Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

CADERNO DA CIDADANIA > FIM DE SEMANA, 1 E 2/04

Folha de S. Paulo

04/04/2006 na edição 375


ALCKMIN SOB SUSPEITA
Chico de Gois


Estatal banca revista que promove Alckmin


‘A Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (Cteep), empresa do
governo de São Paulo, pagou R$ 60 mil a título de ‘patrocínio institucional’ à
revista Ch’an Tao, da Associação de Medicina Tradicional Chinesa do Brasil,
presidida pelo médico Jou Eel Jia, acupunturista do pré-candidato do PSDB à
Presidência, Geraldo Alckmin.


Em janeiro deste ano, ao encaminhar o pedido de um novo patrocínio para o
presidente da Cteep, José Sidnei Colombo Martini, a associação informou que ‘em
contrapartida, o patrocinador terá espaço para matéria de cunho editorial do
assunto que achar interessante’.


A publicação deste mês traz na capa o ex-governador Geraldo Alckmin, que
concedeu entrevista exclusiva para a revista, de propriedade do acupunturista do
tucano. Das 48 páginas da revista, Alckmin aparece em nove, em fotos ou em
entrevista. Além disso, na página 10 há uma resenha do livro ‘Seis Lições de
Solidariedade’, sobre a ex-primeira-dama Lu Alckmin, escrito pelo ex-secretário
de Educação Gabriel Chalita.


Na edição deste mês, o patrocinador é a Sabesp, outra estatal paulista, que
não quis informar quanto pagou por uma página de anúncio. A publicação tem, ao
todo, oito páginas de propaganda. Os demais anunciantes são da iniciativa
privada, incluindo o spa do dono da revista.


Antecedentes


Na semana passada, a Folha noticiou que outra estatal, a Nossa Caixa,
direcionava propaganda para publicações e programas de aliados de Alckmin. O PT
tentou, sem sucesso, aprovar na Assembléia Legislativa uma CPI para investigar o
assunto.


A Ch’an Tao está em sua quinta edição -a primeira foi feita por outra
editora. A publicação é bimestral e tem tiragem de 40 mil exemplares, segundo
Kleber Leme Dutra, assessor de Lou Eel Jia.


Ainda segundo a justificativa para o patrocínio, a distribuição da revista se
daria ‘nas secretarias e para toda a rede de ensino do Estado e nos eventos em
que lhe for mais útil [para a Cteep]’.


Júlio Siqueira, chefe da assessoria de comunicação da Cteep, confirmou que a
estatal, vinculada à Secretaria de Energia, Recursos Hídricos e Saneamento, fez
anúncio na ‘Ch’an Tao’ e informou que a empresa ‘poderia sugerir matéria, mas
somente publicou anúncio institucional’.


Já o assessor do acupunturista de Alckmin disse que a informação de que ‘o
patrocinador terá matéria de cunho editorial do assunto que achar importante’
foi ‘uma infelicidade do texto’.


Em julho do ano passado, quando a Cteep concedeu o primeiro patrocínio de R$
60 mil à revista, o ofício de solicitação de propaganda dizia que ‘em
contrapartida, o patrocinador terá espaço de uma página de cunho institucional e
3.000 exemplares para distribuição exclusiva’. Não havia referência a cessão de
espaço editorial.


A Cteep aprovou a concessão de mais R$ 60 mil para a próxima edição, que
deverá circular em maio. A empresa foi criada a partir da cisão da Cesp
(Companhia Energética de São Paulo) e iniciou suas operações em 1º de abril de
1999 e, em novembro de 2001, incorporou a EPTE (Empresa Paulista de Transmissão
de Energia Elétrica S.A.), oriunda da cisão da Eletropaulo.’




***


Empresas negam influência em linha editorial


‘O assessor do acupunturista Jou Eel Jia, Kleber Leme Dutra, negou que a
Cteep ou qualquer outra estatal influenciem a linha editorial da revista ‘Ch’an
Tao’.


Ele classificou como ‘uma infelicidade’ o texto enviado à presidência da
empresa no qual afirma que ‘em contrapartida, o patrocinador terá espaço para
matéria de cunho editorial do assunto que achar interessante’.


‘No caso deles [da Cteep] não foi nenhuma matéria, mas um anúncio, que será
publicado no próximo número da revista’, que deverá ser lançado em maio,
explicou Dutra. Sobre a entrevista de capa com o ex-governador Geraldo Alckmin,
o assessor afirmou que a publicação ‘tem uma linha de trabalho’ e que ‘todo
mundo que é entrevistado o é segundo essa linha, que é uma filosofia de
qualidade de vida’. Dutra disse que a intenção da entrevista ‘foi mostrar o lado
zen’ de Alckmin.


Sobre a resenha do livro da ex-primeira-dama Lu Alckmin, o assessor informou
que Jou Eel Jia ‘coloca na revista dele o que acha que deve, não que isso tenha
a mão do governo’. Ele confirmou que a revista é distribuída nas escolas
estaduais.


O chefe da assessoria de comunicação da Cteep, Júlio Siqueira, disse que a
companhia ‘não interfere no conteúdo editorial de nenhuma publicação em que faz
anúncio’. O assessor afirmou que ‘a Cteep poderia sugerir matéria [para a
revista ‘Ch’an Tao’], mas somente publicou anúncio institucional’.


A superintendência de comunicação da Sabesp também negou que interfira no
conteúdo editorial dos veículos em que anuncia. ‘O anúncio veiculado na revista
‘Ch’an Tao’ não foi condicionado à publicação de nenhuma matéria específica,
assim como ocorreu na última semana, quando da publicação do balanço da empresa
em jornais da capital’.


De acordo com a assessoria da Sabesp, o anúncio da edição em que Alckmin é
tema da capa ‘foi a segunda veiculação programada pela empresa no veículo’. A
estatal se recusou a informar o valor pago pela publicidade na
revista.’




TV DIGITAL
Gilberto Gil e Orlando Senna


TV digital: o que importa é o conteúdo


‘O que importa para a sociedade brasileira é o que a televisão digital vai
mostrar e para quem. Interessa saber se a nova tecnologia permitirá maiores
opções de escolha de programas gratuitos, se a nossa diversidade cultural e a
diversidade cultural do mundo estarão acessíveis em todos os lares e escolas e
se toda a população -ou que percentual dela- terá acesso à nova maravilha da
comunicação. Interessa saber a qualidade técnica da imagem e do som, mas, muito
mais, o que estará dentro desse invólucro mágico.


Os estudos de pesquisadores brasileiros no âmbito do Sistema Brasileiro de TV
Digital (SBTVD) proporcionaram ao governo uma visão completa sobre as muitas
questões envolvidas na transição da televisão analógica para a digital.


Contudo, o debate atual na mídia tem enfocado apenas o padrão de modulação,
responsável pela transmissão e recepção dos sinais, um dos aspectos-chave de
qualquer sistema de televisão digital. Discute-se se o Brasil adotará o padrão
norte-americano, o padrão japonês, o padrão europeu ou mesmo uma inovação
inteiramente nacional, o Sorcer, desenvolvido na PUC-RS (Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul).


É um debate tímido ao qual o governo não se restringe. Tímido porque retira o
foco das principais questões envolvidas na implantação da TV digital: a
estruturação de uma política industrial calcada na microeletrônica, a
incorporação de tecnologia brasileira, a otimização do uso do espectro de
radiofreqüências e a construção de uma política para a produção e a difusão de
conteúdos audiovisuais nacionais.


O espectro de radiofreqüências é um bem público escasso, cuja utilização deve
resguardar o atendimento do interesse público.


No mundo digital, não há mais sentido em falar em canais. Os mesmos 6 MHz que
hoje dão vazão a uma programação de televisão no mundo analógico possibilitará,
com técnicas de compressão, que oito programações digitalizadas cheguem à casa
dos telespectadores, caso se opte pela transmissão em definição padrão. Ou
possibilitará a coexistência de uma programação de alta definição e mais quatro
programações em definição padrão.


A passagem do paradigma dos canais para o paradigma das programações exige
que se ponha na mesa uma análise sobre o modelo de exploração da televisão
digital. É uma análise, uma discussão que independe da escolha do padrão de
modulação a ser adotado.


A otimização do uso do espectro abre espaço para que novas programações
cheguem aos telespectadores. Emissoras de interesse público, hoje disponíveis
apenas por assinatura, poderão chegar à casa de milhões e milhões de
brasileiros. Assim como emissoras comunitárias, universitárias e, naturalmente,
novas redes de emissoras públicas e comerciais.


Abre-se, aqui, a discussão de uma nova política pública para o audiovisual
brasileiro.


O dinamismo da indústria audiovisual, com geração de mais e melhores
empregos, depende da criação de novos instrumentos legais para o setor, que
contemple preceitos constitucionais como o estímulo à programação regional e à
veiculação da produção independente brasileira nas emissoras públicas e
comerciais -preceitos amplamente adotados em vários países. A regulamentação
desses preceitos constitucionais assegurará a potencialização da produção
audiovisual brasileira e a expressão da diversidade cultural do país na
televisão aberta, o meio de comunicação mais acessível aos brasileiros.


A criação de novo marco regulatório para o audiovisual e para a comunicação
social brasileira envolve aspectos políticos, econômicos e culturais que
antecedem, perpassam e acompanham a implantação da TV digital. Trata-se de um
debate público necessário, cujos resultados são fundamentais para a cultura e a
democracia brasileiras e para a consolidação do país como grande produtor de
conteúdos na era das convergências e da economia digital.


Gilberto Gil, 63, músico, é o ministro da Cultura.


Orlando Senna, 65, cineasta e escritor, é o secretário do Audiovisual do
Ministério da Cultura. É membro do Conselho Superior da Fundación del Nuevo Cine
Latinoamericano e professor do Centro de Capacitación Cinematográfica do
México.’




MERCADO EDITORIAL
Landon thomas Jr.


‘Assassino econômico’ é best-seller nos EUA


‘DO ‘NEW YORK TIMES’, EM CHICAGO – Na Transitions, uma livraria new age de
Chicago onde só há espaço para ficar em pé, John M. Perkins, autor de
‘Confissões de um assassino econômico’, está descrevendo para sua platéia o
dilema enfrentado pelo presidente recém-eleito da Bolívia, Evo Morales.


Chegando bem perto do microfone, Perkins fala num sussurro conspiratório
profundo, recriando a cena do encontro imaginário entre o novo presidente e o
representante dos interesses de grandes multinacionais que Morales retratou como
vilões durante sua campanha.


‘Parabéns, senhor presidente’, diz Perkins, assumindo o papel do empresário,
ou assassino econômico, como gosta de chamar sua profissão anterior. ‘Quero
apenas que o senhor saiba que tenho nesta mão algumas centenas de milhões de
dólares para o senhor e sua família, se o senhor jogar a nosso favor.’ Com o
timing ensaiado de um experiente contador de histórias, ele faz uma pausa. ‘E
nesta outra mão tenho uma arma carregada com uma bala, para o caso de o senhor
decidir cumprir as promessas que fez em sua campanha.’


A multidão fascinada murmura e faz comentários em voz baixa, como se tivesse
ouvido uma confidência indizível. Perkins faz uma ressalva, dizendo que está
falando metaforicamente. Mas, para um público já embriagado com as histórias de
trapaças e conluios ouvidas do próprio Perkins, sua alegoria, por mais exagerada
que possa ser, carrega não apenas a marca da verdade mas também pistas para um
longo histórico de finais que ficaram sem explicação.


‘E aqueles desastres aéreos de J.F.K. Jr. e Paul Wellstone?’ pergunta uma
mulher da platéia. ‘Foram mais do que suspeitos.’


Sim, diz Perkins com um aceno da cabeça, e em seguida desfia um rosário de
outras mortes em desastres aéreos: o general Omar Torrijos, ex-presidente do
Panamá, em 1981; também em 1981, o presidente do Equador, Jaime Roldos Aguilera,
e até mesmo o senador texano John G. Tower, que morreu com 22 outras pessoas num
vôo comercial em 1991. ‘Já tivemos muitos acidentes de avião’, diz Perkins em
tom de mau agouro.


A mensagem básica de Perkins é que as grandes empresas e as agências
governamentais americanas empregam dois tipos de agentes: os ‘assassinos
econômicos’, que subornam representantes de economias emergentes, e os
‘chacais’, que podem ser empregados para derrubar ou até mesmo assassinar chefes
de Estado da América Latina ou do Oriente Médio, para servir à causa maior do
império americano.


Numa época anterior, essa mensagem poderia ter não passado de alimento para
as idéias de teóricos da conspiração e editores marginais. Agora, porém, apesar
de toda a conversa de Perkins sobre quedas de aviões e intrigas corporativas,
seu livro parece estar alimentando um veio maior de insatisfação e desconfiança
sentido pelos americanos em relação aos vínculos que unem grandes empresas,
grandes instituições de crédito e o governo -um nexo ao qual Perkins e outros
dão o nome de ‘a corporatocracia’.


A idéia de que interesses corporativos têm ou tiveram influência indevida
sobre administrações da Casa Branca é há muito tempo um dos pratos fortes da
política antiestablishment. Durante a administração Bush, porém, alguns fatos
recentes trouxeram essa idéia para ainda mais perto do pensamento da maioria.
Soldados e empresas dos EUA estão entrincheirados com firmeza no Iraque, e agora
o governo federal pretende dar US$ 7 bilhões em concessões de royalties para um
setor petrolífero que já vem apresentando lucro recorde. De acordo com uma
pesquisa Gallup recente, 70% dos entrevistados disseram acreditar que as grandes
empresas exercem influência excessiva sobre as decisões tomadas pela
administração Bush.


Em Houston, o drama sórdido da Enron, a empresa de energia que tinha conexões
com setores políticos e que entrou em queda, continua a ser representado diante
de uma platéia atenta.


Para Perkins e um pequeno grupo de escritores de tendências semelhantes às
dele, tudo isso vem se mostrando território fértil para o exercício de sua
criatividade. Desde que a Penguin publicou ‘Confissões’ (‘Confessions of an
Economic Hit Man’, no original), em janeiro deste ano, o livro está na lista dos
mais vendidos do ‘New York Times’, tendo chegado ao quinto lugar na lista dos
livros mais vendidos de não-ficção. Hollywood também já manifestou interesse por
ele: a Beacon Pictures comprou os direitos de criar um filme a partir do livro,
com a possibilidade de que seja estrelado por Harrison Ford.


Enquanto a questão mais ampla do papel dos EUA nas economias emergentes é
discutida por muitas pessoas, a popularidade do livro parece ser movida mais
pelo misto de ambiente de sigilo e aventuras misteriosas e pela conversão de
Perkins, de instrumento dos interesses corporativos em defensor dos pobres do
mundo.


‘Meu pecado foi explorar pessoas em todo o mundo’, disse Perkins, falando de
seu emprego de consultor, no qual, afirmou, pressionou países como o Panamá,
Equador e Irã a aceitarem empréstimos onerosos que eles teriam dificuldade em
repagar. ‘Eu me sinto péssimo sobre as coisas que fiz quando era assassino
econômico.’


Com seu sorriso inocente e sua mensagem de renovação pessoal, Perkins, 61,
passa uma imagem que remete mais a um enrugado professor de ioga do que a um
matador de aluguel. Vestindo jeans e moletom velho, ele costuma exortar sua
platéia a fechar os olhos, respirar fundo e visualizar o mundo como um grande
polvo que pulveriza sobre o planeta inteiro uma tinta salubre feita de recursos
naturais e compaixão.


Sexo e conspiração


Seu grande trunfo foi o de acrescentar a uma idéia corriqueira e pouco
emocionante -a de que empresas americanas e instituições multinacionais agiram
com pouca discriminação nos empréstimos que concederam a países de Terceiro
Mundo- doses de sexo, confissões e catastróficos desastres aéreos. De acordo com
seu relato dramático, ele foi interrogado pela Agência Nacional de Segurança,
entrou para o Corpo de Paz no Equador e tornou-se previsor da empresa de
consultoria Chas. T. Main, com sede em Boston.


Numa cena logo no início do livro, que dá o tom para o restante da obra, ele
descreve como foi seduzido por uma mulher misteriosa, de aparência semelhante à
da atriz Catherine Zeta-Jones, que se apresentou como Claudine Martin e que
supostamente trabalhava para a Main. Em uma entrevista, fala o autor, ela lhe
ofereceu cocaína, vinho tinto e, para finalizar, ela própria. ‘Somos um clube
pequeno e exclusivo’, afirma Claudine no livro. ‘Seu trabalho é encorajar
líderes mundiais a se transformarem em parte de uma rede imensa que promove os
interesses comerciais dos Estados Unidos. No final, esses líderes vão se enredar
numa teia de endividamento que vai assegurar a sua lealdade a
nós.’’




INTERNET
Anthony Effinger e Jonathan Thaw


Fraude do clique ameaça valor do Google


‘DA BLOOMBERG – Clique-clique. Em uma ruazinha de Nova Déli, deixando para
trás os carrinhos que vendem verduras e descendo um lance de escadas, o
conhecido som de um mouse de computador é sinal de problemas para o Google
Inc.


Em um quartinho de porão, Rajiv Kumar vende nomes de sites que pagam para que
pessoas cliquem em anúncios da internet. Preço: 300 rupias (US$ 6,74). ‘Não há
nada de errado nisso’, diz Kumar a um cliente potencial. Clicar é fácil, diz
ele.


É fácil -mas também é um atoleiro legal. A prática, conhecida no setor como a
‘fraude do clique’, explora os pontos fracos do sistema de pagamento por número
de cliques (pay-per-click) que tornou o Google, sediado em Mountain View, no
Estado norte-americano da Califórnia, um prodígio da web.


O Google, o Yahoo! e outros provedores de busca vinculados a anúncios on-line
cobram de seus anunciantes toda vez que alguém clica em seus links
publicitários. Ao aumentar o número de cliques nesses anúncios, as pessoas que
cometem esse tipo de fraude inflacionam artificialmente as contas pagas pelos
anunciantes, que dessa forma são ludibriados.


As pessoas que exibem em seus sites anúncios repassados pelo Google recebem
dos anunciantes mais da metade do pagamento quando algum usuário clica nos
anúncios exibidos.


Para aplicar a fraude do clique, basta criar um site e, em seguida, se
inscrever on-line no Google para solicitar a exibição de anúncios em seu site.
Sempre que alguém visitar o site e clicar nos anúncios que aparecem nele, seu
proprietário receberá por isso.


O Google, que diz estar tentando combater esse tipo de fraude, lucra também,
no entanto, com o tráfego de cliques falsos. A menos que a empresa ou seus
clientes detectem os cliques fraudulentos, o Google recebe por eles.


No último dia 8 de março, o Google -sem ter admitido nem negado ter cometido
nenhum delito- aceitou pagar cerca de US$ 90 milhões para resolver com acordo
sua participação em uma ação judicial que envolveu todo o setor de internet e
alegava que as operadoras de ferramentas de busca na internet cobram de seus
clientes por cliques que não foram gerados por usuários reais.


A fraude do clique é apenas uma das dores de cabeça do Google e seus
acionistas. As ações da empresa despencaram neste ano, após terem mais do que
quintuplicado de valor desde 2004.


Alguns investidores receiam que os cliques fraudulentos e a intensificação da
concorrência, especialmente por parte da Microsoft, brecarão o crescimento do
Google. A Microsoft pretende lançar um sistema de anúncios on-line concorrente
-cujo codinome é Moonshot- no próximo mês de junho.


Analistas nervosos


O Google irritou os analistas de Wall Street ao deixar de informá-los a
respeito da fraude dos cliques e de outros problemas, diz Scott Devitt, analista
do Stifel, Nicolaus & Co., um banco de investimento de St. Louis.


O Google se nega a revelar quantas buscas os usuários realizam em sua famosa
ferramenta de busca na internet. A empresa também não fornece previsões sobre
vendas ou lucros trimestrais. O conteúdo do acordo firmado pela empresa em março
passado para resolver sem litígio a ação sobre a fraude do clique apareceu pela
primeira vez no blog do Google, em um despacho da consultora jurídica associada
da empresa, Nicole Wong.


‘Uma empresa que não lhe diz nada a respeito de seus negócios merece um
desconto (no preço de suas ações)’, disse Devitt.


O analista emitiu a recomendação ‘vender’ para as ações do Google no último
dia 18 de janeiro, pouco antes de os papéis terem apresentado queda. Ele elevou
sua recomendação para ‘manter a posição’ em 6 de fevereiro e, em seguida, para
‘comprar’ em 24 de março, pouco tempo após a agência de classificação de risco
Standard & Poor’s ter dito que o Google seria incluído no índice S&P
500. Em sua recomendação para ‘comprar’ as ações da empresa, Devitt disse que o
comportamento reticente do Google ainda perturbava.


As fraudes dos cliques atacam o coração do Google, cuja rede de anúncios
baseada em palavras-chave gera 99% da receita da empresa, diz David Tice, que
está vendendo ações do Google a descoberto, por ter um pouco mais de contratos
vendidos do que comprados de ações da empresa, e administra US$ 450 milhões no
Prudent Bear Fund. ‘Isso me assusta’, disse Tice, presidente da David W. Tice.
Futuramente, as fraudes e a concorrência prejudicarão o Google e suas ações, diz
ele. Por isso, ele está apostando contra as ações do Google.


O diretor financeiro do Google, George Reyes, disse a investidores durante
uma conferência realizada em Nova York no último dia 28 de fevereiro que o
crescimento da empresa poderá desacelerar. Reyes disse publicamente o que muitos
investidores temiam secretamente: o Google, cuja receita disparou 71 vezes desde
2001, não será capaz de sustentar esse ritmo de expansão para sempre.


Futuramente, a empresa -cujo nome vem de ‘googol’, o número representado pelo
algarismo 1 seguido de cem zeros- se tornará tão grande que, com base em
cálculos matemáticos simples, sua taxa de crescimento deverá desacelerar, disse
Reyes.


Ações despencam


Até 13 de março, os papéis da empresa haviam despencado para a cotação de
fechamento de US$ 337,06, comparativamente a sua alta recorde de US$ 475,11 em
11 de janeiro passado, um recuo de 29%.


O principal executivo do Google, Eric Schmidt, diz que a sua empresa só se
movimenta para cima. Desde o ano passado, o Google ultrapassou os US$ 18 bilhões
anuais em publicidade on-line e passou a intermediar a venda de espaço
publicitário em rádios e revistas. A empresa lançou um serviço de vídeo
pay-per-view em janeiro passado.


‘Essas são áreas de atuação muito grandes’, disse Schmidt. Ele está certo: o
mercado mundial de anúncios na internet, no rádio, na TV e na mídia impressa,
totalizou US$ 404 bilhões no ano passado, segundo o ZenithOptimedia Group Ltd.,
empresa de serviços de mídia.


Como parte de sua expansão, em janeiro passado o Google aceitou comprar a
americana dMarc Broadcasting Inc. por US$ 102 milhões em dinheiro -e com a
promessa de pagar cerca de US$ 1,14 bilhão adicionais no futuro. A dMarc permite
que os anunciantes transmitam seus anúncios para mais de 500 estações de rádio
dos Estados Unidos.


O Google, diz Schmidt, pretende permitir que os anunciantes comprem tempo de
transmissão, gravem seus anúncios e os enviem a estações de rádio por meio da
net. ‘Essa coisa vai ser uma jogada muito, mas muito grande.’


No ano passado, o Google se lançou no setor de mídia impressa ao
comercializar espaços publicitários para anunciantes nas revistas ‘PC Magazine’
e ‘Maximum PC’. Em fevereiro, a empresa expandiu seu alcance para 28
publicações, entre as quais a ‘Car and Driver’. Com parte de uma fase de testes,
o Google permitiu que os anunciantes fizessem ofertas pelos espaços nessas
revistas por meio de leilões on-line.


Nesse meio tempo, um programa do Google chamado Google Sidebar está
disputando cabeça a cabeça com a Microsoft. O Sidebar, que foi criado para
reduzir a dependência dos internautas do navegador Internet Explorer, da
Microsoft, aparece como uma janela no canto da tela do computador. Essa janela é
continuamente atualizada com notícias e previsões meteorológicas.


Neste ano, o Google voltou suas baterias para o Microsoft Office -que gera
US$ 11 bilhões por ano em vendas para a Microsoft- ao comprar a Upstartle,
empresa que criou o programa Writely, um software de processamento de texto
baseado na internet. Para contra-atacar, o presidente do conselho administrativo
da Microsoft, Bill Gates, está criando uma janela parecida com a do Sidebar para
o Vista, a próxima versão do Windows.


Os bilionários fundadores do site Google, Sergey Brin e Larry Page, estão
perseguindo suas próprias ambições elevadas. Brin, 32, e Page, 33, estão
participando de um processo de licitação para fornecer acesso à internet de
banda larga sem fio a toda a cidade de San Francisco. Eles também estão tentando
tornar os conteúdos de todos os livros existentes passíveis de serem localizados
on-line.


Cientista


Brin e Page gostam de correr riscos, segundo Schmidt. ‘Eles geralmente estão
à minha frente.’


Schmidt, que já foi conhecido por defender o software Java Internet quando
ocupava o cargo de diretor de tecnologia da Sun Microsystems, diz que a fraude
do clique não ameaça nada disso.


‘Acredite em mim, que sou um cientista da área de informática: temos a
capacidade de detectar os cliques inválidos antes que eles alcancem os
anunciantes’, diz Schmidt, que é doutor em ciência da computação pela
Universidade da Califórnia, em Berkeley. ‘Os ataques direcionados a nós são
facilmente detectados.’


Schmidt se recusa a dizer qual a taxa de penetração da fraude dos cliques nem
revela como, exatamente, sua empresa os combate. Revelar isso ajudaria os
fraudadores, diz. Schmidt diz que os acionistas não deveriam se preocupar: o
Google monitora todos os cliques e reembolsa anunciantes por muitos dos cliques
fraudulentos.’




TELEVISÃO
Daniel Castro


Globo inscreve 15 programas no Emmy


‘A Globo tentará neste ano superar o recorde do ano passado de quatro
indicações ao Emmy International, o principal prêmio mundial de TV. A emissora
acaba de inscrever 15 programas. Os indicados só serão conhecidos em setembro.
Os vencedores saem em novembro, em Nova York.


Além dos 15 programas, a Globo inscreveu cinco atores (categoria que só
passou a existir em 2005). São eles Rodrigo Santoro e Letícia Sabatella, ambos
por ‘Hoje É Dia de Maria 2’, Fernanda Montenegro, por ‘Belíssima’, Bruna
Marquezini (que interpretou uma menina cega em ‘América’) e Milton Gonçalves,
pelo primeiro capítulo de ‘Sinhá Moça’.


A novela das seis, que está inovando ao usar softwares de pós-edição que lhe
dão uma imagem parecida com a de cinema, foi inscrita na categoria ‘drama
series’, assim como a minissérie ‘JK’. ‘Cidade dos Homens’, ‘Carandiru – Outras
Histórias’ e ‘Hoje É Dia de Maria 2’ foram inscritas em ‘mini-series’
(seriados).


