Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > FIM DE SEMANA, 7 E 8/01

Folha de S. Paulo

10/01/2006 na edição 363



CRISE POLÍTICA
Carlos Heitor Cony

Faixa de ouro

‘Há quem considere dramática a falta de assunto na mídia em geral. Evidente que há fatos e situações que merecem noticiário, comentário e até mesmo polêmica, como a lambança do PT e do governo, o que ocupa a mídia há mais de seis meses e, embora arrefecendo a cada dia, ainda dará caldo por outros tantos, pelo menos até a campanha eleitoral engrossar.

Desastres pessoais ou coletivos e crimes de repercussão também se desdobram, às vezes à exaustão. Dirão: a mídia não tem culpa, a realidade é assim mesmo, chata e, quando não é chata, é dramática. Que fazer?

Daí que me admira a facúndia com que, de tempos em tempos, se descobre um assunto que não é crime, tragédia, corrupção, doença de figuraço, polêmica sobre isso ou aquilo. Assuntos neutros, que não fedem nem cheiram, mas revelam a necessidade de manter ‘a sociedade informada’.

Uma dessas informações à sociedade que rolou na semana passada foi a nova faixa presidencial, que terá não sei quantos fios de ouro e ornamentará o peito dos futuros presidentes.

Não tenho opinião formada sobre os adornos do poder. O papa anda vergado ao peso de paramentos e brocados. Reis e rainhas também. O imperador dom Pedro 2º era chamado de ‘papo de tucano’, porque tinha um adorno em volta do pescoço feito com o papo de aves representativas de nossa fauna, inclusive o tucano.

Há gosto pra tudo. Quanto ao preço da nova faixa presidencial, reclamam que ela daria para comprar 5.000 e tantas cestas básicas. Considero esse tipo de economia um exagero demagógico. A faixa de ouro poderá ser vendida, um dia, valorizada talvez, para pagar nossa dívida externa, socorrer os desabrigados de um tsunami na Ásia ou ajudar a comprar o passe de Ronaldinho Gaúcho de volta ao Brasil.’



JK NA GLOBO
Luís Nassif

Os anos JK

‘Assim como a bossa nova, JK, o ‘presidente bossa nova’, não surgiu do nada. Em geral, há uma tendência a considerar ambos os fenômenos como marco zero ou da história da música ou do Brasil.

JK herdou um conjunto de circunstâncias, de estruturas, de modos de pensar, um clima que começou a ser preparado no pós-guerra. Se se for escarafunchar a história, é possível que a cadeia produtiva que germinou no produto JK comece lá pelos idos de 1937, quando o jovem Nelson Rockefeller saiu em viagem de lua-de-mel pela Ásia e pela Índia e se indignou com a brutalidade do regime colonial britânico. Nelson tomou a América Latina como laboratório para uma nova forma de colonização, em que o papel central fossem o desenvolvimento e a convivência dos valores norte-americanos com os valores nacionais de cada país. Influenciou Roosevelt, depois Eisenhower, colocou dinheiro dos EUA e capital próprio na montagem de uma rede de aliados e de ferramentas de desenvolvimento -de novas técnicas agrícolas a um mercado de capitais moderno.

Nesse trabalho, Nelson encantou-se com o dinamismo do jovem governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek, com o potencial agrícola e mineral do Estado, escolhendo-o para a implantação da primeira Acar (rede de pesquisas agrícolas) e como destino preferencial para os investimentos americanos.

Na seqüência da cadeia produtiva, vêm os trabalhos da Missão Abbink, Plano Salte e Comissão Mista Brasil-EUA. A Comissão Mista foi um exemplo fantástico de objetividade política. O Brasil explorava o receio americano com uma possível Terceira Guerra, a partir do conflito com a Coréia. Foi para a reunião armado de um minucioso diagnóstico sobre as necessidades de investimento em infra-estrutura. Não tenho elementos para comprovar, mas possivelmente a influência de Nelson possa ter sido relevante para a enorme prioridade dada a obras em Minas Gerais, nos trabalhos técnicos da Comissão Mista.

JK assumiu a Presidência contando com muitos elementos herdados dos períodos anteriores. Primeiro, o mapeamento das carências na infra-estrutura. Depois, a tradição de montagem de projetos, herdada da Comissão Mista, constituída no tempo de Vargas. O Plano de Metas nada mais é do que o Plano Lafer (que serviu de base para os trabalhos da Comissão Mista) colocado de pé pela experiência acumulada por Lucas Lopes no seu período de Comissão Mista e de BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Herdou de Vargas, também, a Petrobras, a Eletrobrás e o BNDES funcionando. E de Lucas Lopes a abertura para o mundo e a consciência da importância do capital estrangeiro associado a nacionais.

JK pegou esse potencial todo e imprimiu um ritmo especial, de tocador de obras. Mesmo os críticos mais duros reconhecem seu pique, sua coragem pessoal, demonstrada na campanha política, o entusiasmo que injetou no país. Tanto que, ainda em pleno governo Jânio Quadros (que fez campanha denunciando a suposta corrupção no governo JK), ele foi aclamado na Catedral da Sé e carregado nos ombros pela multidão até a Associação Comercial.

Mas era dotado de enormes defeitos também. Um deles foi ter inaugurado a irresponsabilidade fiscal no país. Seu círculo próximo de amigos denotava total falta de discernimento, com amplo espaço para o submundo atraído pela construção de Brasília.

Criticava-se muita sua falta de lealdade política e pessoal, patente, aliás, no momento em que rompeu com o FMI -enquanto a multidão saudava por uma porta do Palácio das Laranjeiras, pela outra entrava o banqueiro Walther Moreira Salles, chamado às pressas para apagar o incêndio. Ou na maneira como se desfez de Lucas Lopes, demitindo-o quando enfartado em Caxambu.

A falta de lealdade política era um componente intrínseco de seu estilo, característica, aliás, presente também em Roosevelt e alvo da admiração de Fernando Henrique Cardoso, que considerava a dissimulação qualidade intrínseca da arte de governar. Há que dissimular para conseguir, mais facilmente, atingir os objetivos propostos.’



POLÊMICA CULTURAL
Janio de Freitas

Incultura

‘Ramificou-se em diferentes sentidos, todos insatisfatórios, para o ministério de Gilberto Gil, o incidente criado pelo secretário de políticas culturais Sérgio Sá Leitão. A ramificação exprime a natural inconciliação das visões de intelectuais, artistas e assemelhados, e é pena que não as leve a mais do que um episódio. Por isso mesmo, o que interessa no incidente não são seus desdobramentos de agora, mas aquilo mesmo que o motivou.

Se a ligeira crítica de Ferreira Gullar à ação ministerial de Gil e ao Ministério da Cultura suscitava correções factuais ou esclarecimentos, a isso Sérgio Sá Leitão devia restringir-se. Primeiro, porque a crítica não se dirigia à pessoa de Gil e não foi agressiva em medida ou direção alguma. Além disso, porque é inaceitável a conotação policialesca da gratuita referência de Sá Leitão a posições de esquerda. O absurdo dessa prática não está em dirigir-se a tal ou qual pessoa, mas na prática em si, seja qual for o seu alvo.

Mas Sérgio Sá Leitão – a quem conviria parar de negar-se, em suas sucessivas versões do incidente – não foi original. Poucos são, no atual governo e nas alturas do petismo, os que têm compreensão democrática da crítica e do seu (deles e da crítica) papel público. Em geral, a reação reflete pretensões de superioridade e atribuição de má-fé ao crítico. Não é outra coisa que está por baixo, por exemplo, das cobranças de desculpas repetidas por Lula, entre as louvações que faz a si mesmo. Ou da acusação de ódio como motivador das críticas às patifarias que não se personificam só em Delúbio e Valério.

Se alguma cultura está manifestada pelo seu ministério a propósito do incidente com Ferreira Gullar, é a do autoritarismo.’



ENTREVISTA / PAULO COELHO
Mônica Bergamo

A fantástica fábrica de best-sellers

‘Aos 58 anos, com quase 90 milhões de títulos vendidos em 59 países, Paulo Coelho está dando depoimento para uma biografia, começa a escrever nova obra em 2006 e se prepara para ver um de seus livros, ‘Veronika Decide Morrer’, nas telas do cinema. Segundo a revista norte-americana ‘Publishing Trends’, voltada para o mercado editorial, ‘O Zahir’ foi o terceiro livro mais vendido de 2005 -atrás apenas de ‘O Código Da Vinci’ e ‘Anjos e Demônios’, ambos de Dan Brown.

