Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > QUINTA-FEIRA, 5/6

Globo demite repórter que divulgou ‘queda’ de avião

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 05/06/2008 na edição 488

Leia abaixo a seleção de quinta-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Quinta-feira, 5 de junho de 2008


 


BARRIGA
Daniel Castro


Globo demite repórter que ‘derrubou’ avião


‘A TV Globo demitiu anteontem o jornalista que teria sido responsável pela divulgação, pelo canal Globo News, da falsa notícia de que um avião da empresa Pantanal havia se chocado contra um prédio na zona sul de São Paulo, na rota de pouso do aeroporto de Congonhas, no último dia 20.


A ‘barriga’ (jargão jornalístico para falsa notícia) foi reproduzida por outras TVs, rádios e sites do Brasil e do exterior. Foi corrigida cinco minutos depois, quando já havia repercutido até no Congresso Nacional. Era apenas um incêndio em uma loja de colchões.


O jornalista demitido tinha o cargo de produtor (repórter que não aparece no vídeo), mas era um ‘faz-tudo’: apurava, escrevia as cabeças (texto lido pelo apresentador) e editava. Atuava como um editor-chefe informal em São Paulo do ‘Jornal das Dez’, principal telejornal da Globo News.


Na tarde do dia 20, ele estava extra-oficialmente chefiando a Redação da Globo News em São Paulo. Ele teria recebido a ‘informação’ da rádio-escuta (setor que faz a primeira apuração com fontes oficiais, como bombeiros e polícia) e a passou para a Redação do Rio de Janeiro, sede do canal, que a colocou no ar. A falsa informação teria sido passada pela Defesa Civil.


Procurada, a Globo se limitou a dizer que ‘tomou as medidas que julgou necessárias e que dizem respeito aos seus procedimentos internos’.


A REJEITADA O segundo capítulo de ‘A Favorita’ deu 35 pontos na Grande São Paulo, mesma audiência da estréia. De novo, a novela das oito da Globo perdeu público para ‘Os Mutantes’, da Record, que até subiu em relação à véspera: deu 24 pontos.


GEOGRAFIA 1 Ainda na ‘paulistana’ ‘A Favorita’, o personagem de Mário Gomes, um marqueteiro, sugeriu a um candidato gravar um ‘clipe de ação no deserto do Saara’. E emendou: ‘Se bem que talvez a verba não dê. Tudo bem, a gente grava aqui na Restinga da Marambaia mesmo’.


GEOGRAFIA 2 A restinga, como se sabe, fica no litoral sul do Rio Janeiro, não em SP. É também onde a Record grava cenas da ilha dos mutantes de ‘Os Mutantes’.


VAI COMEÇAR 1 Globo, Band e TV Gazeta já definiram as datas em que realizarão debates com prefeituráveis neste ano. A Band terá dois no primeiro turno, em 21 de julho e 21 de agosto. Onde houver segundo turno, o evento será em 7 ou 9 de outubro.


VAI COMEÇAR 2 A Gazeta programou seu primeiro debate para 31 de agosto, um domingo, às 20h. Se houver segundo turno em SP, o segundo debate será em 12 de outubro. A Globo agendou seus debates para 2 e 24 de outubro, as últimas datas possíveis.


CONTEÚDO Foi bem no Ibope a ‘inauguração’ da terceira linha de shows da Globo, anteontem, com ‘Profissão Repórter’. O programa, no ar das 23h36 à 0h04, deu média de 21 pontos.’


 


SPAM
Folha de S. Paulo


Internet espalha boato sobre internacionalização da floresta amazônica


‘Um spam (uma mensagem não solicitada) que vem entupindo as caixas de entrada dos e-mails alerta sobre um plano para transformar a Amazônia em uma reserva internacional, citando como prova um suposto livro (‘An Introduction to Geography’, de David Norman) adotado em escolas dos Estados Unidos, no qual a Amazônia já aparece separada do Brasil.


O spam traz a ‘horrorizante tradução’ de um trecho do livro, segundo o qual ‘desde meados dos anos 80 a mais importante floresta do mundo passou a ser responsabilidade dos Estados Unidos e das Nações Unidas’, já que os países que a controlavam eram ‘reinos da violência, do tráfego [sic] de drogas, da ignorância, e de um povo sem inteligência e primitivo’.


Esse livro não existe nas bibliotecas norte-americanas: basta consultar o site Worldcat (www.worldcat.org), que faz uma busca simultânea em mais de 10 mil bibliotecas, para constatar que se trata de uma obra fantasma. Todas as publicações comerciais dos EUA são registradas na Biblioteca do Congresso e tal livro não consta de seus arquivos. Tampouco pode ser encontrado em livrarias como a Amazon e a Barnes&Noble.


Existem vários autores com esse nome -o mais produtivo é um paleontólogo com vários livros sobre dinossauros-, mas nenhum deles escreveu sobre geografia.


O inglês macarrônico da mensagem revela que o texto certamente não foi escrito por um norte-americano. Vários erros (padronização, grafia, concordância) sugerem que o autor da fraude é provavelmente um brasileiro com pouca fluência no idioma. A própria montagem é tão grosseira que a página 76 do livro, onde aparece o suposto mapa (veja o quadro), fica do lado reservado às páginas ímpares.


Apesar das evidências de fraude, o e-mail se disseminou a tal ponto que chegou a ser reproduzido em um clipping distribuído pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em 2001 -o que obrigou a Embaixada do Brasil nos EUA a apontar a fraude. Apesar disso, o spam circula até hoje.’


 



IGREJA
Afonso Benites


Justiça quebra sigilos de firmas da Universal


‘Duas empresas da Igreja Universal do Reino de Deus e sete pessoas vistas como lideranças na instituição tiveram os sigilos bancário e fiscal quebrados pela Justiça de São Paulo. A decisão se refere a um processo movido pelo Ministério Público que investiga os suspeitos por lavagem de dinheiro.


Baseados em movimentações financeiras registradas pelo Coaf (Conselho de Controle da Atividade Financeira), promotores do Gaerco (Grupos de Atuação Especial Regional de Prevenção e Repressão ao Crime Organizado ) suspeitam que líderes da Universal estariam enviando recursos doados por fiéis para as ‘offshores’ Cableinvest Limited e Investholding Limited, localizadas nas Ilhas Cayman.


Conforme a suspeita, o dinheiro era repatriado ao Brasil por intermédio das empresas Cremo Empreendimentos S/A e Unimetro Empreendimentos S/A, ambas da Universal.


A notícia foi veiculada no jornal ‘O Estado de S. Paulo’.


A Folha apurou que três políticos tiveram os sigilos quebrados: o vereador em Petrópolis (RJ) Claudemir Mendonça de Andrade (PSDB), o ex-vereador no Rio Waldir Abrão e o ex-secretário municipal de Esportes de São Paulo, Márcio de Lima Araújo. David Noguchi Quinderé, José Antônio Alves Xavier e Álvaro Stievano Júnior também terão os dados revelados à Justiça.


O Judiciário autorizou ainda a quebra de sigilo do vereador carioca João Monteiro de Castro, assassinado em 2004.


Os promotores pediram acesso às informações fiscais do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), por suspeita de envolvimento com a Cableinvest Limited. Porém, por ele ter foro privilegiado, o STF (Supremo Tribunal Federal) teria que autorizar. O que não ocorreu.


O processo de lavagem de dinheiro está no Departamento de Inquéritos Policiais da Capital e corre sob segredo judicial.


Outro lado


O advogado dos suspeitos e das duas empresas da Universal, Arthur Lavigne, negou a acusação. Por telefone, ele disse que uma fiscalização da Receita Federal mostrou que uma das empresas está regular. ‘A Receita já esteve em uma delas e não encontrou nada errado. A outra está sendo investigada neste momento’, falou.


Lavigne relatou que vai apresentar ao Judiciário os dados fiscais de seus clientes para tentar provar a inocência deles. ‘A Justiça vai ver que toda a movimentação foi declarada no Imposto de Renda de cada um e que tudo está correto.’


De acordo com o advogado, o processo movido pelo Ministério Público de São Paulo é similar ao que as mesmas pessoas já respondem no Rio pela compra da Rede Record. ‘Estamos mostrando que em nenhum deles há irregularidades’, acrescentou Lavigne.’


 




TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Sem vilão


‘A ‘batalha em Roma’, no dizer da AP, termina sem vencedor. Mas o jogo pesado do Brasil, ao lado de EUA e Europa, deu certo, em parte ao menos. Pelo que noticiavam o ‘Financial Times’ e a BBC ontem à noite, o ‘rascunho’ da declaração final do encontro evita questionar os biocombustíveis e o etanol em especial.


