Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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CADERNO DA CIDADANIA >

Governo patrocina programas
de televisão contendo baixarias

Por Luiz Antonio Magalhães (seleção de textos) em 16/06/2009 na edição 542


Leia abaixo os textos de segunda-feira selecionados para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Segunda-feira, 15 de junho de 2009


TELEVISÃO


Daniel Castro


Dinheiro do governo ignora baixaria na TV


‘O governo está ignorando recomendação do Ministério Público Federal para que deixe de anunciar em programas considerados de baixo nível.


A recomendação foi expedida em 31 de março por Gilda Pereira de Carvalho, subprocuradora-geral da República, e encaminhada ao ministro Franklin Martins, da Secom.


A subprocuradora pediu que Martins expedisse ‘ordem expressa’ a ministérios e estatais ‘para que se abstenham de patrocinar programas considerados ofensivos aos direitos fundamentais da pessoa humana ou que desrespeitem os princípios constitucionais relativos à programação das emissoras’, ou seja, os listados na campanha ‘Quem Financia a Baixaria é contra a Cidadania’, da Câmara dos Deputados.


A Secom informa que não tem competência legal para interferir na escolha dos programas por estatais e ministérios. ‘A escolha dos meios, veículos e programas é realizada pelos órgãos e entidades com base em critérios técnicos’, diz a assessoria de Franklin Martins.


Nem a própria Secom, que gasta R$ 155 milhões em publicidade por ano, cumpre a recomendação, porque não reconhece ‘norma que delimite o que são programas ofensivos a direitos fundamentais’. O ranking da baixaria é visto com reservas. O último é de setembro e traz o ‘Terceiro Tempo’ no topo, por causa de reclamações de torcedores do Grêmio.


COMPENSAÇÃO 1


O jogador Ronaldo vai participar do ‘Programa Silvio Santos’. Será uma forma de compensar a não gravação de anúncio para a rede de Silvio Santos. Temendo represálias da Globo, Ronaldo desistiu de fazer campanha para o SBT.


COMPENSAÇÃO 2


Ronaldo assinou contrato se comprometendo a gravar comerciais para empresas do Grupo Silvio Santos, do qual o SBT faz parte. Os executivos do SBT aceitaram os argumentos de Ronaldo. E o perdoaram.


PETECA


A Globo vai apoiar o prêmio de música organizado por José Maurício Machline e veiculará gratuitamente chamadas para o espetáculo. O prêmio, que já foi Sharp e depois TIM, está sem patrocinador.


VOADOR 1


Louro José, o papagaio de Ana Maria Braga, vai voar, sentar e assobiar. A Globo e técnicos americanos desenvolveram um boneco virtual que usará o que existe de mais top em computação gráfica. Uma câmera com sensores ‘lê’ o cenário do ‘Mais Você’ e introduz o boneco em tempo real nele.


VOADOR 2


Com toques em joystick, o manipulador Tom Veiga pode fazer Louro José pousar no ombro de Ana Maria. O equipamento sincroniza a voz de Veiga com a do boneco virtual.


VOADOR 3


Um teste será feito em duas semanas. A Globo acha o atual Louro José limitado, mas teme introduzir o virtual. A mudança, se ocorrer, será em outubro, nos dez anos do ‘Mais Você’.’


USP EM CRISE


Fernando de Barros e Silva


USP, polícia e demagogia


‘SÃO PAULO – ‘Não se deve caluniar abstratamente a polícia’. É conhecida a resposta do filósofo Theodor Adorno à reprovação que lhe fazia, dos EUA, Herbert Marcuse pelo fato de ter recorrido à força policial para barrar estudantes que tinham invadido o Instituto de Pesquisa Social, em Frankfurt, no início de 1969. A polícia, escreve Adorno numa das célebres cartas ao amigo, ‘tratou os estudantes de maneira incomparavelmente mais tolerante do que estes a mim’.


A USP não é a Escola de Frankfurt, 2009 não é 1969 e Suely Vilela não é… bem, a reitora já disse ser adepta dos livros de autoajuda. Alguém dirá, além disso, que há razões nada abstratas para criticar a ação da polícia no campus, o despreparo para lidar com situações deste tipo entre elas.


Sim, ninguém pode de boa-fé desejar a universidade ocupada. Sim, a reitora é uma figura lamentável, e sua gestão, ruinosa. Mas quando os ‘progressistas’ da USP vão ter coragem intelectual para criticar também o comportamento autoritário de uma minoria de funcionários grevistas que intimidam colegas e querem impor ao conjunto da universidade o que há de pior e mais privado no espírito corporativo?


Quando dirão que luta social e vandalização de patrimônio público não são nem devem ser sinônimos? Quando chamarão pelo nome o ‘fascismo de esquerda’ de grupelhos pautados por estupidez teórica e desprezo sistemático pelos direitos dos outros?


Coube ao professor Dalmo Dallari, um veterano das causas democráticas, a intervenção mais lúcida, honesta e destemida a respeito do imbróglio uspiano. Em entrevista à Folha, na sexta, ele diz coisas como: a polícia que cumpre uma ordem judicial para proteger o bem público não é a polícia da ditadura; a pauta dos grevistas é desconexa e seus métodos são intoleráveis; a reitora é fraca, mas sua destituição agora desmoralizaria a instituição.


Eis, para os que não querem ficar presos a clichês mal digeridos da cultura meia-oito, um bom ponto de partida para o debate.’


 


TODA MÍDIA


Nelson de Sá


Com vocês, os Brics


‘As manchetes globais foram tomadas pelo Irã, mas sem a imprensa ocidental apontar fraude.


Ao largo, China e Índia registram manchetes sobre a cúpula Bric na Rússia, com a atenção de Associated Press, Bloomberg e Reuters voltada para um eventual pronunciamento sobre dólar -o que a própria Rússia tratou de desmentir nos últimos dias.


Xinhua, a indiana PTI, a France Presse e outras agências tentaram adiantar o significado do encontro, que ‘marca a estreia formal do grupo no palco global’, expressão da estatal chinesa.


Um professor russo afirmou que ‘Bric é mito, mas um mito que está lentamente se tornando realidade’. Um professor de Pequim prevê ‘cooperação parcial’, apenas, por terem ‘grandes diferenças’.


O VENTO


No ‘Moscow Times’, Peter Rutland, de Harvard, saúda a ‘mudança no vento’ que vem dos Brics e diz que as compras de Índia e China vão puxar Brasil e Rússia


PRONTO?


A edição da ‘Economist’ nas bancas escreve da ‘Economia do Brasil em recuperação’, apostando que está ‘Pronto para rodar novamente’ e que, ‘Entre os últimos a cair em recessão, pode estar entre os primeiros a sair’.


