Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA DE LULA

Grande mídia esfria sucessão presidencial

Por César Fonseca em 28/08/2007 na edição 448

O presidente da República dá uma entrevista de quatro páginas para o Estado de S.Paulo, no domingo (25/8), colocando ponto final na especulação sobre o já comentado terceiro mandato – que viria, como se cogita, por Constituinte exclusiva. E nos jornais de segunda, impressos e online, da grande mídia, o tema não foi realimentado da forma que merecia, por se tratar de algo importante, ou seja, a declaração de um presidente com exclusividade a um grande jornal brasileiro sobre algo que sempre coloca fogo no palheiro.

Antigamente, a mídia era acusada, benfazejamente, de esquentar os noticiários políticos, especialmente, se a motivação estivesse encenada pelo titular do poder. Hoje, esfria. Todos corriam atrás das sinalizações, especialmente, quando um fura o outro, como foi o caso do Estadão: o titular do Planalto, falando sobre tudo, ou quase.

Os concorrentes fizeram o antijornalismo: para eles não existiu a entrevista, salvo o Jornal do Brasil, que repercutiu em matéria de Alexandrer Bicca. Mais do que antiprofissionalismo, cegueira. O Globo, Folha de S.Paulo, Correio Braziliense, que têm muita força na capital da República, não deram pelota. Não interessa à opinião pública ou a opinião pública não interessa ao jornalismo?

Leitores e leitoras dos jornais impressos e online, bem informados e curiosos, não gostariam que todos aprofundassem o tema, pluralizando opiniões e antagonismos, no dia seguinte, com mais espaço para argumentações e entrevistas com a oposição e a situação?

Afinal, Lula deu a dica que uma mulher terá grande chance de vencer e que Ciro Gomes e Nelson Jobim não podem ser ignorados. Prato cheio para repercussões. E o resto que articula seus respectivos nomes, mesmo que sejam para exercitar a corrida do cavalo paraguaio, não estariam interessados em falar, também, sobre as apreciações presidenciais, quentíssimas, para o mundo político?

Samba quadrado

Se a fala presidencial não esquentou o noticiário da sucessão, o que teria poder maior do que esse para agitar o contexto político nacional, a fim de ombrear com os outros dois assuntos quentes da semana, o julgamento do STF sobre os 40 mensaleiros dependurados na brocha sem escada e o calvário político do senador Renan Calheiros?

Ou a fala presidencial deixou de ser relevante para a grande mídia?

A Folha de S.Paulo, maior concorrente do Estadão, desconheceu. Os comentaristas de segunda na página 2, idem. O Globo, da mesma forma, nem tchum. Ricardo Noblat, que aparece às segundas, começou seu trabalho indagando qual seria o tema a ser abordado com preferência: mensalão? Renan? Anac? Lula, disse, é sempre assunto. Nenhuma abordagem sobre a entrevista do presidente. Descartado o presidente, também, ficou na coluna de política de Ilimar Franco, que focou dificuldades políticas que o governo terá de enfrentar para aprovar a CPMF. Pão velho. Sucessão? Nada. Mauro Santayanna, no Jornal do Brasil, escreveu, como sempre muito bem, sobre as elites e suas formações ao sabor dos jogos políticos.

Certamente, os jornais não terão abordado o assunto porque o processo industrial na grande mídia nos fins de semanas exige antecipação de comentários, para evitar prejuízos operacionais. Mas, e no noticiário online, onde o espaço para a interatividade explodiu? Também, miudezas.

O próprio Estado de S.Paulo, pai da criança, foi tímido na segunda-feira (27/8). Tinha mercadoria valiosa nas mãos para continuar forçando a primeira página com suíte de assunto exclusivo. Preferiu tocar um sambinha quadrado. Queimou cartucho, dando manchete espremida no canto superior esquerdo da primeira página sobre boom imobiliário no interior. O tema exclusivão caiu para segundo plano na primeira do Estadão. Bem interiorano, mesmo, o grande jornal na segunda. Nem editorial foi escrito para seus leitores sobre o que a casa dos Mesquita achou da fala presidencial. Talvez saia na terça…

Café requentado 

O assunto morreu ou foi matado? Nem um, nem outro. Está vivíssimo, mas fora do noticiário no dia 26, quando devia estar queimando nas páginas. Os congressistas soprarão as brasas e os repórteres correrão atrás. Desse jeito não podem reclamar da circulação em queda e pouca de vendas em bancas. A polêmica deverá ser aberta na Câmara e no Senado, porque os políticos, independentemente da mídia, vêem na fala do presidente o recado, o oxigênio a partir do qual começam a construir suas conjecturas políticas em bases mais ou menos firmes.

