacão – e o último em dezembro. A comparação com os registros informais ajuda a entender melhor a epidemia e o comportamento da mídia em cada momento.

Na primeira fase, os registros informais superam os oficiais, indicando uma amplificação da situação pela mídia, enquanto o segundo período mostra taxas muito similares entre os dois. “Há uma certa perda de interesse, por não se tratar de uma nova epidemia, mas de uma continuação da mesma”, avalia a pesquisadora. “Já o terceiro pico quase não foi refletido nas fontes informais, o que pode ser explicado não só pela dinâmica local da doença, mas também como nova evidência desse desinteresse após os estágios iniciais.”

A engenheira biomédica destaca outros fatores que devem ser considerados nessa análise: a maior atenção da mídia aos grandes centros urbanos, as limitações de infraestrutura apresentadas por regiões pós-desastre – que dificultam o acesso à internet – e o predomínio de certos grupos sociais como responsáveis pelas informações disponibilizadas. “Toda informação transmitida pode ser útil e a popularização da tecnologia deve diminuir as limitações demográficas e geográficas dos dados”, acredita.

Para Chunara, os dados mostram que as fontes não oficiais poderiam ser utilizadas para a obtenção de estimativas preliminares da dinâmica da doença, ajudando a orientar as ações de controle em uma epidemia. “A demora natural na liberação das informações oficiais pode prejudicar a avaliação epidemiológica”, argumenta. “Os indicadores informais, por terem se mostrado razoavelmente precisos, podem dar uma ideia da disseminação da doença e das medidas de controle necessárias.”

Os próximos passos da pesquisa, segundo a engenheira biomédica, são investigar, usando a mesma metodologia, se as redes sociais também podem ser usadas como fontes confiáveis para estimar o número de mortes decorrentes de epidemias e ainda testar sua aplicação em outras situações e doenças.

***

[Marcelo Garcia, do Ciência Hoje On-Line

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