Ouve Armínio Fraga e Maílson da Nóbrega saudarem a recuperação. E sublinha que ‘a frase feita de Lula que mais irrita seus oponentes’, em inglês, ‘Never before in the country’s history’, nunca antes na história do país, ‘está muitas vezes certa’. Agora é o juro, ‘pela primeira vez em um dígito desde os anos 60’.


SOLTAR O FREIO


O site financeiro Seeking Alpha postou ‘Brasil: hora de soltar o freio do crescimento’, em que elogia a decisão de cortar em um ponto a taxa de juros, mas defende que o Banco Central ‘deve ir além, reduzindo até 6,5%’. Fala em ‘oportunidade histórica’, com a inflação permitindo priorizar o crescimento, mas ‘preservando os benefícios da estabilização’.


DIVIDIR E APLICAR


Do evento da organização Americas Society/Council of the Americas em São Paulo, no final da semana, o ‘Wall Street Journal’ destacou que ‘Crise mostra força do Brasil como investimento’.


Por outro lado, o site da mesma AS-COA sublinhou divergências entre os Brics, para a cúpula, e que ‘a China ainda apoia o dólar como a moeda dominante’.


O FENÔMENO


Mohamed El-Erian, do maior fundo de ações do mundo, sobre os Brics, à Bloomberg: ‘O reequilíbrio de poder econômico não só está vivo como ganha ritmo. Os investidores devem se certificar de não serem reféns da visão datada que impede se exporem mais ao fenômeno’


PETROBRAS E OS TEMORES


A ‘Newsweek’ entrevistou José Sérgio Gabrielli, o presidente da Petrobras, sob o título ‘Brasil se volta ao Oriente’. Em suma, a revista destaca que ‘os temores americanos de crescente influência chinesa se ampliaram nesta primavera em que Pequim volta os olhos para as Américas’ e, com Brasília, ‘começa a falar sobre o fim do dólar como moeda de reserva’.


A entrevista se concentrou no contrato da Petrobras com o Banco de Desenvolvimento da China, para explorar o pré-sal. Nada da CPI.


ÓDIO


Começou com o homicídio do médico que fazia aborto -e era chamado de assassino por Bill O’Reilly, da Fox News. E passou dos limites com o ataque de um extremista ao Museu do Holocausto, em Washington, que matou um segurança negro.


Também da Fox News, Shepard Smith (acima) perdeu a paciência e criticou, enfim, o discurso de ‘ódio’ de seus próprios telespectadores, que recebe por e-mail e estaria cruzando o limite para a ação.


No ‘New York Times’, Paul Krugman e Frank Rich partiram para a reação contra o radicalismo não só da TV de Rupert Murdoch, mas do radialista Rush Limbaugh e de toda a mídia republicana.’


 


MÍDIA & JUSTIÇA


Alan Gripp


‘Não queiram amordaçar o Ministério Público’


‘A PÓS QUATRO anos como procurador-geral da República, Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, 60, concede sua entrevista de despedida do cargo. Discreto, sobe o tom apenas quando o tema é o projeto de lei do deputado Paulo Maluf (PP-SP) que prevê punição para procuradores que propuserem ações motivadas por ‘questões políticas’: ‘Não queiram amordaçar o Ministério Público!’ Antonio Fernando instaurou 141 inquéritos, o triplo da média dos antecessores. No do mensalão, tornou réus 40 acusados de integrar um esquema de compra de apoio ao governo. ‘Ao menos parte do dinheiro é de natureza pública’, diz, pela primeira vez de forma assertiva.


FOLHA – O sr. deixa o cargo com mais amigos ou inimigos?


ANTONIO FERNANDO SOUZA – Amigos continuam os de sempre, e não considero que tenho inimigos. Mesmo as pessoas que, por dever de ofício, adotei alguma providência [contra]. Pode alguém me considerar inimigo, mas eu não me considero inimigo de ninguém.


FOLHA – Já sofreu pressão de autoridade investigada?


ANTONIO FERNANDO – Recebo todo mundo, converso, mas nunca ouvi pedido ou sugestão para favorecer alguém. Pelo contrário, já disse para várias pessoas que eu ia pedir [a abertura de] um inquérito judicial porque dúvidas precisavam ser esclarecidas. Meu estilo reservado talvez não dê margem para isso.


FOLHA – O sr. acredita que algum réu será condenado por envolvimento com o mensalão?


ANTONIO FERNANDO – A denúncia foi feita à luz de dados que indicavam elementos suficientes de autoria e materialidade. O Supremo [Tribunal Federal] corroborou essa compreensão em quase tudo. A expectativa é a de que, ao final, o Supremo faça um julgamento justo. Não posso antecipar, mas em alguns casos os elementos probatórios eram muito robustos.


FOLHA – Há 600 testemunhas só de defesa. Não há o risco de crimes prescreverem?


ANTONIO FERNANDO – Não há nenhuma possibilidade. A ação penal está indo num ritmo surpreendente, graças ao ministro Joaquim [Barbosa, relator do processo], que tem pedido aos juízes designados que façam a coleta de depoimentos com brevidade.


FOLHA – Por prescrição, então, ninguém será absolvido?


ANTONIO FERNANDO – Não há essa possibilidade.


FOLHA – O sr. sofreu críticas por ter usado termos como ‘organização criminosa’ e ‘quadrilha’. Está convencido da compra premeditada de apoio político?


ANTONIO FERNANDO – Existem expressões técnicas que ganham externamente conteúdo mais forte. Por exemplo, quadrilha. É um tipo descrito no Código Penal. Não teve nenhum outro conteúdo. Até porque todas as minhas manifestações são desprovidas de adjetivo. Mas a imputação [desses crimes aos réus] foi feita com convencimento.


FOLHA – Então, há indícios claros de compra de apoio?


ANTONIO FERNANDO – Suficientes. E o Supremo num juízo preliminar entendeu que os elementos eram suficientes.


FOLHA – Afinal, houve dinheiro público no mensalão?


ANTONIO FERNANDO – Sim. A imputação é a de que ao menos parte do dinheiro é de natureza pública.


FOLHA – O sr. já declarou não ter visto indícios da participação do presidente Lula. Acha que ele sabia?


ANTONIO FERNANDO – Não há, pelo menos no juízo que eu fiz, elementos indiciários capazes de comprometer a participação dele naqueles episódios. Agora, o que eu acho pessoalmente é irrelevante.


FOLHA – Surpreendeu-se ao ser reconduzido pelo presidente Lula ao cargo em 2007 [o Ministério Público Federal faz uma eleição interna, que pode ou não ser seguida pelo presidente]?


