Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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CADERNO DA CIDADANIA >

Cientistas boicotam a maior editora de periódicos do mundo

Por Sabine Righetti em 14/02/2012 na edição 681

Cientistas de todo o mundo estão participando de um boicote coletivo à Elsevier, a maior editora de periódicos científicos. A tacada veio de um dos matemáticos mais conceituados de hoje. Timothy Gowers, da Universidade de Cambridge, sugeriu o boicote em seu blog, em janeiro. Do outro lado do oceano, o também matemático Tyler Nylon, que fez doutorado na Universidade de Nova York e hoje trabalha em uma empresa que ele mesmo fundou, organizou um abaixo-assinado online contra a Elsevier (thecostofknowledge.com). O documento já conta com quase 5.000 assinaturas de cientistas que, por meio desse documento, se comprometem a parar de submeter seus trabalhos às cerca de 2.000 publicações científicas da Elsevier, que edita títulos como Lancet e Cell.

O motivo da revolta tem a ver com dinheiro. A Elsevier, assim como a maioria das editoras científicas comerciais, cobra caro para publicar um artigo aceito (após a chamada “revisão por pares”) e também cobra pelo acesso ao conteúdo dos periódicos. Trocando em miúdos: os pesquisadores pagam para publicar e para ler as revistas científicas com seus artigos.

Na ponta do lápis, a matemática sai cara. O governo brasileiro, por exemplo, gastou R$ 133 milhões em 2011 para que 326 instituições de pesquisa do país tivessem acesso a mais de 31 mil periódicos científicos comerciais. Os dados são da Capes (Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que faz parte do Ministério da Educação. “Parece que o movimento do livre acesso ao conhecimento científico deu um passo importante com esse movimento internacional”, afirma Rogério Meneghini. Ele é coordenador do Scielo, uma base que reúne 230 periódicos científicos brasileiros com acesso aberto.

Ciência fechada

“Gowers tem uma medalha Fields, o que equivale a um ‘Nobel’ na matemática. Isso dá credibilidade”, afirma Meneghini.

Um dos fatores que impulsionaram o crescimento do movimento contra a Elsevier é o apoio que a empresa tem dado ao "Research Works Act", um projeto de lei que tramita no Congresso dos EUA desde dezembro de 2011. A iniciativa busca impedir que instituições de pesquisa divulguem gratuitamente os trabalhos de seus cientistas.

Se entrar em vigor, vai afetar os NIH (Institutos Nacionais de Saúde), que têm a política de abrir o acesso aos estudos de seus cientistas. O proponente original do projeto de lei é o deputado republicano Darrell Issa, que que tem como copatrocinadora a democrata Carolyn Maloney. A Elsevier contribui para a campanha de ambos. Maloney recebeu US$ 15.750 declarados entre 2009 e 2011, e Issa, US$ 2.000.

Segundo a ONG Maplight, a Elsevier desembolsou US$ 160 mil em campanhas eleitorais no período (colaborou Rafael Garcia).

***

Para Elsevier, acesso livre mina revisão de artigos

Ao manifestar apoio público ao projeto de lei Research Works Act, a Elsevier disse que não é contra a disseminação gratuita de trabalhos científicos, mas que políticas como a dos NIH podem “minar a sustentabilidade do sistema de publicações com revisão por pares”. “Nós nos opomos, por princípio, à noção de que governos possam ditar os termos pelos quais produtos de investimento do setor privado são distribuídos”, afirmou a Elsevier, em nota.

Pesquisadores criticam, porém, os critérios que a lei proposta tem para identificar o que são “produtos do setor privado”. Um dos críticos mais ativos da proposta é Michael Eisen, biólogo que ajudou a fundar a PLoS (Public Library of Science), uma das maiores editoras de periódicos de acesso aberto do mundo. “Eles [Issa e Maloney] estão usando uma linguagem deturpada para distinguir trabalhos financiados pelo governo, mas realizados por uma agência não governamental, como ‘pesquisa do setor privado’”, disse Eisen. “Assim, sob essa lei, trabalhos bancados pelos NIH, mas conduzidos em uma universidade, seriam considerados privados.”

A Folha tentou contato com a representação da Elsevier no Brasil, mas não teve resposta até a conclusão desta edição (SR e RG).

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