Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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CADERNO DA CIDADANIA > ESCÂNDALO NA BBC

Programas infantis e o futuro das emissoras públicas

Por Antonio Brasil em 29/10/2012 na edição 718

Nos últimos anos, a Europa tem sido uma fonte inesgotável de péssimas notícias. A crise de “quase” tudo atinge diversos setores da economia e da sociedade. As promessas de um paraíso europeu no pós-guerra estão cada vez mais distantes.

Agora, a crise atinge a prestigiosa emissora pública britânica BBC. Depois de acusações de má gestão financeira, competição desleal diante do setor privado e coberturas jornalísticas tendenciosas, a BBC enfrenta acusações de abuso sexual e pedofilia.

A crise é grave e repercute nas manchetes da imprensa mundial:

>> “Escândalo sexual com apresentador da BBC choca ingleses. Segundo a Polícia, o número de vítimas de Jimmy Savile ‘está muito perto de 300’

>> “BBC é acusada de encobrir escândalo de pedofilia

>> “Aumenta crise na BBC e Cameron exige respostas

>> “Editor da BBC afastado devido a escândalo de pedofilia

>> “Polícia britânica prepara prisões em escândalo da BBC

O prestígio, a credibilidade e o próprio futuro da emissora pública britânica estão ameaçados. Seus executivos enfrentam inquéritos policiais e os parlamentares exigem explicações.

O diretor-geral da BBC, George Entwistle, disse, em depoimento no Parlamento britânico, que a investigação feita por um dos programas da emissora sobre denúncias de abuso sexual contra o ex-apresentador Jimmy Savile não deveria ter sido interrompida. Os críticos também argumentam que a BBC ignorou os supostos crimes que, segundo a polícia, ocorreram ao longo de seis décadas e tiveram uma “escala sem precedentes”.

O primeiro ministro britânico James Cameron declarou que “os acontecimentos são preocupantes porque a BBC efetivamente mudou a sua história sobre por que derrubou o programa Newsnight sobre Jimmy Savile”.

O veterano correspondente internacional da BBC John Simpson também fez questão de dizer que “a condução do caso pela organização era uma das piores crises a atingir a corporação em seus quase 50 anos de carreira”. Em entrevista para o programa Panorama,da BBC, Simpson foi taxativo: “Não acho que a BBC tenha conduzido isso muito bem”, disse. “Tudo o que temos como organização é a credibilidade das pessoas, as pessoas que nos assistem e nos escutam e, se não tivermos isso, se começarmos a perder isso, é muito perigoso” (ver aqui).

Vale relembrar que a “Velha Tia”, a forma carinhosa que os britânicos se referem à BBC, é uma megaorganização fundada em 1922 e tem hoje cerca de 22 mil funcionários que trabalham em oito canais de televisão, 50 emissoras de rádio e um website. Seu prestígio e credibilidade, no entanto, superam as próprias estatísticas.

O escândalo surge em péssima hora. A BBC está sob pressão de seus críticos, incluindo boa parte da mídia conservadora. Eles questionam se a emissora pública ainda deve ser financiada por uma taxa de licença anual paga pela população. Com a renda da licença que chega perto dos 3 bilhões de libras, a BBC financia sua programação de TV, rádio e internet. Mas os críticos, inclusive o filho do magnata da mídia Rupert Murdoch, James, dizem que “a taxa dá à BBC uma vantagem injusta sobre as competidoras privadas”.

A BBC enfrenta as críticas cortando a sua força de trabalho e a produção depois que o governo de Cameron impôs profundos cortes de gastos. Qualquer perda da confiança do público pode afetar discussões futuras sobre financiamento e a taxa de licença.

Garibaldo desempregado

Nos EUA, o futuro da rede de emissoras públicas Public Broadcasting Service também éincerto. Mitt Romney, candidato republicano à Presidência, sugere cortes na TV pública dos EUA e ameaça com desemprego uma das maiores e mais queridas estrelas da programação infantil da PBS, o Garibaldo da Vila Sésamo. “Eu gosto da PBS, eu gosto do Garibaldo. Mas eu não vou continuar emprestando dinheiro da China para gastar nesse tipo de coisa”, disse o republicano após o primeiro debate presidencial (ver aqui).