ANTONIO FERNANDO – Não me surpreendi. Mas revelou uma grandeza. [Ele] não misturou sentimentos que possa ter de natureza partidária com o comportamento de uma autoridade que tem a missão de tomar uma providência. Não se pode viver na gestão da coisa pública de vinganças.


FOLHA – O que o sr. pensa sobre a hipótese de terceiro mandato para presidente?


ANTONIO FERNANDO – Com a visão de eleitor, eu preferia que não houvesse nem a reeleição. A minha posição é que nesse cargo os mandatos deveriam ser republicanamente alternados a cada período.


FOLHA – Fugindo ao seu estilo, o sr. comprou uma briga pública com o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, quando ele criticou a falta de ação do Ministério Público no combate a ações ilegais dos sem-terra. Acha que ele foi desleal?


ANTONIO FERNANDO – Eu tenho como método só me manifestar sobre o que eu tenho conhecimento. Quando se exerce cargo público dessa responsabilidade, devemos agir com o máximo de cuidado. O Ministério Público é acusado de viver divulgando fatos. Nesse caso, o Ministério Público atuou sem divulgação. E isso surpreende as pessoas às vezes. Faltou informação suficiente [a Gilmar Mendes].


FOLHA – O presidente do Poder Judiciário pode estar tão presente na mídia?


ANTONIO FERNANDO – Cada um tem o juízo de como deve se conduzir num cargo público. No meu caso, as minhas aparições têm que ser em momentos muito seguros. Por isso me preservei nesses quatro anos.


FOLHA – O Supremo é capaz de conduzir investigações criminais? O foro privilegiado protege autoridades?


ANTONIO FERNANDO – Algumas investigações são mais complexas e outras, menos. Não se pode fazer uma relação necessária do foro com uma inviabilidade da investigação ou de uma ação penal. No caso da ação decorrente do inquérito 2.245 [do mensalão], há muitos réus, muita prova a ser colhida e, mesmo assim, está tendo um curso razoável.


FOLHA – O Ministério Público corre o risco de ter seu poder de investigação limitado?


ANTONIO FERNANDO – Nesse momento, há uma preocupação muito grande em se atribuir todas as dificuldades ao Ministério Público. Talvez, se as pessoas tivessem a noção exata do que cabe a cada um fazer, chegariam à conclusão de que o Ministério Público cumpre o que manda a Constituição.


FOLHA – O sr. está se referindo à chamada Lei da Mordaça?


ANTONIO FERNANDO – Sim. Temos em torno de 20 mil membros do Ministério Público no Brasil. Apontam-se os mesmos cinco, dez casos em que teria havido exagero. Será que é razoável criar um obstáculo ao trabalho da instituição por isso? Esse projeto é um desserviço à sociedade. Há mecanismos para responsabilizar quem exerce mal a sua atribuição. O que se quer é criar um impedimento à instituição.


FOLHA – Em sua opinião, o Ministério Público deve fazer grampo?


ANTONIO FERNANDO – É um instrumento que deve ser usado com muita parcimônia. É fundamental, mas tudo o que se obtém em interceptações deve ser concretizado ou em documentos ou em documentação de encontros, entre outros mecanismos. O Ministério Público não tem nenhum aparelho de escuta, é bom que fique bem claro. Um procurador ficar executando uma escuta me parece desproporcional.


FOLHA – O expediente do sigilo de Justiça é exagerado no Brasil?


ANTONIO FERNANDO – Acho que sim. Quando se tem elementos que sugerem que o sigilo está sendo usado para esconder um delito, não pode haver essa dificuldade tão grande que se tem para se obter resultado [em uma investigação].


FOLHA – Que efeito educativo pode ter essa série de cassação de governadores?


ANTONIO FERNANDO – A pessoa vai pensar duas vezes. Quem quer se desviar tem que estar ciente de um risco efetivo de sofrer a punição.


FOLHA – E por que no Congresso os escândalos não param?


ANTONIO FERNANDO – Há também o amadurecimento da sociedade. A partir de 1988 há uma liberdade absoluta de imprensa e há uma circulação mais rápida de notícias e de dados. Há uma série de circunstâncias que militam para que essas informações apareçam.


FOLHA – O sr. então vê esse processo com otimismo?


ANTONIO FERNANDO – Sim. As instituições e o Estado devem funcionar bem. Por isso eu insisto tanto: não queiram amordaçar o Ministério Público! Essa é uma instituição para preservar exatamente a lisura na atividade estatal.


FOLHA – Acha que programas como o Bolsa Família são usados como moeda eleitoral?


ANTONIO FERNANDO – A história do administrador vai ficar marcada pelo que ele faz. Pode ter potencial [eleitoral]? Pode. Mas pode ter potencial negativo. O administrador público não pode ficar tolhido em implantar programas porque isso pode ser visto como um programa com conteúdo eleitoral.


FOLHA – Preocupa o fato de a campanha de 2010 já estar nas ruas?


ANTONIO FERNANDO – Quem tem a idade que eu tenho verifica que termina uma eleição e todos já começam a se articular para uma nova.


Aí fica a grande disputa: fulano está fazendo campanha, beltrano está fazendo campanha. Mas na mídia a gente vê todos aqueles que querem ser candidatos a alguma coisa presentes. Não me parece que tenha alguém ausente (risos).


FOLHA – O que fará após deixar o cargo?


ANTONIO FERNANDO – Eu vou tirar 40 dias de férias (risos).


FOLHA – E depois?


ANTONIO FERNANDO – Vou decidir nesses 40 dias.’


 