Em entrevista à Folha, ele afirma que revelou até suas experiências ‘homossexuais’ ao escritor Fernando Morais, que escreve a biografia. Diz que vive com € 6.000 por mês e, ao falar de Lula, cita o Apocalipse: ‘Admiro os que são frios ou quentes. Mas os mornos, eu vomitarei’.

Folha – Por que uma biografia?

Paulo Coelho – Para que eu possa ler, se Deus permitir. Sempre pensei nesses caras que nunca puderam ler suas biografias. Vou ter muita curiosidade de ler a minha, coisa que outros personagens dele [Morais] nunca puderam fazer.

Folha – Você brincou, nas festas de Réveillon, que contou a ele até sobre suas experiências…

Coelho – …homossexuais. Contei tudo. Estou abrindo 100%. Dei o caminho dos amigos, dos inimigos. Não tenho direito a veto. Vou ler o livro depois de publicado.

Folha – Você vai falar dos poderes que já revelou ter?

Coelho – Esses poderes eu tenho, estão aqui, eu possuo.

Folha – Você exerce?

Coelho – Se você está falando de fazer chover e de ventar, não. Mas poderia exercer. Só que não faz mais sentido. Era mais para impressionar as pessoas.

Folha – Você já disse que sabe como morrerá [Coelho declarou, em 1992, que morrerá num atentado].

Coelho – Se eu continuar no meu caminho, eu sei o dia, a hora, o local e como vou morrer. Mas, sobre isso, não tenho comentários.

Folha – Você faz sucesso há 20 anos e tem um patrimônio que lhe permite viver sem trabalhar.

Coelho – Em várias encarnações.

Folha – Por que então continuar escrevendo com tanta freqüência?

Coelho – Se eu me propus a ser um escritor, o resto é conseqüência: o dinheiro, o sucesso, a sedução. Já o livro, não. É sempre um desafio. É como se eu tivesse que enfrentar uma eleição a cada dois anos. Eu sou o único eleitor. Não é o meu leitor. Se eu parar de escrever, estarei me traindo. E, a partir desse momento, começarei a decair. Se fosse pelos motivos que você falou, eu já teria parado. Não correria mais riscos. A minha situação econômica me permitiria viver de juros. Mas não é isso. Se eu parasse, e até se eu ficasse aqui [em sua casa de Saint Martin, no sul da França] mais tempo do que eu fico, eu piraria.

Folha – Há estimativas de que você tem mais de R$ 300 milhões.

Coelho – Não falo sobre isso. Não só não falo como não sei quanto dinheiro eu tenho.

Folha – Como assim?

Coelho – Neste momento em que estou falando com você, estou ganhando dinheiro. No mundo inteiro está se vendendo algum livro meu. A esta hora (18h30) as livrarias daqui da França já fecharam, mas as de Nova York estão abertas. Então é 24 horas [vendendo livros e ganhando dinheiro]. Não sei mesmo quanto tenho.

Folha – Você ganha mais aplicando o dinheiro ou vendendo livros?

Coelho – Não sei. Sei é que gasto menos do que alguns amigos do Brasil. A gente [Coelho e a mulher, Cristina Oiticica] faz um depósito de 8.000 na conta. Paga 2.000 para a Maria [empregada] e vive com os outros 6.000. A gente não gasta nada aqui. O nosso grande prazer é andar.

Cristina – A gente não tem um hobby caro, barco, cavalo…

Coelho – Não tem avião, não tem nada disso. Sou sempre convidado. Vamos até Ibiza de barco, até não sei onde… Meu hobby está ali, ó [aponta para um arco]: arco e flecha. Mas o grande prazer é andar, descobrir novos caminhos. Todos os meus editores já sabem que, quando visito uma nova cidade, não estou nem um pouco interessado em museus, em monumentos, em igrejas.

Folha – Nem em Paris?

Coelho – O que isso acrescenta na vida? Nada, nada. O que vai te acrescentar ver a Monalisa? Falaram tanto da capela Sistina que quando eu entrei lá, falei: ‘É bonito, mas não é nada desse delírio’. Outra coisa é uma igreja em que de repente você entra. Você nunca mais esquece, porque descobriu. As pessoas vão a museus, passam da Renascença para a Idade Média e daí ao Egito em três horas. Esquecem tudo no dia seguinte. Agora, uma pista de esqui no meio do deserto, em Dubai, é evidente que eu quis ver.

Folha – Você está escrevendo?

Coelho – Não. Eu dou um intervalo de dois anos para começar um novo livro e, quando começo, escrevo em um mês, 20 dias. Teoricamente, devo fazer isso agora: ‘O Zahir’ foi escrito em 2004. Então 2006 é o ano de escrever. A coisa já está escrita na minha alma. Eu ainda não sei sobre o que vou escrever. Sei que já é a hora. Já fiz amor, já fiquei grávido. Estou no momento do parto.

Folha – Tem medo de fracassar?

Coelho – Eu já lancei livros que não venderam e que eu adoro. ‘O Monte Cinco’, por exemplo. Eu não sofri. Disse: ‘Esse livro um dia vai ser entendido’. ‘As Valquírias’ foi outro que, no Brasil, vendeu 350 mil -a média seria 700 mil. Não vender, para mim, é ficar num patamar estável. Mas isso não me dá agonia. O meu leitor nunca vai me culpar por um livro de que não goste, mas sim por um que eu escrevi sem acreditar.

Folha – E os filmes baseados em seus livros? Quando vão estrear (Coelho vendeu os direitos de ‘O Alquimista’, de ‘Veronika Decide Morrer’ e de ‘Onze Minutos’, que será dirigido por Jack Nicholson)?

Coelho – O produtor diz que Jack Nicholson vai fazer isso, vai fazer aquilo. Meu medo é perder a credibilidade porque acham que essas notícias vêm de mim. Quero distância dos filmes. No dia que você me vir em Hollywood, é o começo do meu fim. Não é o meu barato, não é a minha jogada.

Folha – Você acompanha de perto a política no Brasil?

Coelho -De pertíssimo. Votei no [José] Serra em 2002. Como qualquer brasileiro, torci muito pelo Lula. Continuo torcendo.

Folha – Que avaliação você faz do governo dele?

Coelho – É o momento, no mundo, de posições muito firmes e claras. Viajo muito. Vejo que ainda há uma expectativa muito grande em relação ao Lula. Ele é um símbolo. Mas o mundo está pedindo uma posição dele. Eu acho que ele se apagou um pouco. Há um ano as pessoas sabiam o que o Lula estava fazendo. Hoje me perguntam: ‘E o que o Lula está fazendo, afinal?’. Existe uma frase do Apocalipse que diz: ‘Admiro os que são frios ou quentes. Mas os mornos, eu vomitarei’.



GOOGLE PRINT
Sylvia Colombo

O universal particular

‘A biblioteca universal imaginada pelo argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) em ‘A Biblioteca de Babel’ (‘Ficções’, 1944) havia começado a encontrar contornos concretos quando o site Google anunciou, em 2004, seu projeto de digitalizar e disponibilizar online 15 milhões de volumes de quatro grandes bibliotecas americanas até o ano de 2015.

A idéia era publicar na íntegra o conteúdo de obras publicadas há mais de 75 anos -e por isso isentas da necessidade de pagamento dos direitos de autor. No caso de livros mais recentes, a intenção era restringir o acesso a fragmentos ou a poucas páginas.

O que poderia significar um grande passo para a democratização do conhecimento, entretanto, acabou emperrando por conta de reclamações de editores e autores, que conseguiram fazer com que o site suspendesse, pelo menos temporariamente, a idéia.

Apesar de oficialmente parado, o projeto anda movimentando discussões acaloradas sobre o futuro dos direitos autorais, o controle de publicações na internet, a pirataria e a proteção dos acervos das bibliotecas nacionais.

Leia abaixo entrevista que o historiador francês Roger Chartier, especialista em história do livro e autor de ‘Leituras e Leitores na França do Antigo Regime’ (ed. da Unesp), concedeu à Folha sobre o assunto.

Folha – Acha que o projeto Google Print pode tornar real a idéia de biblioteca universal de Borges?

Roger Chartier – Sim. No passado, tínhamos o problema de não possuir uma tecnologia para concretizá-la. Entretanto, agora que a temos, novos obstáculos surgiram e precisam ser discutidos.

