Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > CASO JULIAN ASSANGE

Julian Assange na sacada

Por Mario Vargas Llosa em 28/08/2012 na edição 709
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 26/8/2012, tradução de Celso Paciornik; intertítulos do OI

No cubículo da Embaixada do Equador em Londres, onde está refugiado, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, terá agora tempo de sobra para refletir sobre a extraordinária história de sua vida, que começou como obscuro ladrãozinho da intimidade alheia (é o que faz um hacker, embora o anglicismo procure inocular dignidade a esse ignóbil ofício) no país dos cangurus e terminou se convertendo num ícone contemporâneo, tão famoso quanto os jogadores de futebol ou roqueiros mais da moda – para muitos, um herói da liberdade de expressão –, no centro de um conflito diplomático.

Existe tamanho cipoal de confusões e mentiras a respeito do personagem criado por ele mesmo e por seus partidários e impulsionado pelo jornalismo ávido de escândalos, que há milhões de pessoas no mundo convencidas de que o desgracioso australiano de cabelos brancos amarelados, que apareceu alguns dias atrás em uma sacada da embaixada equatoriana do bairro preferido pelos xeques árabes em Londres, Knightsbridge, para dar lições sobre liberdade de expressão ao presidente Barack Obama, é um perseguido político dos EUA. Ele teria sido salvo in extremis nada menos que pelo presidente Rafael Correa, do Equador – isto é, o governo que, depois de Cuba e Venezuela, perpetrou os piores atropelos contra a imprensa na América Latina, fechando emissoras, jornais, arrastando a tribunais servis jornalistas e diários que se atreveram a denunciar os tráficos e a corrupção de seu regime, e apresentando um lei da mordaça que praticamente selaria o desaparecimento do jornalismo independente no país. Nesse caso, sim, vale o velho refrão: “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. Porque o presidente Correa e Assange são farinha do mesmo saco.

Na verdade, o fundador do WikiLeaks hoje não é objeto nem sequer de uma investigação judicial nos EUA, nem Washington fez algum pedido reclamando-o a ninguém para enfrentá-lo num tribunal. O suposto risco de que, se for entregue à Justiça sueca, o governo da Suécia possa enviá-lo aos EUA é, por enquanto, uma presunção desprovida de todo fundamento e não tem outro objetivo, senão cercar o personagem de uma aura de mártir da liberdade que ele certamente não merece.

A Justiça sueca não o reclama por suas façanhas – melhor dizendo, inconfidências – informáticas, mas por acusações de violação e assédio sexual. Assim entendeu a Corte Suprema da Grã-Bretanha e, por isso, decidiu extraditá-lo à Suécia, cujo sistema judiciário, ademais, é, como o britânico, um dos mais independentes e confiáveis do mundo. De maneira que o senhor Assange não é, na verdade, uma vítima da liberdade de expressão, mas um fugitivo que utiliza esse pretexto para não ter de responder às acusações que pesam sobre ele como suposto delinquente sexual.

A popularidade de que goza se deve às centenas de milhares de documentos privados e confidenciais de diversas repartições do governo dos EUA – começando pela diplomacia e terminando pelas Forças Armadas – obtidos por roubo e pirataria, que o WikiLeaks difundiu, apresentando-os como uma proeza da liberdade de expressão que trazia à luz intrigas, conspirações e condutas incompatíveis com a legalidade. Foi realmente assim?

Frivolidade e o esnobismo

As delações do WikiLeaks contribuíram para arejar certas profundezas delinquentes e criminosas da vida pública americana? Assim afirmam os que odeiam os EUA, “o inimigo da humanidade”, e não se conformam de que a democracia liberal, da qual esse país é o principal guardião, tenha vencido a Guerra Fria e não tenham triunfado o comunismo soviético ou maoista. Mas creio que uma avaliação serena e objetiva da informação oceânica que o WikiLeaks difundiu, mostrou, afora uma bisbilhotice miúda, burocrática e pouco substancial, abundante material que justificadamente deve ser mantido dentro de uma reserva confidencial.

Jamais saberemos a maneira como as revelações do WikiLeaks serviram para que se desfizessem as redes de informação laboriosa e arriscadamente montadas pelos países democráticos nas satrapias que amparam o terrorismo internacional da Al-Qaeda e congêneres. Nem quantos agentes e informantes dos serviços de inteligência do Ocidente foram detectados e possivelmente eliminados por efeito dessas publicações. Mas não resta dúvida de que essa foi uma das sinistras consequências do vazamento informativo.

Não é curioso que o WikiLeaks tivesse privilegiado de tal modo revelar os documentos confidenciais dos países livres, onde existem a liberdade de imprensa e uma legalidade digna desse nome, em vez de fazê-lo das ditaduras e governos despóticos que ainda proliferam pelo mundo? É mais fácil ganhar credenciais de combatente pela liberdade exercitando a inconfidência, o contrabando e a pirataria em sociedades abertas, ao amparo de uma legalidade sempre reticente em sancionar os delitos de imprensa para não dar a sensação de restringir ou pôr obstáculo a essa liberdade de crítica que é, de fato, o sustentáculo essencial da democracia, do que infiltrando-se nos segredos dos governos totalitários.

Os partidários do WikiLeaks deveriam se lembrar de que a outra face da liberdade é a legalidade. Sem esta, aquela desaparece pura e simplesmente. A liberdade não é nem pode ser a anarquia e o direito à informação não pode significar que num país desapareçam o privado e a confidencialidade. Isso significaria a paralisia ou a anarquia e nenhum governo poderia, em semelhante contexto, cumprir com seus deveres nem sobreviver.

A liberdade de expressão se complementa, numa sociedade livre, com os tribunais, os Parlamentos, os partidos de oposição e esses são os canais adequados aos quais se podem recorrer se houver indícios de que um governo oculta ou dissimula criminosamente suas iniciativas. Mas atribuir a si esse direito e proceder manu militari para dinamitar a legalidade em nome da liberdade é desnaturar esse conceito e degradá-lo de maneira irresponsável, convertendo-o em libertinagem.

Foi o que fez o WikiLeaks e, pior, eu creio, não em razão de certos princípios ou convicções ideológicas, mas empurrado pela frivolidade e o esnobismo, vetores dominantes da civilização do espetáculo em que vivemos.

Sem saída

O senhor Assange não praticou na instituição que fundou a transparência e lisura totais que exige das sociedades abertas contra as quais se encarniçou. As defecções que o WikiLeaks sofreu se devem, fundamentalmente, a sua resistência em prestar contas a seus colaboradores dos vários milhões de dólares que recebeu, segundo artigo assinado por John F. Burns, no International Herald Tribune de 18/19 de agosto. É um bom indício de como as coisas podem ser complicadas e sutis quando são observadas de perto e não a partir de lugares comuns, estereótipos e clichês.

Nas atuais circunstâncias, não há razão alguma para considerar Julian Assange um cruzado da liberdade de expressão, mas antes um oportunista vivaldino que, graças a seu faro, sentido de oportunidade e habilidades informáticas, montou uma operação escandalosa que lhe deu fama internacional e a falsa sensação de que era todo-poderoso, invulnerável e podia permitir-se todos os excessos. Ele se equivocou e agora é vítima desses últimos. A verdade é que sua peripécia parece ter entrado num beco sem saída e não é impossível que, tão logo amaine a ventania que fez dele uma pessoa famosa, ele seja lembrado, sobretudo, pela involuntária ajuda que prestou, acreditando agir em favor da liberdade, a seus mais encarniçados inimigos.

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