Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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CADERNO DA CIDADANIA >

Em respeito e a respeito dos vovôs jornalistas

Por Claudia Zardo em 06/05/2008 na edição 484

Psiuuu! Toc, toc! Você que está ziguezagueando os olhos nestas linhas, ajude-nos a fazer uma idéia sair do papel.

É o seguinte: em 2020 quantos serão os jornalistas com mais de 60 anos e em vias da aposentadoria? De que servem os avanços da medicina, que nos proporcionam uma vida mais longa, se, quando a cabeça está pintada com fios de algodão, um jornalista pode se ver apartado da ‘cachacinha’ da Redação (leia-se, o jornalismo é um vício bom para os amantes da arte desta profissão) ou mesmo substituído por jovens com mais energia? E caso isso acontecesse, o que poderia fazer o jornalista sênior para que não terminasse com um corpo ainda saudável e uma mente doente por conta da sensação de exclusão? Em um mundo no qual se buscam pessoas que tragam mais soluções do que problemas, as respostas podem estar em um novo conceito econômico que engloba ainda as áreas do Direito e da Administração.

‘O novo mundo será velho.’ A frase reflexiva remete-nos a dados que podem dar base à afirmativa. Em 2007, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informava que 8,6% (14,4 milhões) da população brasileira era de pessoas com mais de 60 anos. Projeções estimam ainda que em 2020 a faixa de maiores de 60 anos atingirá 30 milhões de pessoas. Dentro deste corte, obviamente estarão os profissionais jornalistas. E afinal, gostem ou não, todo mundo vai envelhecer.

Mente e corpo saudáveis

Questionamentos como os feitos no lead (que mais está para nariz de cera) surgem quando analisamos histórias de jornalistas que muito contribuíram para empresas e para a história do jornalismo brasileiro, mas que, no entanto, ao chegar a certa idade, foram dispensados como se fossem alguém absolutamente descartável. Enfim, acontece em qualquer área de mercado.

A dicotomia na ação da ‘dispensa’, entretanto, está justamente no fato de que após os 60 anos, aquele que exerce a atividade intelectual está chegando ao ápice da sua capacidade mental. Salvo exceções – dos que são acometidos por Alzheimer, Parkinson (batam todos na madeira!) ou outras doenças degenerativas do cérebro –, o corpo de, neste caso, um jornalista com mais de 60 anos, apesar de idoso, pode estar desgastado pela labuta, mas a mente estará então no que psicólogos chamam ‘flor da idade’.

Na contramão, embora seja um direito das empresas no sistema capitalista tratarem o jornalista idoso como se fosse um objeto qualquer e dispensável, não é dever do ‘vovô’ jornalista aceitar o seu destino, incorporar o pijama de listrinhas, sentar diante da televisão, passar parte do seu dia jogando damas na praça ou ainda ficar remoendo doenças imaginárias pelo resto de seus dias.

Apesar, ainda, de o valor pago pela Previdência Social ser uma vergonha, do valor com gastos em medicamentos triplicarem na terceira idade, da renda cair pela metade e até da falta de respeito já tão comum em nossa sociedade, sempre haverá uma solução para manter o vovô jornalista em pleno exercício da atividade e, portanto, com a mente e corpo saudáveis.

Experiência e liderança

Uma dessas soluções está em um novo conceito de economia, mais conhecida no jargão da administração, como solidária. Conforme os teóricos da área:

‘Economia solidária é uma forma de produção, consumo e distribuição de riqueza centrada na valorização do ser humano – e não do capital. Com base associativista e cooperativista, é voltada para a produção, consumo e comercialização de bens e serviços, de modo autogerido, tendo como finalidade a reprodução ampliada da vida.’

Analisando o formato administrativo, por que não montar uma Cooperativa de Jornalistas da Terceira Idade? Ora, mesmo em um mercado saturado, basta haver solidariedade entre os colegas para que dele façamos um verdadeiro coração de mãe, no qual, sempre caberá mais alguns.

Em termos de comportamento, entretanto, os grupos profissionais tendem a se aliar, no popular, em panelinhas. De um lado o time que pensa assim, do outro o time que pensa assado.

Existem, sim, correntes de pensamentos divididas em todas as profissões e o jornalismo não haveria de ser uma exceção. Nesta divisão, contudo, deve haver um jovem, empreendedor, ou mesmo um vovô jornalista, que com toda sua experiência, perfil de liderança, fôlego e uma idéia fixa na cabeça, consiga articular um novo modelo de negócios para outros colegas que se encontram na mesma situação de exclusão.

Possibilidades não faltam

Como idéias não faltam – falta, sim, gente com vontade de executar –, entremos no mundo das cooperativas para ver do que se trata e quiçá um simples texto possa ser o motor propulsor que fará com que uma idéia saia da cabeça e tome vida por meio das mãos de algum jornalista-empreendedor.

O mercado de jornalismo não se resume às redações convencionais. O jornalismo não morre em um jornal, uma revista, uma emissora de TV ou rádio. Do texto nasce o script, nasce a matéria impressa e de internet e até o VT; enfim, a informação em geral. Mesmo que digam que em transmissão ao vivo ou in loco o repórter não precisa de armar um texto, é mentira, pois antes de abrir a boca o jornalista ao menos rascunhou o que iria falar.

Dentro desta argumentação, entende-se, pois, que a base do jornalismo é o trabalho intelectual e basicamente o seu berço é o texto.