Folha – De onde vem esse sonho e como o descreveria?

Chartier – O sonho da biblioteca que poderia abarcar todos os livros escritos ou impressos pelo homem é muito antigo. Trata-se de uma idéia que atravessa toda a civilização ocidental, desde a biblioteca de Alexandria. Creio que corresponde a uma ansiedade dos homens com relação à perda, o medo do esquecimento coletivo.

Esse temor levou os homens a tentarem reunir, desde muito tempo atrás, os manuscritos, os escritos antigos e todos os projetos que acreditavam serem universais.

Mas, evidentemente, nunca uma biblioteca real que armazenasse pergaminhos ou papéis poderia corresponder à definição ideal de uma biblioteca universal.

Hoje, a internet traz, em uma nova forma, a possibilidade de guardar os conteúdos desses livros, ainda que não possa armazenar também o objeto-livro.

Folha – O que acha do projeto do Google?

Chartier – A proposta inicial do Google voltava-se apenas para a digitalização de bibliotecas de língua inglesa, mas abriu espaço para um questionamento crítico, principalmente por parte das bibliotecas européias.

A Biblioteca Nacional da França, por exemplo, considerou dois problemas que também acredito que devam ser tomados em conta. Em primeiro lugar o de que essas coleções contêm, majoritariamente, obras de língua inglesa, quando é preciso zelar pelo equilíbrio. Em segundo, o fato de que o Google é uma empresa comercial e privada e que, portanto, poderia escolher a maneira como hierarquizar as informações sobre as coleções. As perguntas que surgiram e que considero pertinentes são: seriam respeitadas as idéias de catálogo bibliotecário? Ou passaria a existir uma nova ordem hierárquica regida apenas pela lógica do que é mais consultado?

Folha – Mas o sr., particularmente, é a favor ou contra?

Chartier – Tendo a ter uma dupla reação. É claro que não posso deixar de observar que acervos digitalizados de bibliotecas constituem um instrumento extraordinário para os pesquisadores, pois fornece acesso a livros antigos ou fora de catálogo que de outra forma seriam difíceis de consultar. Desse ponto de vista é um extraordinário avanço na democratização do conhecimento e do acesso ao patrimônio escrito. Assim, minha primeira reação é a de ajudar esse projeto.

Seria muito interessante, por exemplo, se a América Latina começasse, a partir de seus governos nacionais, a pensar em construir projetos de digitalização de textos importantes para reconstruir o passado do continente.

Mas minha segunda reação é a de apontar para os perigos que vejo como historiador do livro.

Folha – E quais são?

Chartier – Temo, entre outras coisas, que os livros eletrônicos possam transformar bibliotecas inteiras em algo obsoleto. É preciso questionar a idéia de que um livro é sempre o mesmo livro qualquer que seja a sua forma. Isso não é verdade.

Todo o trabalho que fazemos como historiadores do livro é mostrar que o sentido de um texto depende também da forma material como ele se apresentou aos seus leitores originais e ao seu autor. Por meio dela podemos compreender como e por que foi editado, a maneira como foi manuseado, lido e interpretado por aqueles de seu tempo. Não há equivalência entre os suportes materiais. Com a digitalização, corremos o risco de ver destruídos os livros originais porque o texto seria preservado de uma outra forma.

Folha – Os livros antigos correm o risco, assim, de virarem objeto de museu ou serem destruídos?

Chartier – Não podemos deixar que isso aconteça. Os livros são instrumentos essenciais para historiadores de determinados períodos. Existem perguntas que não podem ser feitas apenas a um texto, têm de ser feitas em conjunto com seu suporte.

Isso interessa a todos os que querem encontrar o texto da forma original, além das diversas formas que foram adquirindo em edições ao longo do tempo.

Quando houve a microfilmagem de coleções do século 19 e de jornais, em grandes bibliotecas norte-americanas e até na Biblioteca Britânica, foram destruídas grandes coleções. Uma perda enorme.

Folha – Se um historiador aqui do Brasil está estudando um determinado período da Idade Média na França e não tem como viajar para consultar manuscritos originais, a internet pode viabilizar que ele conclua sua pesquisa. Acha que isso enfraquece o trabalho histórico?

Chartier – Isso depende do tipo de pesquisa que se faz. Cada um deve avaliar o quão importante é consultar um original ou outro. Mas, evidentemente, se a pesquisa quer ir mais a fundo no que um determinado documento diz, na maneira como ele foi lido e interpretado no passado, evidentemente tenho de recomendar que, num certo momento, esse pesquisador necessite, sim, realizar a viagem.

Por outro lado, para muitos usos de consulta, para averiguar uma informação ou checar um fato, a digitalização dos textos será um instrumento fantástico, pois economizará tempo e empenho do pesquisador.

Meu discurso não é de crítica, mas acredito que é preciso sublinhar os perigos que essa possibilidade apresenta. Entre eles, o de que bibliotecas possam ser marginalizadas por poderes públicos.

Por outro lado, deve-se apoiar esse projeto de biblioteca universal eletrônica -e universal porque é eletrônica.

Folha – Como e quem deve discutir e decidir sobre essa questão?

Chartier – Essa é uma discussão que está apenas começando. Não vejo, a princípio, porque é uma empresa comercial, como o Google, quem deva promovê-la. O assunto é sério e deve levantar uma discussão pública. Acho que um primeiro suporte deve ser construído a partir das bibliotecas nacionais, mas também os Estados, por meio das comunidades internacionais, devem entrar em acordo. O ideal é que tanto intelectuais como autores, editores, bibliotecários e amostras de grupos de leitores participem.

Folha – Qual a prioridade nesse momento?

Chartier – Creio que -depois das observações feitas pelas bibliotecas, as de que se garanta variedade lingüística ao conteúdo e de que as formas de acesso sejam parecidas com as de uma biblioteca convencional- há uma segunda discussão, que diz respeito a livros ainda protegidos pelo copyright.

Quando o Google apresentou o projeto a editores, em geral estes foram favoráveis, pois pensavam que as leis continuariam respeitadas. Seriam colocados na internet apenas fragmentos dos textos. Isso funcionaria para a publicidade desses títulos. Ao ler um fragmento, o leitor poderia se interessar em comprar a obra em si.

Entretanto logo depois surgiu o temor diante da possibilidade de que não fosse possível controlar o processo de digitalização. A reticiência dos grandes editores e dos sindicatos de editores acabou virando rechaço a partir do momento em que perceberam que poderiam estar abrindo uma porta para deixar cada vez mais expostos textos ainda protegidos pelas leis de copyright.

Folha – Acha que essa mesma discussão vale para a digitalização dos jornais diários?

Chartier – Sim, é possível fazer uma comparação. O jornal impresso obedece a uma lógica topográfica: vai-se de uma página a outra, de um artigo a outro, e cada leitor tem seus caminhos dentro da página, além de poder ver a unidade de tudo o que constitui um número de jornal.

O mesmo número de jornal em versão eletrônica tem outra lógica de leitura. É uma lógica que não é mais topográfica, mas sim classificatória, enciclopédica. O leitor busca uma assinatura, um tópico, temas, palavras-chave. É possível ler um artigo do jornal sem saber absolutamente nada dos outros artigos publicados no mesmo dia e sem estabelecer um sentido entre o que se leu e a organização de todos os conteúdos do jornal, artigos, colunas, espaços noticiosos, anúncios etc.

O exemplo dos jornais nos ajuda a concluir que, por mais que se construam bibliotecas eletrônicas, mais ainda as bibliotecas clássicas têm uma função importante, além de serem arquivos. A biblioteca é um lugar, uma instituição, que cuida de um patrimônio e em que se pode ler, trabalhar e exercer todas as formas da pesquisa.’



GRAMPOS NOS EUA
Folha de S. Paulo

Grampo tem base legal frágil, diz Congresso

‘A justificativa do presidente George W. Bush para ordenar escutas telefônicas de civis americanos tem bases legais questionáveis, e o Legislativo aparentemente não deu a ele autoridade para ordenar o monitoramento, afirmou uma análise do Congresso divulgada na noite de anteontem.

A análise, feita pelo Serviço de Pesquisa Congressional, um braço não-partidário do Congresso, foi a primeira avaliação oficial da questão, assunto principal em Washington há três semanas: Bush agiu dentro da lei ao ordenar a NSA (Agência Nacional de Segurança, na sigla em inglês) a fazer escutas de alguns americanos após o 11 de Setembro?

