Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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CADERNO DA CIDADANIA > MÉXICO

Uma geração perdida de jornalistas

Por Sara Miller Llana em 16/10/2012 na edição 716
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 13/10/2012,tradução de Terezinha Martino; título original “No México, uma geração perdida de jornalistas”

Granadas explodiram na redação de um jornal. Jornalistas foram sequestrados e mortos, às vezes esquartejados, e seus corpos colocados em sacos de lixo. Vários partiram do México por segurança.

Não é exatamente uma atmosfera convidativa para os jornalistas mexicanos, especialmente para aqueles alunos que podem optar por outras áreas como administração ou tecnologia em vez de escolher uma profissão que se tornou uma das mais perigosas do mundo quando exercida no México.

Antes o jornalismo no México ficou sob a ameaça da dinastia política que controlou o país durante o século 20 e era uma profissão de pouco prestígio e mal remunerada.

Hoje, os jornalistas são ameaçados pelos sanguinários traficantes de droga.

E as escolas de jornalismo lutam para manter o “quarto poder” vivo, enquanto os estudantes começam a pensar mais em moda ou esportes em vez do jornalismo de notícia e outros desistem completamente da profissão.

Algumas escolas fecharam seus cursos de jornalismo em razão do número insuficiente de candidatos inscritos.

“Recuperar o sentido do jornalismo de qualidade e ético está cada vez mais difícil”, diz Maricarmen Fernández Chapou, professora de jornalismo do câmpus da Universidade Tecnológica de Monterrey, na cidade do México, diretora do curso até o ano passado.

A grande batalha

O México é um dos mais perigosos lugares do mundo para o exercício do jornalismo.

O Comitê de Proteção dos Jornalistas fez uma lista de 69 profissionais e empregados de mídia mortos desde 1991 – alguns foram alvo direto em razão da profissão, mas em outros casos os motivos não ficaram claros.

É possível que tenham sido mortos pelo trabalho que estavam exercendo naquele momento. Os números oferecidos pela comissão de direitos humanos do México são maiores.

Em julho, a comissão tinha registrado 81 mortes de jornalistas desde 2000 – um número que cresceu a partir de 2006, quando o presidente Felipe Calderón assumiu o governo e os homicídios relacionados à droga dispararam.

Em meio à violência, muitos jornalistas, mal pagos e sem nenhum apoio dos jornais para os quais trabalhavam, passaram a não assinar suas matérias. Depois simplesmente começaram a não cobrir as ocorrências. Em 2011, o México caiu no ranking de liberdade de imprensa de “livre”, para “não livre” de acordo com a Freedom House.

“A maior batalha que estamos travando é com a autocensura”, diz Ricardo González, que dirige uma ONG em defesa da liberdade de expressão. “Você põe sua vida em perigo”, afirmou.

Esse ambiente jornalístico influenciou negativamente na perspectiva dos jornalistas iniciantes. Recentemente, numa aula da professora Maricarmen Fernandez, muitos dos pouco mais de dez alunos que estudam comunicação disseram optar por cobrir áreas como esportes e cultura. Somente Gael Castillo levantou a mão quando foi indagado aos alunos quem pretendia se dedicar ao jornalismo noticioso.

Gael falou dos ideais acalentados por todos os professores. Com uma bolsa na escola de elite particular e no segundo ano do curso, ele escolheu o jornalismo porque deseja lutar contra as desigualdades e injustiças que vê diariamente na sua cidade, Nezahuacóyotl, próxima da cidade do México.

Quando, no mês passado, surgiram rumores de que os traficantes se inseriram em sua cidade, ele abriu uma conta anônima no Twitter para alertar os moradores onde deviam ou não ir, mudando seu endereço IP frequentemente para não ser localizado. “Às vezes, sob ameaça, você precisa até deixar o país”, ele diz. “Não quero ter de fazer isto. O pior seria pôr minha família em risco de vida.”

Redobrando esforços

O jornalismo foi rigorosamente controlado no México durante grande parte do século 20, quando o PRI – Partido Revolucionário Institucional – exerceu um forte controle sobre a sociedade por 71 anos. Mas com a abertura de empresas de mídia e escolas de jornalismo e a transição para a democracia, em 2000, o jornalismo no México se profissionalizou de maneira que parte da preocupação se desfez.

Mas não são apenas as ameaças do crime organizado que criam dúvidas nos alunos quanto à profissão. A reputação da mídia também ficou muito prejudicada desde as eleições presidenciais de julho, quando o movimento estudantil denominado YoSoy132 protestou contra o que chamou de cobertura desleal a favor do presidente eleito Enrique Peña Nieto, do PRI. A corrupção também afastou jornalistas e suspeita-se que alguns foram vítimas de assassinato.

Mas a violência é que tem provocado mais impacto na profissão e muitos acusam o governo de não fazer o suficiente para proteger a mídia neste clima vivido hoje no México.

Ricardo González viaja com frequência pelo país, visitando escolas de jornalismo e recentemente esteve em Coahuila.

Ele diz que as escolas não se empenham o necessário para ensinar aos alunos sobre como se proteger, especialmente nas regiões mais controladas pelo crime organizado.

Um curso foi fechado em Laredo, na fronteira com o Texas, diz ele. Na Universidade de Morelia, em Michoacán, o reitor informou que o curso de jornalismo foi fechado em razão do número insuficiente de alunos.

Claudia García Rubio, professora na Tecnológica de Monterrey, diz que se contradiz diariamente quando tenta convencer os alunos dos ideais da investigação sem limite e ao mesmo tempo insiste para que atuem com cautela e inteligência. Uma de suas alunas havia conseguido uma entrevista com a mulher de um traficante, mas ela recomendou à aluna que não publicasse o artigo sobre a vida cotidiana dos traficantes para não colocar em risco a sua vida.

Há algum tempo os alunos de Claudia García que estão no último ano do curso, analisaram um gráfico sobre liberdade da imprensa e observaram que a linha do México teve uma forte queda nos últimos cinco anos.

Segundo ela, esse declínio motivou alunos e professores a exigirem mais de si próprios e da profissão.

Olhando para os alunos astutamente, ela disse: “Em vez de desistir, temos de redobrar nossos esforços.”

***

[Sara Miller Llana é correspondente para América Latina do Christian Science Monitor]

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