As maiores surpresas, contudo, são as inscrições do show dos Rolling Stones
(em ‘arts programming’) e do quadro ‘Lata Velha’, do ‘Caldeirão do Huck’, em
‘non scripted programs’. Completam a lista ‘Os Amadores’, ‘A Diarista’, ‘A
Grande Família’ e ‘Casseta & Planeta’ (‘comedy’), ‘Clara e o Chuveiro do
Tempo’, ‘Sítio do Picapau’ e ‘Malhação’ (‘children and youth’) e ‘BBB 6’ (‘non
scripted programs’).


OUTRO CANAL


Majestade O SBT tem um projeto para Pelé, que há duas semanas esteve na
emissora, conversando com Silvio Santos. O programa é atualmente um dos segredos
mais bem guardados da rede. Só será discutido em detalhes com o ex-craque depois
da Copa do Mundo.


Detalhes A São Paulo cenográfica de ‘Belíssima’ é um amontoado de clichês da
cidade. Mas a produção da novela, gravada no Rio, se ‘esqueceu’ de arrumar
placas de São Paulo aos carros que circulam pela rua cenográfica. As placas
começam com ‘L’, como as do Rio. E o ônibus, que não tem placas, é um modelo
comum nas ruas do Rio.


Xerox Depois de copiar o cenário e os caracteres gráficos do ‘Jornal
Nacional’, o ‘Jornal da Record’ apresenta nesta semana a série de reportagens
‘Brasil sobre Rodas’, que percorreu 4.000 quilômetros de estradas. A idéia não é
nova. Já foi realizada duas vezes pelo ‘JN’.


Acústico O ator Dado Dolabella circulou pelo SBT na última quarta-feira,
quando assinou contrato para ser o protagonista de ‘Cristal’, com um violão a
tiracolo. A quem pedia, ele mostrava como será a música-tema da novela, uma
versão romântica de um funk carioca.


Estresse A semana que passou foi tensa nos bastidores do ‘Domingo Legal’, de
Gugu Liberato. Houve praticamente uma demissão por dia.’


Luiz Fernando Vianna e Laura Mattos


Record e Globo brigam por música


‘A guerra entre Globo e Record chegou à indústria fonográfica. Além de
disputar audiência, as emissoras agora travam, nos bastidores, uma batalha por
músicas para trilhas sonoras das novelas.


Márcio Antonucci, diretor musical da Record, acusa Mariozinho Rocha, que
ocupa o posto na Globo, de ameaçar as gravadoras. ‘Ele faz pressão. Se o cantor
cantar aqui, não entra lá. Se o autor compuser para cá, não entra lá. Os
dependentes da Globo não cedem música para nós. Mas quem acha isso absurdo está
conosco’, afirma Antonucci, responsável por trilhas da Globo de 1980 a 91.


Avesso a entrevistas, Rocha aceitou falar à Folha para, segundo ele, evitar
mal-entendidos. Ele diz que Antonucci, a quem substituiu na Globo, ‘é
extremamente competente e sabe melhor do que ninguém que é impossível [as
gravadores sofrerem pressões]’. ‘É um absurdo. Quem sou eu para proibir? Isso
não existe, nunca existiu nem poderá existir. Se um presidente de gravadora
aceita uma interferência dessas, ele cai.’


Mas Rocha reconhece que um artista que esteja na trilha de uma novela de
outra emissora tem pouquíssimas chances de entrar, ao mesmo tempo, numa da
Globo. ‘Vou evitar a repetição a todo custo porque é ruim para o público.
Imagine se você liga um canal e ouve a Gal Costa e em outro também. Parece tudo
igual. Mas acabou [a novela de outra emissora], tudo bem. Zera tudo’,
afirma.


Para mostrar que a regra tem exceção, ele diz que, mesmo sabendo que uma
música de Ivan Lins estava sendo selecionada pela Record, procurou saber que
outras opções do compositor teria para oferecer a Manoel Carlos, autor da
próxima novela das 21h.


‘Não interfiro em nada. A única coisa que peço [às gravadoras] é que me
informem o que foi cedido à Record, para não repetir.’


Chitãozinho e Xororó


Já Antonucci assegura que as principais gravadoras são pressionadas por
Rocha. ‘Todas me disseram que há pressão dele, a EMI, Universal, Sony BMG e a
Warner. Dessas, a única que tem negado tudo é a Universal. Fiz uns dez pedidos,
como Diana Krall e Thelma Houston, e não autorizaram. Também pedi uma do
Chitãozinho e Xororó e não deram porque o Mariozinho falou que eles não
entrariam na Globo.’


Rocha nega e diz que Chitãozinho e Xororó não têm entrado em trilhas da Globo
por decisão da direção da emissora. Motivo: eles apresentaram um programa na
Record, o ‘Raízes do Campo’.


José Antonio Eboli, presidente da Universal Music, diz não se lembrar de ter
recusado alguma música da dupla para a Record. Sobre os internacionais, garante
que o problema é igual para todas as TVs. ‘Liberação gratuita é uma
peculiaridade do Brasil. Pela situação da Globo, acabou acontecendo. Mas
acabamos de negar várias para a Globo agora.’


O discurso dos executivos das grandes gravadores é o mesmo: a Globo é
prioridade porque tem mais audiência e está há mais tempo no ramo das
novelas.


‘A gente sabe o quanto as outras emissoras já tentaram fazer negócio nessa
área e não deram certo’, afirma Eboli. ‘É uma questão de mercado’, diz Alexandre
Schiavo, da Sony BMG.


‘Nunca ouvi falar nisso [em pressões do Mariozinho]. É história da
carochinha. Se tenho uma música de um artista em uma novela da Globo, não é
ético dar esse mesmo artista pra uma novela da Record. E vice-versa’, diz Marcos
Maynard, presidente da EMI.


Até o nome de Chico Buarque, um dos mais requisitados nesse mercado, entrou
na polêmica. ‘O Mariozinho não tem Chico Buarque lá de jeito nenhum e eu estou
com a segunda novela com ele. Essa é uma postura do próprio Chico’, diz o
diretor da Record.


O da Globo, por sua vez, nega qualquer problema com Chico Buarque. ‘Estou
para receber o disco novo dele. Posso sugerir uma música para a novela do Maneco
[Manoel Carlos].’


Mercado


Embora as vendas de CDs tenham sofrido uma forte queda nos últimos anos, as
trilhas de novelas da Globo, lançadas pela Som Livre, continuam vendendo
bem.


Se correspondiam a 1,39% do mercado em 1997, hoje estão em 3,05%, tendo
chegado em 2003 a 6,25%. ‘Laços de Família Internacional’ (2000) e o CD duplo de
‘Mulheres Apaixonadas’ (2003) passaram de 1 milhão de cópias, marca quase
inatingível hoje.


‘Em 2005, não teve nenhum sucesso criado por rádio. Os artistas novos
surgiram pela TV, como Marjorie Estiano [de ‘Malhação’, que vendeu 200 mil
cópias do seu CD solo] e RBD [da novela ‘Rebelde’, do SBT]’, diz Maynard.


Dos 20 CDs mais vendidos em 2005, oito têm ligação com a TV aberta, como o de
Xuxa e o primeiro lugar, a coletânea de Ana Carolina, em que 11 das 14 faixas
foram temas de novelas.


‘Para as gravadoras, é uma espécie de jabá ao contrário’, diz Gustavo Ramos,
diretor da Som Livre, referindo-se ao pagamento que as empresas fazem a rádios
para que suas músicas toquem.


‘Elas recebem royalties e ainda divulgam seus artistas’, diz ele,
reconhecendo que, para a Som Livre, é um ótimo negócio: lança CDs populares sem
arcar com custos de contratos e produção.’




***


Composição combina pressão e acaso


‘A composição de trilhas de novela combina fórmulas, pressões, negociações e
um toque de acaso.


Gustavo Ramos, da Som Livre, conta que há uma receita básica, mas ela não é
necessariamente seguida: músicas que as gravadoras vão ‘trabalhar’ nas rádios
(ou seja, pagarão para que elas toquem) + algumas surpresas (artistas novos, por
exemplo) + uma ou outra música antiga (como ‘Você É Linda’ em ‘Belíssima’) +
duas faixas exclusivas da novela.


‘O ideal é haver um equilíbrio entre as gravadoras, mas nem sempre é
possível’, diz Ramos.


Cabe ao diretor musical da Som Livre, André Werneck, produzir as trilhas
internacionais. Mariozinho Rocha, da Globo, cuida das nacionais. Eles recebem
inúmeros CDs e sugestões. ‘É um bombardeio de informação. Essa é a pressão’,
afirma Werneck.


Mas ele admite que já recebeu assédios mais explícitos. ‘Uma pessoa de uma
gravadora me ofereceu um dinheiro muito alto. É claro que foi recusado’,
diz.


Mariozinho Rocha afirma que, com ele, ‘ninguém se atreveu a isso’. ‘Se fizer,
vai tomar um boxe [soco] na cara’, ameaça.


Mas há propostas como a que a Sony BMG fez recentemente: incluir uma música
de Roberto Carlos na próxima novela das 19h para, segundo Rocha, ‘dar uma
revitalizada no disco para o Dia das Mães’. ‘Eu e o [diretor] Wolf Maya ouvimos
e não encontramos personagem para as duas músicas [oferecidas]. Não entrou’,
diz.’




***


Atores também sugerem canções


‘Não são só as gravadoras que bombardeiam para incluir músicas em trilhas
sonoras. Muitas vezes autores, diretores e até atores das novelas sugerem
canções próprias, de parentes ou amigos.


Nos bastidores, é famosa a história de que Glória Pires tenta emplacar
músicas de seu marido, Orlando Moraes, nas suas novelas.


Diretor musical da Globo por 11 anos, Márcio Antonucci diz: ‘Ela não exigia,
era muito delicada e sutil em aparecer com o Orlando e apresentar a música dele
que gostaria que fosse do personagem dela. Aconteceu em ‘Mulheres de Areia’. Mas
daí a entrar, há o processo de mostrar à alta direção’.


Mariozinho Rocha, diretor musical da Globo, relativiza: ‘Há vontade de
agradar. Mas seria injusto com o Orlando. Ele já entrou em novelas de que ela
não participou. E ela, em novela em que ele não entra, como ‘Belíssima’.


Há casos de ‘azarões’ que conseguem furar o esquema e entrar em trilhas sem
forte QI (quem indica). Foi o que ocorreu com Fher Cassini, 21. Ele nunca havia
gravado um CD e teve uma música escolhida para Sol (Deborah Secco), de ‘América’
(2005). ‘Can’t Get Over’ tocava enquanto a protagonista dançava sobre o balcão.
Cassini conta que CDs com a música foram distribuídos a rádios e DJs. Um deles
conhecia um sonoplasta de ‘América’ que buscava algo nesse estilo. ‘Quando a
música tocou na novela, foi um boom. Eu dormi anônimo e acordei famoso’, conta
Cassini.’


Marcelo Bartolomei


Programa de Regina Casé mostra ‘ações legais’ da periferia


‘Uma mistura do que Regina Casé e seus dois principais parceiros na TV, o
antropólogo Hermano Vianna e o diretor Guel Arraes, já fizeram, de ‘Programa
Legal’ (1999) a ‘Mercadão de Sucessos’ (2005), estréia no próximo sábado em
‘Central da Periferia’, uma investigação das benesses em comunidades pobres do
país.


‘Nós fazemos televisão e, por isso, somos a periferia da cultura’, diz a
apresentadora do programa que será exibido após ‘Caldeirão de Huck’. ‘É quase um
programa de inclusão das elites. Aquelas pessoas não se sentem excluídas, pois
fabricam sua própria cultura’, acredita.


A periferia, claro, tem cidadãos do ‘bem’ mas também é o lugar onde a
criminalidade bate recordes e o tráfico, em grande parte das favelas, influencia
na vida dos moradores. O que eles pensam a esse respeito? ‘Vimos que nem tudo
era legal, mas que também havia algo bom para combater o que não era’, diz
Arraes. ‘Mudou a nossa postura política. É evidente que nunca fomos doidos ou
alienados de achar que tudo estava uma maravilha. Fomos apenas afirmativos’,
conta Regina Casé. ‘Fazer televisão para a gente sempre foi um compromisso
político’, completa Vianna.


‘Queríamos que fosse um programa de auditório’, afirma Arraes. ‘Central da
Periferia’ (o nome, em si, ambíguo) começa num palco montado diante de uma
grande platéia para apresentar artistas locais e populares; depois roda pelas
ruas e casas das favelas em busca de depoimentos sobre o dilema
dignidade-exclusão dos moradores. ‘Tudo o que é identificado como popular é
visto de maneira pejorativa. Acho que ninguém é obrigado a gostar de música
brega, mas não pode ignorar movimentos tão grandes que acontecem no Brasil’, diz
Casé.


Ela reclama do tempo na TV. ‘Se a gente mostrasse somente o que era ruim, não
sobraria espaço para as ações legais. Agora, podemos mostrar outros lados
também. O espaço que a periferia tem na mídia é criminalizado; a pessoa aparece
se o barraco cair em cima ou se ela for morta, envolvida em tragédias’,
afirma.


Para ela, ‘Central da Periferia’ é conseqüencia do que já fez na TV. ‘A gente
foi empurrado para isso. Quando fiz aquele quadro com as crianças para o
‘Fantástico’, um dos temas era o medo. Perguntei se elas tinham medo de
bicho-papão. As da favela disseram temer o ‘caveirão’ [veículo blindado da
polícia carioca]. Eu não tinha a intenção de falar disso, mas gerou uma enorme
repercussão’, conta.