Por analogia, como um trabalhador da construção civil tem nos seus braços e mãos a sua principal ferramenta de trabalho, que o levará a construir um prédio ou uma casa, o ‘operário das letras’ tem por extensão dos seus braços e mãos a ferramenta do texto; ou seja, a materialização da sua capacidade cognitiva, intelectual, começa no cérebro, passa pelas mãos e, então, ocorre a construção de um texto.

E quantas são as outras coisas que podemos fazer a partir da construção de um texto? Assessoria de imprensa, de comunicação, editoração, revisão, roteiros, livros, pesquisas na área de humanos etc. Possibilidades não faltam.

Captar clientes no mercado

E é justamente tendo o texto como ferramenta de extensão da ‘mão-de-obra operária da palavra’ que o próprio texto vira produto e pode ser comercializado por uma cooperativa de jornalistas. Não é verdade?

A economia solidária é o meio e o fim pelo qual um novo paradigma começa a tomar força e forma ao ser disseminado dentro da área acadêmica e, por conseguinte, a ser posto em prática com o auxílio de incubadoras existentes nas universidades.

Em fase de testes, a idéia da cooperativa para jornalistas poderia ser formatada e ter arestas aparadas com o auxílio das incubadoras que estão distribuídas em diversas universidades do país. Aos que desconhecem como funcionam uma empresas júnior e/ou incubadoras de universidade, ou mesmo queira ter acesso a uma lista delas, mais informações podem ser encontradas aqui.

Retornando ao rascunhado da idéia, conforme exigências legais, vide: Lei nº. 5.764, de 1971, a cooperativa poderia começar pequena, fomentando um mix entre cooperativa solidária e agenciamento de jornalistas da terceira idade, no qual um líder reunir-se-ia em assembléia com outros 20 profissionais, e juntos poderiam captar clientes no mercado para a prestação de serviços que vão além dos triviais.

Um formato inovador

Nos EUA e na Europa , por exemplo, boa parte das redações já trabalha com aquilo que no Brasil conhecemos como PJ (pessoa jurídica). Devido ao trânsito intenso, à falta de tempo e à necessidade que pais têm de permanecer mais tempo com a família, a tendência tem se espalhado em países mais avançados.

A própria tecnologia abriu a possibilidade para a adaptação à realidade contemporânea e criação de equipes virtuais. Tais equipes não deixam nada a desejar àquelas presenciais nas Redações. A única diferença é que a distribuição de OS (ordens de serviços) é pelo sistema online de intranet; as reuniões de pauta, visualização de agenda e escala do dia, entre outros procedimentos, são feitas por meio de vídeo-conferências, e-mail e radiophone, entre outros.

No Brasil, sabemos, inclusive, que os colunistas, geralmente, com mais de 40, nem dão as caras nas Redações do impresso. Assim como os colunistas, os vovôs jornalistas chegaram ao topo da hierarquia e da experiência de vida e não precisam mais ficar, como os focas, produtores de notícias e/ou repórteres, correndo atrás das notícias e ou pautas nas ruas. Eles podem e devem trabalhar em casa.

Acontece que este modelo de prestação de serviços – PJ e sistema de colunistas (RPA ou microempresa) – é individualista e aqui estamos tentando esboçar uma fórmula nova que possa ser adaptada ao conceito da economia solidária.

A Cooperativa dos Jornalistas da Terceira Idade, pois, poderia ser o primeiro passo para preencher tais requisitos e criar um formato inovador. Por meio dela, seria formatada uma carteira de clientes, bem como de prestadores de serviços, e um meio para procurar espaço nas brechas do mercado para os vovôs.

Primeiro tijolo foi colocado

A própria expressão ‘economia solidária’ já fala por si só. A idéia aqui proposta não visa a obter lucros extorsivos ou exploração da mão-de-obra, mas sim, abrir possibilidades de novas frentes de trabalho para jornalistas na terceira idade e, claro, uma forma de pagar as contas da cooperativa.

Para a manutenção dos serviços prestados, os dirigentes da cooperativa poderiam estipular uma taxa anual, ademais de um percentual sobre serviços. Tais percentuais serviriam para cobrir despesas com telefone, aluguel de uma sala, internet, processamento de dados, com visitas aos clientes, contador, impressão de blocos de notas; ou seja, as coisas básicas e necessárias para a administração de qualquer empresa.

Seria a cooperativa, assim, uma espécie de central de distribuição de serviços que objetivasse manter a dinâmica de trabalho viva e que proporcionasse movimento, valorização e elevação da auto-estima do vovô jornalista.

Estando juridicamente em ordem (veja legislação vigente aqui), poderia ainda a cooperativa fornecer nota fiscal para os contratantes, isso sem contar as vantagens para todos os conveniados que são obtidas por meio da integração de forças no sistema tributário; e toda aquela dor de cabeça individual da tributação poderia ser centralizada em um departamento único. Seria vantagem, pois, para o contratado e para o contratante.

Por fim, este texto está ficando enfadonho, longo e indo além de uma ‘ferramenta’ para construir uma idéia. Fato é que o primeiro tijolo, em forma de letras de fôrma, acaba de ser colocado. Que venham, pois, outros jornalistas-empreendedores que queiram também colocar a mão na massa e nos ajudar a construir algo sólido e real para que os nossos queridos vovôs jornalistas se sintam por nós verdadeiramente apreciados e respeitados. E que assim seja por meio daquilo que dá dignidade ao homem: o trabalho.

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Jornalista, estudante de Direito, pós-graduada em Marketing e Administração

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