Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > RIO DE JANEIRO

Governador manda prender blogueiro

Por Mário Augusto Jakobskind em 05/02/2008 na edição 471

O governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, está botando os pés pelas mãos, sobretudo na área de segurança. Ele o seu secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, aprontam de tal maneira que já estão sendo considerados inimigos da Polícia Militar.


A última do governador, que passa as horas de lazer em sua casa em Portobelo, em Mangaratiba: ordenou a primeira prisão de um blogueiro no Brasil, o tenente da Polícia Militar Melquisedec Nascimento, presidente da Associação dos Militares Auxiliares e Especialistas (Amae), um sindicato de policiais. E isso em pleno carnaval.


Inconformado com as críticas feitas pelo oficial no blog Militar Legal, que cobra as promessas de campanha, sobretudo as relacionadas com o reajuste de salários dos PMs, Cabral decidiu mandar prender Melquisedec.


Quatro PMs da Corregedoria da corporação foram à casa do tenente blogueiro dizendo ter ordem para levá-lo a prestar depoimento e depois prendê-lo administrativamente. O chefe da 3ª Delegacia da Polícia Judiciária Militar, tenente-coronel Alexandre Rodrigues do Nascimento, no entanto, negou que haja ordem de prisão contra Melquisedec, que não foi encontrado em seu domicílio, mas admitiu que a convocação foi para esclarecer o motivo pelo qual colocou em seu blog a fotomontagem de Cabral como Pinóquio.


O governador, que se irrita com qualquer tipo de críticas, não agüentou quando viu seu retrato estampado com o chapéu e nariz de Pinóquio. Cabral apenas é acusado de repetir o que fazem políticos de sua envergadura quando correm atrás dos votos, ou seja, prometem nos palanques e forma a iludir os incautos.


Teoria na prática é outra


Ao decretar a prisão de Melquisedec, Cabral demonstrou que não respeita a livre manifestação de pensamento. Não adiantam discursos de defesa da democracia, que costuma fazer em solenidades para agradar platéias, quando na prática age de forma autoritária. Cabral é o exemplo concreto de como a teoria na prática é outra.


Não é hora das entidades defensoras da liberdade de expressão se manifestarem contra o desrespeito do governador Cabral? O silêncio é, na prática, compactuar com a arbitrariedade. Ou não?


Quem semeia vento colhe tempestade. O autoritarismo de Cabral fez com que em alguns blogs ele apareça com o bigode característico e chamado de Adolfo, numa alusão a Hitler. Se continuar semeando ventos arrisca-se inclusive a colher maiores tempestades ampliando a inconformidade dos policiais militares, com graves conseqüências.


‘Colombizando’ o Rio de Janeiro


A crise na segurança pública no Rio está visivelmente se agravando. A política preconizada por Cabral e seu secretário Beltrame, com graves reflexos nas áreas pobres, está na prática ‘colombizando’ o Rio de Janeiro. Aliás, depois que voltou da Colômbia, onde a política de segurança recebe a assessoria de militares e agentes de inteligência estadunidenses e israelenses, Cabral tem se revelado um entusiasta no modelo de confronto adotado por lá no combate à violência urbana. O governador tem constantemente criminalizado a pobreza e perde as estribeiras quando é questionado nesse sentido. E a mídia conservadora aplaude de bom grado as seguidas declarações da autoridade máxima do estado do Rio, o que na prática incentiva o seu procedimento.


Como se tudo isso não bastasse, o secretário Beltrame vem sendo acusado de ter vínculos com uma empresa da área de inteligência, especializada em grampear telefones. Trata-se de uma acusação grave, e a única forma de esclarecer se a denúncia tem ou não fundamento é investigá-la a fundo. A Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) poderia ser convocada nesse sentido. Resta saber se os parlamentares daquela Casa Legislativa toparão fazer isso, uma rotina na democracia, por se tratar de um procedimento que visa esclarecer uma grave dúvida que paira no ar.


Quanto às dependências de alto luxo de Cabral em Portobelo, onde só moram ricaços, a pergunta que se faz é de como um político sem berço de ouro pode ter uma propriedade deste tipo? Muitos perguntam: herdou, ganhou na mega-sena, deu o golpe do baú, economizou ou…? O que tem a dizer o governador?

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/02/2008 Ivan Moraes

    Mais: hierarquia de poder NAO eh hierarquia institucional. Se um governador americano ‘ordenasse prisao’ de algum militar –ainda mais pela razao alegada!!– ele seria decepado da vida politica tao fulminantemente rapido que nao teria tempo de sequer ver o que lhe caiu na cabeca.

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