O relatório, que foi requisitado por vários membros do Congresso, não chegou a uma conclusão certa sobre a legalidade do programa, em parte porque, segundo o documento, muitos detalhes continuam sendo confidenciais. Mas a análise levantou várias dúvidas sobre o poder do presidente de não pedir autorização para ordenar este tipo de operação, dizendo que as razões legais ‘não parecem ser tão bem fundamentadas’ quanto os advogados da administração Bush afirmam.

A análise criticou a justificativa central do governo, de que o Congresso havia aprovado este tipo de escuta após os atentados de 11 de setembro de 2001, ao autorizar ‘toda força necessária e apropriada’ contra os terroristas responsáveis. O relatório diz, no entanto, que o Congresso ‘não parece ter autorizado nem permitido este tipo de monitoramento’.

O presidente admitiu no mês passado que havia autorizado a NSA a fazer escutas de ligações telefônicas internacionais e ler e-mails de cidadãos americanos e outros nos EUA sem mandado judicial se eles fossem suspeitos de ter ligações com a Al Qaeda.

Advogados da administração Bush disseram que o presidente agiu de acordo com seus poderes. ‘O presidente deixou claro que vai usar sua autoridade constitucional e estatutária para proteger o povo americano de mais ataques terroristas’, disse Brian Roehrkasse, porta-voz do Departamento de Justiça.

Vários democratas e alguns republicanos apontam para o relatório como o indicador mais forte de que Bush excedeu sua autoridade na luta contra o terrorismo.

Uma justificativa do governo para não pedir autorizações específicas para escutas foi de que isso poderia alertar os terroristas sobre o programa. O relatório do Congresso afirmou que a razão ‘não é convincente’.

Líder republicano renuncia

O deputado republicano Tom DeLay anunciou ontem que desistiu de reassumir a liderança da bancada republicana, em Washington. Ele precisou deixar o posto no final do ano passado, em razão de escândalo de financiamento de campanha em que se envolveu em seu Estado, o Texas.

DeLay, que já foi um dos homens mais importantes do Congresso, disse ‘não poder deixar que nossos adversários nos dividam e nos desviem as atenções’.

O líder vinha sofrendo pressões dentro da bancada, em razão de suas ligações com o lobista Jack Abramoff, indiciado por corrupção. Abramoff se comprometeu esta semana a colaborar com a Justiça, em troca de informações sobre a rede de ilegalidades da qual participou. Há entre os republicanos, em Washington, o temor de que Abramoff envolva DeLay em novos casos.

Com ‘The New York Times’ e agências internacionais’



JORNALISTA SEQUESTRADA
Folha de S. Paulo

Jornalista dos EUA é seqüestrada em Bagdá, e tradutor iraquiano é morto

‘A enviada especial do jornal americano ‘Christian Science Monitor’, Gill Kelly, foi seqüestrada ontem em Bagdá por um grupo de insurgentes que também matou seu tradutor quando ele tentou evitar o seqüestro.

O major Falah Mohamadawi, da polícia iraquiana, informou que Kelly estava a caminho de uma entrevista com o dirigente sunita Adnan Dulaimi. O automóvel em que ela estava foi abordado por três homens armados que ocupavam um Opel vermelho.

Até o final da tarde o seqüestro não havia sido reivindicado, nem informadas as exigências para a possível libertação da jornalista americana.

A insurgência seqüestrou cerca de 250 ocidentais nos últimos dois anos. Parte dos reféns foi assassinada. Os que foram libertados pagaram resgate ou foram beneficiados pela mediação de clérigos muçulmanos.’



JULGAMENTO & ESPETÁCULO
Mads R. Mariegaard

Reality Show Em Haia

‘Em 28 de junho de 2001, o governo sérvio entregou o ex-ditador iugoslavo Slobodan Milosevic ao Tribunal Penal Internacional da ONU, em Haia. Michael Christoffersen, um cineasta de documentários da pequena companhia dinamarquesa Team Production, já fazia lobby havia meses para conseguir autorização para filmar o julgamento histórico, que já está em seu quarto ano e dificilmente termina em 2006.

‘Queríamos ter acesso ao julgamento de Milosevic porque é um dos maiores eventos históricos do último século’, diz Mette Heide, produtora da Team. ‘É o maior julgamento desde Nuremberg [que levou a julgamento criminosos de guerra nazistas]. E quem não desejaria estar nos bastidores de Nuremberg, documentando o que os realizadores de ficção tentam reconstruir desde então?’

Quando Milosevic foi preso em Haia, acusado em 66 instâncias de crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio durante as guerras em Kosovo, na Croácia e na Bósnia, Heide e Christoffersen intensificaram seus esforços para obter acesso ao julgamento.

Os atores se dividem entre a promotoria e a defesa. A promotoria é chefiada por Geoffrey Nice, enquanto Milosevic preferiu atuar como seu próprio advogado, porque não reconhece a legitimidade do tribunal. Mesmo assim, assessores sérvios o ajudam nas audiências e na prisão. A equipe de defesa também inclui os advogados nomeados pelo tribunal, Steven Kay e Gillian Higgins.

‘Nós convencemos o tribunal da importância de compreender o pano de fundo das decisões tomadas no julgamento’, diz Heide. ‘Por que uma determinada estratégia foi escolhida? Por que uma estratégia é modificada? Onde surgem os problemas? Conhecer as considerações, os motivos e os objetivos dos personagens assim como o contexto em que eles trabalham facilita a compreensão da complexidade do julgamento’, diz Heide.

A Team Production conseguiu acesso exclusivo ao julgamento, superando diversos concorrentes. Um dos principais argumentos foi que Christoffersen já tinha feito um filme sobre um julgamento num tribunal da ONU. ‘Genocídio -O Julgamento’ (1999) documentou o julgamento realizado em Arusha, na Tanzânia, sobre o genocídio em Ruanda.

Outro fator de persuasão foi que a Team tinha o apoio da BBC, da TV 2/Denmark e de outros 11 canais de televisão, representando ao todo cerca de 300 milhões de potenciais espectadores. Além disso, a Team Production também se ofereceu para reunir o material sobre o julgamento em um arquivo histórico para futuros pesquisadores.

Batalha pela história

Segundo o contrato da Team com o Tribunal Penal Internacional da ONU, a equipe pode acompanhar os principais atores do julgamento, mas não o próprio Milosevic, e em nenhuma circunstância poderá divulgar qualquer material sobre o julgamento até que se chegue a um veredicto final (incluindo uma possível apelação).

Depois de acompanhar o julgamento durante três ou quatro meses, ‘pudemos ver que ele tinha temas recorrentes, que por sua vez tornaram-se os temas do filme’, diz Heide. ‘Decidimos acompanhá-los, o que veio a ser a decisão certa, porque não mudaram. O julgamento é sobre como a história será escrita e como se define um julgamento justo.’

‘O julgamento levanta questões complexas’, continua Heide. ‘Como apresentá-las de forma interessante? Pensamos que o modo de fazer isso é acompanhar alguns dos personagens e suas batalhas durante o julgamento. Isso permite oferecer uma visão a que, de outro modo, as pessoas não teriam acesso. Enquanto isso, podemos fazer um filme de entretenimento com o potencial para atingir um público amplo, ao construir o drama de maneira clássica e fazê-lo sobre os personagens, suas esperanças e seus temores.’

Christoffersen acompanha o julgamento de Milosevic diariamente desde o início, em fevereiro de 2002 -seja no próprio tribunal ou pela internet, onde é transmitido com apenas meia hora de defasagem [no site www.domovina.net]. Isso lhe permite avaliar quando há alguma coisa acontecendo que poderia ser usada como um ponto de virada dramático; por exemplo, uma nova testemunha.

A equipe já gravou cerca de 250 horas em vídeo até agora, enquanto a filmagem do tribunal, feita por suas próprias câmeras, chega a surpreendentes 1.500 horas. Christoffersen anota cuidadosamente em um diário as horas de gravação no tribunal e nos bastidores. Heide descreve o diretor como ‘uma pessoa enormemente detalhista e metódica’. A equipe usa o diário para determinar onde o material gravado vai se encaixar no filme completo.