Em ‘deadlock’, sem saída, como descreve o ‘FT’, o comunicado pede apenas um ‘contínuo diálogo internacional’. Foi o que ressaltaram também os sites do francês ‘Le Monde’ e do espanhol ‘El País’, este em manchete, a partir da entrevista do secretário-geral da ONU, que pede ‘consenso e mais pesquisa’ sobre o assunto. Como queria Lula, pelo jeito, o etanol não saiu de Roma como ‘vilão’ da inflação dos alimentos.


SOB PRESSÃO


Na reta final, o ‘Guardian’ saiu ontem com editorial pedindo, expressamente, que o encontro de Roma apoiasse a moratória dos subsídios ao etanol, de cana inclusive. Publicou também nova reportagem sobre os efeitos do ‘boom’ do etanol sobre a mão-de-obra nos canaviais brasileiros


LIÇÕES DO BRASIL


Roger Cohen, colunista do ‘International Herald Tribune’ e do ‘New York Times’, fez nova defesa apaixonada do etanol de cana e do Brasil, sob o título ‘Lições de energia’.


Num dos trechos, tratando diretamente do debate sobre o etanol, sublinha que ‘milho é comida’ e não deve ser transformado em combustível, mas a cana é diferente.


POR TARIFA MENOR


E o site do ‘Wall Street Journal’ deu que dois senadores, a democrata Dianne Feinstein e o republicano Judd Gregg, apresentaram projeto ‘reduzindo a tarifa’ sobre a importação de etanol.


TUPI E O ESTADO


Já o ‘WSJ’ de papel destacou, em longa reportagem do correspondente Antonio Regalado, a defesa de ‘maior controle estatal sobre as descobertas de petróleo’, feita em comissão do Senado brasileiro pelo presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli.


O jornal registra, de um representante dos ‘produtores independentes’, que a medida seria ‘um tremendo erro’.


SOB PROTEÇÃO


Na mesma linha, ontem no site do ‘WSJ’, o ministro Nelson Jobim afirmou que o projetado submarino nuclear do país deve ‘proteger os campos de petróleo’, caso de Tupi.


SEM CREDIBILIDADE


Em editorial ontem, o ‘WSJ’ questionou o ‘indefensável’ subsídio dos EUA ao algodão e saudou a decisão da Organização Mundial de Comércio, em favor do Brasil, que já estuda retaliação. O jornal diz que a atitude americana deixa o país sem ‘credibilidade’ para defender livre comércio, por exemplo, nas conversas da Rodada Doha.


O mesmo ‘WSJ’ noticia que o primeiro-ministro Gordon Brown, que vê sua popularidade desabar na Grã-Bretanha, acredita em acordo sobre Doha. Mas o ‘NYT’ relata novo tropeço nas negociações, em Bruxelas, diante da recusa de uma negociação sobre os produtos industriais.


DEU CERTO


As imagens da tribo isolada do Acre, que denunciaram o avanço sobre suas terras no vizinho Peru, ainda ecoam no exterior. Mas a notícia, ontem nas agências, era que o governo peruano resolveu ‘proteger os índios’, afinal


UM TIRO NO PÉ


Capa de revista, entrevista a Luciana Gimenez e, por fim, ontem por toda parte, da Folha Online à Record, a prisão. São os dois sargentos que assumiram a relação homossexual e acabaram cercados, no prédio da Rede TV!, pela Polícia do Exército.


Na avaliação do Blue Bus, site de mídia e publicidade, lembrando os milhões que foram à recente Parada GLTB em São Paulo, ‘o Exército acaba de dar um tiro no pé’.’


 




FRANÇA
Folha de S. Paulo


Carla Bruni diz em livro que Sarkozy, seu marido, é dono de ‘seis cérebros’


‘A ex-modelo e cantora Carla Bruni, 40, mulher do presidente francês Nicolas Sarkozy, lança hoje um livro em que narra o rápido romance iniciado em jantar em 13 de novembro do ano passado e que terminou em casamento no dia 2 de fevereiro. ‘Eu não esperava alguém tão bem-humorado, tão espirituoso. Seu físico, seu encanto e sua inteligência me seduziram. Ele tem cinco ou seis cérebros incrivelmente irrigados’, diz a primeira-dama francesa.


O livro, ‘La Véritable Histoire de Carla et Nicolas’ (A Verdadeira História de Carla e Nicolas), pela editora Moment, é em verdade uma longa entrevista dada a Valérie Bénaïm e a Yves Azéroual.


Ela e o marido se conheceram na casa do publicitário Jacques Séguéla, que chefiou as duas campanhas presidenciais do socialista François Mitterrand, em 1981 e 1988, defendeu publicamente no ano passado a candidata socialista Ségolène Royal, mas mudou de opinião antes do segundo turno e declarou que votaria em Sarkozy.


Bruni também é uma recém-convertida. Fez declarações em favor de Ségolène e se definia como uma ‘mulher de esquerda’.


Tais detalhes não estão entre os trechos do livro publicados pelo semanário ‘Le Point’ e pelo jornal ‘Le Parisien’. O relato é bem mais mundano. Carla Bruni-Sarkozy diz que o jantar de Séguéla foi uma espécie de ‘blind date’ (encontro às escuras). Eram três casais, e ela e o presidente -recém-divorciado de sua segunda mulher, Cécilia Ciganer-Albéniz- eram os únicos solteiros.


Segundo ela, Sarkozy tinha olhos apenas para ela e a cobriu de gentilezas. Ficaram de se encontrar novamente para jantar no dia seguinte. Carla Bruni serviu a refeição à luz de velas.


Diz admirar o marido por sua capacidade de trabalho. É capaz de ouvir o relato e ler ao mesmo tempo um relatório. Também cita sua bonomia. ‘Com três raios de sol a vida para ele já é magnífica.’


Ela afirma que ser primeira-dama ‘é uma função, não uma profissão’. Diz querer lutar ‘contra a pobreza e contra a ignorância’.


Com agências internacionais’


 



PUBLICIDADE
Folha de S. Paulo


Internet fatura mais do que TV paga e outdoor


‘Os investimentos publicitários em internet no Brasil superaram, pela primeira vez, os de TV por assinatura e mídia exterior, segundo dados Projeto Intermeios do primeiro trimestre de 2008, comparados ao mesmo período do ano passado.


De janeiro a março, as empresas de internet faturaram R$ 134,3 milhões com publicidade, enquanto as de TV por assinatura receberam R$ 117,4 milhões. As verbas destinadas à mídia exterior somaram R$ 132,2 milhões. Segundo o IAB (Interactive Advertising Bureau Brasil), que promove a área, o aumento da venda e o maior uso de computadoras foram fatores que impulsionaram a expansão.’


 



EXPRESSÃO
Laura Capriglione


Exército cerca emissora de TV para prender sargento gay


‘Homens da Polícia do Exército armados com fuzis FAL, de uso exclusivo das Forças Armadas e com pistolas, cercaram o prédio da Rede TV! na madrugada de ontem. O objetivo da missão: cumprir mandado de prisão contra o 2º sargento Laci Marinho de Araújo, 36, homossexual assumido, que encerrava uma entrevista ao programa ‘SuperPop’, da apresentadora Luciana Gimenez. O sargento De Araújo, como é conhecido no Exército, estava em companhia do também sargento Fernando de Alcântara de Figueiredo. Ambos falavam sobre o relacionamento amoroso que mantêm desde 1997.


De Araújo e Figueiredo foram tema de capa da última revista ‘Época’, que os apresentou como ‘o primeiro casal de militares brasileiros que assume a homossexualidade’.


‘Eles querem me matar’; ‘Eles querem fazer uma queima de arquivo’; Sou um arquivo morto’; ‘Vou me suicidar para não ir preso’, gritava desesperado o sargento De Araújo, enquanto pedia socorro a entidades de defesa dos direitos humanos e de homossexuais, para evitar sua prisão. Ainda no ar, o programa mostrou o cerco ao prédio, enquanto a apresentadora exclamava nunca ter visto nada igual em anos de carreira.


O argumento para a prisão do sargento De Araújo apareceu às 4h de ontem. Foi nessa hora que o coronel de Cavalaria Cesar Augusto Moura, que chefiava a operação, apresentou o mandado assinado pela juíza militar Vera Lúcia da Silva Conceição. No documento, datado do dia 3 de junho, a juíza ordenou: que se ‘proceda a busca e captura do desertor (…) Laci Marinho de Araújo (…) Mando que se procedam (sic) a todas as diligências necessárias e se empreguem os meios indispensáveis.’


