Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / RICARDO KIRSCHBAUM

“Lutamos 30 anos por liberdade”

Por Gilberto Scofield Jr. em 23/10/2012 na edição 717
Reproduzido de O Globo, 16/10/2012; intertítulos do OI

Diretor de redação do jornal Clarín, Ricardo Kirschbaum afirmou na segunda-feira (15/10) que o grupo vai resistir à pressão da Casa Rosada para reduzir sua fatia no mercado de mídia argentino. Hoje, a empresa tem 47% do mercado de TV a cabo. Pela nova Lei de Serviços Audiovisuais, o número máximo de licenças é de 24. Isso limitaria sua participação a 35%.

O diretor do Clarín participou ontem do evento da SIP. Seu grupo conseguiu liminar na Suprema Corte para manter sua fatia de mercado até que a Justiça se pronuncie. Essa liminar vence em 7 de dezembro. O governo da presidente Cristina Kirchner já anuncia “uma nova era” nas comunicações a partir da data.

“O governo vê a imprensa como algo nocivo”

O que ocorrerá em 7 de dezembro?

Ricardo Kirschbaum – Não acho que acontecerá nada no sentido apocalíptico que o governo vem pregando. Nesta data, vence o prazo da medida cautelar que o grupo Clarín obteve na Justiça suspendendo temporariamente dois artigos da nova Lei de Serviços Audiovisuais – o que obriga o grupo a se desfazer de parte de suas empresas e o impede de ter mais de um sinal de audiovisual – até que a Suprema Corte se decida sobre o tema. A presidente Cristina Kirchner gosta de dizer que o Clarín está impedindo a aplicação da nova lei, o que não é verdade. Queremos a posição da Justiça sobre como deve ser feito o chamado desinvestimento, a venda das empresas.

O grupo pode tentar a renovação da medida cautelar?

R.K. – Pode, claro. Mas nada vai mudar a natureza atual do governo argentino, que não quer escrutínio de ninguém, nem de imprensa independente nem de organismos de fiscalização autônomos. Porque o governo vê a imprensa como algo nocivo ou que o próprio governo não deve satisfação para o público. Há pouco tempo, Cristina foi a Harvard, onde ouviu perguntas de estudantes. Foi grosseira e falou coisas que não são sérias. Quando lhe perguntaram porque não dava entrevistas coletivas com frequência, ela disse que não se sentia obrigada a produzir provas contra si, como se explicar atos do governo fosse uma espécie de julgamento. Quando lhe perguntaram como tinha patrimônio de 70 milhões de pesos, respondeu ser uma advogada e uma presidente de sucesso. Como se ser um bom presidente fizesse a pessoa rica.

“Há uma campanha de assassinato de reputações”

A SIP pretende enviar uma missão ao país. Isso ajuda?

R.K. – É sempre bom, mas diante dos mecanismos de controle do governo argentino sobre a liberdade de expressão, é difícil. Com a medida cautelar perdendo efeito, teremos um ano para começar a vender as licenças que obtivemos legalmente ao longo dos anos de nosso processo de crescimento. Não estou otimista.

A situação na Argentina piorou?

R.K. – O governo assume um discurso de democratização dos grupos midiáticos, mas, no fundo, quer o controle dos conteúdos jornalísticos. Isso se dá em várias frentes. O orçamento da Secretaria de Mídia, que é o departamento do governo que faz o controle dos meios de comunicação, é de cerca de US$ 300 milhões, o dobro do gasto com Turismo e 10% maior que o orçamento do Ministério da Indústria. Há uma campanha que chamamos de assassinato de reputações, que cuida de desqualificar o mensageiro. Ainda assim, as maiores audiência e leitores continuam nos veículos independentes, como Clarín e La Nación. Brigamos 30 anos pela liberdade de expressão na Argentina e o que vemos agora é o governo tentando controlá-la.

***

[Gilberto Scofield Jr., de O Globo]

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