‘Minha opinião é que 30% do filme será passado no tribunal e cerca de 70%, nos bastidores’, diz Heide. ‘Agora que temos acesso exclusivo para gravar nos bastidores, parece evidente fazer dele o ambiente principal do filme, mas há necessidade de trechos no tribunal para compreender o que os personagens estão falando. Existem algumas gravações realmente preciosas do tribunal: discussões, frustrações, testemunhas que de repente não lembram o que disseram na véspera.’

A filmagem levou a equipe da Team a se aproximar dos atores. ‘Os advogados daqui não estão acostumados com a mídia’, diz Heide. ‘Alguns foram muito reservados no início, duvidando que fôssemos ficar. Estaríamos ali somente por seis meses antes de desaparecer? No entanto Michael foi tão persistente, sério e preparado que conquistou a confiança deles. Isso foi benéfico para o filme, porque os atores discutem abertamente os assuntos. E é importante porque é por meio deles que vamos compreender o julgamento.’

Este texto foi publicado na revista ‘Film’.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.’

BBB 6
Laura Mattos

Big Droga

‘U-hu, u-hu, u-hu, u-hu, u-hu! Prepare-se. A partir desta terça e pelos próximos dois meses e meio, você dificilmente vai escapar do ‘Big Brother Brasil’. Os novos participantes dirão pouco além do gritinho irritante, mas o suficiente para cativar mais de 60% dos telespectadores -o ibope médio das versões anteriores.

Há os que assistirão, u-hu, empolgados e assumidos. E aqueles que darão umas espiadas discretas, com cara de poucos amigos. Mas até quem tem plena consciência de quão vazia é a falsa realidade do ‘BBB’ passará a conhecer os participantes, ter seu preferido e, se baixar a guarda, pode se pegar votando no paredão.

O estilista recifense Mario Castro, 40, é um desses. ‘Sei que eles dizem pouca coisa que presta, que o programa tem muito pouco a acrescentar e é descartável, mas assisto porque é divertido’, diz.

Ele vê todo dia, chega a reprogramar atividades profissionais para não perder os episódios. Mas não é viciado a ponto de comprar o ‘pay-per-view’ na TV paga, com 24 horas de BBB.

E por falar em vício, o coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes, da Universidade Federal de SP, o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, faz um paralelo entre o ‘reality show’ e as drogas. ‘As pessoas têm plena consciência do lixo que estão vendo, do tempo que estão perdendo, e não conseguem largar aquilo. É como as drogas. Sabem que faz mal, que nem sentem mais prazer, mas não abandonam o vício’, compara.

Para o novelista Lauro César Muniz, o segredo da atração é o ritmo folhetinesco fortemente assumido pelas edições brasileiras do ‘Big Brother’. ‘Os participantes viram personagens, são criados objetivos para eles, há o conflito, tudo típico da ação dramática. Mas obviamente não é um produto com a qualidade que uma novela pode ter. As falas são bobas, do dia-a-dia, não há o trabalho da criação de um autor.’

Muniz acredita que o fenômeno, apesar dessa sobrevida, será passageiro. Para a cúpula da Globo, 2007 poderá ser o último ano, mas tudo depende de quanto sucesso esta sexta edição terá.

O Brasil está entre os recordistas da sobrevivência do formato, criado em 1999 pela produtora holandesa Endemol. Na lista dos 33 países que já exibiram o ‘BB’, apenas a Espanha supera o número de edições brasileiras, com sete programas. Empatamos com Alemanha, EUA e Inglaterra e superamos Itália, Holanda, Austrália, com cinco, e todos os outros, com quatro ou menos.

Desta vez, o ‘BBB’ será transmitido pela Globo Internacional na Europa, com os episódios diários e mais uma montagem exclusiva de 60 minutos por semana.

No comando do programa desde a sua estréia, em 2002, o diretor J. B. de Oliveira, o Boninho não vai mexer no time que está ganhando. Em vez de perder força, o ‘BBB’ ganhou audiência e repercussão ao longo dos anos. Em 2005, conseguiu escalar um professor universitário gay, Jean Willys, que se transformou em herói e levou o prêmio de R$ 1 milhão. Ele bradou contra a homofobia, citou filósofos, recitou poesias, e com isso, avalia a Globo nos bastidores, o ‘BBB’ perdeu em parte o ar de programa trash, ganhou certa cara de ‘conteúdo’.

Na nova edição, o papel ‘filosófico’ poderá ficar com a psicóloga paraense Thais Cavaleiro, 27.

Filha de médico e economista, passou recentemente em concorrido concurso de especialização em São Paulo. Também é candidato ao núcleo ‘profundidade’ o professor de matemática paulista Rafael Valente, 26, que, além de gritar u-hu, poderá encher nossos ouvidos com cálculos sobre as probabilidades de ir para o paredão, ganhar uma prova, ser o anjo e vencer o programa.

A personagem gostosona será representada pela gaúcha Juliana Canabarro, 23, que já foi coelhinha da revista ‘Playboy’ (veja os outros participantes no quadro).

Suas curvas estarão ainda mais à mostra, já que agora o banheiro foi colocado fora da casa, no meio do jardim. E ela vai usar um microbiquíni numa piscina redonda, construída na reforma da mansão, que ganha também mais um quarto e uma suíte de luxo para o líder, com hidromassagem.

Outros dois concorrentes, como anteriormente, serão definidos em sorteio realizado na estréia e entram na casa na quinta-feira.

De resto, é mais do mesmo. Regras iguais, o quadro ‘Big Boss’ e, claro, Pedro Bial, o chacrinha-entrevistador-de-presidente. U-hu!

Leia especial sobre ‘Big Brother’ em www.folha.com.br/060051′



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‘Os chatos falam muito’, diz Boninho

‘Filho de Boni, o ex-todo-poderoso diretor da Globo, J. B. de Oliveira, o Boninho, 44, tem a carreira dividida em antes e depois dos ‘reality shows’. Até colocar as mãos nessa mina de ouro, tinha no currículo nada muito além das novelinhas ‘Malhação’ e ‘Caça Talentos’ e do infantil ‘TV Colosso’.

Percebeu cedo a onda de ‘realidade’ na televisão, e em 2000 levou ao ar ‘No Limite’, com Zeca Camargo, além de testar no ‘Faustão’ o quadro ‘No Sufoco’, com participantes confinados em uma casa de vidro no parque Villa-Lobos (SP). Com o comando de ‘Big Brother’, consagrou-se midas definitivamente. Abaixo, a entrevista concedida pelo diretor do ‘reality’ à Folha. (LM)

Folha – O que muda em BB6?

J.B. de Oliveira, Boninho – Sempre fazemos uma mudança grande na casa, é importante para a nova turma. O quarto do líder agora é uma grande suíte, com 50 m2 e hidromassagem exclusiva.

Folha – Por que o banheiro desta vez ficará fora da casa?

Boninho – É apenas mais uma forma de brincar com os participantes. O Big Brother pode fazer tudo o que quiser.

Folha – Os novos participantes seguem os perfis anteriores, com ‘vilões’, ‘bonitões’, ‘patricinhas’, ‘diferentes’?

Boninho – Quem dá esse rótulo é a imprensa e o público. Nunca repetimos perfis.

Folha – Quando fez o primeiro ‘BBB’, imaginava chegar à sexta edição?

Boninho – Nós procuramos fazer sempre o melhor produto. O resultado é que estamos no sexto com tudo em cima.

Folha – Na sexta edição, como faz para não se repetir?

Boninho – O programa é feito no dia-a-dia. Observamos os participantes para criar provas, festas e uma edição diferenciada. Acho que ainda temos muitas cartas para esse jogo.

Folha – Pelo visto, o ‘reality show’ veio para ficar, não?

Boninho – É mais um produto de TV. Passada a febre, os melhores produtos tendem a permanecer.

Folha – O que acha dos que criticam os ‘realities’, dizem que é ‘uma droga’?

Boninho – O ‘BBB’ já não é mais trash ou considerado como, portanto, não é preciso mentir dizendo que não se assiste ao programa.

O problema é que os chatos sempre falam muito.’

Bia Abramo

A competição como doutrina moral

‘Os norte -americanos é que sabem fazer ‘reality show’- é que eles acreditam na realidade. Aqui, no Brasil, impera um certo clima de ilha da fantasia: os ‘reality shows’ tomam uma feição ficcionalizada, até mesmo a despeito do formato. É um pouco por isso que ‘No Limite’ deu menos certo que ‘Big Brother’, pois se no primeiro a aspereza das condições materiais vez por outra ia para o primeiro plano, no segundo há muito mais tempo e espaço para intriga, romances, enredos de bem e de mal.