Depressão crônica, epilepsia, esclerose múltipla, estresse traumático. O sargento De Araújo é um catálogo ambulante de doenças psíquicas, motivos que já justificaram sua internação para tratamento psiquiátrico em quatro oportunidades distintas. Sucessivas licenças médicas afastaram-no do serviço militar desde outubro de 2006. Atualmente, ele toma os medicamentos de tarja preta Flunarizina, Paroxetina, Rivotril, entre outros.


Segundo o Exército, desde o dia 15 de abril está sendo investigada suposta prática do crime de deserção pelo sargento De Araújo. No último dia 20, a Justiça Militar autorizou a prisão do acusado, mas ele não foi encontrado. Ao receber a informação de que De Araújo estava em um programa de televisão, a juíza Vera Lúcia da Silva Conceição pediu a captura. Segundo o Superior Tribunal Militar, o sargento agora passará por exames médicos. Se for considerado apto a continuar na carreira militar, será processado por deserção.


Ontem, com um quadro de confusão mental, agitação e agressividade, segundo atestado pelo médico psiquiatra Paulo Sampaio, que foi ao local representando o Conselho Regional de Medicina, o sargento estava preso em um quarto do Hospital do Exército de São Paulo, na região do Cambuci. Dez soldados armados de pistolas montavam guarda na porta do apartamento. O sargento Figueiredo acompanhava o preso, hospedado no mesmo apartamento -foi uma permissão especial dada pelo Exército.


Segundo Figueiredo, seu companheiro não tem condições de reassumir o posto. ‘Ele está muito doente’, disse, os olhos vermelhos de choro.


Beto Sato, 28, da Associação Brasileira dos Gays e do Fórum Paulista de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transgêneros, considera que a ação do Exército na Rede TV! é uma ‘demonstração clara da homofobia que existe na instituição. Quantos desertores existem por aí? Muitos. E você já viu alguma ação desse quilate? Ser justamente contra um homossexual a mais exibida de todas as ações de captura de um desertor é uma prova da homofobia que existe no Exército.’


Os sindicato dos jornalistas e dos artistas de São Paulo, e a Comissão dos Direitos da Pessoa Humana, Condepe, consideraram a ação de captura uma afronta à liberdade de manifestação e expressão. ‘É uma prisão dramática de uma pessoa doente, que nem sequer teve direito a um defensor público’, disse o advogado Francisco Lucio França, do Condepe.


O coronel Moura, que chefiou a operação, disse à Folha que foi ‘convocado’ para cumprir o mandado de busca e prisão na Rede TV!. Por quem? ‘Pelo Comandante Militar do Sudeste’, disse o militar. ‘Pelo general…’, perguntou a reportagem. ‘Pelo Comando’, limitou-se a responder.


Segundo ele, não houve qualquer motivação homofóbica na prisão. ‘Ninguém separa ou discrimina ninguém no Exército por sua religião, orientação sexual ou raça. O sargento De Araújo não feriu o pundonor da instituição pelo fato de ser homossexual. Isso é dele. O que está em questão é a condição de desertor. Se não cumpríssemos o mandado de prisão, aí sim, poderíamos ser acusados de falta, no caso de incorrer em prevaricação’, disse.


Na porta do hospital, poucos recrutas atreviam-se a comentar a prisão do sargento De Araújo. Um, entretanto, passou pela reportagem falando em voz alta, para ser notado: ‘Vê só o estrago que fazem umas bichinhas infiltradas.’’


 




CINEMA
Sylvia Colombo


‘Filmes não devem se ater aos limites da nacionalidade’


‘Um sujeito de cabelo desalinhado, olhar blasé e sotaque portenho deve estar caminhando pela orla e pelas ruas do Rio de Janeiro neste momento. Não se trata, porém, de apenas mais um turista argentino encantado pela brisa e pelo charme da Cidade Maravilhosa.


Eduardo Costantini Jr., 32, vai se reunir com produtores, cineastas e roteiristas brasileiros na tentativa de marcar um segundo gol de placa em sua recém-iniciada carreira. Como principiante na área, o empresário argentino investiu 2 milhões de dólares no polêmico ‘Tropa de Elite’, quando este ainda estava no papel. Teve sorte. Além de um renomado prêmio internacional (o Urso de Ouro em Berlim) e do retorno financeiro com sua venda para mais de 25 países, o filme projetou seu nome e coroou a inédita associação entre um co-produtor sul-americano e os poderosos irmãos Bob e Harvey Weinstein (criadores da Miramax), com o nome de Latin America Film Company.


Agora, Costantini Jr. quer repetir o feito. De preferência, com outro filme brasileiro. Além do próximo de José Padilha (diretor de ‘Tropa’), ainda a ser anunciado, o empresário busca roteiros que possam receber seu investimento. Para facilitar as ações no Brasil, acaba de fechar parceria com a brasileira Julia Otero, proprietária dos estúdios Mega e que trabalha com distribuição digital.


‘A idéia é investir o nosso dinheiro diretamente nas produções para que estas sejam financiadas em parte com esse aporte, em parte com as leis de incentivo do Brasil. Queremos ser independentes para fazer coisas com diferentes possíveis sócios, como a Videofilmes, a Conspiração e até a Globo, no futuro’, disse, em entrevista à Folha no Malba (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires), inaugurado em 2001 por seu pai, o também empresário Eduardo Costantini.


Um dos mais importantes colecionadores de arte da América Latina, Costantini pai ficou conhecido no Brasil por ter comprado, em 1995, a tela ‘Abaporu’, de Tarsila do Amaral, por cerca de US$ 1,5 milhão. O filho foi diretor do museu até recentemente, quando se afastou para abrir a Costa Films e se dedicar só ao cinema.


Apesar de o Brasil ser o maior foco de interesse do argentino, produções de outros países latino-americanos estão sendo financiadas por ele. O primeiro filme do mexicano Guillermo Arriaga (roteirista de ‘Babel’) como diretor, ‘Burning Plain’, com Kim Basinger e Charlize Theron no elenco, está em fase final de edição. Há ainda o projeto de uma história rodada na Argentina e no Uruguai com Penélope Cruz, e um outro, do argentino Luis Ortega, ‘Verano Maldito’, inspirado em conto do japonês Yukio Mishima.


‘São filmes que se passam em um lugar, mas que têm atores e diretores de outros países. O cinema contemporâneo não deve se ater aos limites de uma única nacionalidade. Me interessa escolher boas histórias que possam ser bem compreendidas e funcionem comercialmente fora daqui.’


Para o jovem milionário, ainda, o cinema latino-americano deve se comprometer com as causas sociais. ‘É preciso expor esse imenso problema que existe no continente que é a distância entre ricos e pobres. É uma realidade dura, e o cinema pode fazê-la conhecida por muitas pessoas no mundo.’


Pirataria


Entrar num negócio cujo futuro é incerto por conta da pirataria é enfrentar um sério risco. Mas Costantini crê em soluções. No próximo festival de Toronto, em setembro, anunciará a criação de uma ferramenta para venda de filmes pela internet, que estará então disponível no site www.theauteurs.com. ‘É um modelo novo. Estamos formando o catálogo e pretendo colocar muitas películas brasileiras lá.’


Na época do lançamento de ‘Tropa’, quando Padilha disse que a desenfreada pirataria de que o filme foi alvo era negativa para a produção, Costantini ressaltou o outro lado do problema ao dizer que ela também contribuía para sua difusão. ‘Sou contra a pirataria, é um delito e não quero que aconteça com os próximos filmes nos quais investirei. Mas, ao mesmo tempo, me faço a pergunta: será que a pirataria não é positiva para aqueles que não têm dinheiro para ir ao cinema?’.


Para o argentino, o DVD logo desaparecerá, e a tendência é que as pessoas vejam cada vez mais cinema pela internet. E é otimista. Acha possível que, ainda assim, o negócio seja lucrativo. ‘A distribuição digital e os serviços de vídeo ‘on demand’ já são fortes nos EUA e também serão na América Latina. A renda virá da publicidade veiculada por esses sites.’’


 



LITERATURA
Eduardo Simões


Schwarz abre a 6ª Flip com tributo a Machado


‘Com uma palestra feita a partir de texto inédito sobre o romance ‘Dom Casmurro’, o crítico literário Roberto Schwarz abrirá na noite do dia 2 de julho as homenagens ao centenário de morte de Machado de Assis (1839-1908), da sexta edição da Festa Literária de Parati. Em seguida, o cantor e compositor carioca Luiz Melodia fará o show de abertura da festa, que acontece até o dia 6 de julho. Os ingressos estarão à venda a partir do dia 10 de junho.


Segundo o diretor de programação desta sexta Flip, o jornalista Flávio Moura, o tributo a Machado será comedido e, sobretudo, crítico, daí o convite a Schwarz, autor de ‘Duas Meninas’, livro em que reuniu um ensaio sobre ‘Dom Casmurro’ e outro sobre ‘Minha Vida de Menina’, de Helena Morley.


