Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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CADERNO DA CIDADANIA >

Hulk: verde, bom e racista

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 01/07/2008 na edição 492

A nova versão cinematográfica do Hulk termina com uma inusitada aparição do herói do filme Homem de Ferro. Por isto vou começar esta crítica pelo fim. E para tanto retomo o texto sobre a cinedramatização daquele outro personagem da DC Comics.

Ao ser publicada neste Observatório, minha crítica sobre o Homem de Ferro foi muito mal recebida. Mas um dos comentaristas postou algo que tomo a liberdade de utilizar neste momento:

‘Marcelo Ramos, São Paulo-SP – Publicitário – Enviado em 9/5/2008 às 10:00:50 AM

Que pena as `análises acadêmicas´ sobre o artigo. Em um universo ideal, falar sobre linguagem cinematográfica fumando um charuto e tomando um whisky seria ótimo. Não que o artigo diga algo novo. Faz tempo, aliás, muito tempo, que Hollywood faz propaganda. Aliás, não é exatamente propaganda. Se você faz um filme independente ou com orçamento próprio, é fácil, você manda no roteiro, no diretor etc. Mas quando entra na área das grandes produções que envolvam a imagem dos USA, realmente os interesses de Estado interferem. Vocês aqui, que criticam o artigo, sabiam que o cinema e DVD são assuntos tratados diretamente pelo Departamento de Estado norte-americano? Os filmes que são `exportados´ de lá pra cá pelas grandes distribuidoras são feitos por ‘venda casada’. O que é isso? Compra-se um filme A (não do ponto de vista cinematográfico) e levam-se 10 filmes C – por filmes, entenda-se panfletos de propaganda. Nos EUA de hoje, se você quer produzir algo que envolva a imagem norte-americana com orçamento mais alto, está sujeito ao Departamento de Estado. Senão, pode inscrever seu filme em Sundance, o festival dos independentes. Aí você se vira para pagar. Assim, os USA não fazem propaganda; eles apenas `sugerem´ pequenas adaptações ao roteiro. Legal, né? Um exemplo clássico é o primeiro homem-aranha. No roteiro original, a cena final não era ele pousado na bandeira norte-americana.’

Civilização e barbárie

Hulk é mais um exemplo de como o cinema pode ser utilizado para fins não necessariamente artísticos. Mas neste filme a propaganda política é mais sutil do que no Homem de Ferro. Os conflitos no filme Hulk são mais variados.

O conflito que existe entre o Estado e o cidadão é expressado através das relações entre Banner e o general que o usou e criou o monstro que agora pretende controlar. Quais são os limites para o Estado? A resposta dada pelo filme é clara: o Estado não tem limites. O corpo do herói pertence ao Estado e o exército dos EUA pode perseguir seus objetivos até mesmo no território de outro país. A exemplo do filme Homem de Ferro, no novo Hulk a soberania dos EUA se expande cinematograficamente por todo globo. Neste caso é a arte que imita a vida ou é a vida que está querendo imitar a arte?

O filme explora o conflito entre civilização e barbárie. Banner é civilizado, mas o produto de suas experiências, não. O general parece civilizado, mas age como se fosse uma máquina a serviço de um Estado bárbaro que coisifica os cidadãos (sua filha incluída).

No Brasil, Banner é perseguido pelos corredores da favela da Rocinha. Quando chega aos EUA, o personagem é obrigado a fugir através dos corredores de uma belíssima universidade. É evidente que os livros simbolizam a civilização. Os barracos, por sua vez, representam a barbárie. Assim, é impossível não fazer duas perguntas. No Brasil há favelas porque não existem livros? Nos EUA não existem favelados por causa das bibliotecas?

Guerra fria nas telas?

Logo no início do filme, a sexualidade contida e educada de Banner confronta a lascívia agressiva do brasileiro que assedia a trabalhadora na fábrica. Pouco tempo depois, o monstro que há em Banner se encarrega de dar um fim brutal ao brasileiro.

A literatura inglesa está recheada de exemplos de como o fardo do homem branco tem sido conter e disciplinar a irracionalidade e sexualidade dos latinos, africanos e asiáticos. Portanto, Hulk reforça uma antiga tradição literária. Este clichê foi relacionado pelo professor Edward W. Said ao imperialismo cultural, à tentativa deliberada dos povos autoproclamados superiores de colonizar o imaginário das raças inferiores (de submetê-las através da criação de estereótipos que as mesmas são obrigadas a consumir através dos produtos culturais que exportam).

O conflito final entre Hulk e seu principal oponente é exemplar. Mostra como os norte-americanos legítimos são intrinsecamente bons e as pessoas de outras nacionalidades não são.

Banner, o norte-americano, não desejava o poder que adquiriu e passa o tempo todo tentando se livrar dele. Já o soldado de origem russa faz qualquer coisa para adquirir condições de confrontar Hulk. Quando consegue o que deseja, o monstro russo ataca indiscriminadamente as pessoas nas ruas de New York. Em razão disto, o bom moço aceita o sacrifício de libertar o Hulk para defender a população.

Este confronto de nacionalidades sugere algumas perguntas. Porque o oponente do herói tinha que ser justamente de origem russa? A recuperação do poder militar da Rússia preocupa os produtores de cinema dos EUA a ponto deles reiniciarem a Guerra Fria nas telas? Antes de responder, sugiro ao leitor que releia com atenção as palavras de Marcelo Ramos que reproduzi no início desta crítica.

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Advogado, Osasco, SP

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