Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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CADERNO DA CIDADANIA > ELEIÇÕES MUNICIPAIS

Mais um comunicador quebra polarização

Por Guilherme Soares Dias em 02/10/2012 na edição 714
Reproduzido do Valor Econômico, 28/9/2012

Sem apoio das lideranças locais, o deputado estadual Alcides Bernal (PP) lançou candidatura para prefeito de Campo Grande com chapa pura, ancorada em sua popularidade conquistada no rádio e na TV e hoje é o líder das pesquisas. Um vídeo no YouTube, que mostra o candidato como incentivador da prática de aborto, além de relação com embriaguez e agressão ao filho, fez com o que o presidente do Google no Brasil, Fábio Coelho, fosse detido na quarta-feira (26/9).

Para Bernal, as denúncias contra a sua candidatura mostram o baixo nível da campanha. “Há distribuição de material apócrifo e houve cooptação dos dois principais jornais para fazer manchetes contrárias à minha campanha, sem dar espaço para as minhas propostas”, acusa. Radialista há mais de 20 anos e apresentador do programa Balanço Geral, na TV MS Record, Bernal confirma a semelhança da sua candidatura com a de Celso Russomanno (PRB) em São Paulo. “Tem tudo a ver pela história. Celso é meu amigo. Ele era do PP. Nós dois somos radialistas que entramos na política por uma questão de justiça. Torço para que vença”, afirma.

O candidato diz que sua candidatura conta com apoio “de Deus e do povo”. O candidato a vice na chapa de Bernal é o ex-vereador Gilmar Olarte (PP), que é evangélico. “O povo está cansado desse modelo que está no poder há 20 anos”, aponta Bernal. O radialista lidera o bloco de candidatos da oposição que pretende tirar o PMDB da administração da capital do Mato Grosso do Sul após 23 anos. Junto com Bernal, os deputados federais Reinaldo Azambuja (PSDB) e Vander Loubet (PT), prometem aliança no 2º turno para derrotar o PMDB, de Edson Giroto.

Governador age de forma “truculenta”

Desde 1996 quando um pouco conhecido André Puccinelli (PMDB) venceu o sindicalista e deputado estadual Zeca do PT por 411 votos no segundo turno na eleição para prefeito de Campo Grande, as disputas na cidade contam com a participação ativa desses dois nomes e são liquidadas no primeiro turno. Ainda neste ano, a presença de Puccinelli e Zeca na campanha é maciça. O candidato do PMDB à prefeitura, Edson Giroto, foi secretário de Obras nas administrações de Puccinelli na prefeitura e no governo do estado. Concorreu ao primeiro cargo eletivo em 2010 e, com o apoio do governador, foi eleito o deputado federal mais votado do Mato Grosso do Sul naquele ano. Já o candidato do PT, Vander Loubet, é sobrinho de Zeca do PT, deputado federal e disputa sua segunda eleição para prefeito, após ter perdido em 2004 para Nelson Trad Filho (PMDB), atual prefeito e sucessor político de Puccinelli.

Mesmo com 61% de avaliação positiva, a maior entre os prefeitos, a administração de Trad Filho é alvo de críticas em bloco dos candidatos da oposição. Entre os temas utilizados na campanha da oposição está o foco nas pessoas, após administrações marcadas por obras de construção de avenidas e asfalto. Bernal, Vander e Azambuja batem em pontos em comum como saúde – a cidade sofre com falta de médicos especialistas; a qualidade e o preço do transporte público, com a terceira maior de tarifa de ônibus do país (R$ 2,85); e a infraestrutura, já que há alagamentos em períodos chuvosos.

Bernal diz que o “jogo combinado” da polarização histórica entre PT e PMDB na cidade acabou. “Há demonstração de que evoluímos. A população não está mais sendo condicionada a votar mais em um ou outro”, diz. Para o radialista, há desgaste com a atual administração já que o governador age de forma “truculenta”. “Há grosseria com que ele encaminha [questões políticas]. Ele já disse que estupraria ministro em praça pública e que cortaria o saco se o ex-governador Zeca do PT tivesse mais de 30 mil votos na eleição para vereador esse ano”, lembra.

