Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

Jornalista pedirá para cumprir pena no semiaberto

Por Morris Kachani em 23/04/2013 na edição 743

O jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves, de 76 anos, que em 2000 matou a namorada, Sandra Florentino Gomide, vai entrar com pedido na Justiça a fim de obter a mudança para o regime semiaberto. O pedido deve ser encaminhado dentro de um mês, de acordo com sua advogada, Maria José da Costa Ferreira.

Até maio deste ano, Pimenta já terá cumprido um sexto da pena a que foi condenado, de 15 anos, o que lhe dá o direito de solicitar a progressão de regime. Ele está detido no presídio de Tremembé (interior de São Paulo) desde 2011. Sandra, que na época do crime tinha 32 anos, foi assassinada com um tiro nas costas e outro na cabeça. Alberto Toron, criminalista, diz que o mais provável é que o jornalista obtenha o semiaberto, deixando a prisão durante o dia para trabalhar. Para João Gomide, de 74 anos, pai de Sandra, “se existisse justiça, ele cumpriria os 15 anos”. “Me sinto como um trapo”, afirma.

Segundo o Código Penal, o semiaberto deve ser cumprido em uma colônia penal e permite que o condenado trabalhe ou estude fora. Como, na prática, faltam vagas, o que ocorre em boa parte dos casos é a liberdade condicional. A lei afirma que a cada três dias de trabalho, o preso tem direito a um abatido da pena. Ao senador Eduardo Suplicy (PT), que o visitou em fevereiro no presídio, Pimenta disse que trabalha fazendo faxina.

As trajetórias do jornalista e do pai de Sandra

Os dois se conhecem desde os anos 1970, quando Suplicy trabalhou com Pimenta na revista Visão. No encontro no presídio, de acordo com o senador, o jornalista parecia “razoavelmente bem, dentro do ponto de vista de quem está preso e passa 16 horas por dia na cela”. Pimenta aproveitou para enviar um recado a José Dirceu, condenado a dez anos no julgamento do mensalão, que possivelmente cumprirá pena no mesmo presídio. “Pediu que eu avisasse ao Zé Dirceu que lá não é como ele imagina, que não dá para usar computador ou estudar como ele está querendo. Mas que a biblioteca é boa.”

Segundo Suplicy, um dos temas da conversa que mais animaram o jornalista foi a reforma do Código Penal e a instituição de penas alternativas. O pedido de progressão para o semiaberto coincide com o lançamento de dois livros sobre o crime. Em O Caso Pimenta Neves, Uma Reportagem, Luiz Octavio de Lima traz a público um polêmico depoimento da designer Marguerita Bronstein. Ela e Pimenta se conheceram em 1967, quando o jornalista integrava a equipe de Claudio Abramo, diretor de Redação da Folha. Ele a teria submetido a constrangimento e assédio na redação. Em 1973, Pimenta a teria violentado. “Fui forçada a fazer sexo, sem ter como reagir”, diz Marguerita no livro.

Ela teria ficado grávida e abortado. Um ano depois, decidiu sair do Brasil. Procurado pela Folha, Pimenta não quis dar entrevista. No livro, Lima contrapõe as trajetórias de Pimenta Neves e do pai de Sandra, João Gomide. O primeiro era um bem-sucedido profissional, que ocupou cargos de chefia na Folha, na editora Abril, nas extintas Visão e Gazeta Mercantil, e em O Estado de S. Paulo, além de conselheiro sênior do Banco Mundial. João Gomide era dono de uma oficina mecânica e loja de autopeças. Hoje está aposentado e vive com três salários mínimos e meio com a mulher, Leonilda, de 76 anos.

As pequenas tiranias

Quando conheceu Pimenta Neves, na Gazeta Mercantil, Sandra cobria áreas menos estratégicas do jornal. “A diferença entre eles não era apenas de 30 anos. Era de classe social, de repertório cultural”, afirma Lima. Segundo ele, os amigos mais próximos de Pimenta nunca aceitaram Sandra. “E a desprezam até hoje”, acrescenta. No auge da crise do namoro, segundo o livro, Pimenta invadiu e-mails de Sandra e contratou motoristas do jornal que chefiava para vigiá-la. O autor se diz convicto de que o crime foi premeditado. “Pimenta sempre foi mostrado como um profissional impecável que perdeu o controle. Mas reuni dados que revelam seu verdadeiro perfil.”

Já em À Queima-Roupa, o Caso Pimenta Neves, de Vicente Vilardaga, que deve ser lançado neste semestre, o enfoque está na “tragédia da governança corporativa”. “Quando Pimenta e Sandra começaram a namorar, a Gazeta Mercantil contabilizava pelo menos quatro relações afetivas entre homens chefes e mulheres subordinadas.” Depois que conheceu Pimenta, em 1996, em menos de um ano o salário de Sandra, que era de cerca de R$ 1.600, saltou para cerca de R$ 9.000. Em 1998, ele a levou para O Estado de S. Paulo.

Várias situações de abuso de poder aparecem nos livros. Talvez por isso a jornalista Miriam Leitão tenha escrito que no caso Pimenta Neves a questão central, para os jornalistas, seja a tolerância com as pequenas tiranias na redação.

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Morris Kachani, da Folha de S.Paulo

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