QUADRINHOS


Pedro Cirne


HQ mostra ‘submundo poderoso’ de Copacabana


‘Há aquilo que está no cartão-postal: uma praia maravilhosa frequentada por pessoas lindas. Uma espécie de paraíso no litoral do Rio de Janeiro. Mas há, também, o que não está tão à vista assim: a violência, a prostituição, o lado que fica de fora quando o assunto é turismo. E é este o aspecto abordado pelo roteirista S. Lobo e o desenhista Odyr na HQ ‘Copacabana’, que será lançada nesta quarta-feira em São Paulo. ‘Copacabana é uma praia esquizofrênica. Tem uma beleza bucólica, com uma vista maravilhosa, mas também um submundo poderoso, com a indústria do sexo funcionando à toda’, diz o escritor da HQ, S. Lobo. ‘É meio dr. Jekyll e sr. Hyde. E esses dois lados se cruzam com muita naturalidade.’ O livro aborda um momento complicado na vida de Diana, uma prostituta que, endividada, acaba metida em uma situação que envolve assassinato, roubo e perseguição. Ao redor de Diana estão prostitutas, gigolôs e outros frequentadores da noite carioca. ‘Fiz uma coleta muito extensa e pouco objetiva. Não fiz entrevista: fui conhecendo as pessoas’, conta Lobo. ‘Você senta em um bar ali na praia e alguém vem te abordar: garçom, prostituta, vendedor. Aí é só começar a ouvir as histórias, até ver quando elas estão acontecendo ou mesmo fazer parte delas.’ Lobo, que começou a trabalhar com quadrinhos editando a revista independente ‘Mosh!’, conta que queria escrever roteiros de HQs, mas que não sabia exatamente o que narrar. O que lhe direcionou foram as caminhadas que fazia pelo Rio de Janeiro -embora gaúcho de Porto Alegre e já tendo morado em Santa Catarina e São Paulo, é em Copacabana que mais se sente em casa. ‘Meu objetivo era mostrar a vida dessa gente que pouco vemos e que tratamos com preconceito. E essas pessoas que vivem à noite são como nós: estão aí batalhando pela sobrevivência’, diz o roteirista. ‘As histórias dos ricos podem ser interessantes, mas são as das pessoas do submundo que me interessam mais’. Por retratar uma parte da indústria do sexo, o livro não se furta a mostrar o ato. ‘Eu não quis fazer um livro sobre sexo em que ele fosse sugerido. Ele tem que estar lá, à medida em que é necessário’, diz Lobo. ‘Tento trazer a crueza que o sexo tem na vida real. Ele não é glamouroso.’


COPACABANA Autor: S. Lobo e Odyr Editora: Desiderata Quanto: R$ 39,90 (208 páginas) Onde: lançamento nesta quarta, às 19h, na loja Cachalote (av. Ministro Ferreira Alves, 48, São Paulo, tel. 0/xx/11 3676-0796; grátis)’


 


INTERNET


Hilary Howard


Sites conectam mulheres que viajam sozinhas


‘Para a inglesa Carolyn Pearson, a decisão de lançar um site de relacionamentos para executivas que viajam resultou da necessidade de ter segurança e do desejo de aliviar o tédio e a solidão da estrada.


‘Em Los Angeles, numa viagem de negócios, eu queria ir à praia Venice mas pensava se seria seguro’, lembra ela. Se ao menos ela conhecesse outras mulheres na região com quem pudesse explorar a cidade, teria se sentido mais confortável em sair do seu quarto de hotel, conta.


Ela também notou que as mulheres que se aventuravam sozinhas em lugares públicos pareciam muito cientes da atenção que despertavam. ‘Quando você está sozinha num restaurante, está obrigada a ler um livro ou revista para que pareça ocupada fazendo alguma coisa’, disse ela.


Há alguns meses, ela lançou o ‘Maiden Voyage’ (www.maiden-voyage.com), uma rede para mulheres interessadas, por exemplo, em dicas de hotéis especialmente receptivos a mulheres, ou em companhia para jantar em cidades distantes.


O serviço é gratuito, e as participantes são orientadas a divulgar seus destinos e datas de viagem, para que outras possam estabelecer contatos seguros e privados. Pearson avalia cada nova usuária com uma busca na internet e um telefonema. ‘Até agora, não tive nenhuma senhora de voz grave, então nisso não tive problemas’, disse.


O setor turístico tem dedicado mais atenção às mulheres, criando espaços especiais para elas e promoções para amigas que viajam juntas. E, com a contínua ascensão dos sites de relacionamento social, não tardaram a aparecer aqueles dedicados a mulheres que viajam a negócios.


Helen Eccles, recrutadora de executivos de Manchester, no Reino Unido, disse que aderiu ao ‘Maiden Voyage’ principalmente por causa da sua rotina em hotéis. ‘A pior situação é quando você está num hotel, desce para o café da manhã, é a única mulher e sente que todos os olhares estão sobre você’, afirmou.


A hesitação em estabelecer contatos com homens desconhecidos foi em parte o que levou Kerstin Höghielm, diretora-executiva da empresa digital suíça BPeople Coaching Community, a lançar um ‘lounge para executivas’ dentro do site de relacionamentos ‘SkyLounge.com’, voltado para homens e mulheres que viajam a negócios.


‘Se você [como mulher] liga do nada para uma mulher, dá para sair para jantar com ela, mas se você liga para um homem há histórias demais de assédio sexual’, disse ela. ‘A despeito do que as pessoas dizem, esses são os fatos. Há um risco envolvido no ‘networking’ com homens.’


Höghielm acha que as mulheres, que ‘não estão tão acostumadas ao ‘networking’ como os homens’, não deveriam evitar encontros com os demais, e deveriam praticar entre si o que ela julga ser uma habilidade relativamente nova para elas.


Rhonda Reece, que vive em Nashville, EUA, e integra o ‘lounge das executivas’, aprovou o aspecto exclusivamente feminino do serviço, já que trabalha num campo dominado por homens, o desenvolvimento de tecnologia.


‘É sempre ótimo encontrar outra desenvolvedora’, disse ela, que conheceu uma executiva britânica que sempre visitava Nashville a trabalho. ‘Dei a ela ótimas dicas de restaurantes locais, algumas verdadeiras joias.’


Em 2004, Ray Lehky lançou o ‘LadiesAway.com’, após saber que uma colega de trabalho se escondia nos quartos de hotel durante viagens. ‘Pensei que deveria haver um monte de mulheres na mesma situação’, afirmou ele.


A química Tanja Lindermeier estava na mesma situação em 2005, quando lançou o ‘Global Dinner Network’ (global-dinner-network.com), com sede em Gütersloh, Alemanha. Em suas constantes viagens, contou ela, odiava ‘tomar um táxi para explorar sozinha os bulevares de Paris’.


O site hoje tem 2.000 usuárias registradas, de 44 países, e ela diz atrair principalmente ‘mulheres cosmopolitas que são curiosas, autoconfiantes e que desejam aprender’. Quando Lindermeier soube que seria transferida para Nova Jersey, em 2007, usou sua própria rede para encontrar outras alemãs na região de Nova York.


Acabou indo tomar um brunch em Manhattan com a gerente de produtos Gudrun Fischer. ‘Ela foi a primeira pessoa que eu conheci aqui’, disse Lindermeier.


As duas são amigas desde então.’


 


 


Joe Sharkey


Entretenimento a bordo alavanca serviços wi-fi


‘Até o final deste ano, cerca de mil aviões que cobrem rotas dentro dos EUA terão serviço de internet sem fio a bordo, segundo a Aircell, empresa que fez quase todas as instalações de wi-fi até agora. Até o final do ano que vem, 2.000 aviões terão o serviço, diz a Aircell. Isso significa quase dois terços da frota doméstica dos EUA continentais, excluindo os jatos regionais. A aviação internacional está demorando mais a aderir.


O que significa que o wi-fi está claramente virando um novo padrão, embora não haja prova cabal de que grande parcela dos consumidores esteja disposta a pagar até US$ 12,95 pela conexão por voo.


