Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > INDÚSTRIA TABAGISTA

Fracasso na mídia, sucesso nos negócios

Por Maurício Tuffani em 20/03/2007 na edição 425

A edição desta semana da revista britânica The Economist traz interessante resenha do livro The Cigarette Century: The Rise, Fall, and Deadly Persistence of the Product that Defined America (O Século do Cigarro: A ascensão, a queda e a persistência mortal do produto que definiu a América).


Escrito por Alan Brandt, professor de história da ciência e de história da medicina na Universidade Harvard, o livro foi lançado em 12 de março pela Basic Books. Segundo a resenha, a obra traz em suas 600 páginas um percurso histórico que vai desde 1881, com o patenteamento, por James Bonsack, de sua máquina de enrolamento automático do fumo em cigarros, ao recuo do governo de George W. Bush, no ano passado, em seu propósito de fazer a indústria do tabaco assumir a despesa total do governo norte-americano com o tratamento de doenças relacionadas ao vício de fumar.


Ao descrever em detalhe o funcionamento do lobby do tabaco junto ao governo e ao Congresso dos Estados Unidos, o livro, diz a Economist, mostra como essa indústria continua a prosperar apesar não só de todas as restrições ao uso de cigarros nas últimas décadas, de toda a comprovação científica da relação de causalidade do fumo com cânceres e outras doenças e também de todos os fracassos na área de comunicação.


Três anos de detenção


OK, nada que não se soubesse. Mas, tendo em vista todo o bombardeio midiático sobre os males do tabagismo, pode ser que, ao explicitar no papel os bastidores dos últimos 40 anos do lobby do tabaco e o seu sucesso, a obra de Brandt seja útil para a imprensa avaliar o seu papel nesse processo. Indo direto ao ponto: adianta termos tanta informação ‘científica’ sobre o problema sem um jornalismo que desvele a ação todo o tráfico de influência fumageiro?


No caso do Brasil, a situação é pior. No cômputo geral do trabalho da imprensa, vamos muito mal até mesmo em relação à qualidade da divulgação científica no grosso do material publicado pela imprensa. Esse mau desempenho já tinha sido demonstrado em um trabalho de fôlego concluído em 2000 pelo jornalista e doutor em ciências humanas Sérgio Luís Boeira, da Universidade Federal de Santa Catarina, em sua tese de doutoramento ‘Atrás da cortina de fumaça. Tabaco, tabagismo e meio ambiente: estratégias da indústria e dilemas da crítica’, publicada em 2003 pela Editora da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).


Desde 2001, Boeira vem alertando também para o fato de que se evita mencionar, na imprensa, o artigo 278 do Código Penal, que prevê detenção de até três anos para quem fabricar ou vender produto nocivo à saúde. Trabalho investigativo, principalmente sobre o lobby fumageiro, nada. E somos o segundo maior produtor mundial de fumo e o maior exportador, abastecendo não só praticamente todo o nosso mercado interno, mas também cerca de 100 países, segundo dados do Sindicato das Indústrias do Fumo (Sindifumo).

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/03/2007 Fábio Carvalho

    A governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, está na capa de ‘Diálogos’, publicação da companhia Souza Cruz. ‘A visão de futuro da companhia é a mesma que a nossa’, diz, em entrevista exclusiva à 24ª edição. A nota foi da coluna Painel, da Folha de S. Paulo, que é pouco lida pelos gaúchos. O jornal Zero Hora nem sonha em repercutir uma coisa dessas. No site da indústria, lemos o seguinte: ‘Líder absoluta no mercado nacional de cigarros, a Souza Cruz é um dos cinco maiores grupos empresariais do Brasil e subsidiária da British American Tobacco, o mais internacional dos grupos de tabaco, com marcas comercializadas em 180 países do mundo’. A sugestão de pauta poderia ser investigar lobby (tal como descrito no livro resenhado pela revista britânica) da British American Tobacco junto ao governo do Estado produtor de fumo.

  2. Comentou em 23/03/2007 Rogério Ferraz Alencar

    Paulo Bento Bandarra, se decida: qual a maior causa isolada de doença e morte: o álcool ou o cigarro? E os carros e as armas e balas, não entram no rol?

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