E o gosto brasileiro pela ficcionalização da realidade é tão intenso que a própria idéia da competição fica disfarçada de um embate afetivo e moral entre personalidades- não some, é claro, mas é como se o prêmio fosse uma recompensa justa e não objeto de rivalidade. Pelo menos têm sido assim nos ‘BBB’, sobretudo na edição do ano passado. E este ano não deve ser diferente.

Na América, não: lá a competição é uma doutrina moral solidíssima, com muita sutilezas, rituais e um repertório vastíssimo de discursos. Os ‘reality shows’ exploram esse lugar complexo que competitividade tem na sociedade norte-americana de todas as maneiras. A Sony vem exibindo um ‘reality show’, ‘America’s Next Top Model’, que é exemplar nesse sentido.

Como o nome indica, trata-se de descobrir uma modelo no meio de um bando de garotas esqueléticas, vindas de todas as partes do Estados Unidos. O esquema é o mesmo de outros programas semelhantes – o grupo fica confinado em uma casa e passa por diversas provas. A cada episódio, um júri avalia a performance das meninas e escolhe uma para cair fora etc. etc.

O programa é apresentado pela top model Tyra Banks, a quem as garotas idolatram.

Talvez pelo fato de as participantes serem tão magrinhas (e semi-histéricas) ou talvez pela própria rarefação da idéia de ‘ser modelo’, a ‘America’s Next Top Model’ é um dos mais cruéis programas do gênero. É doloroso de assistir àquele bando varapaus, sempre à beira das lágrimas, se esfalfando para atingir uma noção maluca de perfeição.

Os sofrimentos são físicos -cabelos são puxados, cortados, tingidos, peles são maquiadas, corpos são emagrecidos-, mas principalmente morais. O sadismo dos comentários, a impiedade das avaliações, a estreiteza do padrão de beleza, o isolamento deixam as garotas -muitas delas, mães adolescentes- em estado lastimável.

E, como cereja do bolo, há Tyra Banks, que parece ter um talento especial para humilhar. Não há uma nesga de solidariedade, de empatia, de misericórdia no olhar daquela mulher. De sua posição de ‘bem-sucedida’, que venceu, ela decide de forma implacável os destinos daquelas meninas.’



TELEVISÃO
Daniel Castro

Bia pode ter matado o neto em ‘Belíssima’

‘Pedro, personagem de Henri Castelli em ‘Belíssima’, pode ter sido morto a mando da própria avó, Bia Falcão (Fernanda Montenegro), numa emboscada preparada para eliminar sua mulher, Vitória (Cláudia Abreu).

É o que se conclui após a leitura dos capítulos da semana que começa no próximo dia 16, em que Bia será dada como morta após desaparecer em um grave acidente de carro _cena prevista para ir ao ar no dia 19. Mas isso pode ser uma pista falsa e, ao final da novela, se revelar um outro assassino.

Nikos (Tony Ramos) irá à Grécia para investigar a razão de Vitória estar sendo apontada pela polícia como assassina do próprio marido. Ele terá a ajuda de Taís (Maria Flor), que transará com um dos assassinos e gravará uma fita em que ele confessa o crime e aponta um tal de Medeiros como o mandante do assassinato.

O grego contará para Júlia (Glória Pires) sobre Medeiros. Júlia descobrirá no celular de Bia ligações para Medeiros, o advogado interpretado por Ítalo Rossi.

Na novela, Medeiros só apareceu após ser apresentado a Bia por Ornela (Vera Holtz), quando Bia o contratou para incriminar Vitória. Um diálogo na mesma semana revelará, no entanto, que Bia e Medeiros já se conheciam, o que indica que a vilã contratou o advogado para eliminar Vitória. ‘Ainda bem que a Ornela acha que foi ela quem me apresentou você’, dirá Bia a Medeiros.

OUTRO CANAL

Reforço Floriano Peixoto, que interpretou o Tony de ‘América’, na Globo, é o mais novo contratado da Record. Integrará o elenco de ‘Cidadão Brasileiro’, texto de Lauro Cesar Muniz que inaugura a nova faixa de novelas da emissora, às 21h, a partir de março.

Sensual ‘Cidadão Brasileiro’, apesar de a Igreja Universal controlar a Record, promete cenas muito picantes. Mônica Carvalho, que interpretará Maura, terá uma paixão proibida pelo cunhado. Eles se encontrarão, às escondidas, de madrugada, numa fazenda. Não haverá nudez explícita, mas um erotismo na penumbra.

Disputa Depois de passar pelo SBT (onde foi revelado) e pela Record (onde fez ‘Essas Mulheres’), o ator Daniel Boaventura foi contratado por um ano pela Globo. Será o diretor do colégio de ‘Malhação’ na nova temporada da novela-seriado. Boaventura foi disputado pela Record, mas a Globo venceu.

Subversão Os autores da minissérie ‘JK’ vão mudar parte da história de Lílian Gonçalves, personagem real a ser interpretada por Mariana Ximenez. Lílian, que se tornou nos anos 80 a ‘rainha’ da noite paulistana, veio de Brasília diretamente para São Paulo. Mas, na minissérie, ela irá para o Rio. ‘A gente mudou a trajetória para o Rio para que ela ficasse no meio das outras tramas. Senão, ficaria completamente isolada’, diz Alcides Nogueira, co-autor.’

Eduardo Simões

Casseta e Tabajara investem em produtos

‘Há 14 anos no ar na TV Globo, o grupo humorístico Casseta & Planeta tem média de 35 pontos de audiência (chegou a ter 41 no auge do escândalo do ‘mensalão’) e tira bom proveito do sucesso lançando produtos associados à marca e às Organizações Tabajara. Eles têm dois novos livros no mercado (‘Júlio Sumiu’ e ‘Como Se Dar Bem na Vida, Mesmo Sendo um Bosta’), lançaram o DVD da temporada 2004, com melhores momentos escolhidos pelo público pela internet, e ainda neste mês começam a rodar o segundo longa-metragem.

Uma superfranquia? ‘Não é bem isso. Nós mesmos estamos fazendo tudo, não estamos dando nada para ninguém’, ressalva, sem perder a piada, Beto Silva, que assina ‘Júlio Sumiu’.

Os cassetas já têm mais de 150 produtos licenciados com a marca. Segundo o empresário da turma, Manfredo Barretto, o volume de vendas ainda não dá para pagar a feira de ninguém. O grupo, no entanto, tem seus best-sellers, como as camisetas do Tabajara Futebol Clube. ‘Um indício do sucesso foi a pirataria. A gente se sentiu a Nike’, brinca Barretto.

Já são 15 os livros publicados com a marca, com vendas em torno de 750 mil exemplares. O mais recente é ‘Como Se Dar Bem Na Vida, Mesmo Sendo um Bosta’, um manual de ‘auto-ajuda’, antes de tudo para eles mesmos, segundo Hélio de la Peña, que também é autor do ‘Livro do Papai’.

‘O gênero está sempre na lista de mais vendidos. E para nós é fácil: é nossa experiência de vida, a gente se deu bem mesmo sendo uns bostas, temos muito para ensinar’, explica De la Peña.

No segmento audiovisual, o Casseta, além de planejar lançar DVDs anuais com os mehores momentos do programa de TV, pretende voltar ao cinema.

Amanhã, os humoristas entram com Murilo Benício no set de ‘Seus Problemas Acabaram’, o segundo longa, com direção de José Lavigne, que também comanda o programa de TV às terças. O filme, no qual Benício vive Botelho Pinto, advogado que quer acabar com as Organizações Tabajara, está sendo rodado para estrear em setembro.

Em 2003, com ‘Casseta & Planeta: A Taça do Mundo É Nossa’, o grupo teve um público de cerca de 800 mil espectadores -aquém da expectativa.

‘Era o ano de ‘Carandiru’ e pegamos uma curva descendente. Não vou negar que esperávamos mais’, diz Manfredo, que substituiu a Conspiração Filmes, responsável pelo primeiro longa, pela Globo Filmes.

‘Será bem popular, mais em cima do universo do programa, com vários personagens participando, como Fucker & Sucker, Chicória Maria e o peludão da sauna gay. A idéia é, se as pessoas gostarem, fazer um a cada dois anos’, adianta o empresário.