Então como as empresas fazem para que isso funcione como uma proposta empresarial de longo prazo?


Neste estágio inicial, a meta é apenas incentivar mais viajantes executivos a usarem o wi-fi. A Delta Airlines, que promete ter mais de 300 aviões adaptados ao serviço Gogo da Aircell até setembro, pretende oferecer descontos.


‘Neste verão [americano] vamos lançar um conceito de preços no qual você pode comprar uma adesão mensal, com um esquema de preços feito para viajantes frequentes’, disse Ranjan Goswami, diretor de experiência do cliente da Delta.


Goswami não disse quanto custará o passe mensal. A Delta atualmente cobra US$ 12,95 pelo wi-fi em voos com mais de três horas; US$ 9,95 por voos com menos de três horas; e US$ 7,95 por equipamentos ‘hand held’ em qualquer duração de voo.


O wi-fi de bordo atualmente oferece internet e e-mail. Mas as empresas aéreas buscam um possível novo mercado: usar essa conexão para incrementar o entretenimento.


O sistema da Aircell custa cerca de US$ 100 mil por avião e acrescenta apenas cerca de 136 kg a cada aeronave. Os sistemas de vídeo digital nas costas das poltronas são muito mais caros e pesados. Como há cada vez mais pessoas com notebooks e smartphones, as empresas talvez pudessem evitar o custo da instalação dos vídeos nas poltronas.


O sistema de wi-fi da Aircell usa um servidor de grande capacidade, ‘então não se surpreenda no futuro em ver cada vez mais conteúdo sendo agregado’, disse o executivo-chefe Jack Blumenstein. Isso significa filmes e outras formas de entretenimento que podem ser ‘embalados’ em terra e colocados no avião para exibição nos dispositivos eletrônicos dos passageiros, explicou ele. A Aircell planeja também se expandir para o Canadá.


Outra empresa, a Row 44, oferece um serviço por satélite, que está sendo testado pela Southwest Airlines. A Norwegian Air Shuttle anunciou em abril a intenção de equipar toda a sua frota com esse sistema.


As companhias aéreas que desejem competir no quesito entretenimento provavelmente terão de considerar uma combinação de telas nas poltronas com wi-fi, disse David Cush, executivo-chefe da Virgin America, que recentemente instalou sistemas wi-fi em 26 dos seus aviões A320 e A319.


A maioria das empresas que têm wi-fi não revela quantos passageiros adquirem o serviço. Cush disse que 20% a 25% dos seus passageiros o usam na rota San Francisco-Boston, muito procurada por executivos, e que ao todo a média é de 12% a 15%.


‘O próximo passo será integrar o wi-fi no nosso sistema das costas das poltronas’, disse. ‘No futuro, os dispositivos que a maioria das pessoas traz para os aviões não serão telas com tamanho integral, serão BlackBerrrys e iPhones’, opinou Cush. A empresa planeja integrar o wi-fi às suas telas de nove polegadas. ‘O esporte é uma das atrações mais populares na TV por satélite’, disse ele. ‘Você já tentou assistir a um jogo de basquete numa tela do tamanho de um caixa de fósforos?’’


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O Estado de S. Paulo


Segunda-feira, 1° de junho de 2009


MÍDIA & POLÍTICA


Carlos Alberto Di Franco


Liberdade de imprensa constrangida


‘A Petrobrás, uma empresa de referência, está sob fogo cruzado. Noticiário de supostos desvios de verbas em contratos superfaturados e de generosa transferência de recursos às ONGs ligadas ao petismo rendeu chamadas de capa e deu manchetes de jornal. Nada de mais. Trata-se de fato comum em qualquer democracia. E ninguém rasga as vestes. Compete à imprensa investigar eventuais irregularidades e iluminá-las com os holofotes da informação. E cabe à empresa, em respeito aos seus acionistas e à sociedade, prestar os esclarecimentos oportunos. Sempre foi assim. E sempre será. O relacionamento entre mídia e poder implica um certo grau de tensão. Felizmente. O próprio presidente da República, embora manifeste algum desconforto pontual com o trabalho da imprensa, jamais questionou a importância do jornalismo e de seu papel investigativo.


Por isso, surpreende, e muito, recente inovação da Petrobrás na sua interface com os meios de comunicação. A estatal, rompendo o clássico protocolo de relacionamento com a mídia, inaugurou um blog para apresentar ‘fatos e dados recentes da Petrobrás e o posicionamento da empresa sobre questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)’. No ar desde o último dia 2, o blog vem sendo alimentado diariamente com reportagens jornalísticas sobre a companhia e as respostas enviadas pela empresa aos veículos de comunicação.


A iniciativa provocou polêmica após divulgação, antes da publicação da reportagem, das perguntas feitas pelos repórteres. Rompeu, portanto, o sigilo que precisa existir no relacionamento entre a imprensa e a fonte prestadora das informações. No blog, a Petrobrás diz que a divulgação antecipada das perguntas tem como objetivo ‘dar transparência aos processos e não prejudicar o levantamento de fatos e dados de jornalistas’.


A empresa, numa revisão sensata, acaba de recuar. A decisão foi anunciada na última quarta-feira no seu próprio blog, em nota que afirma que as respostas só serão publicadas ‘por volta da 0h00 do dia da publicação da matéria’. A mudança, no entanto, não alterou curiosos silêncios informativos. Uma semana após questionamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo a respeito do valor do contrato com a consultoria de comunicação Companhia de Notícias (CDN) – convocada em esquema emergencial para apoiar a estatal durante a CPI -, a Petrobrás ainda não havia divulgado a informação. A empresa chegou a informar no blog que a resposta já teria sido publicada, mas o texto não estava disponível até o momento do encerramento deste comentário. Um texto sobre o tema, sem o valor do contrato, chegou a ser publicado, mas foi retirado minutos depois. A empresa disse apenas que o contrato tem validade de três meses e que se deu de acordo com o Decreto 2.745/1998, que criou o procedimento licitatório simplificado.


Para cuidar da sua imagem institucional a estatal montou uma gigantesca equipe de mais de 1.150 profissionais de comunicação, a qual supera em muito cada uma das redações dos maiores jornais do País. Certamente você, caro leitor, deve estar buscando as razões de tal montagem midiática. Não é bom sinal. Independentemente da idoneidade dos profissionais da Petrobrás, que não questiono, não é razoável tamanho aparato para quem quer apenas transmitir informações verdadeiras e qualificadas.


A Associação Nacional de Jornais (ANJ) condenou a decisão da Petrobrás de veicular em seu blog, antecipando-se à publicação das reportagens, matérias exclusivas dos veículos. A entidade manifestou seu repúdio ao que considerou ‘atitude antiética e esquiva’, ‘canhestra tentativa de intimidar jornais e jornalistas’, além de ‘inaceitável quebra de confidencialidade’.


