Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

Ernesto Rodrigues

23/09/2008 na edição 504

‘(Mona, a Vampiro)

O desenho ‘Mona, a Vampiro’, motivo de preocupação de algumas mães que enviaram emails para a emissora, dividiu as especialistas do Comitê Infanto-Juvenil (*) que auxilia este ombudsman.

A socióloga Livia De Tommasi não gosta do programa e considera pertinente o comentário da telespectadora que, ao condenar o programa, disse temer que ele colocasse ‘minhoca’ na cabeça das crianças. Lívia argumenta:

‘Num pais onde diferentes religiões têm tanto peso e já fazem parte da educação de muitas crianças, principalmente nas camadas populares, acho que não deveríamos colocar mais medos do além e do desconhecido na cabeça delas’.

A psicóloga Silvia Maria Pereira de Carvalho acha que o programa poderia mesmo ser tirado da grade, mas sugere que as crianças também sejam ouvidas. Além de fazer restrições ao traço do desenho, ‘muito carregado nas cores’, Silvia acha que o conteúdo ‘incomoda gregos e troianos’:

‘Aqueles que levam a sério fenômenos paranormais se sentirão agredidos pela forma leviana como tudo é tratado. Do ponto de vista cultural, vampiros, fantasmas, magias, podem dar ótimos produtos se forem tratados com alguma profundidade e sutileza, e não da forma rasa como está no desenho. Temos muitos exemplos de como fazer isto bem, como os filmes ‘o Senhor dos Anéis’ e ‘Harry Potter’, entre outros’.

A artista plástica Stela Barbieri vai na mesma linha. Embora considere ‘Mona’ um desenho ‘mais dinâmico’ e que ‘lida com a fantasia da personagem’, ela acha que o enredo ‘é pobre e não traz nenhum beneficio para as crianças’.

A educadora Gisela Wajskop gosta de Mona e acha exagerado o temor das mães que se manifestaram. Ela alerta para o risco de a emissora ‘didatizar demais’ e argumenta: ‘Quem não se lembra de ter sentado em torno de uma mesa com os amigos e esperar o copo levitar em frente do amigo que contava uma mentira? Acho que o critério deveria ser a ampliação do universo artístico e cultural e não didático-pedagógico’. Para Gisela, ‘a paranormalidade é apenas o mote para agrupar crianças em torno de engenhocas, festas e planos bastante corriqueiros entre as crianças para resolver mistérios a sua maneira’. Ela conclui:

‘É um desenho simples que não tem nada de especial, mas também não compromete. O problema é se for o único na oferta da programação’.

A psicóloga Cenise Monte Vicente também acha que ‘Mona é um programa divertido para a faixa etária que adora brincar de vampiro, definir planos para se proteger e enfrentar os perigosos’. E argumenta:

‘As crianças sabem a diferença entre desenho e realidade e adoram a dimensão teatral que o confronto com vampiros permite’.

(*) – Conheça o currículo das integrantes do Comitê Intanto-Juveni na página do Ombudsman.

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Conheça os pontos positivos e negativos da programação exibida na última semana. Saiba quais atrações da TV Cultura ganharam destaque e as que ainda podem melhorar.

Vassouras cansadas

(Metrópolis, 10 de setembro)

Vale muito a pena ver de novo a simpática retrospectiva da carreira do artista plástico Guto Lacaz, chamado de ‘poema concreto inscrito na metrópole’, no momento em que ele completa 60 anos. Especialmente pelo resgate da antológica performance da ‘revitalização das vassouras cansadas’.

Dueto japa

(Alto-Falante, 9 de setembro)

O Alto-Falante exibiu uma curiosidade musical: uma entrevista em japonês – seguida de uma dobradinha musical no palco do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, durante o Festival Eletrônica – de Fernanda Takai com a Maki Nomyia, ex-Pizzicato Five. A captação de áudio e vídeo não era das melhores, mas não comprometeu o sabor desse encontro raro e simpático que teve até coreografia especial das duas cantoras no palco.

Fernando Meirelles, talento e humildade

(Roda Viva, 9 de setembro)

Os especialistas convidados – Luiz Carlos Merten, Rodrigo Salem e André Nigri – não deixaram que a condição de críticos de cinema os fizesse cair na tentação das perguntas-teses que costumam comprometer o ritmo e o conteúdo do Roda Viva com Fernando Meirelles. E o cineasta, com sua simpatia contagiante e a notória paixão pelo que faz, falou de forma envolvente, franca e bem-humorada sobre criação, mercado, tecnologia, bastidores, polêmicas e mitos do cinema. Vale rever o momento em que Meirelles explica a razão pela qual testa seus filmes em sessões especiais para públicos representativos, antes do lançamento.

Bravo!

(Almanaque Educação, 10 de setembro)

O quadro ‘Quando eu crescer’ mereceu estar logo na abertura do Almanaque Educação, pela ótima interação da atriz Ligia Cortez com o menino Daniel Benoliel Teixeira, no passeio ‘vocacional’ que deram pelas dependências de um teatro.