Ainda dentro da homenagem ao ‘bruxo do Cosme Velho’, acontece no domingo uma mesa reunindo a crítica literária Flora Süssekind, que lança na festa uma edição do ‘Cadernos de Literatura Brasileira’, do Instituto Moreira Salles, dedicado a Machado; o cineasta Luiz Fernando Carvalho, que está adaptando ‘Dom Casmurro’ para a TV, e o embaixador e crítico Sergio Paulo Rouanet, que prepara uma pesquisa sobre o ambiente intelectual em que Machado surgiu.


O tributo a Machado e o restante da programação da Flip foram anunciados ontem em SP. Dois novos nomes estrangeiros foram divulgados: Inês Pedrosa (Portugal) e Pepetela (Angola). Ao time nacional se juntaram o compositor Carlos Lyra e os jornalistas Caco Barcellos e Marcelo Coelho, colunista da Folha, entre outros.


Moura ressaltou que a programação foi norteada pelo desejo de ter ‘nomes acima de qualquer suspeita e de calibre internacional’, como o dramaturgo inglês Tom Stoppard e o romancista holandês Cees Nooteboom.


‘Existe também uma tendência à ampliação do leque de convidados, com a presença do primeiro escritor alemão na Flip, Ingo Schulze, e do primeiro italiano, Alessandro Baricco, que representam os melhores autores de sua geração em seus países’, disse o diretor.


Oficina de roteiro


Moura também anunciou uma oficina de roteiro cinematográfico com Karim Aïnouz (roteirista e diretor de ‘Madame Satã’ e ‘O Céu de Suely’, entre outros) e a cineasta argentina Lucrecia Martel (de ‘O Pântano’ e ‘A Menina Santa’). Serão selecionados 60 candidatos. Os interessados devem enviar currículos para o e-mail selecaooficina@flip.org.br.


A única mudança da estrutura da sexta Flip é a transferência da Livraria da Vila da tenda dos autores para a tenda da Matriz, onde ficam os telões. No lugar da loja haverá uma mostra sobre o Rio de Machado.’


 




TELEVISÃO
Cristina Fibe


‘É o momento mais importante da TV latina’


‘A experiência de ter sua idéia transformada na bem-sucedida série americana ‘Ugly Betty’ e em outras 11 versões convenceu o colombiano Fernando Gaitán, 47, de que o mercado latino-americano passa por um momento único.


‘Há uma abertura gigante, acredito que estamos vivendo o momento mais importante da televisão latino-americana, de grande projeção, de grandes alianças com as redes americanas, com a Europa’, diz, em entrevista à Folha, o criador de ‘Yo Soy Betty, la Fea’. Produzida na Colômbia em 1999, a telenovela foi exibida, na versão original, em outros 76 países (no Brasil, pela RedeTV!, entre 2002 e 2006).


Em São Paulo para o 9º Fórum Brasil – Mercado Internacional de TV, encontro que reúne 23 países até sexta, ele enfatiza a importância dos EUA nessa mudança no mercado. Para Gaitán, o interesse dos americanos no produto latino faz com que importem formatos para produção local e que grandes estúdios se instalem em território estrangeiro.


Atualmente, Gaitán está envolvido na versão latina da série ‘Grey’s Anatomy’ e na negociação para que outra novela sua, ‘Café com Aroma de Mulher’, que foi exibida em 94 países (aqui, pelo SBT), ganhe também uma versão nos EUA.


‘Eles estão abertos a outros produtos. No caso de ‘Ugly Betty’, tem um significado ainda maior, porque a protagonista não só é feia mas é latina, e isso a faz mais marginal, mais rechaçada. E ela vive em um universo totalmente gringo, norte-americano. Essa situação da personagem da série critica a sociedade americana, o modelo da beleza, da imagem.’


A ‘Betty’ americana, produzida pela atriz Salma Hayek e exibida no Brasil pelo canal Sony, é a ‘mais diferente’ das 12 versões para a telenovela, pois, transformada em série, precisou de mais alterações do que as outras. Curiosamente, é a única de que Gaitán participa oficialmente, como produtor.


Já o remake mais fiel, segundo ele, é o indiano, o primeiro a ser feito. ‘Apesar de ter vestuário e linguagem distintos, os atores são muito parecidos, os planos são de telenovela, praticamente os mesmos, o que me deixou muito surpreso’, diz o autor. E ‘Betty’ ainda irá à China e a um teatro da Broadway, projetos em fase de produção.


Vaidade e crítica


Mas qual é o segredo do fenômeno internacional?


Para seu criador, são três: a vaidade feminina, ‘universal, transcendental, tão importante nos EUA quanto no Brasil, no Japão, na China, em toda parte’; a identificação, ‘as pessoas se reconhecem’; e o humor, ‘que tem funcionado em todo o mundo, não é local’.


E um elemento torna ‘Betty’ única: ‘O fato de ser feia, um grande rompimento [em relação a outras telenovelas]’.


Há ainda o aspecto de crítica social, feita para a Colômbia, mas que ‘afeta todo o mundo’. O que pode ser atribuído à sua formação e experiência como jornalista. ‘Sou muito influenciado pelo novo jornalismo [gênero que mistura literatura e não-ficção], na investigação, na reportagem, na crônica, na visão da sociedade.’


No Brasil, Gaitán quer pesquisar os lançamentos locais, porque ‘a produção brasileira está sempre inovando’. Em especial nas telenovelas, ‘produto excepcional, caracterizado por duas coisas: temas avançados, que mudam muito, e o nível alto de produção’.’


 




Marco Aurélio Canônico


Programas destacam dia da natureza


‘Nem só de Al Gore vive a defesa da natureza, é o que nos faz lembrar este especial ‘Guardiões da Terra’, que a Cultura exibe hoje, no Dia Internacional do Meio Ambiente.


Retratando inúmeros personagens anônimos (ou quase) que, a seu modo, têm noção da importância da conservação do planeta e agem em prol disso, o programa reforça a tese de que dependemos muito mais dessa gente que mete a mão na massa diariamente, sem esperar retorno, do que da propaganda de Gore, que ganha Oscar, Nobel, mas não faz os EUA assinarem o Protocolo de Kyoto.


Também dentro do espírito do dia, o canal Futura exibe o documentário ‘China – Desertos em Fúria’, que mostra como o aquecimento global está levando à desertificação do país -que, apesar de já sentir os efeitos, segue poluindo em proporção exponencial.


Por fim, o mesmo Futura exibe também mais um episódio de ‘Amazônia – Uma Nova Cartografia’, às 21h, destacando uma escola de jovens indígenas de Iauaretê (AM).


É claro que, em última instância, você vai ajudar muito mais o ambiente poupando energia do que assistindo a especiais ecológicos -ou seja, desligar a televisão é boa opção.


GUARDIÕES DA TERRA


Quando: hoje, às 20h40


Onde: Cultura


CHINA – DESERTOS EM FÚRIA


Quando: hoje, às 21h30


Onde: Futura’


 



OS OUTROS
Anna Veronica Mautner


Em defesa de nossa novela diária


‘Saber da vida dos outros virou coisa feia. Quem se interessa disfarça. Hoje é assim: ninguém tem a ver com a vida dos outros. Mas, se for assim, onde é que se vai aprender a viver?


Bem viver se desenvolve somando (muitas vidas alheias) e fazendo os ‘noves fora’. Da vida alheia nos inteiramos ouvindo histórias, observando, perguntando, imaginando. Meter-se na vida dos outros é palpitar a partir de julgamentos e/ou de pré-conceitos, o que facilmente pode descambar em maledicência ou na popular fofoca. Não é disso que trato aqui.


Apesar de a escuta ser aparentemente uma condição passiva, ela de fato nem sempre o é, pois ouvir nos enriquece, aumentando nosso conhecimento sobre formas de vida e nos permitindo usufruir do saber que somos confiáveis. Quem conta confia.


Ao ler narrativas ou ao assistir a teatro ou a novelas, recebemos pacotes de intimidades -mas são diferentes do relato pessoal, que depende de sincronicidade. O mais tímido, o mais eremita pode ler livros, pode assistir a peças e a novelas, todos criados para atrair solidariedade e identificação. Mesmo neste texto, que não é ficção, pretendo obter simpatia aos meus argumentos. Muito mais ocorre na ficção.


As novelas trazem mais ganchos para a intimidade. Sabemos que naquela mesma hora outros tantos estão conosco, mesmo que estejamos sem ninguém. De qualquer forma, teremos assunto amanhã com quem viu em outro lugar.