‘Como se não bastasse essa prática contrária aos princípios universais de liberdade de imprensa, os e-mails de resposta da assessoria incluem ameaças de processo no caso de suas informações não receberem um ?tratamento adequado?’, disse o comunicado da ANJ.


O comportamento da Petrobrás atropelou o trabalho da imprensa. Não me lembro de um relacionamento com instituição pública que tenha terminado dessa maneira. Não é bom para a instituição, nem para a mídia, nem para os leitores, que devem ter a informação editada pela imprensa com independência e liberdade. Foi, sem dúvida, uma tentativa de inibir o trabalho dos meios de comunicação.


Repórteres sérios, editores competentes e formadores de opinião éticos não são manobráveis. Não são bibelôs de empresas ou de governos. Estão, não obstante suas limitações pessoais, comprometidos com a informação, com a verdade factual e com os seus leitores. Na lógica das estratégias autoritárias, jornalistas precisam ser domesticados.


A imprensa, por óbvio, não existe para agradar. E isso é bom para a própria Petrobrás. A cobrança dos jornais é benéfica para quem quer transparência real, e não apenas aparente. A imprensa brasileira, sem as mordaças que alguns teimam em recriar, tem papel decisivo no processo de purificação das nossas práticas políticas e administrativas.


A mídia não é antinada e não está a serviço de partidos ou movimentos ideológicos. Nosso compromisso é com a verdade e com os leitores. A transparência informativa é elemento essencial para a renovação do Brasil. A Petrobrás, um símbolo do Brasil desenvolvido, teve o mérito de reavaliar sua precipitada iniciativa. Não seria bom para o Brasil. Não seria bom para a Petrobrás. Não seria bom para a imprensa. Não seria bom para a liberdade.


Carlos Alberto Di Franco, doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, professor de Ética, é diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br) e da Di Franco – Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com)’


 


 


MÍDIA & JUSTIÇA


Fausto Macedo


Promotores se mobilizam contra ‘Lei da Mordaça’


‘A Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp) vai deflagrar nesta quarta-feira uma campanha nacional contra o projeto de lei nº 265/07, de autoria do deputado Paulo Maluf (PP-SP), que estabelece a condenação de autores de ações públicas e ações populares quando o juiz da causa concluir que houve ‘má fé’, perseguição política ou intenção de promoção pessoal do promotor de Justiça ou procurador da República.


Nesses casos a associação ou integrante da promotoria responsável pela ação deverá pagar multa equivalente a dez vezes o valor das custas processuais mais os honorários advocatícios.


Os promotores chamam o projeto de ‘Lei da Mordaça’. Eles vão entregar manifesto ao deputado Michel Temer (PMDB-SP), presidente da Câmara, e às lideranças de todos os partidos. ‘O deputado Maluf está usando o mandato dele para retaliar o Ministério Público’, afirma José Carlos Cosenzo, presidente da Conamp, referindo-se a acusações de âmbito criminal e civil que pesam contra o ex-prefeito de São Paulo.


Para Cosenzo, ‘essa retaliação não atinge só o Ministério Público, mas principalmente a sociedade, porque o objetivo do projeto é ameaçar aquele que busca acabar com a impunidade e a improbidade administrativa.’


O presidente da Conamp sustenta que ‘querem inibir o Ministério Público, as associações e a sociedade civil de entrar com ações’. Ele avalia que a proposta é uma tentativa de impedir o Ministério Público de atuar contra os agentes públicos acusados de corrupção.


Segundo a entidade que abriga promotores e procuradores do Ministério Público nos Estados e do Ministério Público Federal, no último dia 2, Maluf conseguiu assinaturas de líderes partidários para um requerimento de regime de urgência para a votação do projeto.


Quando apresentou o projeto, em 2007, Maluf apontou supostos abusos de procuradores. Ele citou o caso dos fuscas que em 1970 deu de presente para os jogadores da seleção tricampeã mundial de futebol e, por isso, sofreu investigação por mais de três décadas. Maluf diz que há uso indiscriminado de ações – ‘acusações que geram situações vexatórias’, segundo ele. Ontem, Maluf não retornou ligação do Estado.


A estratégia da Conamp é mobilizar entidades do Ministério Público, magistratura e advocacia para apoio à luta contra a aprovação do projeto. Entre as entidades convidadas estão a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), a Ordem dos Advogados do Brasil e Associação dos Magistrados Brasileiros.’


 


 


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Marili Ribeiro


Rapidez nas ações vira arma na crise


‘Uma das grandes regras do marketing é que a melhor forma de enfrentar uma crise é investir em propaganda para conquistar mercado da concorrência. Os executivos da montadora Ford, Antonio Baltar Junior, gerente-geral de Marketing, e Ivan Nakano, gerente de Varejo, acrescentariam a essa máxima a frase: ‘obtém melhor resultado quem for rápido – bem rápido – nas decisões’.


Os dois atribuem a conquista de mercado da empresa este ano – um ganho de 1,5 ponto porcentual – à velocidade com que a Ford agiu tão logo o governo anunciou a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a compra de automóveis.


‘O anúncio foi numa quinta-feira à noite e, no sábado, a nova campanha, com os preços reduzidos, estava no ar em televisão, rádio e jornais’, diz Baltar. ‘Foi uma maratona alinhar com os 400 revendedores da marca o repasse integral do IPI. Não poderia ser 6% ou 5%, mas os 7% anunciados’, acrescenta Nakano. A Ford, que detinha 9,3% do mercado entre janeiro e maio de 2008, passou a 10,9% no mesmo período de 2009.


A participação de mercado da líder Fiat caiu de 25%, nos cinco primeiros meses de 2008, para 24,6% no mesmo período deste ano. A direção da montadora concorda que a rapidez na comunicação é relevante, mas ressalta que ela sozinha não garante sucesso. É preciso ter produto para pronta entrega, em particular diante da agressividade do mercado.


‘Nós havíamos desmobilizado a linha de produção e faltaram carros para entregar em janeiro e fevereiro’, reconhece o diretor comercial da companhia, Lélio Ramos. Diante dessa situação, ele lembra que a propaganda da empresa só pode se intensificar quando houver regularização na produção.


O diretor da Fiat garante, porém, que a agilidade na veiculação de mensagem publicitária, que comunicava, num primeiro momento, o repasse do IPI ao preço final do veículo para o consumidor, foi praticamente a mesma entre as grandes companhias. ‘Ninguém saiu na frente’, reforça. Avaliação com a qual concorda Flávio Padovan, vice-presidente de Vendas e Marketing da Volkswagen. ‘Em quatro dias, nossa comunicação estava no ar.’


