Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / RAQUEL SALGADO

‘Há uma dimensão educativa nos desenhos animados’

13/04/2004 na edição 272

Para as crianças, o ato de assistir à TV envolve muito mais jogo, brincadeira, ação e movimento do que uma atitude tradicional de telespectador diante da telinha. A afirmação é de Raquel Salgado, professora da área de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), que está estudando a relação das crianças com os desenhos animados.

De acordo com a sua tese de doutorado que está em andamento ‘O brincar e os desenhos animados: um diálogo com os super-heróis mirins’, a diferença mais visível dos heróis-mirins de hoje em relação aos super-heróis do passado, como Batman, Superman e Mulher Maravilha, é que os atuais são crianças superpoderosas e muito mais próximas da realidade do nosso dia-a-dia. ‘São crianças e heróis que vão à escola, recebem bronca dos pais, ficam de castigo, desobedecem, reclamam por carinho e atenção e burlam as leis dos adultos. Mas, ao mesmo tempo, são crianças e heróis capazes de grandes feitos, como salvar a cidade de inimigos poderosos, criar maquinarias e aparatos eletrônicos que permitem comunicações interplanetárias’.

Embora acredite que haja uma dimensão educativa nos desenhos, a pesquisadora destaca que os produtores de desenhos animados estão interessados, muito mais do que educar, em propor desafios às crianças e desconstruir papéis estabelecidos. O que, na sua avaliação, é necessário e instiga cada vez mais as crianças a assistirem aos desenhos. Veja a entrevista concedida pela psicóloga ao site da 4ª CMMCA:

Raquel Salgado participará da Sessão Panorama Mundial – ‘Animação e qualidade da mídia’, que será realizada na quinta-feira, dia 22 de abril (sala 4, das 15h30 às 17h30).

***

Por que as crianças gostam de desenhos animados?

Raquel Salgado – O sucesso dos desenhos animados entre as crianças não é um fenômeno recente. Desde a década de 60, eles são os programas favoritos da garotada. Esse sucesso se deve ao fato dos desenhos terem como uma de suas principais características a linguagem lúdica. Costumo dizer que os desenhos, em geral, são convites às crianças para o jogo. Mais do que um entretenimento televisivo, eles carregam discursos, seja por meio dos personagens ou de suas aventuras que podem ser traduzidas em jogos e brincadeiras. Atualmente, essa relação entre o desenho animado, o jogo e a brincadeira da criança está cada vez mais visível. Na nossa realidade midiática, não há como separar o desenho que passa na TV dos games eletrônicos e dos jogos disponíveis no mercado. Em uma linguagem totalmente multimídia, a criança hoje assiste ao desenho e brinca com ele, jogando um game ou manipulando os bonecos de seus personagens. No trabalho de pesquisa que desenvolvi com crianças pequenas (de 4 a 6 anos), já pude observar que há crianças que brincam enquanto assistem aos desenhos. Para elas, a ação de assistir à TV envolve muito mais jogo, brincadeira, ação e movimento do que uma atitude tradicional de telespectador diante da telinha.

Os desenhos animados podem ser vistos como instrumento pedagógico para transmitir valores éticos e modelos de comportamento?

R.S. – Há uma dimensão educativa nos desenhos animados, principalmente se considerarmos o aspecto ético dos valores que podem ser construídos quando a criança interage com eles. Isto, por outro lado, não pode se confundir com um tipo de pedagogia diretiva, onde o desenho animado traz valores e modelos determinados que serão copiados pela criança, no sentido de afetar e modelar sua conduta. Entendo que os desenhos têm coisas a dizer para as crianças. Eles trazem uma visão do que é ser criança no mundo em que vivemos e de como o adulto vê a criança, a brincadeira e o jogo infantil. No entanto, essas visões não são definitivas. Essas visões ganham vida no momento em que a criança as interpreta a seu modo e, com elas e a partir delas, constitui seus valores e formas de se inserir na vida social.

Existe alguma preocupação dos produtores de desenhos animados em criar histórias com mensagens politicamente corretas?

R.S. – É muito comum os adultos definirem o que é importante e bom para a criança ver na TV. Em geral, os critérios se baseiam em concepções pedagógicas orientadas por princípios psicológicos sobre o desenvolvimento e a aprendizagem. Sem desconsiderar o valor educativo que isso tem, até porque sempre são os adultos que produzem, criam e definem os programas de TV, os livros, os brinquedos e todos os outros produtos culturais que as crianças consomem, acho muito mais interessante tentarmos saber o que as crianças gostam ou gostariam de ver na TV e que sentidos elas estão construindo ao consumirem esses produtos. Em relação à produção dos desenhos animados, não saberia dizer se esta preocupação existe entre os produtores. Acho que a perspectiva da criança como consumidora, exigente e ícone da nova geração, é o que se coloca como critério no campo da produção de mídia. Muito mais do que educar a criança, os produtores de desenhos animados estão interessados em propor desafios aos pequenos e desconstruir papéis estabelecidos.