Segundo Vianna, o programa mostra um país que muita gente não conhece. ‘É um
processo interessantíssimo da cultura, da política e da história brasileiras. As
periferias estão organizadas -tanto em novos movimentos culturais, que acontecem
à margem da televisão e da indústria fonográfica- quanto em projetos sociais, de
cidadania e de inclusão’, diz o antropólogo, chamado por Regina Casé de
‘arqueólogo’ por garimpar pelo Brasil pessoas, histórias de vida e tendências
pouco conhecidas no país.


O programa será mensal e terá quatro episódios, inicialmente, exibidos nas
tardes de sábado. ‘É um dia em que a periferia está em casa’, diz Regina
Casé.


O primeiro episódio passeia por Recife e apresenta artistas de sucesso local.
Termina com um apitaço de mulheres contra a violência doméstica.


As próximas passagens serão por São Paulo, Rio e Belém.’




***


Guimarães brinca de pai e apresentador


‘Longe de Regina Casé desde o ‘Programa Legal’, o ator Luiz Fernando
Guimarães começa a dar vida na próxima sexta-feira ao colunista social de TV que
é obrigado pela Justiça a cuidar do filho pequeno que mal conhece em ‘Minha Nada
Mole Vida’, que estréia após o ‘Globo Repórter’.


A comédia, escrita pela dupla Alexandre Machado e Fernanda Young e dirigida
por José Alvarenga Jr., traz de novo à tela da Globo a mesma equipe de ‘Os
Normais’. A comparação com o programa, que terminou em 2003, é inevitável. ‘Mas
este é diferente porque dá mais margem à improvisação’, diz Guimarães, que
livremente inspira seu novo personagem no apresentador de TV Amaury Jr.,
‘referência’, ‘professor’ e ‘o melhor’, segundo suas próprias palavras.


Jorge Horácio, o clone, faz piadas de duplo sentido, abusa do humor negro e
ri dos entrevistados em ‘Jorge Horácio By Night’, um programa dentro do
programa. ‘Fazemos humor com o conflito’, dizem os autores.


Conflito, no caso, pode ser traduzido na falta de assunto e de
compatibilidade entre pai e filho. ‘É bonito esse contraste de alguém ‘by night’
com o elo familiar’, diz Young.


A equipe tem mantido ritmo intenso nas gravações dos oito episódios há quatro
semanas. Diante da reação do público, a série pode ganhar uma segunda fase no
final do ano e, daí sim, colocar o personagem em situações reais, em festas
freqüentadas por celebridades globais. ‘É um caminho um pouco mais perigoso
porque mistura realidade e ficção, mas pode ser algo interessante’, diz o
diretor.


A partir desta semana, a grade da Globo volta a exibir os seriados semanais
‘Casseta & Planeta’, ‘A Diarista’ e ‘Sob Nova Direção’.


Em ‘A Grande Família’, às quintas, o espectador perceberá que a casa e a rua
onde moram Lineu e Nenê ganharam tons reais. É que a cidade cenográfica do
seriado foi ampliada e planejada para as filmagens do longa-metragem da família,
programadas para junho. Até lá, a série também se aproximará mais da realidade,
falando de assuntos como violência e eleições, por exemplo.’


Laura Mattos


Feliz com a fama, ele dá ‘selinho’ em rapaz no ar


‘Padre Pinto está à vontade no camarim de Luiz Gasparetto, criador de um dos
principais centros espíritas do país e apresentador do ‘Encontro Marcado’,
programa de auto-ajuda da Rede TV!.


Ele chegara pouco antes de Salvador, num vôo pago pela emissora, para
participar do ‘A Casa É Sua’, com a deputada (‘meu nome é’) Havanir, uma
psicóloga e uma ex-’Big Brother’, na sexta-feira, dia 24. Desde que foi suspenso
da Igreja Católica, em fevereiro, por rezar missas com roupas inspiradas no
candomblé e em índios, José Pinto, 59 anos de idade, 34 de batina, virou a nova
celebridade instantânea da TV.


Esteve, entre outros, no ‘Altas Horas’ (Globo), de Serginho Groisman,
‘Charme’ (SBT), de Adriane Galisteu, ‘Boa Noite, Brasil’ (Bandeirantes), de
Gilberto Barros. E tem marcada para a próxima terça-feira uma entrevista no
‘Programa Jô Soares’.


Na Rede TV!, enquanto passa pó no rosto e batom nos lábios em frente ao
espelho cercado de luzes, é procurado por uma produtora do ‘Superpop’, de
Luciana Gimenez. A apresentadora o quer em seu programa, mas não com as
condições impostas por um advogado que o representava: passagem para o convidado
e cinco acompanhantes, hospedagem da trupe em hotel cinco estrelas e a compra de
cinco quadros pintados pelo padre no valor de R$ 40 mil cada um. ‘É uma pessoa
fora da realidade da TV. Imagina pagar mais de R$ 200 mil para ter um
convidado?!’, explica ela a um primo que acompanha o padre.


Eles dizem a ela que o advogado é um explorador, que já foi dispensado. Agora
é só pagar a passagem a ele e um acompanhante, hospedagem dos dois, e não
precisa ser hotel chique. Ótimo, então é melhor o padre nem voltar a Salvador,
já que a gravação seria na segunda-feira seguinte. Ele não trouxe roupa para
tantos dias. Sem problemas, a verba de Luciana Gimenez pode bancar.


Na segunda-feira, lá está ele outra vez na TV, com camiseta vermelha
estampada, calça branca, de novo discutindo com a doutora Havanir, um bispo
evangélico, uma ex-’Casa dos Artistas’ e um jornalista. O programa deita e rola
com as polêmicas. Padre Pinto beijou Caetano Veloso na boca?


Ele diz que não, que foi no rosto, mas não teria problema se fosse mesmo na
boca. O repórter no palco, então, pergunta se poderia dar nele um selinho.
‘Perfeito’, responde Pinto, que beija o rapaz para escândalo de Havanir.


À Folha, Pinto afirma não ser homossexual e confessa ter engravidado uma
namorada aos 18 anos e pago para ela abortar.


Adora microfone. Diz ter nascido para brilhar. Ameaça contar podres de
poderosos da igreja se for expulso em outubro, quando termina a suspensão. Leva
ao palco seus quadros (de R$ 500 a R$ 15 mil) e pede ao público para ajudá-lo
com o pão nosso de cada dia. Faz pré-propaganda de um CD, que promete lançar, e
de sua futura grife, a PP, com roupas ‘diferentes’, como terno com bermudão.
Amém.’


Thiago Ney


Religião guia música da banda Pecadores


‘Apostle Niwt é um ex-padre da paróquia de São Thomé dos Aflitos que passou a
vida viajando pela Amazônia catequizando índios. Dark Messenger era pastor
protestante da Igreja Pentecostal Deus É Tudo e pregava o Evangelho por favelas
brasileiras. Mas em algum momento eles perderam a fé. Viraram os Pecadores.


Ou… não. A história verdadeira dos dois não é bem essa, mas eles são os
Pecadores, então a biografia fictícia é apropriada. As identidades são mantidas
em algum sigilo, mas uma coisa é certa: eles realmente perderam a fé.


Niwt e Dark Messenger montaram a banda Pecadores em 2004. Já gravaram um
disco, apropriadamente intitulado ‘10% for Jesus’, que será lançado no Brasil e
na Europa em setembro, pelo selo alemão Danse Macabre Records, produzido por
Bruno Kramm, integrante do alemão Das Ich.


‘Inicialmente iríamos chamar Sinners [Pecadores em inglês], com músicas
apenas em inglês. Mas o Bruno ouviu e nos aconselhou a fazer em português mesmo
porque o mercado alemão está saturado de músicas em inglês. Eles querem letras
em espanhol, português’, diz Niwt à Folha.


A história de que são ex-padres funciona bem com as músicas da dupla,
calcadas no EBM e no rock industrial dos anos 80 e baseadas em batidas
eletrônicas fortes, com vocais gritados e muita percussão.


Para os shows, eles convocam Brother Rogy, ator performático que ‘encena’
cada canção -o palco se transforma numa encenação apocalíptica, em que se
misturam macumba, sexo, sangue, charutos, velas e até pirulitos -os últimos para
ilustrar ‘Man of God’, que fala de pedofilia.


Dá para ter idéia do que esperar pelo nomes das canções: ‘Macumbaria’,
‘Apocalipse’, ‘Blood’, ‘Ritual de Magia’, ‘Louvor dos Insanos’…


‘Nossas músicas falam de coisas reais, que todo o mundo sabe que acontecem,
mas ninguém comenta. Religiosos arrecadando dinheiro, aproveitando da boa-fé dos
mais pobres; a pedofilia na Igreja…’, afirma Niwt, que nas apresentações ao
vivo costuma vestir alguns trajes de cardeal.


Enquanto ‘10% for Jesus’ não chega às lojas, dá para ouvir os Pecadores pelo
site da banda: www.pecadores.net. O single ‘Macumbaria’ será lançado também em
clipe, no mês que vem. O disco vem com remix produzido por Rodolfo Wehbba e com
versões de ‘Apocalipse’ e ‘Priest’.’




PUBLICIDADE
Raquel Bocato


Anúncio na TV começa em R$ 5.000


‘Quer investir em propaganda na TV? Então procure um programa que tenha baixa
audiência.


Embora esse raciocínio pareça absurdo, alguns empreendedores seguem-no à
risca. A explicação é simples: sem dinheiro para investir em publicidade no
horário nobre da TV, o empresário adota como tática de marketing os chamados
programas de varejo -aqueles em que, com a ajuda do apresentador, os próprios
donos exibem, em 90 segundos, as ‘ofertas imperdíveis’ da semana.


A vantagem com relação à TV aberta, dizem especialistas, é o perfil do
público. São telespectadores dispostos a adquirir produtos e serviços e a
garimpar ofertas.


O formato desses programas de TV atrai todos os tipos de varejo: das lojas de
móveis e de decoração a empresas dos setores de educação, lazer, serviços,
tecnologia e turismo. Há espaço, ainda, para o mercado imobiliário.


O investimento em um programa da Mix TV, por exemplo, que tem audiência média
de 0,3 ponto, começa em R$ 16 mil por mês para gravações dos anúncios e duas
exibições diárias por 30 dias.


Numa emissora de TV aberta, apenas uma veiculação de 30 segundos, sem a
elaboração do comercial, chega a custar cerca de R$ 10 mil no período da
tarde.


‘Para participar de um infomercial em canais como Bandeirantes, Gazeta e
Record, o empresário não vai gastar menos de R$ 100 mil’, assinala o
proprietário da Parceria, Carlos Carreiras.


A empresa compra horários em TVs abertas, vende o espaço e elabora os
anúncios em programas de varejo. Também responde pela criação e comercialização
desse modelo no canal Mix TV.


Consumo premeditado


Para José Roberto de Raphael, do Shop Tour, o perfil do telespectador é a
principal vantagem para as firmas anunciarem em programas de varejo, que,
segundo ele, são ‘geradores de oportunidades para o consumidor’.


‘Quem assiste [a esses tipos de programa] está interessado em comprar alguma
coisa’, explica.


Dados da empresa mostram que o canal tem, em média, 2.900 telespectadores por
minuto de segunda a sexta. Nos fins de semana, esse número sobre para 4.700.


No Shop Tour, um anúncio veiculado seis vezes por dia durante uma semana sai
por R$ 5.000.


Constituído, em boa parte, por telespectadores das classes B e C, o programa
quer agora estender sua abrangência. Desde novembro do ano passado, tem
convidado lojas voltadas ao público A e B para apresentar seus produtos.


A Mammy Gestante é uma das empresas focadas em classes altas que resolveram
investir num desses anúncios. Porém só na semana entre o Natal e o Ano Novo.


‘Era um teste. Não esperava resultado porque a cidade fica vazia nesse
período e achava que o público era majoritariamente das classes B e C’, conta a
gerente-geral da firma, Dora Cilento.


No entanto, em vez de optar pelo tradicional formato de um minuto, apostou em
um novo, com duração de cerca de 20 minutos.


No primeiro dia de exibição, computou 70 carros na porta da loja e saiu de lá
às 23h30. O horário de fechamento é às 20h.


‘Compensou porque consegui desovar a coleção passada. No entanto,
financeiramente, por ser uma loja com mais variedade do que quantidade e por ter
um público muito específico [o de gestantes], o retorno não foi maravilhoso’,
avalia, sem revelar o montante gasto com o anúncio e o valor das vendas naquela
semana.


‘Essa forma de publicidade pode ter mais resultado quando aplicada por uma
empresa que vende itens menos segmentados’, diz.’




***


Empresas médias apelam para publicidade a fim de crescer


‘‘Sem publicidade, a empresa não sobrevive. Com publicidade errada, ela
quebra logo.’ Essa é a máxima que o empresário Sergio Ribeiro, 41, sócio da Kits
for Baby, usa para justificar o investimento de cerca de 10% do faturamento
bruto da firma em anúncios.


Divide parte da verba para publicações especializadas em decoração de quartos
de criança, ‘que trazem consumidores em busca de produtos mais elitizados’.
Porém a maior parte dos recursos de marketing vai para inserções de um minuto e
meio na televisão, ‘que atraem clientes dispostos a pedir descontos e ter
vantagens’.


Há quase dez anos, Ribeiro anuncia em programas de varejo e raramente fica
fora da TV. ‘Cerca de 33% das vendas são resultado da publicidade na TV.’


O empreendedor só deixa de anunciar quando tem participação em feiras do
setor ou algum grande evento que impulsione as vendas. ‘Os resultados das
propagandas são imediatos, mas não duram por muito tempo depois que a peça sai
do ar’, argumenta.


Emilio Michele Cirillo, da ADVB (Associação dos Dirigentes de Vendas e
Marketing do Brasil) é um dos que defendem o anúncio em veículos de massa. ‘A
empresa média precisa de divulgação para tornar-se grande.’’




******************


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O
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 1 E 2/04

Folha de S. Paulo

04/04/2006 na edição 375


ALCKMIN SOB SUSPEITA
Chico de Gois


Estatal banca revista que promove Alckmin


‘A Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (Cteep), empresa do
governo de São Paulo, pagou R$ 60 mil a título de ‘patrocínio institucional’ à
revista Ch’an Tao, da Associação de Medicina Tradicional Chinesa do Brasil,
presidida pelo médico Jou Eel Jia, acupunturista do pré-candidato do PSDB à
Presidência, Geraldo Alckmin.


Em janeiro deste ano, ao encaminhar o pedido de um novo patrocínio para o
presidente da Cteep, José Sidnei Colombo Martini, a associação informou que ‘em
contrapartida, o patrocinador terá espaço para matéria de cunho editorial do
assunto que achar interessante’.


A publicação deste mês traz na capa o ex-governador Geraldo Alckmin, que
concedeu entrevista exclusiva para a revista, de propriedade do acupunturista do
tucano. Das 48 páginas da revista, Alckmin aparece em nove, em fotos ou em
entrevista. Além disso, na página 10 há uma resenha do livro ‘Seis Lições de
Solidariedade’, sobre a ex-primeira-dama Lu Alckmin, escrito pelo ex-secretário
de Educação Gabriel Chalita.


Na edição deste mês, o patrocinador é a Sabesp, outra estatal paulista, que
não quis informar quanto pagou por uma página de anúncio. A publicação tem, ao
todo, oito páginas de propaganda. Os demais anunciantes são da iniciativa
privada, incluindo o spa do dono da revista.


Antecedentes


Na semana passada, a Folha noticiou que outra estatal, a Nossa Caixa,
direcionava propaganda para publicações e programas de aliados de Alckmin. O PT
tentou, sem sucesso, aprovar na Assembléia Legislativa uma CPI para investigar o
assunto.


A Ch’an Tao está em sua quinta edição -a primeira foi feita por outra
editora. A publicação é bimestral e tem tiragem de 40 mil exemplares, segundo
Kleber Leme Dutra, assessor de Lou Eel Jia.


Ainda segundo a justificativa para o patrocínio, a distribuição da revista se
daria ‘nas secretarias e para toda a rede de ensino do Estado e nos eventos em
que lhe for mais útil [para a Cteep]’.


Júlio Siqueira, chefe da assessoria de comunicação da Cteep, confirmou que a
estatal, vinculada à Secretaria de Energia, Recursos Hídricos e Saneamento, fez
anúncio na ‘Ch’an Tao’ e informou que a empresa ‘poderia sugerir matéria, mas
somente publicou anúncio institucional’.


Já o assessor do acupunturista de Alckmin disse que a informação de que ‘o
patrocinador terá matéria de cunho editorial do assunto que achar importante’
foi ‘uma infelicidade do texto’.


Em julho do ano passado, quando a Cteep concedeu o primeiro patrocínio de R$
60 mil à revista, o ofício de solicitação de propaganda dizia que ‘em
contrapartida, o patrocinador terá espaço de uma página de cunho institucional e
3.000 exemplares para distribuição exclusiva’. Não havia referência a cessão de
espaço editorial.


A Cteep aprovou a concessão de mais R$ 60 mil para a próxima edição, que
deverá circular em maio. A empresa foi criada a partir da cisão da Cesp
(Companhia Energética de São Paulo) e iniciou suas operações em 1º de abril de
1999 e, em novembro de 2001, incorporou a EPTE (Empresa Paulista de Transmissão
de Energia Elétrica S.A.), oriunda da cisão da Eletropaulo.’




***


Empresas negam influência em linha editorial


‘O assessor do acupunturista Jou Eel Jia, Kleber Leme Dutra, negou que a
Cteep ou qualquer outra estatal influenciem a linha editorial da revista ‘Ch’an
Tao’.


Ele classificou como ‘uma infelicidade’ o texto enviado à presidência da
empresa no qual afirma que ‘em contrapartida, o patrocinador terá espaço para
matéria de cunho editorial do assunto que achar interessante’.


‘No caso deles [da Cteep] não foi nenhuma matéria, mas um anúncio, que será
publicado no próximo número da revista’, que deverá ser lançado em maio,
explicou Dutra. Sobre a entrevista de capa com o ex-governador Geraldo Alckmin,
o assessor afirmou que a publicação ‘tem uma linha de trabalho’ e que ‘todo
mundo que é entrevistado o é segundo essa linha, que é uma filosofia de
qualidade de vida’. Dutra disse que a intenção da entrevista ‘foi mostrar o lado
zen’ de Alckmin.


Sobre a resenha do livro da ex-primeira-dama Lu Alckmin, o assessor informou
que Jou Eel Jia ‘coloca na revista dele o que acha que deve, não que isso tenha
a mão do governo’. Ele confirmou que a revista é distribuída nas escolas
estaduais.


O chefe da assessoria de comunicação da Cteep, Júlio Siqueira, disse que a
companhia ‘não interfere no conteúdo editorial de nenhuma publicação em que faz
anúncio’. O assessor afirmou que ‘a Cteep poderia sugerir matéria [para a
revista ‘Ch’an Tao’], mas somente publicou anúncio institucional’.


A superintendência de comunicação da Sabesp também negou que interfira no
conteúdo editorial dos veículos em que anuncia. ‘O anúncio veiculado na revista
‘Ch’an Tao’ não foi condicionado à publicação de nenhuma matéria específica,
assim como ocorreu na última semana, quando da publicação do balanço da empresa
em jornais da capital’.


De acordo com a assessoria da Sabesp, o anúncio da edição em que Alckmin é
tema da capa ‘foi a segunda veiculação programada pela empresa no veículo’. A
estatal se recusou a informar o valor pago pela publicidade na
revista.’




TV DIGITAL
Gilberto Gil e Orlando Senna


TV digital: o que importa é o conteúdo


‘O que importa para a sociedade brasileira é o que a televisão digital vai
mostrar e para quem. Interessa saber se a nova tecnologia permitirá maiores
opções de escolha de programas gratuitos, se a nossa diversidade cultural e a
diversidade cultural do mundo estarão acessíveis em todos os lares e escolas e
se toda a população -ou que percentual dela- terá acesso à nova maravilha da
comunicação. Interessa saber a qualidade técnica da imagem e do som, mas, muito
mais, o que estará dentro desse invólucro mágico.


Os estudos de pesquisadores brasileiros no âmbito do Sistema Brasileiro de TV
Digital (SBTVD) proporcionaram ao governo uma visão completa sobre as muitas
questões envolvidas na transição da televisão analógica para a digital.


Contudo, o debate atual na mídia tem enfocado apenas o padrão de modulação,
responsável pela transmissão e recepção dos sinais, um dos aspectos-chave de
qualquer sistema de televisão digital. Discute-se se o Brasil adotará o padrão
norte-americano, o padrão japonês, o padrão europeu ou mesmo uma inovação
inteiramente nacional, o Sorcer, desenvolvido na PUC-RS (Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul).


É um debate tímido ao qual o governo não se restringe. Tímido porque retira o
foco das principais questões envolvidas na implantação da TV digital: a
estruturação de uma política industrial calcada na microeletrônica, a
incorporação de tecnologia brasileira, a otimização do uso do espectro de
radiofreqüências e a construção de uma política para a produção e a difusão de
conteúdos audiovisuais nacionais.


O espectro de radiofreqüências é um bem público escasso, cuja utilização deve
resguardar o atendimento do interesse público.


No mundo digital, não há mais sentido em falar em canais. Os mesmos 6 MHz que
hoje dão vazão a uma programação de televisão no mundo analógico possibilitará,
com técnicas de compressão, que oito programações digitalizadas cheguem à casa
dos telespectadores, caso se opte pela transmissão em definição padrão. Ou
possibilitará a coexistência de uma programação de alta definição e mais quatro
programações em definição padrão.


A passagem do paradigma dos canais para o paradigma das programações exige
que se ponha na mesa uma análise sobre o modelo de exploração da televisão
digital. É uma análise, uma discussão que independe da escolha do padrão de
modulação a ser adotado.


A otimização do uso do espectro abre espaço para que novas programações
cheguem aos telespectadores. Emissoras de interesse público, hoje disponíveis
apenas por assinatura, poderão chegar à casa de milhões e milhões de
brasileiros. Assim como emissoras comunitárias, universitárias e, naturalmente,
novas redes de emissoras públicas e comerciais.


Abre-se, aqui, a discussão de uma nova política pública para o audiovisual
brasileiro.


O dinamismo da indústria audiovisual, com geração de mais e melhores
empregos, depende da criação de novos instrumentos legais para o setor, que
contemple preceitos constitucionais como o estímulo à programação regional e à
veiculação da produção independente brasileira nas emissoras públicas e
comerciais -preceitos amplamente adotados em vários países. A regulamentação
desses preceitos constitucionais assegurará a potencialização da produção
audiovisual brasileira e a expressão da diversidade cultural do país na
televisão aberta, o meio de comunicação mais acessível aos brasileiros.


A criação de novo marco regulatório para o audiovisual e para a comunicação
social brasileira envolve aspectos políticos, econômicos e culturais que
antecedem, perpassam e acompanham a implantação da TV digital. Trata-se de um
debate público necessário, cujos resultados são fundamentais para a cultura e a
democracia brasileiras e para a consolidação do país como grande produtor de
conteúdos na era das convergências e da economia digital.


Gilberto Gil, 63, músico, é o ministro da Cultura.


Orlando Senna, 65, cineasta e escritor, é o secretário do Audiovisual do
Ministério da Cultura. É membro do Conselho Superior da Fundación del Nuevo Cine
Latinoamericano e professor do Centro de Capacitación Cinematográfica do
México.’




MERCADO EDITORIAL
Landon thomas Jr.


‘Assassino econômico’ é best-seller nos EUA


‘DO ‘NEW YORK TIMES’, EM CHICAGO – Na Transitions, uma livraria new age de
Chicago onde só há espaço para ficar em pé, John M. Perkins, autor de
‘Confissões de um assassino econômico’, está descrevendo para sua platéia o
dilema enfrentado pelo presidente recém-eleito da Bolívia, Evo Morales.


Chegando bem perto do microfone, Perkins fala num sussurro conspiratório
profundo, recriando a cena do encontro imaginário entre o novo presidente e o
representante dos interesses de grandes multinacionais que Morales retratou como
vilões durante sua campanha.


‘Parabéns, senhor presidente’, diz Perkins, assumindo o papel do empresário,
ou assassino econômico, como gosta de chamar sua profissão anterior. ‘Quero
apenas que o senhor saiba que tenho nesta mão algumas centenas de milhões de
dólares para o senhor e sua família, se o senhor jogar a nosso favor.’ Com o
timing ensaiado de um experiente contador de histórias, ele faz uma pausa. ‘E
nesta outra mão tenho uma arma carregada com uma bala, para o caso de o senhor
decidir cumprir as promessas que fez em sua campanha.’


A multidão fascinada murmura e faz comentários em voz baixa, como se tivesse
ouvido uma confidência indizível. Perkins faz uma ressalva, dizendo que está
falando metaforicamente. Mas, para um público já embriagado com as histórias de
trapaças e conluios ouvidas do próprio Perkins, sua alegoria, por mais exagerada
que possa ser, carrega não apenas a marca da verdade mas também pistas para um
longo histórico de finais que ficaram sem explicação.


‘E aqueles desastres aéreos de J.F.K. Jr. e Paul Wellstone?’ pergunta uma
mulher da platéia. ‘Foram mais do que suspeitos.’


Sim, diz Perkins com um aceno da cabeça, e em seguida desfia um rosário de
outras mortes em desastres aéreos: o general Omar Torrijos, ex-presidente do
Panamá, em 1981; também em 1981, o presidente do Equador, Jaime Roldos Aguilera,
e até mesmo o senador texano John G. Tower, que morreu com 22 outras pessoas num
vôo comercial em 1991. ‘Já tivemos muitos acidentes de avião’, diz Perkins em
tom de mau agouro.


A mensagem básica de Perkins é que as grandes empresas e as agências
governamentais americanas empregam dois tipos de agentes: os ‘assassinos
econômicos’, que subornam representantes de economias emergentes, e os
‘chacais’, que podem ser empregados para derrubar ou até mesmo assassinar chefes
de Estado da América Latina ou do Oriente Médio, para servir à causa maior do
império americano.


Numa época anterior, essa mensagem poderia ter não passado de alimento para
as idéias de teóricos da conspiração e editores marginais. Agora, porém, apesar
de toda a conversa de Perkins sobre quedas de aviões e intrigas corporativas,
seu livro parece estar alimentando um veio maior de insatisfação e desconfiança
sentido pelos americanos em relação aos vínculos que unem grandes empresas,
grandes instituições de crédito e o governo -um nexo ao qual Perkins e outros
dão o nome de ‘a corporatocracia’.


A idéia de que interesses corporativos têm ou tiveram influência indevida
sobre administrações da Casa Branca é há muito tempo um dos pratos fortes da
política antiestablishment. Durante a administração Bush, porém, alguns fatos
recentes trouxeram essa idéia para ainda mais perto do pensamento da maioria.
Soldados e empresas dos EUA estão entrincheirados com firmeza no Iraque, e agora
o governo federal pretende dar US$ 7 bilhões em concessões de royalties para um
setor petrolífero que já vem apresentando lucro recorde. De acordo com uma
pesquisa Gallup recente, 70% dos entrevistados disseram acreditar que as grandes
empresas exercem influência excessiva sobre as decisões tomadas pela
administração Bush.


Em Houston, o drama sórdido da Enron, a empresa de energia que tinha conexões
com setores políticos e que entrou em queda, continua a ser representado diante
de uma platéia atenta.