Além da notícia

(Jornal da Cultura, 10 de setembro)

Em vez de apenas registrar o inegável avanço social representado pela ampliação da licença maternidade sancionada pelo presidente Lula, o Jornal da Cultura foi além, cumprindo seu papel de aprofundar e contextualizar os fatos do dia, ao lembrar que 10 milhões de mulheres empregadas em micro e pequenas empresas que ficam de fora do benefício, passando a fazer parte de uma outra categoria de trabalhadoras.

Faltou explicar

(Metrópolis, 6 de setembro)

A reportagem sobre o novo formato de mídia à prova de pirataria não explicou com clareza qual foi o coelho que o cantor Ralf tirou da cartola. Talvez uma ilustração mais didática ajudasse. A matéria também deixou uma pergunta no ar: se o sistema é tão revolucionário, não seria o caso de Ralf estar ganhando muito dinheiro? O sistema SMD não estaria nas manchetes teconológico-policiais da mídia?

Pega leve, Massaroca…

(Grupo Massaroca, 9 de setembro)

No discurso surpreendentemente sério com que abriu a crônica sobre o que foi chamado de ‘cobertura exagerada da imprensa’, o grupo Massaroca abandonou o humor que o consagra e construiu uma tese no mínimo discutível, que inclui todo o trabalho dos jornalistas nos atentados de 11 de setembro de 2001 na categoria ‘circo’, classificando a movimentação da imprensa como uma ‘maratona de terror’ que teria feito ‘um bom aperitivo para os intervalos comerciais’. Em seguida, ao condenar o notório sensacionalismo que marcou o Caso Nardoni, o Massaroca erra na dose, classsificando o brutal assassinato da menina Isabela como um ‘evento privado’. Mais para o final, já num momento em que a crônica voltava a ser explicitamente humorística, o texto reconhece, ainda que brincando: ‘É tão bom que existam os paparazzi pra conseguir imagens dessas celebridades que adoramos odiar’. Convicto de que humor é coisa séria, este ombudsman, imaginando estar acompanhando pelo menos de parte dos telespectadores, prefere o humor e a graça inteligente da crítica aos paparazzi do que as perigosas opiniões do Massaroca sobre o papel da imprensa nas tragédias da vida.

O fim do mundo

(Jornal da Cultura, 9 de setembro)

O universo pode acabar amanhã, quando o acelerador de partículas europeu começar a funcionar’. Esta manchete de abertura, ainda que imediatamente seguida da pergunta sobre se a afirmação era ficção ou realidade, não foi uma demonstração de equilíbrio jornalístico em relação ao início da experiência com o acelerador de partículas europeu. Afinal, um entrevistado do mesmo Jornal da Cultura, o físico José Goldenberg, minutos mais tarde, consideraria a especulação da manchete uma ‘bobagem’. Melhor talvez fosse usar duas outras informações que estavam no jornal, fortes, sim, mas também rigorosamente apoiadas pelos fatos: a de que a ciência humana está mudando com a experiência do acelerador de partículas ou a de que o esforço para fazê-lo funcionar está sendo muito maior do que o de levar o homem à Lua.

Homenagem a DJ Primo

(Manos & Minas, 10 de setembro)

Para os telespectadores surpreendidos pela morte de DJ Primo e que estavam à espera de uma homenagem especial do Manos & Minas ao artista, deve ter sido no mínimo angustiante acompanhar um programa inteiro passando normalmente, como se nada tivesse acontecido. A homenagem a DJ Primo, no final, foi bonita, claro, mas como nem todo telespectador conhece direito os prazos em que os programas são gravados e editados – como foi o caso do Manos & Minas em questão – talvez tivesse sido melhor fazer a homenagem – ou parte dela – logo no início, deixando absolutamente claro que a perda foi posterior ao show. A propósito, não seria de todo inadequado se, na próxima gravação do Manos & Minas, o programa, além de lembrar DJ Primo, fizesse o que praticamente nenhum veículo da imprensa fez em relação ao caso: dar algumas informações que permitam, aos telespectadores e fãs impactados por sua morte, entenderem o que aconteceu com ele.

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Saídas para o anonimato

(Programação de documentários)

Merece atenção dos responsáveis pela programação da TV Cultura a reportagem de capa do Segundo Caderno do jornal O Globo deste 18 de setembro, autoria de Rodrigo Fonseca e título ‘Nem tudo é verdade’. Não apenas por nos fornecer a desconcertante estatística da participação dos documentários no total dos ingressos vendidos pelo cinema brasileiro em 2008 – apenas 1,2% do total – mas pelo papel que alguns dos entrevistados destinam à televisão, na busca de uma saída para o virtual anonimato dessa modalidade cinematográfica nas salas brasileiras.

A melhor bilheteria do ano em documentários nacionais, segundo o site Filme B, que vistoria o mercado exibidor, foi de ‘O mistério do samba’, da Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda, com 20.456 espectadores em três semanas. O décimo colocado da lista, segundo a mesma fonte, foi ‘Atabaques de Nzinga’, de Octávio Bezerra, com uma platéia total de 164 pagantes.