No dia em que o governo anunciou a redução do IPI, as três empresas – Ford, Fiat e Volks – tentaram entrar com um anúncio padrão, no intervalo comercial do Jornal Nacional, na Rede Globo, avisando sobre o repasse do desconto do IPI em seus produtos. Mas não foi possível contratar o espaço comercial na emissora.


Outra dificuldade foi montar um time para faturar novamente todos os carros que já estavam faturados nas concessionárias. Caso contrário, eles não poderiam absorver os descontos. A Fiat, por exemplo, teve de mobilizar mais de 30 funcionários exclusivamente para a tarefa.


‘Há um conjunto de outras coisas que precisam ser trabalhadas para garantir consistência nos ganhos de participação de mercado. Senão, o que se ganha acaba se perdendo’, diz Padovan, da Volks. Para o executivo, uma marca se constrói com a oferta de produtos de qualidade. ‘Nosso crescimento não vem se dando somente em cima de preços’, diz. ‘Fizemos lançamentos bem-sucedidos , como o do novo Gol.’


A Volks, assim como a Ford, ganhou participação de mercado. Nos cinco primeiros meses do ano atingiu 23,5% do total das vendas, ante 21,9% no mesmo período do ano passado. Das quatro grandes, a que mais perdeu mercado foi a GM – caiu de 21,5% no ano passado para 19,9% de janeiro a maio. A situação da matriz nos EUA, em concordata, pode ter afetado suas vendas, na avaliação da concorrência.


A possibilidade de a redução do IPI para a venda de veículos ser prorrogada – ela vence em 30 de junho -, mesmo com um desconto menor, como vem sendo estudado pelo governo, deve manter acirrada a disputa das montadoras. Mas uma coisa é certa: todas têm se esmerado em encomendar campanhas mais atraentes e criativas. Acabou o tempo dos anúncios com destaque apenas para as ofertas de preços.’


 


IRÃ


Lourival Sant’Anna


Jornais iranianos omitem protestos e confrontos


‘TEERÃ – Os jornais de oposição desapareceram das bancas. As impressionantes imagens dos confrontos entre os manifestantes e a polícia nas ruas de Teerã, que correram o mundo, não estão nos jornais iranianos, sejam do governo ou considerados ‘independentes’. Eles preferiram dar destaque ao comunicado do líder espiritual do Irã, Ali Khamenei, recomendando aos iranianos que aceitassem o resultado da eleição.


‘Líder Khamenei: ?Jovens têm de tomar cuidado?’, diz a manchete de ontem do jornal independente Farheektegan. O jornal destaca o argumento do líder, de que mais de 80% dos eleitores compareceram (foram 85%, segundo a Comissão Eleitoral) e mais de 24 milhões votaram em Ahmadinejad. ‘É uma festa que causará desenvolvimento, glória e alegria ao país’, diz o líder.


Ao lado da manchete, há uma declaração do ministro do Interior, Sadeq Mahsouli, advertindo que ‘impedirá todas as aglomerações ilegais e protestos’.


O jornal Etelad, considerado independente, também destaca em sua manchete uma frase de Khamenei: ‘Mensagem do líder: ?Sexta-feira foi um dia inesquecível para o povo.?’


O jornal Irã, do governo, foi mais factual: ‘10ª eleição com 24,5 milhões de votos para Ahmadinejad.’ Há uma nota sobre as manifestações de sábado: ‘Partidários de Mir Hossein Mousavi protestaram contra o resultado. Mas o governo disse que não tem como cometer fraudes, porque o Conselho de Guardiães vigia o sistema eleitoral.’


Os sites que veicularam durante a campanha mensagens oposicionistas estão fora do ar desde sexta-feira. O sistema de mensagens pelo celular, muito usado pela campanha de Mousavi, foi bloqueado. Mas os usuários encontraram uma forma de burlar o bloqueio. No Irã, as mensagens para o exterior são mandadas para uma central diferente das nacionais. E as mensagens internacionais estão funcionando. O truque é mandar a mensagem para a central exterior, mas com o código do Irã e o número do telefone do destinatário.


Normalmente, o governo iraniano concede aos jornalistas estrangeiros vistos por períodos curtos, mas os estende. Dessa vez, foi diferente. Os jornalistas tiveram negados os seus pedidos de extensão de permanência no Irã.


Dois jornalistas da televisão pública holandesa foram detidos ontem, tiveram seu material audiovisual confiscado e foram expulsos do Irã.’


 


 


TELEVISÃO


Cristina Padiglione


Bolívia entra em foco


‘A vizinhança latina, quase sempre preterida nos cenários internacionais almejados pelas novelas da Globo, estará representada pela Bolívia, na região do Lago Titicaca, em Pelo Avesso, próxima novela das 6. O embarque será entre os dias 24 e 27 deste mês, quando começam as gravações do folhetim, previsto para estrear em 7 de setembro.


Outro item sempre ignorado em novela e que marca território na trama é a menção à própria TV (já reparou que não há quem veja menos TV no Brasil do que personagem de telenovela?) Pois isso não vale para o papel de Camila Pitanga: mãe de quatro filhos, ela é noveleira a ponto de batizar seus quatro filhos como Tarcísio, Glória, Francisco e Regina.


De Duca Rachid e Thelma Guedes, Pelo Avesso tem supervisão de João Emanuel Carneiro e direção de núcleo de Ricardo Waddington. Marcos Palmeira encabeça o elenco, como o sujeito que nasceu pobre, foi humilhado, jurou vingança e, bingo, ficou rico-muito-rico. Tem ainda Paola Oliveira, a vilã, Carmo Dalla Vechia, Marcello Novaes, Heloísa Perissé, Pedro Paulo Rangel, Daniel Boaventura, Ailton Graça, Paulo Goulart, Luiz Gustavo, Rosi Campos e Nívea Stelman.


Procura-se


Crédito presente na 2.ª temporada da minissérie Filhos do Carnaval, produção da O2 para a HBO, Thogun aparece aqui a serviço da Globo. Na imagem, ele é o traficante Dogão, procurado pela equipe do Coronel Caetano (Milton Gonçalves) no seriado força-tarefa.


A volta da madrasta


Karen (Viviane Pasmanter) volta no último episódio da 1.ª temporada de Tudo Novo de Novo (Globo), que vai ao ar no dia 3. A diretora Denise Saraceni e a roteirista Lícia Manzo negociam uma nova temporada do programa para o ano que vem.


Entre-linhas


Aclamada em Angola como grande ídolo, Xuxa Meneghel confirma sua primeira apresentação naquele país para 10 de outubro, com show na 2ª edição do Dia da Amizade Angola-Brasil, promovido pela Globo Internacional. A apresentação do evento caberá a Luciano Huck.