Para Perkins e um pequeno grupo de escritores de tendências semelhantes às
dele, tudo isso vem se mostrando território fértil para o exercício de sua
criatividade. Desde que a Penguin publicou ‘Confissões’ (‘Confessions of an
Economic Hit Man’, no original), em janeiro deste ano, o livro está na lista dos
mais vendidos do ‘New York Times’, tendo chegado ao quinto lugar na lista dos
livros mais vendidos de não-ficção. Hollywood também já manifestou interesse por
ele: a Beacon Pictures comprou os direitos de criar um filme a partir do livro,
com a possibilidade de que seja estrelado por Harrison Ford.


Enquanto a questão mais ampla do papel dos EUA nas economias emergentes é
discutida por muitas pessoas, a popularidade do livro parece ser movida mais
pelo misto de ambiente de sigilo e aventuras misteriosas e pela conversão de
Perkins, de instrumento dos interesses corporativos em defensor dos pobres do
mundo.


‘Meu pecado foi explorar pessoas em todo o mundo’, disse Perkins, falando de
seu emprego de consultor, no qual, afirmou, pressionou países como o Panamá,
Equador e Irã a aceitarem empréstimos onerosos que eles teriam dificuldade em
repagar. ‘Eu me sinto péssimo sobre as coisas que fiz quando era assassino
econômico.’


Com seu sorriso inocente e sua mensagem de renovação pessoal, Perkins, 61,
passa uma imagem que remete mais a um enrugado professor de ioga do que a um
matador de aluguel. Vestindo jeans e moletom velho, ele costuma exortar sua
platéia a fechar os olhos, respirar fundo e visualizar o mundo como um grande
polvo que pulveriza sobre o planeta inteiro uma tinta salubre feita de recursos
naturais e compaixão.


Sexo e conspiração


Seu grande trunfo foi o de acrescentar a uma idéia corriqueira e pouco
emocionante -a de que empresas americanas e instituições multinacionais agiram
com pouca discriminação nos empréstimos que concederam a países de Terceiro
Mundo- doses de sexo, confissões e catastróficos desastres aéreos. De acordo com
seu relato dramático, ele foi interrogado pela Agência Nacional de Segurança,
entrou para o Corpo de Paz no Equador e tornou-se previsor da empresa de
consultoria Chas. T. Main, com sede em Boston.


Numa cena logo no início do livro, que dá o tom para o restante da obra, ele
descreve como foi seduzido por uma mulher misteriosa, de aparência semelhante à
da atriz Catherine Zeta-Jones, que se apresentou como Claudine Martin e que
supostamente trabalhava para a Main. Em uma entrevista, fala o autor, ela lhe
ofereceu cocaína, vinho tinto e, para finalizar, ela própria. ‘Somos um clube
pequeno e exclusivo’, afirma Claudine no livro. ‘Seu trabalho é encorajar
líderes mundiais a se transformarem em parte de uma rede imensa que promove os
interesses comerciais dos Estados Unidos. No final, esses líderes vão se enredar
numa teia de endividamento que vai assegurar a sua lealdade a
nós.’’




INTERNET
Anthony Effinger e Jonathan Thaw


Fraude do clique ameaça valor do Google


‘DA BLOOMBERG – Clique-clique. Em uma ruazinha de Nova Déli, deixando para
trás os carrinhos que vendem verduras e descendo um lance de escadas, o
conhecido som de um mouse de computador é sinal de problemas para o Google
Inc.


Em um quartinho de porão, Rajiv Kumar vende nomes de sites que pagam para que
pessoas cliquem em anúncios da internet. Preço: 300 rupias (US$ 6,74). ‘Não há
nada de errado nisso’, diz Kumar a um cliente potencial. Clicar é fácil, diz
ele.


É fácil -mas também é um atoleiro legal. A prática, conhecida no setor como a
‘fraude do clique’, explora os pontos fracos do sistema de pagamento por número
de cliques (pay-per-click) que tornou o Google, sediado em Mountain View, no
Estado norte-americano da Califórnia, um prodígio da web.


O Google, o Yahoo! e outros provedores de busca vinculados a anúncios on-line
cobram de seus anunciantes toda vez que alguém clica em seus links
publicitários. Ao aumentar o número de cliques nesses anúncios, as pessoas que
cometem esse tipo de fraude inflacionam artificialmente as contas pagas pelos
anunciantes, que dessa forma são ludibriados.


As pessoas que exibem em seus sites anúncios repassados pelo Google recebem
dos anunciantes mais da metade do pagamento quando algum usuário clica nos
anúncios exibidos.


Para aplicar a fraude do clique, basta criar um site e, em seguida, se
inscrever on-line no Google para solicitar a exibição de anúncios em seu site.
Sempre que alguém visitar o site e clicar nos anúncios que aparecem nele, seu
proprietário receberá por isso.


O Google, que diz estar tentando combater esse tipo de fraude, lucra também,
no entanto, com o tráfego de cliques falsos. A menos que a empresa ou seus
clientes detectem os cliques fraudulentos, o Google recebe por eles.


No último dia 8 de março, o Google -sem ter admitido nem negado ter cometido
nenhum delito- aceitou pagar cerca de US$ 90 milhões para resolver com acordo
sua participação em uma ação judicial que envolveu todo o setor de internet e
alegava que as operadoras de ferramentas de busca na internet cobram de seus
clientes por cliques que não foram gerados por usuários reais.


A fraude do clique é apenas uma das dores de cabeça do Google e seus
acionistas. As ações da empresa despencaram neste ano, após terem mais do que
quintuplicado de valor desde 2004.


Alguns investidores receiam que os cliques fraudulentos e a intensificação da
concorrência, especialmente por parte da Microsoft, brecarão o crescimento do
Google. A Microsoft pretende lançar um sistema de anúncios on-line concorrente
-cujo codinome é Moonshot- no próximo mês de junho.


Analistas nervosos


O Google irritou os analistas de Wall Street ao deixar de informá-los a
respeito da fraude dos cliques e de outros problemas, diz Scott Devitt, analista
do Stifel, Nicolaus & Co., um banco de investimento de St. Louis.


O Google se nega a revelar quantas buscas os usuários realizam em sua famosa
ferramenta de busca na internet. A empresa também não fornece previsões sobre
vendas ou lucros trimestrais. O conteúdo do acordo firmado pela empresa em março
passado para resolver sem litígio a ação sobre a fraude do clique apareceu pela
primeira vez no blog do Google, em um despacho da consultora jurídica associada
da empresa, Nicole Wong.


‘Uma empresa que não lhe diz nada a respeito de seus negócios merece um
desconto (no preço de suas ações)’, disse Devitt.


O analista emitiu a recomendação ‘vender’ para as ações do Google no último
dia 18 de janeiro, pouco antes de os papéis terem apresentado queda. Ele elevou
sua recomendação para ‘manter a posição’ em 6 de fevereiro e, em seguida, para
‘comprar’ em 24 de março, pouco tempo após a agência de classificação de risco
Standard & Poor’s ter dito que o Google seria incluído no índice S&P
500. Em sua recomendação para ‘comprar’ as ações da empresa, Devitt disse que o
comportamento reticente do Google ainda perturbava.


As fraudes dos cliques atacam o coração do Google, cuja rede de anúncios
baseada em palavras-chave gera 99% da receita da empresa, diz David Tice, que
está vendendo ações do Google a descoberto, por ter um pouco mais de contratos
vendidos do que comprados de ações da empresa, e administra US$ 450 milhões no
Prudent Bear Fund. ‘Isso me assusta’, disse Tice, presidente da David W. Tice.
Futuramente, as fraudes e a concorrência prejudicarão o Google e suas ações, diz
ele. Por isso, ele está apostando contra as ações do Google.


O diretor financeiro do Google, George Reyes, disse a investidores durante
uma conferência realizada em Nova York no último dia 28 de fevereiro que o
crescimento da empresa poderá desacelerar. Reyes disse publicamente o que muitos
investidores temiam secretamente: o Google, cuja receita disparou 71 vezes desde
2001, não será capaz de sustentar esse ritmo de expansão para sempre.


Futuramente, a empresa -cujo nome vem de ‘googol’, o número representado pelo
algarismo 1 seguido de cem zeros- se tornará tão grande que, com base em
cálculos matemáticos simples, sua taxa de crescimento deverá desacelerar, disse
Reyes.


Ações despencam


Até 13 de março, os papéis da empresa haviam despencado para a cotação de
fechamento de US$ 337,06, comparativamente a sua alta recorde de US$ 475,11 em
11 de janeiro passado, um recuo de 29%.


O principal executivo do Google, Eric Schmidt, diz que a sua empresa só se
movimenta para cima. Desde o ano passado, o Google ultrapassou os US$ 18 bilhões
anuais em publicidade on-line e passou a intermediar a venda de espaço
publicitário em rádios e revistas. A empresa lançou um serviço de vídeo
pay-per-view em janeiro passado.


‘Essas são áreas de atuação muito grandes’, disse Schmidt. Ele está certo: o
mercado mundial de anúncios na internet, no rádio, na TV e na mídia impressa,
totalizou US$ 404 bilhões no ano passado, segundo o ZenithOptimedia Group Ltd.,
empresa de serviços de mídia.


Como parte de sua expansão, em janeiro passado o Google aceitou comprar a
americana dMarc Broadcasting Inc. por US$ 102 milhões em dinheiro -e com a
promessa de pagar cerca de US$ 1,14 bilhão adicionais no futuro. A dMarc permite
que os anunciantes transmitam seus anúncios para mais de 500 estações de rádio
dos Estados Unidos.


O Google, diz Schmidt, pretende permitir que os anunciantes comprem tempo de
transmissão, gravem seus anúncios e os enviem a estações de rádio por meio da
net. ‘Essa coisa vai ser uma jogada muito, mas muito grande.’


No ano passado, o Google se lançou no setor de mídia impressa ao
comercializar espaços publicitários para anunciantes nas revistas ‘PC Magazine’
e ‘Maximum PC’. Em fevereiro, a empresa expandiu seu alcance para 28
publicações, entre as quais a ‘Car and Driver’. Com parte de uma fase de testes,
o Google permitiu que os anunciantes fizessem ofertas pelos espaços nessas
revistas por meio de leilões on-line.


Nesse meio tempo, um programa do Google chamado Google Sidebar está
disputando cabeça a cabeça com a Microsoft. O Sidebar, que foi criado para
reduzir a dependência dos internautas do navegador Internet Explorer, da
Microsoft, aparece como uma janela no canto da tela do computador. Essa janela é
continuamente atualizada com notícias e previsões meteorológicas.


Neste ano, o Google voltou suas baterias para o Microsoft Office -que gera
US$ 11 bilhões por ano em vendas para a Microsoft- ao comprar a Upstartle,
empresa que criou o programa Writely, um software de processamento de texto
baseado na internet. Para contra-atacar, o presidente do conselho administrativo
da Microsoft, Bill Gates, está criando uma janela parecida com a do Sidebar para
o Vista, a próxima versão do Windows.


Os bilionários fundadores do site Google, Sergey Brin e Larry Page, estão
perseguindo suas próprias ambições elevadas. Brin, 32, e Page, 33, estão
participando de um processo de licitação para fornecer acesso à internet de
banda larga sem fio a toda a cidade de San Francisco. Eles também estão tentando
tornar os conteúdos de todos os livros existentes passíveis de serem localizados
on-line.


Cientista


Brin e Page gostam de correr riscos, segundo Schmidt. ‘Eles geralmente estão
à minha frente.’


Schmidt, que já foi conhecido por defender o software Java Internet quando
ocupava o cargo de diretor de tecnologia da Sun Microsystems, diz que a fraude
do clique não ameaça nada disso.


‘Acredite em mim, que sou um cientista da área de informática: temos a
capacidade de detectar os cliques inválidos antes que eles alcancem os
anunciantes’, diz Schmidt, que é doutor em ciência da computação pela
Universidade da Califórnia, em Berkeley. ‘Os ataques direcionados a nós são
facilmente detectados.’


Schmidt se recusa a dizer qual a taxa de penetração da fraude dos cliques nem
revela como, exatamente, sua empresa os combate. Revelar isso ajudaria os
fraudadores, diz. Schmidt diz que os acionistas não deveriam se preocupar: o
Google monitora todos os cliques e reembolsa anunciantes por muitos dos cliques
fraudulentos.’




TELEVISÃO
Daniel Castro


Globo inscreve 15 programas no Emmy


‘A Globo tentará neste ano superar o recorde do ano passado de quatro
indicações ao Emmy International, o principal prêmio mundial de TV. A emissora
acaba de inscrever 15 programas. Os indicados só serão conhecidos em setembro.
Os vencedores saem em novembro, em Nova York.


Além dos 15 programas, a Globo inscreveu cinco atores (categoria que só
passou a existir em 2005). São eles Rodrigo Santoro e Letícia Sabatella, ambos
por ‘Hoje É Dia de Maria 2’, Fernanda Montenegro, por ‘Belíssima’, Bruna
Marquezini (que interpretou uma menina cega em ‘América’) e Milton Gonçalves,
pelo primeiro capítulo de ‘Sinhá Moça’.


A novela das seis, que está inovando ao usar softwares de pós-edição que lhe
dão uma imagem parecida com a de cinema, foi inscrita na categoria ‘drama
series’, assim como a minissérie ‘JK’. ‘Cidade dos Homens’, ‘Carandiru – Outras
Histórias’ e ‘Hoje É Dia de Maria 2’ foram inscritas em ‘mini-series’
(seriados).


