Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > LEITURAS DO GLOBO

Não há fórmulas para a boa educação

Por Rodrigo Travitzki em 17/07/2012 na edição 703

O editorial do Globo de 12/7, intitulado “A nada secreta fórmula da boa Educação”, apresenta algumas ideias interessantes, uma das quais ouvi de meus alunos como a “teoria do queijo suíço”. Eles se referiam à utilização do “modelo capitalista” para resolver questões ecológicas e sociais e a conclusão era bem simples: “quanto mais queijo, mais buraco”. Nesse sentido, concordo que não adianta (ou pouco adianta) aumentar os recursos públicos destinados à educação sem melhorar a forma de utilizá-los. Também é válida a ideia de que não existe um determinismo econômico na educação, ou seja, a equação “mais dinheiro = mais qualidade” não vale em todos os casos, e já não vale tanto como antes, segundo relatório do Pisa 2009. Além disso, dizer que o envolvimento da comunidade é importante, talvez o fator mais importante para o sucesso da escola, tudo bem, parece ótimo. Tudo isso me parece estar no caminho certo.

Contudo, dizer que não precisamos aumentar os recursos na educação brasileira porque a Turquia está melhor do que nós, ou porque 85 escolas conseguem, com o perdão da palavra, “fazer milagre”, ou porque a Finlândia é “melhor” que os EUA com menos recursos… isso não pode ser sério!

Não sei muito sobre educação da Turquia, mas comparar EUA com Finlândia é incabível, não só pelas proporções, como pela cultura, pelo clima, pelas taxas de migração, entre outros. Em termos de educação, a Finlândia é incomparável, tem longa tradição nisso, enraizada em diversos aspectos da cultura. Mas cultura não se mede, então é fácil ignorá-la em estudos quantitativos. A Coreia do Sul, por sua vez, de fato foi um país que surpreendeu no Pisa 2009, segundo o próprio relatório oficial. Talvez possamos aprender algo com ela, mas não sei se a conclusão seria “o importante é o envolvimento da comunidade”.

Um indicador não é uma régua

Agora, se o Globo conseguiu encontrar 85 escolas de excelência com pouco dinheiro, parabéns aos repórteres, parabéns aos alunos, professores, aos pais, prefeitos, ou quem quer que sejam os responsáveis por isso. Mas vamos com calma com os números. Segundo o censo de 2009, há 255.445 escolas no Brasil. O que significa, em termos de estratégia política, 85 escolas? Podem ser um exemplo do que fazer? Podem. Podem ser um desvio numericamente insignificante na tendência geral? Também podem.

É bom lembrar que escolher exemplos “a dedo” é uma antiga técnica de retórica. Você pode provar praticamente qualquer coisa com os exemplos certos. Se alguém quiser ver mais números sobre o custo aluno no Brasil e no mundo, segundo estudo da OECD, pode ver neste link.

O Brasil está em último lugar entre esses países. Infelizmente, a Turquia não está lá para podermos comparar, mas enfim, o gráfico tem vários países, é muito mais informativo do que um exemplo pinçado a dedo.

Outra coisa, alguém acredita que de fato a qualidade de uma escola muda de 2,7 para 8,7 em quatro anos? Me desculpem, mas isso vai contra o que considero razoável em minha experiência como professor. Talvez os arautos da objetividade econométrica achem isso normal porque números são sempre objetivos, mas um indicador não é uma régua. É preciso tomar cuidado com este tipo de medida.

O exemplo da escola da Ponte

Bom, é isso. Não cheguei a ler a “série de reportagens”, mas sinceramente espero que ela esteja melhor do que o editorial, o alvo desta minha crítica. Só quem tem dinheiro acha que dinheiro não é importante. Só quem teve boas escolas acha que educar é fácil e existe uma fórmula para isso que todos conhecem. Me desculpem, uma vez mais, mas o problema da qualidade na educação não é simples, não é técnico, não é só uma questão de “envolver a comunidade”. Há uma maquiavélica mensagem subliminar nessa ideia (não necessariamente intencional, mas está lá), que é a de responsabilizar as comunidades locais por coisas sobre as quais elas sequer têm poder.

De que adianta envolver os pais no conselho, se o orçamento é decidido nas esferas superiores? A escola tem autonomia sobre si mesma? Que poder tem a comunidade sobre a escola? Ou vai me dizer que o papel de um pai numa comunidade pobre é ficar cobrando que seu filho tenha bons resultados segundo critérios que ele mesmo muitas vezes não compreende ou não concorda? Porque se “envolver a comunidade” for baixar o custo da fiscalização da escola, aí a conversa é outra.

Em muitas experiências bem sucedidas relacionadas ao envolvimento da comunidade, este não aconteceu porque o Estado promoveu “estratégias comunitárias”. Pelo contrário, foi contra as regras do Estado que estas comunidades conseguiram fazer boas escolas para seus filhos. A escola da Ponte, por exemplo, ficou anos contando com o segredo dos pais, que não podiam revelar às autoridades portuguesas que seus filhos estavam numa escola sem séries.

Informações supostamente objetivas

O último relatório do Pisa (que se dirige aos países desenvolvidos, é bom lembrar) diz que o dinheiro já não é tão determinante como antes (mas nem por isso deixou de ser) e que as experiências de sucesso em geral mesclam indicadores externos de qualidade com autonomia escolar.

O problema da qualidade na educação não é simples, não há uma fórmula para ele, secreta ou conhecida. É um problema político, econômico, global e também é técnico, pedagógico, mas sua solução é de longe muito mais complicada do que aparenta ser segundo esse infeliz editorial do Globo, que faz o desserviço de mobilizar informações supostamente objetivas contra uma bandeira importante, que é o aumento do investimento na educação no Brasil.

***

[Rodrigo Travitzki é professor do Ensino Médio, faz doutorado na Faculdade de Educação da USP e atualmente pesquisa qualidade escolar na Universidade de Barcelona]

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