Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > PESCOÇÃO & BURACO NEGRO

Edições tamanho Gulliver,
jornalismo tipo Lilliput

Por Alberto Dines em 13/11/2007 na edição 459

Para absorver o volume de anúncios, Estadão e Folha saíram no sábado (9/11) com muitos cadernos extras. No primeiro, além dos habituais, havia Internacional, Negócios&Economia (complemento ao Economia&Negócios) e o Metrópole-2. Na Folhona, a festa publicitária foi maior: Mundo 2, Dinheiro 2, Cotidiano 2, 3 e 4, Brasil 2 e Esporte 2.


Segundo a edição de segunda-feira (12/11) da Crítica Interna do ombudsman, o jornal bateu, com as 200 páginas publicadas na edição do dia 9, o seu recorde de páginas para um sábado.


O boom imobiliário (leia-se ‘mais engarrafamentos’), associado às perspectivas de um Natal promissor, produziu edições formidáveis, tamanho-família, e um jornalismo de bolso, descartável.


Acúmulo de trabalho


É o fenômeno do pescoção: as redações são obrigadas a fechar, entre quinta-feira e sábado pela manhã, três enormes edições (6ª, sábado e domingo) e ainda adiantar a de segunda.


Festeja o Departamento Comercial, veste luto a redação. Quem administra este eterno contencioso é o publisher e nossas empresas jornalísticas ficaram órfãs de publishers.


Exemplo da contradição que compromete justamente os dias de maior leitura de jornais foi a cobertura do anúncio da sensacional descoberta de novas reservas petrolíferas na bacia de Santos, anunciada pelo governo na quinta-feira (8/11).


Acontecimento mundial, fadado a grande repercussão, merecia robusta complementação – análises, entrevistas, retrospecto histórico, dados e desdobramentos no âmbito político, econômico e tecnológico.


O pescoção, porém, tinha outras exigências e, diante delas, impera o sistema embrulha e manda, fechamento no tapa. Na correria, ninguém lembrou de algo comezinho: há quinze meses, em julho de 2006, o governo e a Petrobras já haviam anunciado com razoável pompa a espetacular informação sobre um rico lençol petrolífero situado a seis mil metros de profundidade na bacia de Santos.


Os jornais de sexta-feira saíram com o foguetório oferecido pelas fontes oficiais, mas O Globo teve o cuidado de acrescentar uma ressalva: a informação era velha, foi reciclada.


Mesmo assim, até segunda-feira (três dias depois, uma eternidade), ninguém tentou desenvolver esta linha informativa. Nem o próprio Globo se deteve para lamber a cria e examinar com atenção os porquês, os bastidores e as conseqüências da badalação indevida.


Chávez ironiza o ‘magnata do petróleo’


Ficou sem a necessária explicação a gozação de Hugo Chávez ao chamar o presidente Lula de ‘magnata do petróleo’. As especulações políticas, eleitorais, energéticas, diplomáticas e até acionárias em torno do anúncio perderam sua razão de ser porque ninguém se deu ao trabalho de registrar que o governo e/ou a Petrobras orquestraram e dançaram em cima de um factóide.


Alguns articulistas e observadores da internet já na sexta comentaram a origem requentada da informação, mas nosso jornalismo digital ainda não desenvolveu um sistema efetivo de organização noticiosa – como o dos diários impressos – capaz de oferecer ao leitor, com facilidade, as referências necessárias à plena avaliação dos fatos (exceto, é claro, em eventos de grande porte).


Na véspera do pescoção, as estrelas do colunismo impresso obrigam-se apenas a oferecer os respectivos talentos para preencher o espaço que lhes pertence, sem compromisso com a atualidade, e adiantam dois ou três textos com enfoques atemporais. Às vezes mofados.


Como os semanários de notícias são fechados às quintas-feiras (para sair no fim de semana), as qualidades do nosso jornalismo impresso só podem ser exibidas na primeira metade da semana; na parte final, vai tudo na marra, a toque de caixa. Os lapsos são evidentes, alguns jamais reparados.


Sufoco vs. qualidade


Os jornalistas-editores revoltam-se contra esta situação: prefeririam produzir matérias, páginas e edições melhores, bem acabadas. A satisfação de um bom profissional de imprensa – de qualquer idade – é voltar para casa depois do expediente certo de que atendeu satisfatoriamente aos seus compromissos com o leitor. Impossível: o sistema do pescoção não deixa.


Numa análise antológica, Bernardo de Carvalho, articulista da Folha (6/11, página E-10) mostrou como a imprensa está sendo levada a substituir o exercício da especulação filosófica. Está certo. O problema maior é que a nossa imprensa não consegue sequer atender o papel convencional que lhe cabe no contrato social. As suas informações, referências e até as suas indignações são espasmódicas, fragmentadas, passageiras, incompletas.


Nosso periodismo (jornalismo, em espanhol) é intervalado, intermitente. Nossos diários saem todos os dias, mas reproduzem parte da semana.


Os fins de semana são buracos negros: o que se publica não é o que aconteceu, o que aconteceu não é o que se publica.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/11/2007 Euclides Rodrigues de Moraes

    Sr. Dines, Sem mais delongas, por favor leia o post publicado no endereço a seguir: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=459IMQ002

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