Dia após dia, acompanhamos o desenvolver da trama. Fazemos complexas relações de identificação com atores e personagens. Nos bate-papos, personagem, ator e narrador estão na mesma pessoa.


Carentes que somos do velho portão, do papo com os vizinhos, com os quais o contato diminui cada vez mais, vamos direto para os espaços vivenciais alternativos comuns a todos, em geral eletrônicos ou públicos, como teatro e circo.


As igrejas evangélicas suprem boa parte dessa necessidade de troca, se bem que falham em narrativas porque templo não é lugar de fofocas.


Os espaços religiosos são fontes de regras do bem viver.


Mas a minha intenção é defender a importância da narrativa na formação do cidadão, integrando-o em seu próprio meio. Como conhecer esse meio senão conhecendo a vida de seus membros?


Existe novela boa e novela ruim, assim como livro ou fábula ou conto de fadas.


É tudo história para nela nos mirarmos e nos sentirmos pertencentes ou excluídos, iguais ou um pouquinho diferentes.


Neste momento, cabem comparações.


Ver novela, assim como ler livros, é um jeito de sabermos quem somos e onde estamos.


Se é parte da grande arte ou artesanato, se é de alta classe?


Podemos até levar em conta, mas não nos esqueçamos de que seguir novela diária, séries, livros, acompanhar o dia-a-dia da política constituem a melhor forma de reviver a tribo ou a aldeia, berço da nossa humanidade. É aí que se tece a trama do imaginário das comunidades humanas.


ANNA VERONICA MAUTNER, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de ‘Cotidiano nas Entrelinhas’ (ed. Ágora)’


 


 


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O Estado de S. Paulo


Quinta-feira, 5 de junho de 2008


 


TELES
Gerusa Marques


Sem consenso, mudança do PGO é adiada novamente


‘O Palácio do Planalto está preocupado com a demora da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em aprovar a proposta de reformulação do Plano Geral de Outorgas (PGO), que permitirá a conclusão da compra da Brasil Telecom (BrT) pela Oi. A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, convocou uma reunião para discutir o assunto amanhã, com o ministro das Comunicações, Hélio Costa, e com o presidente da Anatel, Ronaldo Sardenberg. O encontro, segundo Costa, servirá para avaliar as dúvidas que surgiram entre os conselheiros da Anatel na avaliação do processo.


Ontem, o conselho diretor da agência adiou pela terceira semana consecutiva a votação da proposta por falta de consenso entre os conselheiros. A principal divergência refere-se ao destino das redes de banda larga, o que está dividindo ao meio o conselho diretor. De um lado, o relator da proposta, Pedro Jaime Ziller, e o conselheiro Plínio de Aguiar Júnior defendem a criação de uma empresa separada para administrar essa estrutura de banda larga. De outro, Ronaldo Sardenberg e o conselheiro Antonio Bedran querem que essa estrutura continue na mesma empresa que administra as redes da telefonia fixa.


A divergência fica mais evidente porque está faltando um conselheiro. O regimento interno da Anatel determina um mínimo de três votos para a aprovação de propostas. Com apenas quatro das cinco vagas preenchidas, a margem de segurança fica reduzida.


Um outro fator de tensão pode estar contribuindo para atrasar a votação: o fim do mandato do conselheiro Ziller, previsto para novembro deste ano. Publicamente, Ziller tem se declarado favorável à fusão da Oi e da BrT. Nas discussões, porém, segundo fontes do setor, Ziller estaria se colocando de forma intransigente em alguns pontos específicos da proposta de alteração do PGO. Essa postura, na avaliação das mesmas fontes, seria uma forma de negociar a sua permanência no cargo.


A legislação permite que os conselheiros sejam reconduzidos por uma única vez aos cargos, mas a informação que circulou nos bastidores até alguns meses atrás era de que a idéia da recondução de Ziller não tinha simpatia do Palácio do Planalto, apesar de ele estar no primeiro mandato. O conselheiro, que já presidiu a Anatel de 2004 a 2005, foi indicado pelo governo Lula durante a gestão do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) no Ministério das Comunicações.


O conselheiro teria voltado à disputa pelo cargo há três meses, durante a negociação da troca de metas de obrigações das empresas de telefonia fixa, quando o governo conseguiu das concessionárias o compromisso de levar banda larga a 55 mil escolas. Segundo as mesmas fontes, Ziller foi um importante facilitador nessa negociação com as empresas.


Nessa época, ele teria sido chamado várias vezes ao Palácio do Planalto pela ministra Dilma Rousseff, que conduziu as negociações.


Diante disso, o conselheiro tomou novo fôlego para lutar por sua permanência na agência e estaria jogando todas as fichas na negociação do PGO, cuja aprovação é de interesse do governo.


VAGAS


A posição de Ziller também está complicando, segundo as fontes, a indicação para a vaga que está aberta no conselho diretor. As negociações no governo caminhavam para que essa vaga fosse assumida por Emília Ribeiro, assessora da presidência do Senado, que teria o apoio do senador José Sarney (PMDB-AP). E a vaga do próprio Ziller ficaria com o superintendente de Serviços Privados da Anatel, Jarbas Valente, que seria indicação de Ronaldo Sardenberg, e contaria também com a simpatia do ministro Hélio Costa.


Diante do impasse, entrou também no páreo o professor da Unicamp Márcio Wohlers, que seria indicado pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho. A indicação para a Anatel está sendo tratada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva considerando também a nova composição ministerial.’


 



TELEVISÃO
Gerusa Marques


Planalto interfere em lei da TV paga


‘O Palácio do Planalto interferiu nas negociações da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados para adiar, novamente, a votação do projeto de lei que propõe regras para o setor de TV paga. O ministro das Relações Institucionais, José Múcio, pediu aos deputados da comissão o adiamento da votação para a próxima semana, para que as lideranças partidárias possam discutir mais o assunto. A proposta é polêmica e sua votação já foi adiada na Comissão por seis vezes.


O substitutivo do deputado Jorge Bittar (PT-RJ) abre o mercado de distribuição de conteúdo na TV por assinatura para as empresas de telefonia, mantém limite de 30% para a participação dessas companhias na produção e cria um sistema de cotas na programação da TV paga para incentivar a produção nacional e independente.


A maior resistência ao projeto, segundo parlamentares da Comissão, parte da TV Globo, mas a polêmica ganhou força com as declarações do ministro das Comunicações, Hélio Costa, contra o projeto. Ainda de acordo com deputados da Comissão, Costa teria, a pedido da Globo, telefonado a José Múcio e à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, solicitando interferência para que o projeto não fosse votado.


Jorge Bittar foi mais enfático e disse que a Globo não quer nenhuma mudança na legislação atual do setor e que por isso está trabalhando contra a votação. ‘A Globo não quer mudança em nada, está fazendo um jogo sujo porque negociou comigo e agora está indo no ouvido dos deputados’, afirmou.


Segundo ele, vários pontos de seu substitutivo foram acertados em reuniões com representantes da Globo, assim como foram discutidos com outras emissoras de televisão e com empresas de telefonia, de TV por assinatura e de produção de conteúdo.


O sistema de cotas tem sido apontado publicamente como a grande divergência, mas a preocupação fundamental das emissoras de TV, para os deputados, é com a possibilidade de esse projeto significar um passo para se mudar o setor de TV aberta, onde há restrição de 30% para participação de capital estrangeiro.


O diretor-geral da Globosat, Alberto Pecegueiro, rebateu as acusações de Bittar e disse que o deputado está ‘muito impermeável’ às sugestões do grupo ao projeto. Segundo ele, a proposta nasceu com o objetivo de resolver o acesso das empresas de telefonia ao mercado de TV por assinatura, mas o deputado Bittar acabou transformando a proposta em um grande tratado.


‘A dimensão que ele deu ao projeto e a ambição de regular o mundo angariaram uma série de resistências’, afirmou o executivo, garantindo não ser contrário ao projeto. Pecegueiro disse que o trabalho da empresa é de defesa de seus interesses. ‘Não acho que seja um jogo sujo defender nossos interesses. Isso faz parte do processo democrático’, afirmou.


O ministro das Comunicações, por sua vez, negou que tenha procurado José Múcio, mas afirmou que acha que o projeto precisa ser mais bem discutido. Ele prometeu enviar à Comissão na próxima semana um parecer do ministério sobre o assunto. As repetidas ausências do ministro em várias discussões sobre o projeto foram duramente criticadas pelo presidente da Comissão, deputado Walter Pinheiro (PT-BA). ‘O ministro precisa falar de frente. Ele está falando de costas. Queremos ouvir a opinião do dele, que é peça importante nesse jogo’, disse Pinheiro, admitindo a possibilidade de ter de convocar Hélio Costa.