Os cassetas têm ainda programa de rádio (pílulas de humor na rádio Cidade, no Rio), colocaram no ar um site para a Copa, com o sugestivo título de ‘Casseta com Bola e Tudo Dentro’, e logo vão relançar o site institucional do grupo com um ar mais ‘blogueiro’. Eles gostariam também de reeditar a Expo Tabajara, que aconteceu pela primeira vez há três anos, no Rio e em São Paulo, e de voltar a fazer shows ao vivo. Tem algo ainda em que o grupo não colocaria o nome?

‘Nunca vai rolar o iogurte Casseta. É de difícil aceitação. Tampouco o guia de vinhos, teria pouca credibilidade. E também acho que a gente nunca vai lançar uma empresa financeira’, promete De la Peña.’



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Folha de S. Paulo

Sábado, 7 janeiro de 2006

CRISE POLÍTICA
Folha de S. Paulo

Jornal do governo omite ‘mensalão’

O leitor que tiver acesso a um exemplar do jornal que o Palácio do Planalto preparou sobre os três anos da gestão Luiz Inácio Lula da Silva não verá quase nenhuma menção às denúncias de corrupção que derrubaram parte da cúpula do governo.

Além da praticamente total omissão à crise do ‘mensalão’, no balanço não há lembranças ou simples citações à recente derrapada da economia, aos buracos nas rodovias federais e às milhares de famílias sem terra acampadas em todo o país.

O ‘jornal de prestação de contas’, de 36 páginas e com tiragem de 1,2 milhão de exemplares, segue a linha ensaiada por Lula para a campanha eleitoral, quando promete comparar números de seu governo com os da gestão tucana de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

Em formato tablóide (meio jornal), o balanço traz comparações em diferentes áreas, como controle do desmatamento, turismo, agricultura familiar, agronegócio e exportações. Essa é a sexta edição da chamada ‘prestação de contas’, a primeira em versão jornal. As quatro primeiras foram revistas, e a última, veiculada em versão on-line no site da Presidência.

O jornal, produzido pela agência Lew, Lara por R$ 976 mil, começou a ser distribuído ontem a agentes públicos de todo o país, especialmente prefeituras, escolas, bibliotecas, consulados, embaixadas e setores do Legislativo e do Judiciário.

O PSDB afirmou que estuda ações na Justiça contra a propaganda. ‘O governo está antecipando a campanha eleitoral e isso não pode ser aceito. O PSDB estuda acionar tanto a Justiça Eleitoral quanto a comum’, diz o deputado Eduardo Paes (RJ), secretário-geral do partido.

Na capa, o jornal traz a manchete ‘Mais Desenvolvimento, Menos Desigualdade’ e citações sobre a criação de empregos, o aumento das exportações e o Bolsa-Família, programa de transferência de renda que deve se transformar num dos carros-chefes da virtual campanha de Lula à reeleição. ‘E o salário mínimo real em 2005 ficou 23% superior ao vigente em dezembro de 2002’, diz uma das chamadas da primeira página.

Um resumo geral da gestão aparece no editorial da página dois. Nele, o governo fala numa economia estável e em crescimento. E faz a avaliação de que ‘a superação dos enormes desafios históricos não se dá em apenas 36 meses de governo’.

O tema da corrupção, que dominou a crise política vivida pelo governo federal no ano passado, é citado de forma discreta e sutil na página 33. O destaque é para as ações de fiscalização da Controladoria Geral da União nas administrações municipais. Em meio a esse texto, menciona-se num único parágrafo a auditoria especial nos Correios, criada, segundo o jornal, ‘em conseqüência das denúncias divulgadas pela mídia’.

Na mesma página, há um texto sobre as ações da Polícia Federal no qual é enfatizado o combate à lavagem de dinheiro. Investigações em torno do ‘mensalão’, que mobilizaram agentes da corporação nos últimos meses, são ignoradas no jornal do governo.

Aos transportes, tema que nas últimas semanas dominou a agenda do presidente Lula, foram reservadas três páginas. Uma delas trata das ações do governo nas rodovias do país. Não há, porém, qualquer tipo de citação, mesmo que de forma discreta, sobre a situação precária das estradas federais, onde, nesta segunda-feira, será iniciado um programa emergencial de recuperação.’



POLÊMICA CULTURAL
Folha de S. Paulo

Para Gil, continuar polêmica só serve ‘para vender jornal’

‘O ministro da Cultura, Gilberto Gil, divulgou ontem nota em que defende o direito de pessoas criticarem o governo, mas diz que levar adiante a polêmica na qual a pasta está envolvida atualmente seria ‘acirrar um confronto artificial’ para ‘vender jornal’.

A nota é uma tentativa de pôr fim à discussão entre ministério e artistas iniciada por declarações de Ferreira Gullar à Folha em dezembro, quando o poeta afirmou haver ‘centralização’ na gestão da pasta. O debate foi inflamado por uma carta aberta escrita por Caetano Veloso.

Na nota, Gil classifica de ‘tautológica e vazia’ a continuidade da polêmica, mas afirma que ‘qualquer pessoa tem o direito de criticar o governo, de preferência com conhecimento de causa’.

‘Levá-la [a polêmica] adiante, agora, serve apenas para vender jornal e acirrar um confronto artificial. O que poderia ser dito a respeito está posto. Que as pessoas formem seu próprio juízo, para além de qualquer distorção’, diz o ministro, que completa: ‘Insistir no conflito, transformá-lo em campanha, dar a ele uma conotação política, aproveitar-se dele para vinganças pessoais, nada disso interessa à democracia e à cultura do Brasil’.

Gil lembra que Gullar expôs um ponto de vista e o Ministério da Cultura, o dele, referindo-se à resposta dada ao poeta pelo secretário de Políticas Culturais da pasta, Sérgio Sá Leitão, que classificou Ferreira Gullar de ‘stalinista’.

‘Foi um exercício democrático de expressão. Viva a diferença!’, diz a nota de Gil.

Para o ministro, ‘as palavras do MinC não ensejam uma recusa à crítica, mas um reconhecimento dela. E não ensejam atos de discriminação, mas debates livres, abertos, conseqüentes’.

Em sua carta aberta, publicada na última quarta-feira pela Folha, Caetano, antigo parceiro de Gil, ataca o secretário e diz ver um risco de totalitarismo. ‘Se um ministério demonstra não aceitar críticas -pior: exige adesão total às suas decisões -, estamos sim a um passo do totalitarismo’, afirmou Caetano na carta.

‘Totalitário seria o MinC fazer algo contra Gullar ou contra quem quer que seja. Isto jamais acontecerá. Assim como seria totalitário negar ao MinC o direito de debater ou exigir a demissão de alguém por delito de opinião’, afirma a nota do ministro.

Para Gil, ‘se houve exagero, foi mútuo e desnecessário, como a própria controvérsia’.

Depois da troca de declarações, o ministro recebeu um pedido de degola de seu secretário Sá Leitão. Anteontem, Gil disse no Rio de Janeiro que, ‘se querem a cabeça de Sá Leitão, não vão ter’.

A polêmica envolve, principalmente, a gestão das regras de patrocínio das estatais. O governo diz que ‘descentralizou’ visando distribuir dinheiro entre mais projetos e mais Estados do país.’



INTERNET
Adriana Mattos

Venda virtual avança 12%, mas reduz ritmo

‘A velocidade de crescimento do comércio eletrônico está mais forte em relação ao varejo tradicional, mas o indicador vem perdendo o fôlego.

Segundo cálculos já finalizados, o faturamento com vendas do varejo on-line cresceu 32% em 2005 na comparação com o ano anterior -atingiu R$ 9,9 bilhões, informa a Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico. Já as lojas físicas devem registrar uma expansão de 12% na receita em 2005, segundo contas preliminares de especialistas orientados pelos dados do IBGE até outubro.

Com base nesses resultados, é possível afirmar que o ritmo de crescimento das vendas virtuais cresce a uma taxa que é mais do que o dobro daquela verificada no comércio tradicional, de shopping centers e lojas de rua.

No entanto, essa velocidade de expansão tem perdido o vigor por conta da base de comparação. Em 2004, por exemplo, o faturamento do comércio eletrônico no país (cerca de 15 mil empresas sediadas no país operam nesse ramo) havia crescido bem mais -47% em relação a 2003. No mesmo ano, os dados do IBGE apontaram para uma alta de 13% na receita do comércio tradicional. Logo, o resultado da venda eletrônica foi três vezes e meia o alcançado no varejo de rua.

