Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > FALA QUE EU TE ESCUTO

Evangélicos repudiam criminalização da homofobia

Por Marcelo Hailer em 03/04/2007 na edição 427

Na madrugada de segunda (26/03) para terça-feira (27/03), foi ao ar mais uma edição do programa televisivo evangélico Fala que eu te escuto com o seguinte tema: ‘Homossexuais – o projeto de lei significa censura para a família ou justiça para os gays?’

O projeto em questão é o PL 122/06, de autoria da ex-deputada Iara Bernadi, que criminaliza qualquer ato de constrangimento ou cerceamento de relações homo-afetivas em locais públicos, com punição de dois a cinco anos de cárcere para o infrator.

O que se viu e ouviu na seqüência foi xucro, pra dizer o mínimo. O argumento usado pelos pastores de plantão foi o seguinte: esta lei seria uma censura à família natural, um privilégio para uma minoria e a maioria da população é contrária a tal idéia e que essa é mais uma lei que não vai pegar. Essas coisas eram ditas com teor de indignação e deboche em vários momentos.

O engraçado – se é que há alguma graça nisso – é que os apresentadores se contradisseram, pois a própria chamada era ‘Justiça para os gays’, embora, em momento algum tenha sido dito isso. Ficaram a falar da família e em momento algum se relataram ou comentaram os recentes ataques a homossexuais ocorridos na capital paulista, não se falou sobre os transexuais que são assassinados na madrugada por homens que muitas vezes são heterossexuais. E ainda usaram a bíblia como defesa – no colégio, quando tinha educação moral, aprendi que Deus é amor, e não ódio.

Os depoimentos

Pior foi no momento em que colocaram depoimentos externos, participantes por telefones e internautas. A seleção era óbvia: todas as pessoas que participaram por telefone saudavam o apresentador pastor, diziam da igreja que eram, outros até conheciam o ilustre ‘bispo’ e, após as trocas de amenidades, vinha o racismo e o preconceito. Eis alguns depoimentos:

** ‘…direito dos homossexuais… Como se explicaria a banalização de dois homens trocando carícias?…’

** ‘Esta lei é discriminatória, é uma lei que tira o direito da família.’

** ‘Deveria ser proibido a essas pessoas andarem de dia nas ruas. Eles são coisas do demônio.’

** ‘Uma lei nojenta e absurda, uma lei pecaminosa, que destrói toda a sociedade, que vai permear pela educação. Esse debate deve ser destruído de qualquer maneira. Devemos nós, cristãos, nos unir. É uma versão moderna de Sodoma, censura as famílias, a evolução. Censura total à família.’

Sarcasmo e ironia

Agora fica o seguinte no ar: mesmo sendo um programa ligado a uma igreja – Universal do Reino de Deus –, assim como os outros canais, ela detém uma concessão pública, tem um compromisso de dialogar com ambos os lados, religiosos ou não, heterossexuais ou não, e não apenas escutar os fiéis, que seguem dogmas contrários à união de pessoas do mesmo sexo. O apresentador João Kleber perdeu o seu programa por motivos similares: racismo, preconceito e sexismo.

As barbaridades foram inúmeras. O assunto foi tratado como uma escolha, e não como algo natural. Disseram ainda que, por ser uma escolha, não teria que ser protegido pela lei e, então, fizeram uma comparação terrível: ‘o negro não escolhe ser negro, mas o gay escolhe essa vida’. Em dado momento o pastor que dirigia o show disse: ‘Tem um monte de homossexuais ligando: bravos, xingando, mas aqui não vão falar, não, não adianta ficar nervoso’. Disse isso com um sorriso sarcástico no canto dos lábios e com outras risadinhas de fundo. E, no momento da oração, soltou a pérola: ‘Não condenamos o homossexual, condenamos, sim, o homossexualismo’. Cadê a diferença?

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Jornalista

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