Mariana Kotscho acertou com a TV Brasil a realização de 52 episódios de Papo de Mãe, programa que promete abraçar questões de toda espécie relativas à maternidade, para todas as idades e faixas sociais.


Papo de Mãe terá foco especialmente voltado a serviços, a começar pela gravidez. A produção será da Rentalcam. Segundo a diretora de jornalismo da TV Brasil, Helena Chagas, estreia no segundo semestre.


O R-7, portal de notícias da Record, deverá iniciar suas operações – o que não significa ainda entrar no ar – no dia 29, quando a emissora inaugura a nova redação da casa, para a estreia de Ana Paula Padrão à frente do Jornal da Record.


Tânia Khalil é o alvo número 1 das ligações recebidas pela Central de Atendimento ao Telespectador (CAT), da Globo. O público quer tudo que vem de Duda, sua personagem em Caminho das Índias: batom, vestidos, esmalte e acessórios.


No ranking da CAT, Duda é seguida por Silvia (Débora Bloch) e Aída (Totia Meirelles). Maya (Juliana Paes), que tirou Raj (Rodrigo Lombardi) de Duda e é a protagonista da novela da Globo, vem em quarto lugar.’


 


 


JORNALISMO CULTURAL


Lúcia Guimarães


Turma de 2009


‘NOVA YORK – A temporada dos discursos de formatura está terminando e, este ano, a oratória pode ser examinada como o marco de geração.


Além dos 40 anos de Woodstock e da rebelião no bar nova-iorquino que ajudou a dar a luz ao movimento gay, 2009 traz os baby boomers confessando seus fracassos.


Muitos boomers saíram da universidade prometendo mudar o mundo. Um passar de olhos pelos discursos de 2009 sugere que certas formaturas deviam ser antecedidas por alertas para os depressivos.


Barack Obama na Universidade de Notre Dame: ‘Vocês vão entrar num período de grande incerteza. Vão ser convocados a ajudar a restaurar um mercado livre que seja justo para todos dispostos a trabalhar.’


Michelle Obama na Universidade da Califórnia, em Merced: ‘Pensem nos milhões de jovens em todo o mundo que nunca chegarão perto da posição em que vocês se encontram.’


Thomas Friedman, o pastor colunista, no Grinnell College, de Iowa, criticou: ‘A geração que saiu comendo tudo à sua volta como gafanhotos famintos.’ Thomas Friedman cobra US$ 75 mil para fazer palestra e recentemente teve que devolver a quantia para o falido governo da Califórnia, ao repetir uma palestra já feita. Devolveu ao sentir o bafo da direção do New York Times no seu cangote, quando a história foi revelada por um jornal de São Francisco.


O festival de autopiedade não cai bem com os estudantes. Eles vão pagar as contas da geração que vai viver mais 20, 30 anos.


O presidente do Banco Central americano, Ben Bernanke, no pódio da Escola de Direito do Boston College, enveredou pelo pop, inspirado por John Lennon: ‘A vida é o que acontece quando você está ocupado fazendo outros planos.’


Na simetria da troca de papéis, o cantor John Legend, de 30 anos, discursou na Universidade da Pensilvânia: ‘Gastamos trilhões resgatando bancos com lucros fantasmas que vendiam produtos cujo valor não tinha nenhuma base na realidade.’


A escritora e jornalista Barbara Ehrenreich, nascida durante a 2ª Guerra, optou por uma terceira via que, por falta de definição melhor, pode ser chamada de apocalíptica revigorante. Ehrenreich é autora de quase duas dezenas de livros, entre eles, Desemprego de Colarinho Branco e A Miséria Americana. Ela falou na Escola de Jornalismo da Universidade da Califórnia, no emblemático campus de Berkeley.


Começou dizendo que o diretor da escola havia lhe pedido alguma dose de otimismo. E foi direto ao assunto. ‘Vocês vão tentar construir uma carreira sobre o pior declínio econômico desde a Grande Depressão. E, ainda por cima, no que aparenta ser uma indústria moribunda. Vocês têm abundância de talentos, mas não está claro se alguém quer pagar por eles.’


Ehrenreich lembrou aos jornalistas aspirantes que não estão sozinhos. Sugeriu que se colocassem no lugar dos operários da indústria de automóveis, que têm talento e experiência, mas não empregos. ‘Quero ser a primeira a dizer a vocês’, continuou, ‘bem-vindos à classe trabalhadora americana.’ Ela avisou que eles não ficarão ricos e vão viver os mesmos problemas que terão de cobrir: a luta por seguro saúde, creches e moradia.


A autora lembrou a própria carreira e a ‘anomalia’ dos anos 90 nos Estados Unidos. Um editor da Esquire, ao fim de um almoço típico daquele período de excesso, concordou a contragosto com sua pauta sobre pobreza e advertiu: ‘Faça a sua coisa sobre a pobreza, mas faça ?pra cima?.’


Ehrenreich admitiu que foi bem paga para cobrir a pobreza, chegou a ganhar US$ 10 por palavra. Este ano, ao oferecer outra série sobre o mesmo assunto para um ‘grande jornal americano’, ela aceitou 25% do que ganhava escrevendo colunas para o mesmo jornal. E jogou água fria na plateia:


‘Nós não somos parte da elite. Nós pertencemos à classe trabalhadora, que é como os jornalistas se viram durante a maior parte da história americana – dando duro. Podemos ser mal pagos, podemos ser deslocados, demitidos sem justa causa – como qualquer outro metalúrgico.’


Ehrenreich chamou atenção para a diferença: metalúrgicos não podem construir um automóvel na garagem de casa. A recessão, argumentou, não precisa acabar com o jornalismo. ‘Não levem seus diplomas como um certificado que dá direito a privilégio. Considerem o canudo de papel uma licença para lutar. Nos anos 70, foi o jornalismo ‘gonzo’. Agora, é o jornalismo guerrilha e não vão nos deter.’


Não testemunhei o efeito da linguagem quase saudosista de Barbara Ehrenreich sobre os graduandos de uma geração notoriamente avessa a dramas sociais. Não espero me alimentar de hambúrgueres e evitar exames médicos porque o seguro saúde tornou-se uma miragem. Mas não acabo de me formar.


A jornalista oradora prestou um pequeno favor à sua plateia. Mais do que a expectativa de almoçar no restaurante junto ao banqueiro, é a ilusão do jornalista de pertencer à elite que ajudou o país a hibernar durante a formação da bolha financeira. E a citar fontes anônimas endossando a justificativa para a invasão do Iraque. Mais modéstia e menos promiscuidade, são sugestões úteis para quem se dispõe a insistir nessa profissão.’


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