Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CADERNO DA CIDADANIA > IMPRENSA FRANCESA

Relações perigosas dos políticos com as jornalistas

Por Leneide Duarte-Plon em 03/04/2012 na edição 688

Provavelmente poucas pessoas conhecem no Brasil as jornalistas francesas Valérie Trierweiler, Audrey Pulvar, Béatrice Schönberg, Christine Ockrent e Anne Sinclair. Em comum, além serem jornalistas da área de política, elas têm maridos ou companheiros políticos (os franceses somente chamam de maridos quem é casado oficialmente, como Anne Sinclair e Dominique Strauss-Kahn). A primeira da lista pode até se transformar em primeira dama francesa, se as atuais pesquisas de opinião se confirmarem no segundo turno da eleição e seu “compagnon” François Hollande for eleito presidente.

Audrey Pulvar se tornou alvo de críticas e assunto de reportagens em jornais sérios como Libération e Le Monde, em outubro do ano passado, quando apareceu em público comemorando ao lado de seu companheiro, o socialista Arnaud Montebourg, a terceira posição dele nas primárias do Partido Socialista – o que lhe deu força de “ministeriável”, ao declarar apoio a François Hollande, ganhador das primárias. Pelo fato de ter um programa de entrevistas políticas na rádio pública France Inter e outro no canal privado I-Télé, Audrey se viu forçada a trocar a cobertura política por assuntos mais amenos como cultura ou temas sociais.

Foto de capa

Uma jornalista pode ser imparcial e ter credibilidade quando vive com um político? “Uma mulher tem o direito de não pensar por e como seu companheiro”, responde Pulvar sobre o fato de ter que se afastar de sua área para manter-se ativa durante a campanha eleitoral. Montebourg fora um dos primeiros a criticar a conivência entre políticos e jornalistas diante de outra história semelhante à sua.

Na França, não se admite que uma jornalista tão claramente envolvida com um homem político apresente um programa político sem que sua credibilidade e imparcialidade sejam postas em dúvida. Antes de Pulvar, Béatrice Schönberg, que apresentava o jornal das 20h de France 2, um dos canais públicos, já tivera que se afastar do telejornal ao se casar com o então ministro de Nicolas Sarkozy, Jean-Louis Borloo. Schönberg passou a apresentar um programa mensal e praticamente não se ouviu mais falar dela.

Quanto à provável futura dama, ela entrevistou muitos políticos antes de se apaixonar por François Hollande, com quem vive desde 2007. Conheceram-se numa entrevista para a revista Paris Match, para a qual Valérie Trierweiler cobria política desde 1989. Na época da entrevista, o atual candidato ainda vivia com Ségolène Royal, com quem tem quatro filhos e de quem se separou para assumir a relação com a jornalista. Foi Valérie Trierweiler quem assinou, há mais de 20 anos, uma matéria muito criticada em que a então ministra do Meio Ambiente, Ségolène Royal, posava com seu bebê recém-nascido. Royal foi acusada de expor sua filha para fins políticos.

Na França, misturar vida pública com a vida privada é pecado capital. Tanto que até hoje ninguém viu nenhuma foto de Giulia, filha de Sarkozy e Carla Bruni. Uma sessão de poses ou a exibição da menina poderiam comprometer a reeleição de Sarkozy, criticadíssimo por seu exibicionismo do início do mandato. O cargo de presidente exige uma vida privada discreta e totalmente longe das câmeras, ao contrário do mundo anglo-saxão. Ao ser pai durante o mandato, o premiê britâncio David Cameron não hesitou um minuto sequer em sair da maternidade com a mulher e a filha e posar desinibido para toda a imprensa mundial.

Valérie Trierweiler ouviu em off muitos segredos dos mandachuvas do Partido Socialista, que hoje fazem campanha para seu companheiro e potencial presidente. Mas também sabe muitos segredos de políticos da direita. Por isso, sua vida na Paris Match mudou, ela foi imediatamente afastada da editoria de política e não participa mais do fechamento nem das reuniões de pauta. E foi surpreendida com uma foto sua numa capa recente da revista, o que não lhe agradou nem um pouco.

Outros tempos

Nesse novo papel de personagem do mundo político, Valérie Trierweiler ainda é uma debutante. Liberada da obrigação de cobrir política para a revista, ela participa ativamente da campanha do companheiro e tem sido comparada a Cecilia Sarkozy, que participou da vitória de seu marido em 2007. Há quem atribua a Cecilia um importante papel na formação do ministério, além da catastrófica ideia de comemorar a vitória no caríssimo restaurante Fouquet’s, quando Sarkozy reuniu as maiores fortunas da França. Começava ali sua fama, confirmada com outros episódios semelhantes, de “presidente dos ricos”. O apelido de “presidente bling bling” veio desse gosto de Sarkozy pelo mundo do dinheiro e por suas amizades com os maiores industriais franceses, como Arnaud Lagardère, Serge Dassault, Bernard Arnault, Martin Bouygues, entre muitos outros.

Esse controle e a potencial denúncia de promiscuidade do mundo da política com o jornalismo não foram sempre tão rigorosos. Nos tempos de François Mitterrand, o presidente chegou a dar uma entrevista para a televisão e ser entrevistado por duas estrelas do jornalismo político da época: Christine Ockrent e Anne Sinclair. Não chocava tanto o fato de ambas serem casadas com ministros do presidente.Ockrent era companheira do ministro Bernard Kouchner e Sinclair era a mulher de Dominique Strauss-Kahn.

Os tempos mudaram. E um pouco mais de controle para evitar a conivência (e muitas vezes cumplicidade) entre política e jornalismo é o que querem todos os que defendem a credibilidade do jornalismo.

***

[Leneide Duarte-Plon é jornalista, em Paris]

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