Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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CADERNO DA CIDADANIA >

“Para mim, o dinheiro não é tabu”

Por Flávio Tabak em 26/02/2013 na edição 735

Além de incontáveis palestras e debates, a blogueira cubana Yoani Sánchez terá uma tarefa bem prática durante os 80 dias da viagem iniciada pelo Brasil e que incluirá pelo menos outros 12 países: cuidar do próprio bolso. Alvo de críticas de opositores, que a acusam de ser financiada pelos Estados Unidos e por entidades contrárias ao regime dos irmãos Castro em Cuba, Yoani afirma não tratar dinheiro como “tabu”. Ela saiu do país com o equivalente a US$ 200 (divididos entre dólares e euros) e pretende engordar sua renda com os prêmios que ganhou nos últimos anos. O problema é fazer com que os recursos cheguem a Cuba sem que sejam confiscados no aeroporto de Havana.

Yoani diz querer usar o dinheiro dos prêmios para fundar um jornal independente. Uma outra parte seria reservada para fins pessoais. “Todo esse tema é porque o dinheiro em Cuba se transformou num tabu. Durante muitos anos, o dinheiro não funcionou como moeda de troca: o importante eram os méritos, a influência, os cargos políticos, a linhagem sanguínea. Mas, para mim, o dinheiro não é tabu. É uma possibilidade de realizar os sonhos. Estou muito orgulhosa de todos os prêmios que ganhei”, argumentou a blogueira, antes de partir para Brasília.

A blogueira é colaboradora do jornal espanhol El País e relata ter dificuldade para receber o pagamento pelos artigos que escreve. Ela tem uma conta bancária na Suíça, da época em viveu dois anos lá (de 2002 a 2004), mas afirma não usá-la. E reclama da acusação de mercenária, feita por manifestantes em Feira de Santana. “Um dos objetivos da minha viagem é poder recuperar parte dos meus prêmios (em dinheiro ou não) com a intenção de levá-los a Cuba. Seria o capital inicial do jornal. Tenho recebido muito pouco, às vezes vem um amigo e traz uma parte. Também invisto na minha vida pessoal. Não promulgo um ascetismo como uma forma de vida. Não vou me sentir culpada por uma autonomia limpa.”

“Adoraria publicar gratuitamente no Granma

A cubana nega que receba salário da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e diz ter uma carta da direção da entidade, explicando que “isso é totalmente falso, uma grande mentira”.

Yoani ainda não sabe quanto dinheiro precisará para fundar seu sonhado jornal, mas acredita que não necessitará “uma fortuna”. Em tom irônico, diz que não precisaria de um meio independente se pudesse contribuir para a imprensa de Cuba. “Eu poderia me perguntar onde está a fortuna pessoal dos filhos de Raúl Castro, onde estão essas contas? Todos têm contas no exterior. Quando há um indivíduo autônomo, essa discussão se converte em problema. No mais, adoraria publicar gratuitamente no Granma (jornal oficial do governo). Me dá uma coluna no Granma, não me paga um centavo e eu seria a pessoa mais feliz do mundo.”

***

[Flávio Tabak, de O Globo]

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