Sábado, 23 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1025
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CADERNO DA CIDADANIA >

Imprensa, ética e silicone

Por Luiz Martins da Silva em 19/03/2013 na edição 738

O noticiário produzido por uma sociedade é um termômetro dos estágios morais em que se encontram os seus cidadãos no momento em que determinados fatos são selecionados e hierarquizados como valores-notícia. O que, quem, quando, como, onde e por que algo é matéria jornalística são elementos constitutivos da uma síntese moral de um povo, quando registrado um fotograma temporal. Senão, vejamos o que vaticinou Rui Barbosa em sua célebre conferência “A imprensa e o dever da verdade”, de 1920: “A imprensa é a vista da Nação” (ver, neste Observatório, “Rui Barbosa e O dever da verdade“).

À época, Rui estava preocupado, sobretudo,com a falta de independência dos jornais que figuravam nas listas de donativos financeiros efetuados pelo governo federal. Hoje, deixando de lado as amarras da nossa “grande imprensa” com os poderes político e econômico, focalizaremos o que a ela própria causa espécie como deslizes morais a serem denunciados. E um desses bestialógicos recentes foi o flagrante da médica fraudando o “ponto” de colegas, valendo-se de dedos pré-moldados em silicone e com o esmero de produzir fé pública com digitais clonadas.

É impressionante como a criatividade comparece às mentes dedicadas à prática de delitos. Mas, como prevê a máxima cotidiana das delegacias, um dia a casa cai. Bandidos sabem da noção tão antiga quanto eles: não há crime perfeito. Mas caem e recaem no ilusionismo que assiste os autores de fraudes e burlas: a ocasião é boa para o ladrão. E quanto mais aperfeiçoada a vigilância, mais engenhosas ficam as cabeças-laboratórios-do-diabo.

E é nesse particular que reside um equívoco já detectado por Immanuel Kant (1724-1804), ao diagnosticar que a moral autônoma – e, portanto, a genuína – não precisa de olhos onipresentes e oniscientes, senão aqueles olhos interiores, sim, os da consciência moral. Também na poesia (William Wordsworth,1770-1850), encontramos referências a esta primordial “visão interior” do mundo.

O livre-arbítrio

Kant, secundado por Piaget, Kohlberg, Apel, Gadamer, Habermas e outros estudiosos dos processos de construção da moral, entendeu que é mais produtivo cuidar da educação moral do que caprichar na inventividade tecnológica a serviço da vigilância e da punição. Arapucas são eficientes para roedores no desespero do provimento fisiológico. Quanto aos seres dotados de razão, Aristóteles já havia sentenciado: “Com ética, o homem é o melhor dos animais; sem ela, o pior”.

Sem desdenharmos das câmeras – ocultas ou ostensivas – existentes hoje em todas as grandes cidades do mundo e em locais como estádios de futebol, documentando episódios como aquele do disparo do sinalizador em Oruro (Bolívia) e até realçando a falta delas, como na boate Kiss, em Santa Maria (RS), o que desejamos ponderar é que se a educação brasileira, do fundamental aos cursos de Medicina, não se aprimorar na formação moral de sua clientela, haja câmeras e arapucas, pois os seres humanos já não agirão sendo humanos, mas como ratos inescrupulosos.

Sim, porque humanos sem ética são os piores dos animais. E a eles não terá faltado competência técnica, e sim moral, que é também um dos componentes do que os sábios entenderam como parte da inteligência. Lamentavelmente, predomina na mentalidade de hoje a chamada “Lei de Gerson”: “O negócio é levar vantagem”. Até, claro, ser flagrado, nem sempre com punição, a depender das provas, da astúcia dos advogados e dos atenuantes: quem tem curso superior tem regalias, se preso for. Ora, de que superioridade se está falando?

Piaget, o célebre psicólogo do desenvolvimento moral, inferiu que o ser humano é dotado de três competências básicas: a cognitiva; a linguística; e a moral. Cuidando-se de prover bem as três, estarão assegurados os subsídios de qualidade para um bom ser humano e um bom cidadão. Com uma ressalva, porém: o livre-arbítrio. Ao ser humano, não basta a competência de saber o que é o bem e como praticá-lo (a ação moral). É imprescindível a vontade de fazê-lo. Vontade, aqui, no sentido filosófico, kantiano: uma força íntima, imperial e categórica que leva o ser humano a ser bom e a fazer o bem, mesmo sem vigilância e punição.

O que funciona

É possível transmitir desenvolvimento moral nas escolas? É possível transmitir valores: nas escolas, nas instituições, na comunidade e na sociedade, tanto na infância (socialização primária), quanto pela vida afora (socialização secundária). Trata-se, no entanto, de um processo construtivo e por estágios. Não há como repassar moral como se fosse um arquivo, um aplicativo, um template. Com as duas primeiras das três competências referidas (a cognitiva e a linguística), o aprendizado é mais simples e,em certa medida, até mecânico.

Todavia, a competência moral é enigmática, misteriosa. Há algo de metafísico nela, por mais que os empiricistas digam que ela é, também, um dado concreto, e não a priori comopreconizava Kant. É possível que uma pessoa venha e esteja no mundo com todo tipo de deficiência em matéria de cognição e expressão, mas ter um elevado grau de moralidade. E moralidade autônoma, que difere da moralidade heterônoma(aquela que só funciona mediante vigilância e punição). É igualmente possível que um cientista, portanto com elevado desenvolvimento cognitivo e linguístico, moralmente seja um crápula (por exemplo, a serviço do crime, da guerra ou do nazismo).

Ora, o que faz com que uma médica, em pleno exercício da profissão e da saúde pública, cônscia do seu juramento, chegue ao requinte de encomendar e usar dedos de silicone para fraudar um ponto biométrico? O fato de se ter formado numa sociedade onde a moral virou, literalmente, algo postiço e cosmético: feita de silicone. É o próprio império da prótese. É a sobredeterminação das aparências, a despeito da existência das câmeras. Na improbabilidade do flagrante, o “Dr. Morte” ou a “Dra. Morte” irão desligar os aparelhos de sobrevida nas UTIs.

E a imprensa com tudo isso? A imprensa é “a vista da Nação”, portanto mais que a vista do governo e do Estado. É a vista da sociedade. É mais que o Quarto Poder. É o poder fiscal, a começar pela fiscalização da moral e da punição pública dos delitos, antes mesmos de irem ao julgamento nos tribunais. E é a imprensa que, com a exposição pública dos infratores, talvez contribua para a restituição dos valores por algo que, comprovadamente, funciona: a recomposição de algo chamado vergonha. Desde a década de 1990 que juízes norte-americanos descobriram que uma boa parte dos delinquentes mais teme a censura moral pública do que cumprir discretas sentenças penais. Expor criminosos ao envergonhamento público produz um sentido pedagógico. E de efeitos coletivos. Qual a instituição-garante dessa esfera pública? A imprensa.

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Luiz Martins da Silva é jornalista, professor da Universidade de Brasília, fundador do projeto de extensão SOS-Imprensa

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