As maiores surpresas, contudo, são as inscrições do show dos Rolling Stones
(em ‘arts programming’) e do quadro ‘Lata Velha’, do ‘Caldeirão do Huck’, em
‘non scripted programs’. Completam a lista ‘Os Amadores’, ‘A Diarista’, ‘A
Grande Família’ e ‘Casseta & Planeta’ (‘comedy’), ‘Clara e o Chuveiro do
Tempo’, ‘Sítio do Picapau’ e ‘Malhação’ (‘children and youth’) e ‘BBB 6’ (‘non
scripted programs’).


OUTRO CANAL


Majestade O SBT tem um projeto para Pelé, que há duas semanas esteve na
emissora, conversando com Silvio Santos. O programa é atualmente um dos segredos
mais bem guardados da rede. Só será discutido em detalhes com o ex-craque depois
da Copa do Mundo.


Detalhes A São Paulo cenográfica de ‘Belíssima’ é um amontoado de clichês da
cidade. Mas a produção da novela, gravada no Rio, se ‘esqueceu’ de arrumar
placas de São Paulo aos carros que circulam pela rua cenográfica. As placas
começam com ‘L’, como as do Rio. E o ônibus, que não tem placas, é um modelo
comum nas ruas do Rio.


Xerox Depois de copiar o cenário e os caracteres gráficos do ‘Jornal
Nacional’, o ‘Jornal da Record’ apresenta nesta semana a série de reportagens
‘Brasil sobre Rodas’, que percorreu 4.000 quilômetros de estradas. A idéia não é
nova. Já foi realizada duas vezes pelo ‘JN’.


Acústico O ator Dado Dolabella circulou pelo SBT na última quarta-feira,
quando assinou contrato para ser o protagonista de ‘Cristal’, com um violão a
tiracolo. A quem pedia, ele mostrava como será a música-tema da novela, uma
versão romântica de um funk carioca.


Estresse A semana que passou foi tensa nos bastidores do ‘Domingo Legal’, de
Gugu Liberato. Houve praticamente uma demissão por dia.’


Luiz Fernando Vianna e Laura Mattos


Record e Globo brigam por música


‘A guerra entre Globo e Record chegou à indústria fonográfica. Além de
disputar audiência, as emissoras agora travam, nos bastidores, uma batalha por
músicas para trilhas sonoras das novelas.


Márcio Antonucci, diretor musical da Record, acusa Mariozinho Rocha, que
ocupa o posto na Globo, de ameaçar as gravadoras. ‘Ele faz pressão. Se o cantor
cantar aqui, não entra lá. Se o autor compuser para cá, não entra lá. Os
dependentes da Globo não cedem música para nós. Mas quem acha isso absurdo está
conosco’, afirma Antonucci, responsável por trilhas da Globo de 1980 a 91.


Avesso a entrevistas, Rocha aceitou falar à Folha para, segundo ele, evitar
mal-entendidos. Ele diz que Antonucci, a quem substituiu na Globo, ‘é
extremamente competente e sabe melhor do que ninguém que é impossível [as
gravadores sofrerem pressões]’. ‘É um absurdo. Quem sou eu para proibir? Isso
não existe, nunca existiu nem poderá existir. Se um presidente de gravadora
aceita uma interferência dessas, ele cai.’


Mas Rocha reconhece que um artista que esteja na trilha de uma novela de
outra emissora tem pouquíssimas chances de entrar, ao mesmo tempo, numa da
Globo. ‘Vou evitar a repetição a todo custo porque é ruim para o público.
Imagine se você liga um canal e ouve a Gal Costa e em outro também. Parece tudo
igual. Mas acabou [a novela de outra emissora], tudo bem. Zera tudo’,
afirma.


Para mostrar que a regra tem exceção, ele diz que, mesmo sabendo que uma
música de Ivan Lins estava sendo selecionada pela Record, procurou saber que
outras opções do compositor teria para oferecer a Manoel Carlos, autor da
próxima novela das 21h.


‘Não interfiro em nada. A única coisa que peço [às gravadoras] é que me
informem o que foi cedido à Record, para não repetir.’


Chitãozinho e Xororó


Já Antonucci assegura que as principais gravadoras são pressionadas por
Rocha. ‘Todas me disseram que há pressão dele, a EMI, Universal, Sony BMG e a
Warner. Dessas, a única que tem negado tudo é a Universal. Fiz uns dez pedidos,
como Diana Krall e Thelma Houston, e não autorizaram. Também pedi uma do
Chitãozinho e Xororó e não deram porque o Mariozinho falou que eles não
entrariam na Globo.’


Rocha nega e diz que Chitãozinho e Xororó não têm entrado em trilhas da Globo
por decisão da direção da emissora. Motivo: eles apresentaram um programa na
Record, o ‘Raízes do Campo’.


José Antonio Eboli, presidente da Universal Music, diz não se lembrar de ter
recusado alguma música da dupla para a Record. Sobre os internacionais, garante
que o problema é igual para todas as TVs. ‘Liberação gratuita é uma
peculiaridade do Brasil. Pela situação da Globo, acabou acontecendo. Mas
acabamos de negar várias para a Globo agora.’


O discurso dos executivos das grandes gravadores é o mesmo: a Globo é
prioridade porque tem mais audiência e está há mais tempo no ramo das
novelas.


‘A gente sabe o quanto as outras emissoras já tentaram fazer negócio nessa
área e não deram certo’, afirma Eboli. ‘É uma questão de mercado’, diz Alexandre
Schiavo, da Sony BMG.


‘Nunca ouvi falar nisso [em pressões do Mariozinho]. É história da
carochinha. Se tenho uma música de um artista em uma novela da Globo, não é
ético dar esse mesmo artista pra uma novela da Record. E vice-versa’, diz Marcos
Maynard, presidente da EMI.


Até o nome de Chico Buarque, um dos mais requisitados nesse mercado, entrou
na polêmica. ‘O Mariozinho não tem Chico Buarque lá de jeito nenhum e eu estou
com a segunda novela com ele. Essa é uma postura do próprio Chico’, diz o
diretor da Record.


O da Globo, por sua vez, nega qualquer problema com Chico Buarque. ‘Estou
para receber o disco novo dele. Posso sugerir uma música para a novela do Maneco
[Manoel Carlos].’


Mercado


Embora as vendas de CDs tenham sofrido uma forte queda nos últimos anos, as
trilhas de novelas da Globo, lançadas pela Som Livre, continuam vendendo
bem.


Se correspondiam a 1,39% do mercado em 1997, hoje estão em 3,05%, tendo
chegado em 2003 a 6,25%. ‘Laços de Família Internacional’ (2000) e o CD duplo de
‘Mulheres Apaixonadas’ (2003) passaram de 1 milhão de cópias, marca quase
inatingível hoje.


‘Em 2005, não teve nenhum sucesso criado por rádio. Os artistas novos
surgiram pela TV, como Marjorie Estiano [de ‘Malhação’, que vendeu 200 mil
cópias do seu CD solo] e RBD [da novela ‘Rebelde’, do SBT]’, diz Maynard.


Dos 20 CDs mais vendidos em 2005, oito têm ligação com a TV aberta, como o de
Xuxa e o primeiro lugar, a coletânea de Ana Carolina, em que 11 das 14 faixas
foram temas de novelas.


‘Para as gravadoras, é uma espécie de jabá ao contrário’, diz Gustavo Ramos,
diretor da Som Livre, referindo-se ao pagamento que as empresas fazem a rádios
para que suas músicas toquem.


‘Elas recebem royalties e ainda divulgam seus artistas’, diz ele,
reconhecendo que, para a Som Livre, é um ótimo negócio: lança CDs populares sem
arcar com custos de contratos e produção.’




***


Composição combina pressão e acaso


‘A composição de trilhas de novela combina fórmulas, pressões, negociações e
um toque de acaso.


Gustavo Ramos, da Som Livre, conta que há uma receita básica, mas ela não é
necessariamente seguida: músicas que as gravadoras vão ‘trabalhar’ nas rádios
(ou seja, pagarão para que elas toquem) + algumas surpresas (artistas novos, por
exemplo) + uma ou outra música antiga (como ‘Você É Linda’ em ‘Belíssima’) +
duas faixas exclusivas da novela.


‘O ideal é haver um equilíbrio entre as gravadoras, mas nem sempre é
possível’, diz Ramos.


Cabe ao diretor musical da Som Livre, André Werneck, produzir as trilhas
internacionais. Mariozinho Rocha, da Globo, cuida das nacionais. Eles recebem
inúmeros CDs e sugestões. ‘É um bombardeio de informação. Essa é a pressão’,
afirma Werneck.


Mas ele admite que já recebeu assédios mais explícitos. ‘Uma pessoa de uma
gravadora me ofereceu um dinheiro muito alto. É claro que foi recusado’,
diz.


Mariozinho Rocha afirma que, com ele, ‘ninguém se atreveu a isso’. ‘Se fizer,
vai tomar um boxe [soco] na cara’, ameaça.


Mas há propostas como a que a Sony BMG fez recentemente: incluir uma música
de Roberto Carlos na próxima novela das 19h para, segundo Rocha, ‘dar uma
revitalizada no disco para o Dia das Mães’. ‘Eu e o [diretor] Wolf Maya ouvimos
e não encontramos personagem para as duas músicas [oferecidas]. Não entrou’,
diz.’




***


Atores também sugerem canções


‘Não são só as gravadoras que bombardeiam para incluir músicas em trilhas
sonoras. Muitas vezes autores, diretores e até atores das novelas sugerem
canções próprias, de parentes ou amigos.


Nos bastidores, é famosa a história de que Glória Pires tenta emplacar
músicas de seu marido, Orlando Moraes, nas suas novelas.


Diretor musical da Globo por 11 anos, Márcio Antonucci diz: ‘Ela não exigia,
era muito delicada e sutil em aparecer com o Orlando e apresentar a música dele
que gostaria que fosse do personagem dela. Aconteceu em ‘Mulheres de Areia’. Mas
daí a entrar, há o processo de mostrar à alta direção’.


Mariozinho Rocha, diretor musical da Globo, relativiza: ‘Há vontade de
agradar. Mas seria injusto com o Orlando. Ele já entrou em novelas de que ela
não participou. E ela, em novela em que ele não entra, como ‘Belíssima’.


Há casos de ‘azarões’ que conseguem furar o esquema e entrar em trilhas sem
forte QI (quem indica). Foi o que ocorreu com Fher Cassini, 21. Ele nunca havia
gravado um CD e teve uma música escolhida para Sol (Deborah Secco), de ‘América’
(2005). ‘Can’t Get Over’ tocava enquanto a protagonista dançava sobre o balcão.
Cassini conta que CDs com a música foram distribuídos a rádios e DJs. Um deles
conhecia um sonoplasta de ‘América’ que buscava algo nesse estilo. ‘Quando a
música tocou na novela, foi um boom. Eu dormi anônimo e acordei famoso’, conta
Cassini.’


Marcelo Bartolomei


Programa de Regina Casé mostra ‘ações legais’ da periferia


‘Uma mistura do que Regina Casé e seus dois principais parceiros na TV, o
antropólogo Hermano Vianna e o diretor Guel Arraes, já fizeram, de ‘Programa
Legal’ (1999) a ‘Mercadão de Sucessos’ (2005), estréia no próximo sábado em
‘Central da Periferia’, uma investigação das benesses em comunidades pobres do
país.


‘Nós fazemos televisão e, por isso, somos a periferia da cultura’, diz a
apresentadora do programa que será exibido após ‘Caldeirão de Huck’. ‘É quase um
programa de inclusão das elites. Aquelas pessoas não se sentem excluídas, pois
fabricam sua própria cultura’, acredita.


A periferia, claro, tem cidadãos do ‘bem’ mas também é o lugar onde a
criminalidade bate recordes e o tráfico, em grande parte das favelas, influencia
na vida dos moradores. O que eles pensam a esse respeito? ‘Vimos que nem tudo
era legal, mas que também havia algo bom para combater o que não era’, diz
Arraes. ‘Mudou a nossa postura política. É evidente que nunca fomos doidos ou
alienados de achar que tudo estava uma maravilha. Fomos apenas afirmativos’,
conta Regina Casé. ‘Fazer televisão para a gente sempre foi um compromisso
político’, completa Vianna.


‘Queríamos que fosse um programa de auditório’, afirma Arraes. ‘Central da
Periferia’ (o nome, em si, ambíguo) começa num palco montado diante de uma
grande platéia para apresentar artistas locais e populares; depois roda pelas
ruas e casas das favelas em busca de depoimentos sobre o dilema
dignidade-exclusão dos moradores. ‘Tudo o que é identificado como popular é
visto de maneira pejorativa. Acho que ninguém é obrigado a gostar de música
brega, mas não pode ignorar movimentos tão grandes que acontecem no Brasil’, diz
Casé.


Ela reclama do tempo na TV. ‘Se a gente mostrasse somente o que era ruim, não
sobraria espaço para as ações legais. Agora, podemos mostrar outros lados
também. O espaço que a periferia tem na mídia é criminalizado; a pessoa aparece
se o barraco cair em cima ou se ela for morta, envolvida em tragédias’,
afirma.


Para ela, ‘Central da Periferia’ é conseqüencia do que já fez na TV. ‘A gente
foi empurrado para isso. Quando fiz aquele quadro com as crianças para o
‘Fantástico’, um dos temas era o medo. Perguntei se elas tinham medo de
bicho-papão. As da favela disseram temer o ‘caveirão’ [veículo blindado da
polícia carioca]. Eu não tinha a intenção de falar disso, mas gerou uma enorme
repercussão’, conta.