Polarização entre PT e PMDB “cansou”

Para Vander Loubet (PT), essa segunda candidatura à prefeitura de Campo Grande ocorre em momento político diferente do de 2004. “Agora conseguimos dividir uma base que era muito sólida. Existe cansaço com essa administração”, diz, lembrando que em 2012 partidos como PP, PPS, PSDB e PV apoiavam candidatos que fazem frente ao PMDB. Vander acredita, dessa forma, que há possibilidade real da oposição ganhar a eleição. “As pessoas não aguentam mais. É um governo autoritário e prepotente”, diz.

O candidato admite que seu padrinho político, Zeca do PT, seria o “melhor nome” para concorrer à prefeitura. “Para evitar a polarização entre PMDB e PT, retiramos a candidatura dele para criar um quadro com vários nomes”, diz. Com isso, a estratégia do PT foi lançar Zeca do PT como vereador para tentar, segundo Vander, dobrar a bancada do partido na Câmara de três vereadores eleitos em 2008 para seis este ano, quando o número de vereadores vai passar de 21 para 26. Vander lembra que nos últimos 12 anos o PT alcançou de 20% a 25% nas eleições da prefeitura da capital sul-mato-grossense e busca atingir essa margem para passar ao 2º turno. Em quarto lugar, ele admite que parte dos eleitores petistas das últimas eleições está manifestando apoio a Alcides Bernal.

Já a candidatura própria do PSDB em Campo Grande é justificada pelo candidato do partido pela “falta de diálogo” do PMDB, que contou com apoio dos tucanos por 16 anos. “O PMDB parou de ouvir a população. Queremos atender os problemas da comunidade”, diz Reinaldo Azambuja. Para o tucano que é ex-prefeito de Maracaju (MS), a polarização entre PT e PMDB “cansou”. “As pessoas querem experimentar algo novo. O Giroto não empolga e tem alta rejeição”, afirma. “Não é só a máquina que ganha as eleições. Boas propostas também podem ganhar”, diz ele, que declarou patrimônio de R$ 32,6 milhões e é o terceiro candidato mais rico do país.

Vontade de concorrer ao governo do estado

Após ter sido secretário de Obras durante dez anos em Campo Grande, o deputado federal Edson Giroto (PMDB) também adotou o discurso da oposição e promete fazer uma administração voltada para as pessoas. “Queremos olhar para a família. Estamos em uma cidade que mantém a qualidade de vida”, considera. Para ele, o pool de nomes concorrendo à prefeitura não é ruim para sua candidatura, que aparece em segundo nas pesquisas. Questionado se a eleição marca nova disputa entre Puccinelli e Zeca do PT, ele diz que vê a eleição de outra forma. “Vejo disputa entre candidato com proposta clara e o populista”, diz, referindo-se a ele e a Bernal, respectivamente. Sobre a união de PT, PSDB e PP no 2ºturno, Giroto diz que “ainda acredita em vitória no 1º turno”, mas que vai buscar o apoio de todos os adversários num eventual 2º turno, de que participe.

Ciente das críticas dos candidatos, o prefeito Nelson Trad Filho (PMDB), que termina seu mandato neste ano, garante que a marca da sua gestão foi a participação da comunidade e obras para melhorar a qualidade de vida. Para ele, o maior desafio do novo prefeito será a queda de repasses da prefeitura, por meio do Fundo de Participação Municipal (FPM). “Todas essas ‘benfeitorias’ do governo federal para aquecer a economia penalizam os municípios”, diz. Para o prefeito de Campo Grande, os “bons projetos e equipe” ajudaram a angariar mais verbas federais. “Mas é importante ser da base aliada e ter representantes que possam defender os recursos”, admite.

O prefeito ignora o desgaste. “Há, sim, discurso de mudança, mas a verdadeira e segura mudança foi o que fizemos com a cidade”, defende. De acordo com Nelson Trad, a eleição é uma disputa entre os candidatos da oposição e Giroto. “São seis contra um, sendo que três deles [PSDB, PV e PP] são de partidos que eram da nossa base de apoio e não levantavam críticas quando estavam no governo”, afirma.

A partir de 2013, Trad Filho diz que vai voltar a atuar como urologista e, apesar de admitir a vontade de concorrer ao governo do estado, diz que a discussão deve ocorrer no tempo correto. “É um anseio, mas vamos esperar decisão do partido”, diz. Questionado se uma derrota do PMDB na capital poderia atrapalhar seus planos, Trad Filho descartou a hipótese. “Acho que uma coisa não tem a ver com a outra”, afirma.

***

[Guilherme Soares Dias, do Valor Econômico]

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