Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > ABORTO NA MÍDIA

Falta falar com as interessadas

Por Ligia Martins de Almeida em 07/08/2007 na edição 445

O aborto voltou a ser assunto na semana que passou. Na sexta-feira (3/8/2007) o Estado de S.Paulo publicou uma pesquisa que mostra que 20% das mulheres no Norte do país já abortaram, usando métodos inseguros. No dia seguinte (4), o mesmo jornal divulgou o resultado de uma pesquisa do Ibope sobre o aborto, feita quatro dias depois da visita do papa Bento 16 ao Brasil. O resultado: 59% dos entrevistados discordam da igreja católica e admitem aborto em certos casos.

Nas duas matérias, falta um dado essencial: o que leva as mulheres a colocar em risco a própria vida e praticar um aborto inseguro? Esta seria uma boa pauta para os jornais, preocupados com o tema aborto desde que o ministro da Saúde abriu o debate sobre o assunto ao propor um plebiscito nacional sobre o tema.

Adolescentes em risco

Se a imprensa está realmente interessada em discutir o aborto, e sua eventual legalização, seria oportuno descobrir se, afinal de contas, as mulheres fazem aborto por opção ou por falta de opção. As sugestões de pauta estão nas matérias publicadas, é só querer ver.

** ‘O aborto inseguro – e as complicações à saúde da mulher decorrentes dele – reflete o perfil que a desigualdade social e econômica tem no Brasil: há o dobro de casos nas regiões mais carentes e ocorre com três vezes mais freqüência entre mulheres negras e pobres.’ (O Estado de S.Paulo)

** O estudo (‘Magnitude do aborto no Brasil’) indica que, em 2005, foram feitos cerca de 1 milhão de abortos ilegais no país. Pela estimativa, nas regiões Sul e Sudeste (com exceção do Rio), as taxas ficam abaixo de 20 abortos induzidos para cada cem mulheres de até 49 anos. Nos Estados do Norte e do Nordeste (exceto Rio Grande do Norte e Paraíba), os índices ficam acima de 21 abortos por cem mulheres. No Acre e no Amapá, chegam a até 40 abortos feitos ilegalmente para cada cem mulheres em idade fértil.

** Quando o estudo analisa apenas a faixa de adolescentes entre 15 e 19 anos, as proporções se repetem, sendo maiores nos estados mais pobres. O mesmo acontece quando se analisam as mortes provocadas por complicações do aborto feito em casa ou em clínicas clandestinas.

Métodos contraceptivos

O que estes três itens mostram, e a imprensa deveria discutir, é que há uma grande diferença entre aprovar – ou não – o aborto e ser obrigada a praticar um aborto inseguro, seja por razões financeiras ou por pura falta de conhecimento.

A imprensa poderia prestar um serviço melhor ao público se mostrasse por que lugares isolados – tanto do ponto de vista dos serviços públicos como da informação – o aborto inseguro acaba se tornando a única opção para as mulheres pobres que têm uma gravidez indesejada.

Seria elucidativo discutir, com essas mulheres, por que elas preferem correr o risco de morrer a levar adiante a gravidez. E perguntar se elas já ouviram falar em métodos de contracepção como pílula anticoncepcional, DIU, preservativos etc.

E, é claro, se são a favor do aborto. Afinal, elas são as maiores interessadas. E as grandes vítimas.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/08/2007 André Martins

    Felipe Faria, discordo de que esse debate deva ser essencialmente de natureza moral, acho que deveria envolver principalmente questões biológicas, sociais e financeiras.

  2. Comentou em 10/08/2007 Felipe Faria

    Mas é um debate moral, fundamentalmente um debate moral. Como as sociedades humanas nestes últimos 100 mil anos tem tratado seus mortos, seus idosos, seus inválidos e a questão do aborto. Se há uma progressão, para que lado ela se dá?

  3. Comentou em 10/08/2007 André Martins

    Paulo Bandarra, não tenho certeza de que existe uma conspiração a favor do aborto que esteja excluindo as mulheres. O que acho que está faltando é a imprensa ir atrás das mulheres que já fizeram um aborto para ouvir a história delas, não acho que os mais indicados para dar pitaco sejam bispos católicos ou ativistas dos direitos humanos. Entendo que seja doloroso para elas se exporem, talvez por isso não tivemos nenhum comentário aqui. Mas a imprensa tem a obrigação de tentar ouví-las. A resposta que está clara para mim é que muitas mulheres são a favor do aborto tanto que o fazem, pode ser 50 mil, 500 mil ou 1 milhão. Mas o que não podemos fazer é ignorar a realidade nem travar o debate com argumentos religiosos ou morais. Porque estes cada um tem os seus. Além disso, o aborto, quando liberado, geralmente é restrito a fetos de até 12 semanas que estariam em estado similar à morte cerebral, o que também habilita uma pessoa a ter seus orgãos retirados para transplante. Continuo achando que o poder público não dá o suporte necessário que justifique obrigar as mulheres a levarem termo uma gravidez indesejada.

  4. Comentou em 07/08/2007 Paulo Bandarra

    Eu diria, Felipe Faria, que não é o principal interessado, mas a verdadeira vítima! Como repito, é perguntar ao pai detentor do pátrio poder, se ele quer sustentar o filho ou descartá-lo, para não carregar este incômodo! Estas vidas virão a faltar daqui a alguns anos quando estas mulheres hoje, quanto idosas, sentirão falta de quem trabalhe para manter os velhos em número muito maior na sociedade!

  5. Comentou em 07/08/2007 Thiago Conceição

    O maior interessado é a vida que destroem. Você gostaria de ter sido abortada? Pois é, falam tanto de direito das mulheres e coisas ruins que acontecem com as que praticam aborto, mas nada se fala do direito da criança à vida. Aborto é infanticídio.

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