Na opinião do deputado, é importante ter uma definição sobre como o setor vai funcionar daqui para a frente. ‘Se não houver uma definição, vão permanecer aqueles que têm mais força, quem controla as redes e quem arrecada mais.’


O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) defende que o projeto seja desmembrado para separar a questão da convergência tecnológica do debate sobre conteúdo. Mas Jorge Bittar não aceita dividir o projeto. ‘Isso empobreceria a proposta, reduzindo-a a um mero acerto de contas entre teles e radiodifusores.’’


 



Renato Cruz


TV aberta está em declínio, diz especialista


‘A expansão da banda larga está tomando espaço da TV aberta, e não há como reverter essa tendência. Segundo Eli Noam, professor da Columbia Business School e diretor do Columbia Institute for Tele-Information, algumas emissoras vão continuar muito importantes como produtoras de conteúdo, mas o espaço para a transmissão terrestre será bem pequeno.


‘O futuro da televisão é o vídeo sob demanda seletivo e bidirecional’, disse Noam, por telefone. Ele participa amanhã do Painel Telebrasil, na Bahia.


Noam preferiu não comentar a situação específica do Brasil. Mas o embate entre radiodifusores e operadoras de telecomunicações está bem presente por aqui. Na definição do sistema de TV digital, há dois anos, os radiodifusores venceram, ao ser escolhido o sistema japonês, que permite, entre outras coisas, transmitir vídeo para celulares de graça, no próprio canal de televisão. Outro exemplo disso é a dificuldade em se modificar a lei de 1995 que impede a entrada das concessionárias locais no mercado de TV a cabo.


Apesar de as operadoras de telecomunicações terem um poder econômico maior, o poder político está nas mãos dos radiodifusores. ‘Num sistema democrático, eles são essenciais ao processo eleitoral’, afirmou Noam. ‘Se levarmos em conta a experiência dos Estados Unidos nos últimos 50 anos, os radiodifusores tendem a prevalecer no curto prazo, mas as mudanças na infra-estrutura e na transmissão tendem a prevalecer no longo prazo.’


O professor deu como exemplo o caso da TV a cabo nos Estados Unidos. ‘Nos EUA, os radiodifusores tentaram por alguns anos restringir a TV a cabo, e não tiveram sucesso’, explicou. ‘Hoje, somente 15% das residências americanas recebem televisão pelo ar. Isso não tornou os radiodifusores desimportantes, mas, claramente, as três grandes redes – ABC, NBC e CBS – tornaram-se entidades menos dominantes.’


AUDIÊNCIA


A audiência dos canais tradicionais caiu consideravelmente, mesmo com sua presença no cabo e no satélite. A televisão via internet acelera o processo de declínio da TV aberta.


‘A transmissão de conteúdo pelo ar já se tornou uma parte menor da atividade dos radiodifusores nos EUA e na Europa Ocidental. Mesmo assim, existe espaço para conteúdo de qualidade’, apontou Noam.


Ele acredita que ‘alguns radiodifusores irão continuar terrivelmente importantes, mas usarão plataformas múltiplas de distribuição. A tradicional irá declinar continuamente. Alguns países pobres vão demorar mais tempo para substituir a transmissão terrestre, porque ela é mais barata.’


Uma explicação para isso é que são poucos os programas que os espectadores sentem necessidade real de assistir ao mesmo tempo que todo mundo. ‘Não existem muitos exemplos de que as pessoas precisam assistir televisão em tempo real’, disse o professor. ‘Mesmo no noticiário, se não falamos de um evento como o 11 de setembro, mas de coisas como uma pessoa importante que morreu, pediu demissão ou foi eleita, a urgência é diferente para perfis diferentes de públicos. A audiência vai se decompor consideravelmente. O denominador comum do conteúdo em tempo real não é muito grande.’’


 



Keila Jimenez


A mais nova criptonita no sapato da Rede Globo


‘O primeiro capítulo de Os Mutantes, nova novela Record – bem, não tão nova, pois é uma continuação -, teve cara mesmo é de último capítulo. A trama entrou no ar sem nenhuma vinheta, nada, com o julgamento da mocinha da novela passada, Caminhos do Coração, Maria, vivida por Bianca Rinaldi.


Com trilha e cara de decisão, o tribunal de júri em questão trazia as mesmas caras de sempre, com direito aos micos de sempre, também. Depois de correr de dinossauros, eis que surge o premiado Cássio Scapin em forma de holograma.


Cerca de 40 minutos se passam sem intervalo comercial e, a essa altura do capítulo, o público já entendeu que Os Mutantes se trata mesmo de uma seqüência, com direito a reciclagem geral. Estão de volta os dinossauros, vampiros sarados, a ilha perdida à la Lost, ataques de lobisomens no Teatro Municipal… Teatro Municipal? Sim, é aí que entram as bem dirigidas cenas de ação da novela, momento em que a vontade de prestar atenção é maior que a de rir.


As crianças prodígio da edição anterior continuam em cena. Mas a maior mutação no ar é real. O pequeno Pedro Malta agora fala grosso, tem pêlos, cresceu.


Os efeitos especiais de Caminhos permanecem a serviço da nova novela. Não são capazes de transformar a ex-miss Brasil, Nathalia Guimarães, em talento promissor. Mas seguem impressionando, como a audiência (24 pontos), uma das maiores da história da Record, e a capacidade do autor de inventar criaturas e diálogos dignos de HQ de Superman. Os Mutantes é claramente a mais nova pedra no sapato da Globo, ou melhor, criptonita.’


 



Etienne Jacintho


Braga livra Carneiro


‘Gilberto Braga não compara A Favorita, nova novela das 9 de João Emanuel Carneiro, com Dancin’ Days, sua primeira história para a Globo, em 1978. ‘Acho que João tinha 2, 3 anos quando Dancin’ Days foi ao ar. Ele é um garoto’, fala Braga.


Para o autor, situações dramáticas se repetem. ‘Eu repito um monte de coisas que fiz e que outros escritores fizeram’, comenta. ‘Embora haja semelhança, não me lembrou nem um pouco Dancin’ Days.’


Braga não poupa elogios a A Favorita. ‘Achei a novela de João excelente e me pegou demais. Estou começando a quase gostar de novela!’, brinca.


Cansado de férias, o autor diz que volta logo ao batente. ‘Estou negociando para ver se meu próximo trabalho será novela, minissérie ou supervisão. Certamente farei as três coisas, mas não sei o que será primeiro.’


Braga falou ao Estado durante a homenagem a Janete Clair na abertura do 9º Fórum Brasil, em São Paulo, e confessou que Janete, para ele, é santa. ‘Coloco uma foto de Janete sempre que tenho reuniões para ver se ela ajuda’, fala. ‘Quando tenho uma grande dúvida – e o Silvio (de Abreu) também faz isso -, me pergunto: ‘O que Janete faria?’’


 



PUBLICIDADE
O Estado de S. Paulo


Totalcom compra agência na Argentina


‘O Grupo Totalcom, controlado pelo publicitário Eduardo Fischer, comprou 60% das ações da agência de marketing promocional argentina Smash. Fundada e presidida por Diego Echandi, a Smash também atua em marketing esportivo. Entre seus clientes estão Arcor, Citroën, Danone, Kraft, McDonald?s, Procter&Gamble, Repsol YPF, Tetrapak e Toyota. Fischer diz que a compra faz parte do plano de expansão do grupo que dirige e que há planos de novas aquisições no país vizinho em breve.’


 



CRIME ONLINE
Tiago Décimo


Estupros de adolescentes são exibidos na internet


‘Dois casos de estupro de adolescentes, fotografados, filmados e divulgados pela internet, causaram comoção na Bahia. Na segunda-feira, com o incentivo da mãe, uma estudante de 16 anos de São Gonçalo dos Campos (108 km a oeste de Salvador), procurou a polícia para denunciar os abusos que vinha sofrendo de um grupo de cinco adolescentes, entre 14 e 17 anos – todos colegas de escola. Um deles é ex-namorado da vítima.


Imagens capturadas durante as agressões foram parar na web. Nas cenas, a jovem aparece sendo estuprada e agredida pelos adolescentes. Desde que as imagens foram distribuídas, há cerca de dez dias, a jovem parou de freqüentar o Colégio Estadual Polivalente. Os estudantes envolvidos foram expulsos pela direção e só então a adolescente procurou a polícia.


Ela contou ao delegado Antônio Luciano Lima, que os abusos começaram quando o relacionamento dela com um dos agressores terminou, por constantes brigas, no início de maio. Desde aquela época, a garota sofreu abusos dos jovens por quatro vezes e não os denunciou antes porque eles ameaçavam divulgar as imagens. ‘Os acusados já se apresentaram e vamos ouvir todos nos dias 11 e 16’, diz Lima. ‘Pelas imagens, fica claro o estupro.’


