Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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CADERNO DA CIDADANIA >

Ensino superior não é sinônimo de qualificação

Por Vinícius Ferreira em 26/05/2009 na edição 539

A Lei de Imprensa foi sabiamente anulada pelo Supremo Tribunal Federal. Estudantes de Jornalismo e sindicatos da classe lutam ainda pela obrigatoriedade do diploma. O medo da desvalorização da profissão é colocado cuidadosamente por baixo do dilema da qualidade e da ética.

Médico sem diploma não é médico, logo, jornalista sem diploma não é jornalista? A comparação é interessante ao analisar Medicina e Jornalismo sob um mesmo prisma. Para ser médico é preciso ter diploma porque ele é a garantia de que o médico sabe o que está fazendo, ou seja, compreende e conhece as funções do corpo humano, além de outros conhecimentos técnicos como, por exemplo, saber utilizar a tecnologia para realizar uma cirurgia. Mas estes aparatos só vão acrescentar ao conhecimento humano que o médico desenvolveu durante seus estudos. Imaginem alguém não capacitado operando numa cirurgia. Mesmo que disponha de todos os instrumentos técnicos não conseguirá um bom resultado porque não tem o conhecimento ‘humano’.

No jornalismo, é parecido. Para ser jornalista, é necessário ter uma gama de conhecimento, é uma profissão de ciências humanas e, contudo, o que se vê nas instituições de ensino superior, formadoras de opinião, é o conhecimento técnico sobressaindo ao humano. Assim, o jornalista sai com o diploma na mão e com muito pouco conhecimento humano. Aliás, tentar nadar contra a corrente é sinal de querer ser diferente, quando deveria ser obrigação. Esse tipo de estudante nas faculdades de jornalismo é o ‘do contra’, aquele muitas vezes não compreendido pelos colegas e professores.

Falta de preparo e conhecimento

Jornalistas saem da faculdade sabendo como montar uma página de jornal e revista, sabendo organizar um roteiro para TV e rádio. Entretanto, desconhecendo a história política do Brasil, desconhecendo os autores que pensaram o Brasil. Não desmerecendo saber montar um roteiro ou uma página de impresso, que de fato é muito importante, mas isso é instrumento.

Para conhecer o ‘corpo humano’, o médico estuda cerca de 10 semestres. É impossível alguém que não foi a uma faculdade de Medicina ter o nível de conhecimento específico de um estudante formado porque os conteúdos são realmente segmentados. Quantas pessoas sabem onde se localiza a poplítea? O que é isso mesmo?

A pergunta é: o que é preciso ‘saber’ para ser jornalista? Não tenho a pretensão de respondê-la. Apenas colocarei algumas características que observo e considero importantes para o bom jornalismo. Ao analisar vários veículos, percebi que as matérias parecem ser as mesmas – e não só por causa das agências de notícias, mas pela falta de preparo e conhecimento de quem as escreve.

Ética é a mesma de qualquer cidadão

O conhecimento individual é o instrumento libertador que o jornalista dispõe. Ao cobrir uma pauta sobre educação, o jornalista que conhece Paulo Freire tem aparato a mais de conhecimento para a construção da matéria. Diferente de outro que não conhece e que provavelmente não sairá do bê-á-bá do lide.

Quero dizer que o jornalista precisa conhecer os pensadores, os poetas, os artistas e tudo que venha acrescentar-lhe culturalmente. Desse modo, contesto a idéia do diploma como sendo o único e mais importante canal por onde se obtém esse conhecimento. Na verdade, é apenas mais um, como qualquer outro.

A questão da ética também transcorre nesse eixo. Fala-se de ética como um conceito que fosse único do jornalista, e não é. Um cidadão pode ser tão ou mais ético do que um jornalista e vice-versa. Precisa-se descortinar esse mito, a ética do jornalista tem de ser a mesma que qualquer outro cidadão. Essa mania do jornalista de achar que é melhor que outras profissões tem de acabar.

A qualidade do jornalismo independe do diploma, o jornalismo é muito maior do que isso. Não é a faculdade ou o diploma que dá qualificação, e sim, o conhecimento, não importando aonde este foi adquirido. A obrigatoriedade do diploma difere radicalmente dessa afirmação. Termino com a seguinte frase: também em defesa da qualificação.

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Estudante de Jornalismo

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