Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > CINEGRAFISTA AGREDIDO

Esquizofrenia liberal no Pará

Por Lúcio Flávio Pinto em 03/04/2006 na edição 375

No dia 8 de fevereiro o Jornal Nacional, da TV Globo, retransmitido em Belém pela TV Liberal, exibiu imagens produzidas pela sua afiliada mostrando que a Auto Escola Modelo, de Belém, participava de um esquema fraudulento para fazer a mudança de categoria da carteira nacional de habilitação, sem que o motorista precisasse, como manda a lei, se submeter aos cursos obrigatórios de direção defensiva e de primeiros socorros. Esse esquema funcionava dentro do próprio Detran. Comprovada a denúncia, a escola foi descredenciada.

Um mês e meio depois, o proprietário do Centro de Formação de Condutores Auto Escola Modelo e seu filho se vingaram da reportagem atacando o cinegrafista Jorge Laudimar, da TV Liberal, espancando-o dentro do estacionamento do Departamento Estadual de Trânsito, ao lado estádio de futebol Mangueirão. Depois de dar socos e pontapés no profissional, rasgando-lhe a camisa, pai e filho o advertiram para ele e sua família tomarem cuidado porque poderiam até morrer. E foram embora sem ser impedidos ou sequer incomodados, embora o estacionamento se encontrasse lotado naquela ocasião, inclusive com vigilantes que fazem a segurança no local. O cinegrafista não recebeu qualquer tipo de ajuda e precisou chamar a polícia.

Não sei o que fez ou pensou o colega quando fui agredido, em situação bastante parecida, por Ronaldo Maiorana, que é seu patrão, como um dos proprietários da TV Liberal. Mas presto-lhe total e irrestrita solidariedade, não só em virtude da agressão covarde, como por não ter dúvida alguma de que se trata de atentado à liberdade de imprensa. O grupo Liberal, que neste caso aparece como vítima, esqueceu completamente, ao noticiar o fato, de que é algoz no meu caso. Procede como vítima com argumento que se recusa a aceitar quando é o autor da mesmíssima agressão. Quando sofre, trata-se de violação à liberdade de imprensa. Quando causa o sofrimento, é simples ‘rixa pessoal’.

Assim procedendo, o grupo parece criar sua versão própria do brocardo jurídico segundo o qual o que não está nos autos não está no mundo. Da mesma forma, quando não noticia um fato ou quando sabota um personagem, o grupo Liberal parece acreditar que tanto um quanto outro não existem. O caso é clínico, mas o paciente não se dá conta de sua condição patológica, Fica muito mal na foto.

Cobertura caolha

A notícia sobre a agressão de Jorge Laudimar foi publicada discretamente na edição do dia seguinte, 25, de O Liberal, e no caderno de polícia (quando, por se tratar de crime de imprensa, contra um funcionário da empresa, devia ter saído nos dois primeiros cadernos, em ‘Atualidades’ ou no ‘Painel’). A expressão ‘cinegrafista’ aparece 12 vezes no texto, mas nenhuma vez é dado o nome do agredido.

Na abertura da matéria, Jorge, um antigo funcionário da TV, que nela começou como contínuo, é apontado como ‘um repórter cinematográfico da Televisão Liberal, que trabalha para o Núcleo da Rede Globo, no Pará’. E permaneceu anônimo até o fim, em situação pior do que a do agressor, que pelo menos é tratado pelo seu primeiro nome, Mário. No dia seguinte o assunto foi esquecido e não voltou mais às edições do jornal.

Tudo muito estranho, embora coerente com a postura editorial tíbia do grupo Liberal, quando uma questão mais polêmica envolve seus servidores. Como denunciou este jornal na sua edição passada, O Liberal suprimiu o nome de um dos seus mais antigos e conhecidos repórteres, Carlos Mendes, da relação de cinco pessoas que receberam a solidariedade da Assembléia Legislativa do Estado em relação aos ataques do grileiro Cecílio do Rego Almeida, declarado, pelos deputados, persona non grata ao Pará.

No caso de Jorge Ludimar, tão explicitamente deixado de lado, o jornal parece preocupado em ressaltar que a TV não é responsável pela acusação veiculada no Jornal Nacional contra a auto-escola, já que o cinegrafista ‘trabalha para o Núcleo da Rede Globo, no Pará’.

Recentemente a TV Globo interveio no jornalismo da sua afiliada, mandando um novo jornalista, Álvaro Borges, para chefiar o jornalismo em lugar de Emanoel Vilaça, há muitos anos no cargo e cuja atuação vinha desagradando crescentemente a Globo. A emissora também dissociou completamente sua cobertura jornalística no estado da pauta da sua afiliada, como já fizera na Bahia em relação à emissora do senador Antonio Carlos Magalhães.

O inusitado noticiário de O Liberal sobre a agressão do cinegrafista tem alguma coisa a ver com essas mudanças?

Já a cobertura na própria TV Liberal foi mais ampla e incisiva. A matéria exibida no Bom Dia, Pará e na primeira edição do Jornal Liberal até procurou situar o fato num contexto mais amplo. Reproduziu levantamento feito pela Federação Nacional dos Jornalistas, com base em informações do sindicato local, mostrando que o Pará foi, no ano passado, o segundo Estado que mais registrou agressões a jornalistas. Junto com Tocantins, teve seis ocorrências desse tipo. São Paulo liderou a estatística, com 12 casos.

Nesse total de seis agressões em 2005 está incluído o meu caso. Evidentemente, esse detalhe foi omitido pela emissora, que também não disse que seu proprietário, Ronaldo Maiorana, contribuiu para colocar o Pará nesse desonroso segundo lugar nacional. Informação não é o forte do grupo Liberal. Ele a agride.

Campeão da violência

Levantamento preliminar feito pela Comissão de Direitos Humanos da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) encontrou 64 casos de violência contra jornalistas registrados no ano passado no Brasil. Seis deles foram no Pará, que ocupou o segundo lugar no ranking nacional, junto com Tocantins. A soma dos dois Estados iguala a de São Paulo, líder em violência contra jornalistas. Mas como a população de São Paulo é quase seis vezes maior do que a do Pará, que, por sua vez, tem cinco vezes mais habitantes do que Tocantins, nosso Estado é, proporcionalmente, o lugar onde mais se agride jornalistas. Ronaldo Maiorana, que é jornalista e advogado, contribuiu para tornar a vida dos seus colegas de profissão mais difícil, arriscada e violenta.

Os seis casos de violência do levantamento incluem duas agressões (uma das quais é a minha, cometida pelo diretor do grupo Liberal), dois assédios judiciais, uma ameaça e uma censura. Os números definitivos serão divulgados oficialmente dentro de duas semanas.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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