ESTADOS UNIDOS


O caso é o segundo do gênero na Bahia em dez dias. No fim de maio, uma adolescente de 13 anos teria sido dopada e estuprada por três colegas de 17 anos, em Itanhém, 983 km ao sul de Salvador. O abuso foi descoberto depois que o pai da vítima, um carpinteiro que mora há seis anos nos Estados Unidos, recebeu por e-mail 54 imagens da agressão.


De acordo com a jovem, ela desconhecia que havia sido estuprada – por isso não denunciou os agressores. Em depoimento, ela contou que, em 21 de abril, foi convidada por um amigo, de 17 anos, para beber, na casa de outro amigo. Em determinado momento, ela teria passado mal e desmaiado. Então, os jovens teriam abusado dela e tirado fotos da agressão. A garota só acordou no dia seguinte, depois de ser resgatada por uma tia.


Os três acusados fugiram da cidade depois que as fotos começaram a ser divulgadas via internet. Um deles, porém, voltou e se apresentou ao delegado José Neles de Araújo, na sexta-feira. O jovem negou a versão da vítima, disse que as imagens retratam apenas uma ‘curtição’ e a adolescente concordou com o ato ‘até desmaiar’. O jovem foi liberado após o depoimento.


Um segundo acusado se apresentou ontem. Segundo Araújo, ele admitiu ter mantido relações sexuais com a vítima após ela ter desmaiado – disse, porém, que a jovem bebeu por iniciativa própria. Apesar da confissão, o adolescente também foi liberado.O terceiro suspeito pode estar em Portugal.’


 



O Estado de S. Paulo


CPI da Pedofilia pede dados de chat


‘A Comissão Parlamentar de Inquérito da Pedofilia aprovou ontem requerimento em que solicita a transferência do sigilo telemático referente ao conteúdo dos diálogos e ao registro de acesso dos usuários que utilizam uma sala denominada Incesto. Há 90 dias uma testemunha procurou a polícia paulista, informando que havia recebido propostas para manter sexo com crianças enquanto freqüentava essa sala.


As investigações resultaram na descoberta de uma rede de pedofilia no Estado. Investigado sob suspeita de envolvimento nesse grupo, o 2.º tenente da PM Fernando Neves Brás, de 34 anos, matou-se com um tiro na cabeça no dia 30.


Também foi aprovado requerimento que solicita a empresas de telefonia informações sobre 805 usuários da internet. Esse é o resultado da triagem feita pelos técnicos da comissão e da PF no material encaminhado pelo Google à CPI, composto por 3.264 álbuns em páginas do Orkut.’


 



VIOLÊNCIA
Pedro Dantas


Preso miliciano acusado de tortura


‘Policiais da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas do Crime Organizado (Draco)prenderam o primeiro miliciano acusado de envolvimento na tortura da equipe de reportagem do jornal O Dia e de um morador na Favela do Batan, em Realengo, zona oeste do Rio, ocorrida em 14 de maio. De acordo com o delegado-titular da Draco, Cláudio Ferraz, as vítimas identificaram e investigações confirmaram que David Liberato de Araújo, de 32 anos, conhecido como 02, preso ontem, participou da sessão de tortura – que teria sido presenciada por mais de 20 pessoas. O chefe da milícia na Batan, que comandou o crime, foi identificado como o inspetor da 22ª Delegacia de Polícia da Penha, Odinei Fernando da Silva, de 35, conhecido na favela como 01, Dinei ou Águia. Ele está foragido.


‘Temos informações que eles lideram a milícia (na Batan) e os repórteres informaram que, pelo tipo físico, pela postura e outras informações que constam no depoimento, eles participaram da tortura’, disse o delegado. Os dois milicianos identificados pela polícia foram criados na Favela do Batan. Araújo cumpria pena em regime semi-aberto na Colônia Penal Agrícola de Maricá por receptação, após comprar um carro roubado, e também respondia a uma acusação por furto. ‘Não fiz nada disso que estão falando. No dia em tudo aconteceu eu estava no presídio’, disse o acusado. Conforme o delegado, ele atuava como miliciano nos dias em que saía da penitenciária. O acusado foi transferido para regime fechado no Presídio Plácido de Sá, em Bangu.


O delegado disse que a divulgação da sessão de tortura sofrida pelos jornalistas pela imprensa, no domingo, atrapalhou a prisão do inspetor Dinei, apontado como o chefe da milícia. ‘Tínhamos conhecimento que a peculiaridade do envolvimento dos jornalistas no caso pressionaria e por isso aceleramos ao máximo as investigações’, disse Ferraz.


O policial já sabia do mandado de prisão e não compareceu ao trabalho hoje na 22ª DP. O delegado reconheceu que relatórios da Anistia Internacional haviam alertado o governo do Rio sobre a crueldade do inspetor quando era agente penitenciário. ‘Ele se envolveu em um caso de homicídio e em diversas outras violências contra presos’, afirmou.


O chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, informou que Dinei foi reprovado no concurso para a Polícia Civil, mas conseguiu assumir o cargo por meio de uma liminar. Ribeiro pediu critérios mais rígidos ao Judiciário na concessão das liminares. As investigações revelam que a milícia agia com extrema violência contra os desafetos.


A Polícia Civil apura as denúncias sobre a utilização do Campo de Treinamento do Exército em Gericinó, localizado ao lado da Favela do Batan, como um cemitério clandestino pelos milicianos.


MAIS POLICIAIS


‘Estamos em parceria com o Exército para verificar essa possibilidade do uso desse terreno enorme como área de desova’, confirmou o delegado.


Ferraz não descarta a prisão de mais policiais civis e militares ou de pessoas ligadas ao Poder Legislativo. Ele disse novamente que um dos torturadores se identificou como assessor parlamentar do deputado estadual Coronel Jairo (PSC). ‘A repórter identificou a voz dele quando estava com a cabeça coberta por um saco plástico. Ele comentava com os outros algozes que tinha dado uma cantada nela na favela’, contou o delegado. O deputado estadual negou ontem qualquer envolvimento de assessores dele com milicianos.


Sobre a sessão de tortura, o delegado revelou que o objetivo dos criminosos era a busca de informações. ‘Eles utilizaram a técnica de não deixar marcas até para evitar um eventual e futuro questionamento. Tanto que eles tiveram a preocupação de tirar os brincos da repórter, de aplicar brutalidades que não deixassem marcas físicas, já que as psicológicas são difíceis de se apurar materialmente’, disse Ferraz. Após a tortura, os milicianos obtiveram as senhas dos computadores dos jornalistas, viram e leram o conteúdo de textos e fotos. Parte do equipamento estava na casa de outros moradores na favela.’


 



LITERATURA
Ubiratan Brasil


‘O diálogo surge de forma natural em minha escrita, é algo instintivo’


‘Quando foi convidado para participar da próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty, o dramaturgo e roteirista checo naturalizado inglês Tom Stoppard ameaçou agradecer e dizer não – o desprazer de estar longe de seus livros o faz recusar convites de lugares distantes. ‘Mas, cinco minutos depois, pensei: ‘Não posso morrer sem nunca ter visitado a América do Sul.’’ Foi o suficiente para reconsiderar e confirmar presença, tornando-se o mais ilustre convidado da festa que ocorre em julho (leia abaixo).


Aos 70 anos (completa mais um em plena Flip), Stoppard tornou-se famoso pelas histórias inteligentes e engenhosas que criou para cinema, TV, rádio e, principalmente, teatro, sua base natural. Shakespeare Apaixonado, por exemplo, garantiu o Oscar de melhor roteiro que Stoppard dividiu com Marc Norman. O bardo inspirou-lhe ainda a peça Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos, que ele mesmo levou ao cinema. Participou ainda do roteiro de Brazil, dirigido por Terry Gilliam.


Na verdade, são poucos os que conseguem mostrar as rachaduras de uma relação. ‘Crio diálogos com facilidade’, contou ele ao Estado, em conversa telefônica na qual confessou já ter pisado uma vez em solo sul-americano. ‘Fiz baldeação em Bogotá, em uma viagem para as Ilhas Galápagos. Mas não entra na minha conta.’


Um roteirista brasileiro, que também é escritor, Marçal Aquino, disse em uma feira literária (Festival da Mantiqueira) que não considera roteiro de cinema uma peça literária. O que você pensa disso?