É natural que a taxa de crescimento caia no varejo on-line de 2004 para 2005. Depois de uma subida forte nas vendas nos últimos anos, a expansão em períodos seguintes fica mais difícil de ocorrer no mesmo patamar. Isso porque o segmento ganhou escala, e a base de comparação é muito elevada. Ocorre o que os especialistas chamam de momento de maturação do mercado. O que não quer dizer que o segmento vai mal. O comércio virtual ainda consegue crescer a taxas anuais de dois dígitos. Apenas há uma desaceleração.

‘A tendência é que o ritmo de expansão continue elevado, mas possivelmente a taxas não tão gigantescas. O que é certo é que essa expansão se dará pela entrada de novos consumidores na venda virtual’, diz Eugênio Foganholo, sócio-diretor da Mixxer Consultoria, especializada em varejo.

Pelos cálculos da empresa, afirma o especialista, o comércio (lojas físicas) somou R$ 900 bilhões em faturamento em 2005. Com isso, é possível afirmar que a venda on-line (com R$ 9,9 bilhões de receita no ano passado) correspondeu a 1,09% no volume total transacionado pelo varejo tradicional em 2005. Essa taxa de 1% é estável -tem se mantido nesse patamar desde 2001.

Da mesma forma, o gasto médio por operação virtual apresenta mínima evolução: fechou em R$ 320 no ano passado, contra R$ 315 em 2004 (a inflação não está contabilizada no valor).

A despeito da falta de confiança do brasileiro -que teme fraudes na compra virtual-, é em parte a forte competição entre lojas na web que mantém os compradores fiéis ao sistema. Essa competição força preços para baixo e leva à deflação.

Levantamento do Provar (Programa de Administração do Varejo) mostra que 7 dos 10 segmentos avaliados (livros, CDs, eletrônicos, telefonia, entre outros) tiveram deflação nos preços em 2005. No comércio virtual, a deflação foi de 12,5% no ano.’



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Yahoo! marca presença em ‘TV on-line’

‘O Yahoo! anunciou ontem na CES (Consumer Electronics Show, feira que acontece em Las Vegas, nos EUA) o lançamento de software para integrar os serviços do portal em televisões e telefones celulares, sob a marca Yahoo Go.

O serviço Yahoo Go TV permitirá que uma televisão ligada ao computador e à internet seja usada para ver fotos digitais, consultar notícias e realizar outras funções usando a mesma conta Yahoo! da internet. Além disso, o Yahoo! deve lançar um serviço para que os usuários assistam vídeos baixados da web pelo Yahoo! na televisão, segundo reportagem do ‘New York Times’.

O portal vai oferecer mais de 1 milhão de programas em seu serviço de busca de vídeos. Na TV, o usuário verá um guia interativo de programação, que incluirá comentários e avaliações dos internautas sobre os programas.

O Yahoo! também anunciou ontem o Yahoo Go Mobile, para celulares, que vai sincronizar os contatos e outras funções da conta na internet com o celular.

Já Larry Page, do Google, anunciou ontem na CES o lançamento de um pacote gratuito de programas, em mais uma tentativa de aumentar a presença da empresa nos computadores dos usuários.

O pacote inclui programas do Google, dos quais apenas um é novo, além do leitor de PDF Acrobat Reader, da Adobe, o tocador de música RealPlayer, da RealNetworks, o antivírus da Norton (grátis por seis meses), o messenger Trillian, da Cerulean Studios, e o navegador Firefox, da Mozilla.’



TV PAGA
Julianna Sofia

Globosat poderá ter de liberar canal esportivo

‘A Globosat poderá ser obrigada a vender a todas as operadoras de TV por assinatura do país os canais SporTV, SporTV 2 e Premiere Esportes (‘pay-per-view’). Ontem, a SDE (Secretaria de Direito Econômico) concluiu parecer que recomenda o fim da exclusividade na venda dos canais esportivos para empresas do grupo Globo.

O documento elaborado pela secretaria foi encaminhado ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que dará a palavra final sobre o caso. Segundo o parecer da SDE, a Globosat deverá oferecer os canais esportivos para as demais operadoras de TV por assinatura nas mesmas condições em que negocia com o sistema Sky/Net -que pertence ao mesmo grupo econômico.

Atualmente, a Globosat comercializa os canais esportivos no pacote ‘Canais Globosat’, que abrange também GNT, Multishow e GloboNews. Como o parecer da SDE recomenda que não haja discriminação na venda para as outras operadoras, por conseqüência, os canais GNT, Multishow e GloboNews também deverão ser oferecidos às TVs por assinatura não-filiadas.

A decisão da SDE é resposta a denúncia encaminhada pela Associação Neo TV à secretaria. Em 2001, a entidade enviou representação em que acusava a Globosat de fechamento de mercado por comercializar o canal SporTV e o sistema ‘pay-per-view’ com exclusividade ao sistema Sky/Net.

O entendimento da SDE é que o grupo ao qual pertencem Globosat e Sky/Net atua na produção de conteúdo e também na prestação de serviço de TV por assinatura. Por isso, a exclusividade na venda de conteúdo para o próprio grupo gera distorção no mercado.

Procurada, a Globosat informou que não vai se manifestar sobre o assunto enquanto não houver uma posição final do Cade.’

BBB 6
Daniel Castro

‘BBB 6’ repete clichês dos outros ‘BBBs’

‘O ‘Big Brother Brasil 6’, que estréia na Globo na próxima terça, promete ser igualzinho aos outros ‘BBBs’. O perfil do ‘elenco’ é o mesmo _só mudam os nomes.

O ‘reality show’ continuará sendo um desfile de gente nova (o mais velho dos 12 selecionados tem 29 anos) e bonita (há uma ‘promotora de eventos’ _Juliana Canabarro, fartamente documentada em sites adultos_ e o modelo Daniel Saullo, que já posou nu ao lado de Daniella Cicarelli em um catálogo de moda). Apenas três têm curso superior completo: um professor, um advogado e uma psicóloga.

Como nos ‘BBBs’ anteriores, ‘BBB 6’ manterá ‘cotas’ para negros musculosos (o compositor e vendedor de loja Iran Gomes), para ‘pobrinhos’ (a ‘modelo e pescadora’ Mariana Felício e a ‘motogirl’ Lea Ferreira) e para nordestinos (a bailarina cearense Roberta Brasil). Um dos participantes é aparentemente gay (como o vencedor de ‘BBB 5’) _a Globo não nega nem confirma.

A sexta edição do programa já teve sua primeira ‘eliminação’. O analista financeiro Leandro Moraes foi cortado anteontem. A Globo disse que ele omitiu da produção que tinha amigos na emissora _um argumento cínico para um programa que já teve ex-dançarina do ‘Domingão do Faustão’ e figurante do ‘Zorra Total’, entre tantos outros ‘quase famosos’. Moraes foi substituído por um advogado de 28 anos.

OUTRO CANAL

Poligamia O ‘reality show’ ‘Casamento à Moda Antiga’, do SBT, ficará mais ‘picante’ a partir da próxima semana, quando ‘Big Brother Brasil’ estréia na Globo. Uma das ‘estrelas’ será uma nova participante. Ela transou com o próprio ‘noivo’ logo na primeira noite na casa. No dia seguinte, fez sexo com outro participante do programa.

Estratosfera O terceiro capítulo de ‘JK’ voltou a dar 41 pontos de audiência na Grande SP (assim como o de quarta). É muito para uma minissérie. Na média dos três primeiros capítulos, marcou 40 pontos. ‘JK’ já supera a marca da recordista ‘A Muralha’ (2000), que deu 37 pontos nos três primeiros episódios.

Inflação Além de apresentadores de telejornais, a Record voltou a assediar, com força total, muitos repórteres da Globo, para montar o time do ‘novo’ ‘Jornal da Record’. Tem oferecido até o triplo do salário que os profissionais ganham na Globo.

Escanteio Apesar de ter assinado contrato, em 2004, em que se compromete a produzir uma série por ano para a Globo, o cineasta Hector Babenco deverá ficar fora da grade da emissora em 2006. O novo projeto de seriado de Babenco está muito embrionário. Guel Arraes, diretor de núcleo responsável pela produção na Globo, acredita que a nova série ficará para 2007.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo

O Estado de S. Paulo

O Globo

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