Há quem diga, como a professora Consuelo Lins, estudiosa do assunto e entrevistada da matéria, que esse desempenho não deveria surpreender. Para ela, os documentários ‘não aconteceram comercialmente, mas fertilizaram esteticamente outras iniciativas documentais’. Outros, como o produtor Paulo Sacramento, acham que ‘documentário é um tipo de filme que não se faz pensando em retorno’.E há os que, como o realizador Toni Ventura, defendem a idéia de que ‘os documentários deveriam ter espaço maior na TV paga, promovidos por uma política cultural firme, visando a um programa de ampliação do conteúdo nacional nos canais estrangeiros’.

É curioso perceber que nenhum dos profissionais entrevistados, mesmo estando com a corda no pescoço em termos de desempenho de público, aponta a TV aberta como saída para o problema. E a explicação pode estar nas declarações de Silvio Tendler, outro entrevistado da matéria e campeão absoluto de bilheteria entre os documentaristas brasileiros, com ‘Os anos JK’ (800 mil espectadores) e ‘O mundo mágico dos Trapalhões’ (1,8 milhão). Transcrevo uma delas:

‘Filmes para a TV exigem formato específico. O documentário precisa é de uma política que o tire do casulo’.

Faço uma interpretação livre da frase de Tendler, citando um documentário sobre o conflito na reserva Raposa Serra do Sol recentemente exibido pela TV Cultura – ‘Luta na terra de Makunaima’, com direção de Luiz Carlos Azenha e roteiro de Aldo Quiroga – como exemplo de filme adequado à TV. E fico pensando: quantos, entre os 114 documentários de longa metragem lançados nos cinemas do país entre 1996 e 2007, teriam impacto e repercussão muito maiores se fossem roteirizados, produzidos, editados e finalizados especificamente para exibição em TV?

Qualquer que seja o palpite, a televisão pode, sim, ser a saída para boa parte dos documentários que hoje são praticamente ignorados nas salas do país. Mas desde que seja respeitada uma pré-condição que nem sempre é levada em conta, por mais óbvia que seja, até, por exemplo, entre os que decidem o conteúdo da programação da TV Cultura: a de esses documentários sejam feitos especificamente para a TV.

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O simpático matador

(Roda Viva, 16 de setembro)

Um Roda Viva clássico, com todos os ingredientes que consagraram o programa, deixou claro porque o brasileiro Carlos Ghosn é presidente mundial dos grupos Renault e Nissan. Apesar do apelido de ‘matador de custos’ e do fato de ser um dos ícones de uma indústria não muito admirada nesses tempos de aquecimento global e de dívidas por emissão de carbono, Ghosn certamente provocou, em muitos telespectadores, o mesmo impacto positivo que provocou na bancada de entrevistadores convidados, por sua inteligência e pela maneira franca e aberta com que respondeu a todas as perguntas, incluindo as mais críticas.

Liderados com eficiência por Lillian Witte Fibe, os entrevistadores Sônia Racy, Guilherme Barros, Marli Olmos e Bóris Feldman – este último um competente especialista do jornalismo automobilístico – contribuíram para que o programa fosse interessante do começo ao fim, ao abordar questões como os desafios da crise americana, a segurança dos veículos, o impacto dos automóveis na qualidade de vida das grandes metrópoles, a decisão de Ghosn de demitir 20 mil empregados da Nissan de uma só tacada, a chegada do carro elétrico não poluente ao mercado, o ritmo insustentável de crescimento da indústria automobilística brasileira, as origens do entrevistado em Rondônia, sua relação com os filhos, a Fórmula 1 e a lei seca do trânsito.

A simpatia foi tanta que faltou alguém perguntar um pouco mais sobre a responsabilidade das montadoras com a segurança dos carros – como a introdução de airbags e freios ABS em todos os carros, independentemente do preço – quando Ghosn disse que o principal quesito de segurança é ‘a educação do motorista’. E sobre como vai estar o planeta em 2050, quando, segundo ele disse na maior tranquilidade, a ‘população’ de automóveis terá saltado dos atuais 600 milhões para 3 bilhões de veículos.

Outros pequenos reparos vão para a reportagem de apresentação de Ghosn, que poderia ter sido mais enxuta ou pelo menos dividida em duas, com a segunda parte sendo exibida na abertura do segundo bloco, para uma crase indevida de Paulo Caruso em uma das charges (‘Homem movido à álcool’), que passou mesmo se tratando de um programa gravado em 25 de agosto e, mais uma vez, para a lamentável ausência de pessoas na bancada superior do cenário.

Vale também registrar, apenas com o objetivo de enriquecer, com fatos, a discussão sobre o que há de real (e há) e o que há de imaginário (e também há), quando se trata do poder dos anunciantes sobre os conteúdos da mídia impressa e eletrônica brasileira: Carlos Ghosn é presidente mundial dos grupos Renault e Nissan. São empresas concorrentes, portanto, da Citroen, que patrocina o programa Roda Viva juntamente com a Shell, o Bradesco e a Bunge. E não há notícia de que essa circunstância tenha sido um problema.’

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