Creio que pode ser considerado literatura, embora eu nunca tenha escrito roteiros originais – sempre fiz adaptações de obras ou participei do trabalho de outros. Mas acredito que os bons roteiros podem ser admirados como peça literária. Gosto de cinema, embora existam poucos filmes que eu respeite e adoro. Mas são esses que eu respeito principalmente como escritor.


E quais seriam esses filmes?


Alguns são pequenas jóias e assim não seriam se não partissem de um roteiro admirável: Chinatown, Quanto mais Quente Melhor, Os Suspeitos, LA Confidencial, A Vida dos Outros são alguns exemplos. Escrever roteiro para cinema, na verdade, exige uma habilidade natural e específica, diferente da de quem escreve para teatro. No meu caso, acredito ter mais facilidade para a dramaturgia.


Em uma entrevista, você disse não enfrentar problemas para escrever diálogos. O que considera, então, difícil ao escrever?


Considero a estrutura muito difícil de criar. Diálogo, por alguma razão que não entendo, me vem naturalmente. É interessante: a estrutura é algo que você pode estudar a forma, diferente do diálogo, pois é algo instintivo. E escrever o que uma pessoa diz para a outra é a parte do trabalho que mais me agrada. Sei que é um clichê, mas posso garantir que é verdadeiro dizer que, em alguns momentos, o diálogo surge naturalmente na minha escrita.


E, quando você escreve, as imagens da peça surgem na sua mente, assim como as falas dos personagens?


Sim. As imagens sempre surgem na minha cabeça, mas cuido para não me influenciar demais por elas. Quando era mais jovem, eu me preocupava em detalhar como deveria ser o cenário, a sonoplastia, o trabalho artístico, enfim. Com o tempo, descobri que existem profissionais mais capazes para realizar esse trabalho. Hoje, em minhas peças, coloco apenas algumas pistas para inspirar os artistas.


O processo criativo é dolorido?


Não, eu não diria isso. O que me incomoda é não encontrar um assunto para minhas peças. Neste momento, comecei a escrever uma, mas a anterior foi finalizada dois anos atrás. É deprimente o período entre uma e outra. Afeta meu humor. Mas, no instante em que retomo a rotina, nada mais interessa que a nova peça. E o que sinto não é sofrimento, mas estar sob uma tensão, de evitar perder aquele momento criativo.


Por falar nisso, você escreveu trabalhos para cinema, televisão, rádio, mas sempre voltou para o teatro. Por que?


É uma questão interessante. Quando eu era mais jovem, o teatro inglês tornou-se o foco de muita atenção e isso incentivou muitas carreiras. Eu trabalhava como jornalista e escrevia sobre teatro – não fazia críticas, mas reportagens. Conhecia atores, diretores, era algo muito excitante e ainda continua sendo. Decidi me aventurar por essa carreira pelo prazer da aventura e pelo desafio de criar uma história com capacidade de ser encenada. E hoje minha preferência pelo teatro se justifica pelo motivo de que o dramaturgo tem mais controle sobre sua peça que um roteirista sobre seu roteiro. Com raras exceções, não é novidade que astros de cinema gostem de mudar suas falas durante a filmagem. Na verdade, ontem (segunda-feira), escutei no rádio a entrevista de um roteirista que dizia exatamente isso. Apesar de se preocupar com cada vírgula de seu texto, ele percebia que, tão logo a cena era filmada, os atores mudavam quase tudo. Isso é difícil acontecer no teatro. Pode parecer vaidade, mas os dramaturgos são respeitados e percebidos como parte importante do processo.


Em um trabalho recente, a trilogia The Coast of Utopia, você fez muita pesquisa histórica. É prazeroso esse tipo de trabalho?


Sim, muito. Para ser sincero, especificamente nessa trilogia, eu me obriguei a parar de ler para então começar a escrever, pois o tempo empregado em pesquisa já era grande. Atualmente, busco me ocupar com peças que não exigem investigação, pois estou com uma idade em que não tenho tempo a perder. E uma peça de teatro normalmente não demanda tanto esforço como um romance – se você escrever uma página por dia, terá uma peça finalizada em três meses. Mas eu não tenho uma produção tão constante. Quando disse antes que a estrutura da peça é meu maior desafio, o mais dificultoso, na verdade, é encontrar o tema que desperte minha curiosidade.


E onde você busca esses fatos?


Minha ilusão é encontrá-los em jornais e revistas – sou viciado em imprensa escrita, leio diariamente diversas publicações, as quais vasculho em busca de idéias. Mas, ao final, nem sempre ali é uma boa fonte. Tenho mais sorte em conversas triviais com amigos, pois sempre fui atraído por assuntos abstratos. Gosto de idéias vindas de narrativas. Minha dificuldade é inventar histórias e personagens cujas características se encaixem nas idéias que realmente acredito serem interessantes.


Você colaborou no roteiro do filme Brazil, dirigido por Terry Gilliam. Qual foi sua participação na história?


Criei a maioria dos diálogos. Gilliam escreveu o roteiro e havia maravilhosas passagens descrevendo alguns sonhos que necessitavam de uma situação básica. Então, ele me convidou para criar uma estrutura e também acrescentar um pouco de graça. Assim, reinventei a trama, escrevi os diálogos com mais humor e devolvi para ele. Gilliam criou aquele mundo chamado ‘Brazil’ e não eu. Lembro-me que o avisava sempre de que George Orwell tinha feito algo parecido antes e ele respondia: ‘Tudo bem, tudo bem.’ Foi só depois de terminada a filmagem que Gilliam admitiu nunca ter lido 1984 e de ter se surpreendido com a semelhança com Brazil.


Em seu livro On Directing Film, o dramaturgo, roteirista e cineasta americano David Mamet afirma que ninguém, em um estúdio de filmagem, sabe ler um roteiro. O que pensa disso?


Entendo o que ele quer dizer. A leitura de um roteiro exige uma mente criativa, pois muitos desses trabalhos são difíceis de ler. Assim, espera-se uma pessoa com sensibilidade suficiente para entender as intenções. A experiência que conquistei no teatro me ensinou a ser o mais claro possível no texto, pois o pior acontece quando elenco e diretor não entendem suas pretensões. Creio que Mamet faz, ao dizer isso, uma distinção entre um ponto de vista subjetivo e outro objetivo. Nem sempre é fácil traduzir no papel o que se passa na sua imaginação. Daí a necessidade de se encontrar um meio termo que não prejudique a intenção original.’


 



IMPRENSA NOS EUA
Veríssimo


Colaboradores


‘A imprensa americana está comentando o recém-lançado livro de Scott McClellan, que foi porta-voz da presidência durante três anos e agora conta tudo sobre a campanha mentirosa para justificar a invasão do Iraque e outras sujeiras do governo Bush. A única novidade do relato é ser feito por alguém que estava dentro da Casa Branca e participou – muitas vezes enganado também, diz ele agora – do logro que resultou na guerra mais longa em que o país já se meteu, e cujo custo em vidas humanas continua a subir. A imprensa americana está comentado menos outra coisa que já se sabia mas ninguém com as credenciais de McClellan tinha dito antes: a sua cumplicidade na campanha mentirosa. Com a autoridade de quem se encontrava com ela quase todos os dias, McClellan descreve uma imprensa subserviente que raramente questionava as mentiras do governo e, com poucas exceções, aceitava todas as razões da direita guerreira.


O próprio New York Times, besta negra dos conservadores americanos com sua linha pró-democratas e internacionalista, forneceu os exemplos mais notórios de colaboração com o engodo nas matérias de primeira página em que sua super-repórter Judith Miller transmitia as alarmantes ficções do escroque iraquiano no exílio Ahmad Chalabi sobre armas de destruição em massa do Saddam. O Times depois pediu desculpas aos seus leitores mas nenhum outro grande jornal americano que ajudou a promover a guerra teve o mesmo escrúpulo. McClellan chama a atitude da maior parte da imprensa com relação a Bush, antes e depois da invasão do Iraque, de ‘reverencial’.


Apesar de persistir nos Estados Unidos o mito de uma imprensa dominada por ‘liberais’, o fato é que – de novo, com exceções – a direita não tem do que se queixar dos jornais americanos. Mesmo os não abertamente reacionários como o Wall Street Journal preferem um centrismo não muito bem equilibrado. Agora mesmo, com as eleições presidenciais se aproximando, o desequilíbrio aparece.


Não fizeram metade do barulho com as ligações do republicano McCain com religiosos malucos mas brancos, como o que disse que Deus castigou Nova Orleans pelos seus pecados com o furacão, que fizeram com a ligação de Obama com aquele pastor radical negro. ‘Double standards’ é o termo em inglês para dois pesos e duas medidas.


Como diria o Ancelmo Góis, deve ser horrível viver num país em que a imprensa age assim.’


 


 


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