Em comunicado, a PBS procura se defender: “O governador Romney não entende o valor que o povo americano dá ao serviço público de TV e o incrível retorno que esse sistema dá ao nosso país” (ver aqui).

Sobrevivência

Diante de tantos escândalos e péssimas notícias da Europa e dos EUA, você deve estar se perguntando: “Mas o que essas notícias têm a ver com o Brasil? O que isso tem a ver comigo?”

Respondo rápido: tudo.

Nossas emissoras ditas públicas também enfrentam sérios problemas. Não foram acusadas de abuso sexual ou pedofilia. Mas continuam ignoradas pelo público e pela crítica, enfrentam eternas crises financeiras e dependem da boa vontade dos governantes para sobreviver.

As televisões públicas brasileiras – como a TV Cultura de São Paulo e a TV Brasil, da EBC – não são financiadas pelo público como são a BBC ou a NPR. Elas não compartilham experiências do passado, não fazem parcerias para produção de bons programas no presente e são reféns dos partidos políticos no poder. Em São Paulo, temos a TV do PSDB e em Brasília, a TV do PT.

Diante de uma luta feroz pelo poder político e preciosos empregos públicos, essas emissoras abandonaram os programas infantis de sucesso como o Castelo Rá Tim Bum ou Vila Sésamo, quehoje não passam de longínquas lembranças do passado.

E em relação às acusações de abuso sexual e pedofilia em programas infantis e juvenis, é bom lembrar que no Brasil também tivemos nossos escândalos. Carlos Imperial, por exemplo, apresentador do programa de televisão O Clube do Rock, nos anos 1960, “chegou a colecionar uma série de escândalos, respondendo na Justiça a acusações de estelionato e indecência. Em maio de 1992, durante uma crise conjugal, chegou a anunciar seu namoro com uma menina de 14 anos. Na época Imperial tinha 42 anos a mais que a moça” (ver aqui).

Em 1966, artistas brasileiros como Eduardo Araujo, Erasmo Carlos e além de Carlos Imperial foram acusados de corrupção de menores e passaram alguns meses sem aparições públicas. Depois de longos processos, foram inocentados pelo Juizado de Menores.

A apresentadora de programas infantis na TV Xuxa Meneghel também luta de todas as formas para esconder seu passado da internet. A rainha dos baixinhos já posou nua para a Playboy e estrelou um filme pornô. Em outubro de 2010, entrou com processo na Justiça do Rio pedindo que o Google não mostrasse qualquer link de sites que a relacionassem com as palavras “pornografia” e “pedofilia”. Juntas, as palavras levam ao filme Amor Estranho Amor, filmado em 1979, em que ela aparece tendo relações com um garoto de 12 anos. O STJ, no entanto, decidiu que “os sites de busca não podem ser obrigados a limitar resultados, já que são apenas o meio de acesso ao conteúdo e não os responsáveis pela publicação” (ver aqui). Hoje, o filme erótico de Xuxa com um menino pode ser facilmente acessado no YouTube (ver aqui).

Outra apresentadora de TV famosa e polêmica, a cantora mexicana Gloria Trevi, também teve problemas com a justiça brasileira. Em meio a um escândalo internacional, ela fugiu para o Brasil e esteve presa entre 2000 e 2002. Foi acusada de corrupção de menores e sequestro. Em 2004, depois de longo processo e quase cinco anos de prisão, Trevi foi declarada inocente de todas as acusações. Mas nunca se livrou do escândalo.

Em um cenário de escândalos, crise financeira e diversas acusações, as emissoras públicas na Grã-Bretanha, nos EUA e no Brasil lutam pela sobrevivência.

O maior problema, no entanto, é que o público parece não se importar.

***

[Antonio Brasil é jornalista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina]

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