Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > DEFICIENTES VISUAIS

Faltam livros em Braille no país

Por Gisele Pecchio Dias em 27/04/2004 na edição 274

As edições de livros em Braille no Brasil não são significativas. Os deficientes visuais não têm opções suficientes de autores e títulos e a solução para esse problema parece estar longe, pelo menos enquanto perdurar o desinteresse do mercado editorial.

O serviço de impressão em Braille da Fundação Dorina Nowill para Cegos, o maior dos quatro fornecedores especializados nesse tipo de impressão no país – todos ligados a instituições sem fins lucrativos –, informa que imprime 9 milhões de páginas em Braille por ano, entre livros, revistas, cardápios, letras de música e textos diversos. Se dividirmos essas páginas entre os cegos brasileiros, cada um ficará com apenas 0,15 página por dia.

As editoras comerciais poderiam investir nesse segmento mas não o fazem por medo de comprometer o seu lucro. Alegam que as máquinas para esse tipo de impressão são muito caras. As escolas especializadas na educação de cegos, por sua vez, reclamam a falta de livros para atender a expressiva demanda. Os títulos infantis são raros e, até recentemente, antes da imposição da lei, as editoras se recusavam a ceder seus títulos à transcrição em Braille às poucas escolas que se dedicam à educação de cegos no Brasil.

Pela primeira vez o Ministério da Educação autorizou a transcrição em Braille de vários títulos, que já estão à disposição na rede de ensino público. Mesmo com esse importante investimento do governo federal, a demanda ainda não foi atendida plenamente. Visitando as bibliotecas públicas e as instituições que mantêm programas de assistência ao cego, constatei que faltam títulos, especialmente para o público infanto-juvenil. E é claro que isso prejudica o aprendizado das crianças. Além dos livros gravados em fita, elas precisam treinar a leitura, por meio do tato.

Nariz de palhaço

Ora, se há demanda reprimida o que está faltando mesmo é vontade, até nos autores que ostentam em suas biografias a vendagem de milhões de exemplares. Quantos desses já usaram o seu prestígio para influenciar a indústria do livro a olhar com mais atenção para os excluídos do sistema? Será que tudo precisa girar em função do lucro? Não haverá espaço para ideais mais elevados nesse balcão de negócios em que se debruça a cultura nacional?

Monteiro Lobato dizia que ‘um país se faz com homens e livros’. Podemos acrescentar que onde faltam homens com o voluntarismo e o espírito público do Lobato sobram oportunistas e mercadores, ávidos pelo lucro, inclusive no serviço público. Uma distorção de finalidade gravíssima e muito comum nos dias de hoje, onde se admite a cobrança de multa de 10% por atraso de um dia em impostos como o IPTU.

Na abertura da 18º Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o presidente Lula teve a coragem de interpretar o texto escrito para ele, por algum marqueteiro, comparando o hábito da leitura com a corrida na esteira. Só esqueceu de lembrar que os milhões de brasileiros que o elegeram, na esperança de serem finalmente incluídos no sistema, ficaram do lado de fora da Bienal. Não pela ausência de condicionamento à leitura, mas por falta de dinheiro, mesmo. E o que dizer aos escritores alternativos, que pagam as mesmas taxas pagas pelas editoras para registrarem as suas obras na Câmara Brasileira do Livro e, na hora da festa, ficam do lado de fora, com nariz de palhaço?

Os leitores de livros em Braille e para visão subnormal (aqueles impressos com letras grandes) também ficaram sem opções nessa Bienal. Se não por ideais elevados, porque reconhecemos quais são os valores que movem essa engrenagem, que é a mesma desde os tempos do Lobato, que a entrada das editoras nesse segmento seja então por uma questão de mercado.

Mais e melhor

Está na hora de botar sebo nas canelas porque vem aí uma turminha de leitores para lá de especial, ávida por experimentar a leitura pelo toque dos dedos. São crianças, muitas delas com dificuldade de aprender em Braille por falta de treino. Faltam livros transcritos em Braille. Faltam desenhos com relevo e texturas nesses livros. Falta amor pelo semelhante. Falta coragem para desgrudar os cotovelos desse balcão de negócios e enxergar o lado de fora, aquele onde estão o contribuinte e o escritor com nariz de palhaço.

Para redigir esse artigo, pedi números sobre a deficiência visual no Brasil ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), onde trabalham brasileiros que fazem pesquisa e estatística, em vez de utilizar indicadores de organismos internacionais. É preciso parar de valorizar somente o que vem de fora e dar credibilidade aos brasileiros, para motivá-los a trabalhar ainda mais e melhor pelo desenvolvimento do país.

Em 169.799.170 pessoas de pessoas pesquisadas na amostragem do IBGE para o censo de 2000, foram registrados 16.573.937 deficientes visuais – ou seja, 9,76% da população pesquisada. Destes, 159.823 são cegos (0,96%), 2.398.471 possuem dificuldade permanente de enxergar (14,47%) e 14.015.641 têm alguma dificuldade permanente de enxergar (84,56%).

Em relação à população brasileira pesquisada, são cegos 0,09% do total, 1,41% possui grande dificuldade permanente de enxergar e 8,25% têm alguma dificuldade permanente de enxergar.

Beleza eterna

Outro caso que ilustra a pouca valorização dada aos elementos que formam a cultura nacional é o desprezo dedicado às personalidades ilustres da nossa história. O ensino do Braille foi introduzido no país por um brasileiro chamado José Álvares de Azevedo, que nasceu cego e estudou pelo método Braille na França. Filólogo, poeta e escritor, o patrono da educação de cegos no Brasil deixou poemas e livros que eu jamais pude ler e apreciaria saber onde estão. Considerado o primeiro professor cego do país, Azevedo faleceu aos 20 anos de idade, no Rio de Janeiro, em março de 1854, seis meses antes da inauguração da primeira escola de cegos – fundada por ele e que jamais teve o seu nome. Ainda hoje esta escola é conhecida como Instituto Benjamin Constant.

Betinho, como era chamado o sociólogo Herbert de Souza, outro brasileiro notável, cujo nome precisamos lembrar sempre porque ele dedicou a sua vida à ação social e à inclusão, dizia que por meio da cultura, da emoção e da inventividade podemos fazer as idéias evoluírem.

Já que não posso finalizar esse artigo com um texto de José Álvares de Azevedo, porque jamais me foi dada a possibilidade de conhecer a obra deste brasileiro a quem devemos tanto, transcrevo abaixo um poema da estudante gaúcha Isaura Gisele, hoje com 11 anos:

‘Com o teu sorriso, o teu amor, o teu abraço, a tua vida
Com o teu carinho e o teu jeito especial de ser, me iluminas com uma luz que
nem a mais brilhante estrela possui, porque me mostras e me ensinas o lado
belo da vida.
Não preciso ver-te, pois sinto a tua alma, capto coisas que não podem ser
vistas, apenas sentidas.
Não vejo a tua beleza exterior, que é efêmera, mas sinto a tua beleza
interior, que é eterna …’

******

Jornalista, autora do livro infantil Um par de asas para Toby, transcrito em Braille para distribuição gratuita nas entidades que trabalham com educação de cegos, nas quais realiza palestras e oficinas de leitura gratuitas; e-mail (gisele.jorn@uol.com.br)

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