Segundo Vianna, o programa mostra um país que muita gente não conhece. ‘É um
processo interessantíssimo da cultura, da política e da história brasileiras. As
periferias estão organizadas -tanto em novos movimentos culturais, que acontecem
à margem da televisão e da indústria fonográfica- quanto em projetos sociais, de
cidadania e de inclusão’, diz o antropólogo, chamado por Regina Casé de
‘arqueólogo’ por garimpar pelo Brasil pessoas, histórias de vida e tendências
pouco conhecidas no país.


O programa será mensal e terá quatro episódios, inicialmente, exibidos nas
tardes de sábado. ‘É um dia em que a periferia está em casa’, diz Regina
Casé.


O primeiro episódio passeia por Recife e apresenta artistas de sucesso local.
Termina com um apitaço de mulheres contra a violência doméstica.


As próximas passagens serão por São Paulo, Rio e Belém.’




***


Guimarães brinca de pai e apresentador


‘Longe de Regina Casé desde o ‘Programa Legal’, o ator Luiz Fernando
Guimarães começa a dar vida na próxima sexta-feira ao colunista social de TV que
é obrigado pela Justiça a cuidar do filho pequeno que mal conhece em ‘Minha Nada
Mole Vida’, que estréia após o ‘Globo Repórter’.


A comédia, escrita pela dupla Alexandre Machado e Fernanda Young e dirigida
por José Alvarenga Jr., traz de novo à tela da Globo a mesma equipe de ‘Os
Normais’. A comparação com o programa, que terminou em 2003, é inevitável. ‘Mas
este é diferente porque dá mais margem à improvisação’, diz Guimarães, que
livremente inspira seu novo personagem no apresentador de TV Amaury Jr.,
‘referência’, ‘professor’ e ‘o melhor’, segundo suas próprias palavras.


Jorge Horácio, o clone, faz piadas de duplo sentido, abusa do humor negro e
ri dos entrevistados em ‘Jorge Horácio By Night’, um programa dentro do
programa. ‘Fazemos humor com o conflito’, dizem os autores.


Conflito, no caso, pode ser traduzido na falta de assunto e de
compatibilidade entre pai e filho. ‘É bonito esse contraste de alguém ‘by night’
com o elo familiar’, diz Young.


A equipe tem mantido ritmo intenso nas gravações dos oito episódios há quatro
semanas. Diante da reação do público, a série pode ganhar uma segunda fase no
final do ano e, daí sim, colocar o personagem em situações reais, em festas
freqüentadas por celebridades globais. ‘É um caminho um pouco mais perigoso
porque mistura realidade e ficção, mas pode ser algo interessante’, diz o
diretor.


A partir desta semana, a grade da Globo volta a exibir os seriados semanais
‘Casseta & Planeta’, ‘A Diarista’ e ‘Sob Nova Direção’.


Em ‘A Grande Família’, às quintas, o espectador perceberá que a casa e a rua
onde moram Lineu e Nenê ganharam tons reais. É que a cidade cenográfica do
seriado foi ampliada e planejada para as filmagens do longa-metragem da família,
programadas para junho. Até lá, a série também se aproximará mais da realidade,
falando de assuntos como violência e eleições, por exemplo.’


Laura Mattos


Feliz com a fama, ele dá ‘selinho’ em rapaz no ar


‘Padre Pinto está à vontade no camarim de Luiz Gasparetto, criador de um dos
principais centros espíritas do país e apresentador do ‘Encontro Marcado’,
programa de auto-ajuda da Rede TV!.


Ele chegara pouco antes de Salvador, num vôo pago pela emissora, para
participar do ‘A Casa É Sua’, com a deputada (‘meu nome é’) Havanir, uma
psicóloga e uma ex-’Big Brother’, na sexta-feira, dia 24. Desde que foi suspenso
da Igreja Católica, em fevereiro, por rezar missas com roupas inspiradas no
candomblé e em índios, José Pinto, 59 anos de idade, 34 de batina, virou a nova
celebridade instantânea da TV.


Esteve, entre outros, no ‘Altas Horas’ (Globo), de Serginho Groisman,
‘Charme’ (SBT), de Adriane Galisteu, ‘Boa Noite, Brasil’ (Bandeirantes), de
Gilberto Barros. E tem marcada para a próxima terça-feira uma entrevista no
‘Programa Jô Soares’.


Na Rede TV!, enquanto passa pó no rosto e batom nos lábios em frente ao
espelho cercado de luzes, é procurado por uma produtora do ‘Superpop’, de
Luciana Gimenez. A apresentadora o quer em seu programa, mas não com as
condições impostas por um advogado que o representava: passagem para o convidado
e cinco acompanhantes, hospedagem da trupe em hotel cinco estrelas e a compra de
cinco quadros pintados pelo padre no valor de R$ 40 mil cada um. ‘É uma pessoa
fora da realidade da TV. Imagina pagar mais de R$ 200 mil para ter um
convidado?!’, explica ela a um primo que acompanha o padre.


Eles dizem a ela que o advogado é um explorador, que já foi dispensado. Agora
é só pagar a passagem a ele e um acompanhante, hospedagem dos dois, e não
precisa ser hotel chique. Ótimo, então é melhor o padre nem voltar a Salvador,
já que a gravação seria na segunda-feira seguinte. Ele não trouxe roupa para
tantos dias. Sem problemas, a verba de Luciana Gimenez pode bancar.


Na segunda-feira, lá está ele outra vez na TV, com camiseta vermelha
estampada, calça branca, de novo discutindo com a doutora Havanir, um bispo
evangélico, uma ex-’Casa dos Artistas’ e um jornalista. O programa deita e rola
com as polêmicas. Padre Pinto beijou Caetano Veloso na boca?


Ele diz que não, que foi no rosto, mas não teria problema se fosse mesmo na
boca. O repórter no palco, então, pergunta se poderia dar nele um selinho.
‘Perfeito’, responde Pinto, que beija o rapaz para escândalo de Havanir.


À Folha, Pinto afirma não ser homossexual e confessa ter engravidado uma
namorada aos 18 anos e pago para ela abortar.


Adora microfone. Diz ter nascido para brilhar. Ameaça contar podres de
poderosos da igreja se for expulso em outubro, quando termina a suspensão. Leva
ao palco seus quadros (de R$ 500 a R$ 15 mil) e pede ao público para ajudá-lo
com o pão nosso de cada dia. Faz pré-propaganda de um CD, que promete lançar, e
de sua futura grife, a PP, com roupas ‘diferentes’, como terno com bermudão.
Amém.’


Thiago Ney


Religião guia música da banda Pecadores


‘Apostle Niwt é um ex-padre da paróquia de São Thomé dos Aflitos que passou a
vida viajando pela Amazônia catequizando índios. Dark Messenger era pastor
protestante da Igreja Pentecostal Deus É Tudo e pregava o Evangelho por favelas
brasileiras. Mas em algum momento eles perderam a fé. Viraram os Pecadores.


Ou… não. A história verdadeira dos dois não é bem essa, mas eles são os
Pecadores, então a biografia fictícia é apropriada. As identidades são mantidas
em algum sigilo, mas uma coisa é certa: eles realmente perderam a fé.


Niwt e Dark Messenger montaram a banda Pecadores em 2004. Já gravaram um
disco, apropriadamente intitulado ‘10% for Jesus’, que será lançado no Brasil e
na Europa em setembro, pelo selo alemão Danse Macabre Records, produzido por
Bruno Kramm, integrante do alemão Das Ich.


‘Inicialmente iríamos chamar Sinners [Pecadores em inglês], com músicas
apenas em inglês. Mas o Bruno ouviu e nos aconselhou a fazer em português mesmo
porque o mercado alemão está saturado de músicas em inglês. Eles querem letras
em espanhol, português’, diz Niwt à Folha.


A história de que são ex-padres funciona bem com as músicas da dupla,
calcadas no EBM e no rock industrial dos anos 80 e baseadas em batidas
eletrônicas fortes, com vocais gritados e muita percussão.


Para os shows, eles convocam Brother Rogy, ator performático que ‘encena’
cada canção -o palco se transforma numa encenação apocalíptica, em que se
misturam macumba, sexo, sangue, charutos, velas e até pirulitos -os últimos para
ilustrar ‘Man of God’, que fala de pedofilia.


Dá para ter idéia do que esperar pelo nomes das canções: ‘Macumbaria’,
‘Apocalipse’, ‘Blood’, ‘Ritual de Magia’, ‘Louvor dos Insanos’…


‘Nossas músicas falam de coisas reais, que todo o mundo sabe que acontecem,
mas ninguém comenta. Religiosos arrecadando dinheiro, aproveitando da boa-fé dos
mais pobres; a pedofilia na Igreja…’, afirma Niwt, que nas apresentações ao
vivo costuma vestir alguns trajes de cardeal.


Enquanto ‘10% for Jesus’ não chega às lojas, dá para ouvir os Pecadores pelo
site da banda: www.pecadores.net. O single ‘Macumbaria’ será lançado também em
clipe, no mês que vem. O disco vem com remix produzido por Rodolfo Wehbba e com
versões de ‘Apocalipse’ e ‘Priest’.’




PUBLICIDADE
Raquel Bocato


Anúncio na TV começa em R$ 5.000


‘Quer investir em propaganda na TV? Então procure um programa que tenha baixa
audiência.


Embora esse raciocínio pareça absurdo, alguns empreendedores seguem-no à
risca. A explicação é simples: sem dinheiro para investir em publicidade no
horário nobre da TV, o empresário adota como tática de marketing os chamados
programas de varejo -aqueles em que, com a ajuda do apresentador, os próprios
donos exibem, em 90 segundos, as ‘ofertas imperdíveis’ da semana.


A vantagem com relação à TV aberta, dizem especialistas, é o perfil do
público. São telespectadores dispostos a adquirir produtos e serviços e a
garimpar ofertas.


O formato desses programas de TV atrai todos os tipos de varejo: das lojas de
móveis e de decoração a empresas dos setores de educação, lazer, serviços,
tecnologia e turismo. Há espaço, ainda, para o mercado imobiliário.


O investimento em um programa da Mix TV, por exemplo, que tem audiência média
de 0,3 ponto, começa em R$ 16 mil por mês para gravações dos anúncios e duas
exibições diárias por 30 dias.


Numa emissora de TV aberta, apenas uma veiculação de 30 segundos, sem a
elaboração do comercial, chega a custar cerca de R$ 10 mil no período da
tarde.


‘Para participar de um infomercial em canais como Bandeirantes, Gazeta e
Record, o empresário não vai gastar menos de R$ 100 mil’, assinala o
proprietário da Parceria, Carlos Carreiras.


A empresa compra horários em TVs abertas, vende o espaço e elabora os
anúncios em programas de varejo. Também responde pela criação e comercialização
desse modelo no canal Mix TV.


Consumo premeditado


Para José Roberto de Raphael, do Shop Tour, o perfil do telespectador é a
principal vantagem para as firmas anunciarem em programas de varejo, que,
segundo ele, são ‘geradores de oportunidades para o consumidor’.


‘Quem assiste [a esses tipos de programa] está interessado em comprar alguma
coisa’, explica.


Dados da empresa mostram que o canal tem, em média, 2.900 telespectadores por
minuto de segunda a sexta. Nos fins de semana, esse número sobre para 4.700.


No Shop Tour, um anúncio veiculado seis vezes por dia durante uma semana sai
por R$ 5.000.


Constituído, em boa parte, por telespectadores das classes B e C, o programa
quer agora estender sua abrangência. Desde novembro do ano passado, tem
convidado lojas voltadas ao público A e B para apresentar seus produtos.


A Mammy Gestante é uma das empresas focadas em classes altas que resolveram
investir num desses anúncios. Porém só na semana entre o Natal e o Ano Novo.


‘Era um teste. Não esperava resultado porque a cidade fica vazia nesse
período e achava que o público era majoritariamente das classes B e C’, conta a
gerente-geral da firma, Dora Cilento.


No entanto, em vez de optar pelo tradicional formato de um minuto, apostou em
um novo, com duração de cerca de 20 minutos.


No primeiro dia de exibição, computou 70 carros na porta da loja e saiu de lá
às 23h30. O horário de fechamento é às 20h.


‘Compensou porque consegui desovar a coleção passada. No entanto,
financeiramente, por ser uma loja com mais variedade do que quantidade e por ter
um público muito específico [o de gestantes], o retorno não foi maravilhoso’,
avalia, sem revelar o montante gasto com o anúncio e o valor das vendas naquela
semana.


‘Essa forma de publicidade pode ter mais resultado quando aplicada por uma
empresa que vende itens menos segmentados’, diz.’




***


Empresas médias apelam para publicidade a fim de crescer


‘‘Sem publicidade, a empresa não sobrevive. Com publicidade errada, ela
quebra logo.’ Essa é a máxima que o empresário Sergio Ribeiro, 41, sócio da Kits
for Baby, usa para justificar o investimento de cerca de 10% do faturamento
bruto da firma em anúncios.


Divide parte da verba para publicações especializadas em decoração de quartos
de criança, ‘que trazem consumidores em busca de produtos mais elitizados’.
Porém a maior parte dos recursos de marketing vai para inserções de um minuto e
meio na televisão, ‘que atraem clientes dispostos a pedir descontos e ter
vantagens’.


Há quase dez anos, Ribeiro anuncia em programas de varejo e raramente fica
fora da TV. ‘Cerca de 33% das vendas são resultado da publicidade na TV.’


O empreendedor só deixa de anunciar quando tem participação em feiras do
setor ou algum grande evento que impulsione as vendas. ‘Os resultados das
propagandas são imediatos, mas não duram por muito tempo depois que a peça sai
do ar’, argumenta.


Emilio Michele Cirillo, da ADVB (Associação dos Dirigentes de Vendas e
Marketing do Brasil) é um dos que defendem o anúncio em veículos de massa. ‘A
empresa média precisa de divulgação para tornar-se grande.’’




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