Quem são os atuais modelos/heróis dos desenhos animados?

R.S. – Em contraste com a maioria dos desenhos animados de décadas anteriores, hoje temos como heróis crianças com superpoderes, como é o caso das Meninas Superpoderosas e de Goku, em Dragon Ball; pequenos gênios, como Dexter e Jimmy Neutron; meninos e meninas astutos, que desafiam o medo e enfrentam qualquer obstáculo com suas sabedorias e estratégias, como Ash, do Pokémon; os Digiescolhidos, do Digimon, entre outros. Estes são alguns exemplos dos grandes heróis da garotada de hoje, crianças como nossas crianças de carne e osso.

Os heróis de hoje são diferentes dos heróis do passado?

R.S. – Talvez a diferença mais visível dos heróis-mirins de hoje em relação aos super-heróis do passado, como Batman, Superman e Mulher Maravilha, seja o fato dos atuais serem crianças superpoderosas, mas próximas da realidade do nosso dia-a-dia. Eles vão à escola, recebem bronca dos pais, ficam de castigo, desobedecem, reclamam por carinho e atenção, burlam as leis dos adultos, mas, ao mesmo tempo, são capazes de grandes feitos – impossíveis para os adultos –, como salvar a cidade de inimigos poderosos, criar maquinarias e aparatos eletrônicos que permitem comunicações interplanetárias, manipular com maestria os segredos do mundo virtual, viajar pelo mundo em busca de aventuras com seres estranhos sem a presença e o suporte dos adultos. Essa mescla de realidade com fantasia, tendo a criança como o eixo dos feitos heróicos, talvez seja o ingrediente especial que faz com que os desenhos animados atuais tenham uma estreita conexão com o imaginário infantil. Além disso, a autonomia e a independência que esses pequenos heróis apresentam em relação aos adultos despertam, e muito, o interesse das crianças.

Os pais devem se preocupar com o que os seus filhos assistem e com os seus heróis?

R.S. – A participação dos pais junto ao que a criança assiste na TV é fundamental. No entanto, acho que ela não deve se limitar à definição de restrições em termos do que a criança pode ou não pode ver na TV. O mais interessante nessa participação é o diálogo entre pais e filhos como possibilidade de negociar sentidos, valores e conhecimentos sobre o que se assiste na TV. É óbvio que nós adultos temos opiniões e formas de olhar para um programa que são diferentes dos olhares das. Muito mais importante do que convencer a criança a ver uma coisa e não ver outra na TV é trocar os muitos sentidos possíveis sobre o que se assiste na TV.

Como você avalia a questão do consumo de mercadorias relacionada aos desenhos animados?

R.S. – A conexão entre desenho animado e merchandising é muito intensa. A cada novo desenho lançado na TV, um boneco, um game, um tênis, uma blusa, uma mochila e uma infinidade de produtos são lançados no mercado. Sem dúvida, a meta que se coloca é o consumo, e o consumo desse pequeno cidadão que é a criança. Para melhor ilustrar essa relação e como a criança a vive, trago aqui uma discussão que surgiu no grupo de crianças com o qual trabalhei. Ao brincar com o jogo de carta do Yu-Gi-Oh! (desenho animado), as crianças estabeleciam quem poderia ou não participar. Os meninos que tinham os decks (baralhos) dos personagens dos desenhos diziam que aqueles que não assistiam ao desenho animado não podiam jogar, assim como aqueles que não tinham os decks não podiam opinar sobre o desenho. Tanto o desenho quanto os aparatos do jogo funcionam como pré-requisitos para participar de um mundo ou de outro, tanto do jogo quanto do desenho propriamente dito. O consumo, neste caso, é uma regra de inclusão e exclusão. É o ingresso necessário para entrar e participar dessas esferas sociais. De fato, temos aí uma relação problemática que envolve uma dimensão ética de como o requisito do consumo passa a ser para a criança um valor que define as relações sociais que ela estabelece com o outro. Esta é uma questão importante para a educação do nosso tempo que nos leva a pensar em formas de intervenção junto às crianças e que possam suscitar espaços de reflexão e diálogo sobre o que consumir significa para as nossas vidas.

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