Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA > VIVER A VIDA

Espetáculo de contendas e prazeres

Por Julio Gonzaga em 17/11/2009 na edição 564

Viver a vida é o título da nova novela da Globo, escrita por Manuel Carlos. A TV carioca, consolidada na lama da ditadura militar, intensificou a disseminação de programas e novelas com esse espírito de sacanagem geral, explorando condutas desenfreadas, além de instintos animais que destroem os mais sensíveis valores da pessoa humana. Assim, a nova dramaturgia apresenta a vida como um parque de diversões, onde os brinquedos são litígios familiares e expressões proverbiais calculadas, reveladoras de uma ânsia de se aventurar em traições e carros de luxo. Propaga-se o espetáculo de contendas e prazeres imediatos.

Um dos protagonistas curte apaixonadamente sua lua-de-mel em Paris, declarando amor incondicionado à donzela recém-casada. Dias depois, subitamente, exterioriza desejo por outra mulher que acha favor aos seus olhos. Noutra cena, disponibiliza seu helicóptero ao advogado, porquanto o trânsito do bairro Leblon estava muito intenso naquela tarde. Uma esposa sexualmente insatisfeita pede o conselho da amiga para opinar se deve tirar a aliança na hora da consumação do pretenso adultério. Ao final da conversa, ambas riem das transgressões pactuadas. Estas são situações que, embora fictícias, corroem o sentimento de bom senso e equilíbrio, tão preciosos nos dias atuais, a estimular a grande massa de espectadores a se divertirem diariamente perante sujeiras apresentadas com ar cômico. É um show de emocionalismo impulsivo. Ninguém é de ninguém.

Circos virtuais

Ademais, no final de todo capítulo há uma pessoa escolhida dentre as camadas baixas da sociedade retratando os infortúnios e superações de sua trajetória. Assim, pretende a novela passar uma mensagem hipócrita de reflexão sobre os sofrimentos contemporâneos. Depois de tanto despudor vivido pelos personagens da alta burguesia, desfecha com uma entrevista final que traduz a realidade fática da população, com o intuito de insidiosamente se furtar das luxúrias e soberbas veiculadas momentos antes.

Winston Churchill, primeiro-ministro britânico à época da II Guerra Mundial, declarou em uma de suas célebres frases que ‘a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as demais’. Com efeito, é certo que um Estado Democrático de Direito tem de suportar as conseqüências negativas da liberdade de expressão, manifestada em suas variadas vertentes. Entretanto, não podemos prescindir do fundamento basilar da República Federativa do Brasil, qual seja, a dignidade da pessoa humana, a qual se vê maculada com cenas televisivas de baixo nível. Incumbe à coletividade coibir estes circos virtuais transfigurados de entretenimento, altamente nocivos à moral e aos bons costumes.

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Estudante de Direito, Marília-SP

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