Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > VENEZUELA

Governo busca mudanças na TV pública

Por Elaine Tavares em 17/06/2008 na edição 490

Em meio a tropeços do presidente Hugo Chávez, como foi o caso das declarações sobre as Farc, a Venezuela segue avançando na busca de transformações estruturais. Uma delas é no campo da comunicação. O ministro do Poder Popular para a Comunicação e Informação, Andrés Izarra, tem caminhado por todo o país anunciando a proposta de um Sistema Nacional de Meios, que dará uma nova ordem para a produção de conteúdos da televisão estatal venezuelana.

O projeto, que tem sido debatido em todos os pontos da Venezuela, tem como objetivo gerar, no âmbito dos meios públicos, um sistema que funcione de forma complementar e solidária. Segundo o jornalista Willian Castillo, vice-presidente de conteúdo da Venezuelana de Televisión, muitas vezes os perfis das emissoras se confundem, e de tal maneira, que elas esgotam os seus recursos sem que a população possa ter, realmente, um conteúdo diversificado. As exceções são a Telesur e a ANTV, que já nasceram com um perfil determinado.

É por isso que nasce a idéia de um Sistema Nacional de Meios que definirá os perfis de cada canal estatal para que a programação possa dar conta da universalidade de desejos e necessidades comunicacionais da população. Assim, os venezuelanos poderão ter a VTV como um canal informativo e de opinião, ou seja, o canal deixará de ser generalista. Já a programação de entretenimento que envolve musicais, esportes, filmes, telenovelas, será absorvida pela TVES. A Telesur segue com seu perfil de informação internacional e integracionista. A Vive TV ficará centrada no desenvolvimento de novas experiências e participação dentro do Poder Popular, da experiência comunitária. Com esta divisão, os venezuelanos poderão contar com uma programação aberta muito mais diversificada e com opções bem delimitadas.

Um organismo concentrador

Conforme explica Castillo, até agora todos os canais praticamente repetiam as mesmas informações, os mesmos noticiários e, muitas vezes, sem a devida qualidade. Além disso, era comum ver duas ou três equipes de TVs estatais fazendo a mesma cobertura. Com esta racionalização, a idéia é ter muito mais fatos sendo cobertos porque as equipes estarão mais bem divididas. ‘Faremos uma cobertura solidária e já realizamos esta experiência no caso da soltura dos reféns das Farc. A Telesur estava em um aeroporto, a VTV em outro e a Vive TV apoiava a transmissão com várias equipes que podiam estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Isso nos permitiu ter imagens da selva até o aeroporto de Santo Domingo, de Maiquetía, da chegada dos libertados a Miraflores e do hotel onde estavam os familiares. Foi possível fazer uma ampla cobertura desde os meios públicos numa grande tarefa de cooperação.’

Esta proposta não é unanimidade entre os venezuelanos e existem as críticas de que assim definidos os canais podem ter diminuída a participação noticiosa. Mas, para Castillo, o que vai acontecer é o contrário. A população terá muito mais qualidade na informação. Para garantir a qualidade técnica existe ainda a proposta de se criar uma Red TV, que será o organismo concentrador de todas as áreas de transmissão e transporte de sinal dos meios do Estado. ‘Isso significará melhorias para todas as emissoras. Assim, a VTV não precisará mais se preocupar se o sinal caiu, por exemplo. A Red TV será o organismo técnico encarregado de resolver este tipo de problema.’

Criatividade e cultura

O grupo que está à frente desta proposta acredita que, com o novo sistema, será rompido o paradigma do que comumente se conhece como televisão estatal. ‘Para nós é um rompimento porque a televisão estatal na Venezuela, ao contrário do que se vê na Europa, nasceu depois da TV privada. E qual é o mal? É que copiamos o modelo. A VTV, por exemplo, é uma cópia da cadeia estadunidense CBS, suas instalações foram concebidas como se fosse um canal privado. Agora, com a revolução bolivariana, estamos buscando a construção de meios públicos diferenciados que possam oferecer programas televisivos de qualidade e com a nossa cara.’

É bom que se lembre que, na Venezuela, 85% da capacidade de emissão estão em mãos privadas. São mais de 20 canais privados de TV contra dois estatais de alcance médio e apenas um de alcance nacional. Existem ainda 430 rádios privadas, enquanto duas são estatais. Isso significa que o poder de comunicar na Venezuela está praticamente todo na mão da iniciativa privada, contrariando assim a informação que se espalha sobre censura ou domínio da comunicação pelo governo.

E é justamente para fortalecer o direito da população de ter uma comunicação veraz e de qualidade que nasce o Sistema Nacional de Meios. ‘Não será uma competição com os meios privados, pois, como se vê, eles têm a maioria. O que queremos, distante dos modelos consumistas, é fomentar tudo aquilo que convide à criatividade e à cultura. O povo venezuelano tem direito a uma comunicação pública de qualidade’, diz Castillo. O Sistema Nacional de Meios acaba também com uma certa competição que havia entre os canais estatais, coisa que era nociva, no entender do ministro Izarra.

Construir a partir do povo

Outro organismo que nasce neste contexto é o Instituto de Rádio e Televisão, que ficará responsável pela coordenação das políticas de produção dos conteúdos de comunicação. Na Venezuela existe uma lei – a Lei Resorte – que dá prioridade e valor para a produção independente e comunitária. Para potencializar essa produção que já começa a crescer, o Instituto promoverá a criação de estúdios, a capacitação dos comunicadores e buscará os recursos para financiar as produções que serão feitas para veicular nos canais públicos. ‘É uma política social que envolve os comitês de usuários e a incorporação da comunidade no controle dos meios públicos e privados. Assim, o Instituto, com a participação direta de quem faz e quem usa, terá a seu cargo o desenvolvimento das grandes políticas, não só dos meios, mas de toda a comunicação.’

O ministro do Poder Popular, Andrés Izarra, acredita que com esta mudança será possível fazer uma televisão pública que tenha público, pois a sociedade venezuelana não quer ver uma televisão chata e aborrecida. Segundo ele, o sistema não é uma coisa pronta; ele está em construção enquanto se caminha. Para o governo venezuelano, o ano de 2008 marcará um processo de transformação e re-impulso da TV pública. ‘A melhor televisão que se possa fazer na Venezuela é a que se vai construir a partir do povo. Não há outra forma’, finaliza Castillo.

******

Jornalista no Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal de Santa Catarina

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem