Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CADERNO DA CIDADANIA > ATRAÇÕES & FATURAMENTO

“Especiais”, factóides e picaretagem

Por Alberto Dines em 28/08/2007 na edição 448

A matéria mais destacada e mais apelativa da primeira página da Folha de S.Paulo de domingo (26/8) foi o especial ‘Melhores hospitais de SP segundo os médicos’, pesquisa com a chancela do Datafolha.


Não cabe questionar aqui a validade estatística da pesquisa (‘inédita’, segundo o jornal), nem o ranking por ela produzido, mas cabe refletir sobre um gênero de jornalismo perigosamente próximo da publicidade e hoje praticado sem qualquer pudor por grandes e pequenos veículos.


Com algumas matérias assinadas por repórteres da equipe permanente, outras por colaboradores contratados e a maioria simplesmente creditada à ‘Reportagem local’, o caderno de 22 páginas tem tudo para parecer um produto eminentemente jornalístico.


Não é. Todos os anúncios são de empresas ligadas à indústria de saúde, o que denota a origem do projeto: ele não saiu da Redação, como uma prestação de serviços ao leitor; foi gerado no departamento de publicidade, para aumentar o faturamento.


As matérias são corretas, mas a pauta foi concebida para atender a clave promocional, ‘tudo maravilha’. O único título em que aparece a palavra ‘morte’ refere-se aos pronto-socorros da rede pública. A única matéria crítica sobre o serviço hospitalar (tema do caderno) é sobre o Hospital do Câncer, que é público. A outra refere-se aos planos de saúde, mas a visão crítica é soft, oferecida pelos médicos entrevistados e não pelos usuários – o que certamente resultaria numa matéria com altíssimo teor de indignação.


O leitor ganhou? Pouco. De nada lhe adianta saber qual é o melhor hospital de São Paulo se o seu plano de saúde, como costuma acontecer, o encaminhar a outro, da segunda linha.


O jornal ganhou? Pouco. Num sábado ou dia útil, com uma tiragem menor, a despesa poderia empatar com a receita. O ônus da aposta neste tipo de projeto é incalculável. Paga-se um preço alto pela opção de esmagar o assunto principal, jornalístico (‘Brasil vira paraíso de megatraficantes’), com uma foto promocional, desmedida, no alto, aberta em toda a largura da primeira página.


A Folha não mentiu, apenas criou um factóide. Pelo menos, não foi beneficiada pelo dinheiro do contribuinte.


 


Senso moral


CartaCapital fez praticamente a mesma coisa em sua edição de 22/8, na qual anunciou o início de nova atração jornalística, ‘Retrato do Brasil’, primeiro da série de cadernos sobre energia denominado ‘O colossal Brasil’. Diferencia-se da Folha na origem da publicidade – é toda chapa-branca, isto é, paga com o dinheiro da viúva (BNDES, Caixa Econômica, Petrobras, Eletropaulo, prefeituras de Santo André e Guarulhos). A coisa vai render: neste ano sairão mais seis cadernos e em 2008 a freqüência será mensal (‘sem excluir a possibilidade de que possa ser apressada’).


Como negócio, em teoria, muito melhor do que o da Folha. Como fato político-jornalístico, desastroso. Mostra que o carro-chefe da imprensa alternativa não se diferencia da chamada grande imprensa. Ao contrário: usa os mesmíssimos métodos e com o dinheiro da viúva.


O leitor da revista perceberá o trambique? Claro que não: as duas páginas contra o Grupo Globo (págs. 14-16, em cima do anúncio das novas atrações) acalmam o seu senso moral. E seguirá em frente, todo lampeiro com mais esta comprovação de que os fins justificam os meios.

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/09/2007 Paulo Bandarra

    Pois é, industriário Carlos N Mendes, não seria legal que os próprios cubanos pudessem referendar livremente isto que o ditador diz que eles pensam, come e acham? Sem irem para a cadeia quando o desmentem, ou morrerem tentando fugir pelo mar? Eu considero uma vergonha um país que possui o mesmo ditador enquanto numa democracia detestável, para você, trocou livremente 11 lideres! Isto mostra apenas que só ouvimos Fidel, e nunca ouvimos, de verdade, o povo cubano se manifestar por si! Prova irrefutável de que ele não é livre e nem feliz, por isto que o velho fascista não permite e nunca permitirá a sua livre manifestação! Quando cair a ditadura fascista em Cuba é que vamos descobrir o tamanho do seu sofrimento e martírio, que os daqui ignoram e aplaudem!

  2. Comentou em 01/09/2007 Gabriel Sitônio

    Quem aqui se interessa pelo que você acha ou não acha da imprensa como seu observador. Para mim você A.D. não pode se portar como um Observador da Imprensa. Pra mim seu papel de Observador não me passa mais nenhuma credibilidade. Você, como Observador da Imprensa está mais perdido do que cego em tiroteio. Não tem mais moral para falar desse ou daquele veículo, desse ou daquele jornalista. É uma pena.

  3. Comentou em 31/08/2007 Célio Mendes

    Dines trabalha para TVE, a TVE é uma emissora do Estado de SP, o estado de SP é governado por tucanos, os tucanos conduzem a obra que foi para o buraco, Dines nada fala sobre a cratera do metrô, o OI é patrocinado pela Odebretch, uma das empreiteiras que participa da obra que acabou no buraco, o OI não fala no assunto, sera que os leitores estão percebendo o trambique?

  4. Comentou em 31/08/2007 Marco Antônio Leite

    Não existe Hospital melhor ou pior, o que necessitamos é de uma boa saúde, a qual encontramos numa alimentação de primeira, bom emprego, com salário digno, cultura, educação e congêneres. Um povo pobre não tem saúde, não tem saúde não produz, não produz não tem emprego, não tem emprego pôr falta de saúde. Portanto, trata-se de um circulo vicioso, se tenho saúde, tenho um bom emprego, com bom salário e produzo muito em quantidade e qualidade. Pôr isso, não existe hospital de primeiro ou terceiro mundo, medicina se faz através da prevenção, se o cidadão chega doente alguma coisa não esta indo bem.

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