Lula pregou que haja desde já, entre os aliados, combinações prévias com vistas às eleições municipais do próximo ano. Cadê o assunto, na segunda, com necessários desdobramentos, visto que os partidos são sacos de gatos? Nada. Mais uma vez a imprensa correrá a reboque do Congresso, quando poderia começar a semana pautando o óbvio, que a declaração presidencial provocou, apesar de não ter sido manchetada: a corrida sucessória. A notícia (com aquela quentura que os bons editores promovem, para marcar o ritmo do noticiário no início da semana, evitando, na base da criatividade, correr atrás do já salgado) ficou sem pai nem mãe.

As discussões entre os políticos, na tribuna e nos bastidores do Congresso nesta semana, agitarão o ambiente. Vai dar o que falar tanto quanto, ou mais, o julgamento do Supremo Tribunal Federal. Isto porque o mensalão, na prática, é café requentado, sabendo-se de antemão que correção moral da Justiça brasileira se fará necessariamente sobre os maus comportamentos políticos, para dar exemplo à sociedade. Já a declaração presidencial, colocando claramente em debate a sucessão, representa página aberta para o jornalismo político.

Pregação negada

O comportamento dos jornais concorrentes do Estadão é simplesmente vergonhoso. Mau jornalismo puro. Seria um prestígio para qualquer repórter concorrente dos coleguinhas do Estadão ter na segunda-feira uma notícia quente, exclusiva, para dar seqüência ao noticiário quentérrimo. A demanda fora dada, quando o jornalismo deveria criar a demanda sem esperar a oferta. Corrida de cavalo: quem sai na frente, necessariamente, não vence o páreo. Eis a beleza do jornalismo, mas… a segundona foi pobre.

A forte concorrência capitalista da notícia inexiste na mídia nacional no momento em que se generaliza a uniformização empobrecedora do noticiário. A pregação do livre mercado, da livre concorrência, foi simplesmente negada. Não segue a grande mídia a prática de sua própria pregação. Afoga-se na teoria. Nesse caso, Rupert Murdoch vai chegar e dominar a praça para dar mais competitividade à cobertura política no Brasil – que perdeu, depois da fala de Lula, uma segunda-feira preciosa.

******

Jornalista, Brasília, DF

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/04/2008 vanice assaz

    Prezados,
    Como leitora assídua deste Observatório, gostaria de informar que a região do Alto Tietê está ganhando um novo jornal, o SETE, cujo release de apresentação, gostaria de lhes enviar, mas ele não cabe no limite de caracteres aqui. Caso seja de interesse peço indicação para qual endereço eletrônico devo mandar.
    Um abraço e parabéns sempre pelo trabalho de todos
    Vanice Assaz
    editora do SETE
    4725 3424

  2. Comentou em 30/04/2008 vanice assaz

    Prezados,
    Como leitora assídua deste Observatório, gostaria de informar que a região do Alto Tietê está ganhando um novo jornal, o SETE, cujo release de apresentação, gostaria de lhes enviar, mas ele não cabe no limite de caracteres aqui. Caso seja de interesse peço indicação para qual endereço eletrônico devo mandar.
    Um abraço e parabéns sempre pelo trabalho de todos
    Vanice Assaz
    editora do SETE
    4725 3424

  3. Comentou em 30/08/2007 Filipe Fonseca

    Nada de surpreendente; se não podem falar mal do Lula, preferem se abster por completo. Como poderiam, depois, insinuar que o Lula pretende disputar um terceiro mandato?

    Como o Globo conseguiria dar um enfoque negativo, ridicularizante, de ‘mais uma do Lula’, diante do conteúdo da entrevista? Nem o Ali Kamel, o homem que diz que a imprensa é livre porque é bancada por grandes empresas (?), conseguiu dar jeito. Assim, seguindo o ‘padrão Globo de jornalismo’, é melhor engavetar.

    Realmente, vivemos uma situação ridícula. O único jornal que ainda consigo ler sem náuses é o Estado! O mais conservador dos jornais é também o mais aberto, que trata seus leitores como se fossem pessoas pensantes, ao invés de gado. Eu, que discordo de 90% das opiniões publicadas no Estado, faço questão de aplaudir de pé o jornalismo lá praticado.

  4. Comentou em 29/08/2007 Fernando Menezes

    Caro César,

    Tenho certeza que se o nosso Presidente tivesse dito alguma
    asneira ou alguma dubiedade onde pudessem usar para linchá-lo,
    teria havido grande reverberação na mídia.

  5. Comentou em 29/08/2007 Fernando Menezes

    Caro César,

    Tenho certeza que se o nosso Presidente tivesse dito alguma
    asneira ou alguma dubiedade onde pudessem usar para linchá-lo,
    teria havido grande reverberação na mídia.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem