Domingo, 17 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
Menu

CADERNO DA CIDADANIA > CASO CELSO DANIEL

Imprensa confusa, público ainda mais

Por Léo Bueno em 28/11/2006 na edição 409

Nota: este texto foi produzido antes que chegasse às bancas a edição nº 421 da revista CartaCapital, cuja capa trata do mesmo assunto. O texto segue porque, na opinião do signatário, suas informações não são redundantes com as da revista, com muito pequenas exceções, e embora as conclusões sejam similares. Necessário destacar que este jornalista, ex-assessor de Celso Daniel e que há anos acompanha o desenrolar das investigações da morte do prefeito, nunca manteve contato com o Raimundo Rodrigues Pereira, autor da matéria da CartaCapital.


A Agência Estado enviou para seus assinantes na terça-feira (21/11). O Estado de S.Paulo publicou a reportagem no quarta-feira (22), furando a Folha, que só viria com a notícia naquela tarde, na página do UOL, e no dia seguinte, no primeiro caderno. E na noite de 22/11, a Rede Globo, via Jornal Nacional, daria a informação: relatório da Polícia Civil conclui que assassinato do prefeito Celso Daniel não foi crime político. Os atropelos entre redações foram além da mera notícia: conforme diria a Globo – mas não os dois jornalões –, o relatório da delegada Elizabete Sato estava pronto desde 26 de setembro.


Estadão e O Globo publicaram a notícia friamente; e a Folha, que perdeu esta verdadeira corrida de tartarugas, não deu o braço a torcer, levantando sérias dúvidas contra a delegada. A mesma Folha cuja repórter Lilian Christofoletti, que assinou a reportagem, tem algumas das melhores articulações com os promotores do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado) – responsáveis, em última análise, pelo fato de o caso ainda estar sem conclusão, quase cinco anos depois do crime.


Pior: poucas vezes os leitores e telespectadores, ávidos pela verdade, foram tão desinformados como no episódio Celso Daniel. Senão, tente o leitor analisar, por tudo o que leu e ouviu nos últimos anos, o que é que sabe de líquido e certo em relação ao crime.


É a segunda vez que a polícia conclui pelo crime comum, sendo que cada investigação foi tocada por uma instância diferente. Alguns procedimentos simples da rotina policial foram considerados, entre eles o fato de todos os efetivamente acusados pela polícia, presos em momentos diferentes e por policiais de vários estados, não terem entrado em contradições em seus depoimentos.


A mesma parte da imprensa que desacreditou a polícia aceita tacitamente o que dizem outras fontes, principalmente o próprio Gaeco. Por que duas instâncias policiais chegam a uma mesma conclusão e são colocadas em dúvida, e o que diz um único grupo de promotores é divulgado sem o mínimo ceticismo necessário?


Outra fonte com livre curso na imprensa – João Francisco Daniel, irmão mais velho de Celso – também nunca teve sua isenção questionada pelos grandes jornais. Isso, embora seus conflitos políticos com o irmão tenham se tornado públicos e ele tenha sido lobista confesso a favor de uma empresa de ônibus de Santo André.


O resultado é que, em cinco anos de investigações, o caso Celso Daniel hoje parece ter mais personagens do que um romance russo e sua história é mais confusa do que a do seriado Lost.


Fatos mirabolantes divulgados…


Um seqüestro seguido de morte que, por sua vez, provocou um alarde seguido de comoção públicos já seria notícia por si. Mas a sociedade, imprensa inclusive, extrapolou. Não cabe aqui uma retrospectiva de tudo o que já se falou. Não cabe, no caso, literalmente: foi tanta coisa que o espaço é pequeno. Uma pequena lista, escolhida mais ou menos ao acaso, já dá idéia da confusão.


A se fiar no que foi divulgado:


** Celso Daniel foi morto porque tinha um dossiê contra o seu governo e, logo, contra si mesmo;


** a quadrilha que mandou matar Celso Daniel precisou antes organizar o resgate de um preso, de helicóptero, de dentro da prisão;


** um homem que estava numa festa na rua onde ocorreu o seqüestro filmou o crime e descreveu isso a um político do próprio PT;


** as pessoas envolvidas no crime começaram a morrer uma a uma, inclusive o garçom que atendeu Celso e Sérgio no restaurante horas antes do seqüestro;


** um médico legista que entrou na história três anos depois foi assassinado por isso;


** o crime foi passional: Celso era homossexual e Sérgio matou-o por ciúmes. As calças da vítima foram trocadas antes que o corpo fosse desovado;


** o deputado que foi designado pelo PT para acompanhar as investigações foi conivente com uma montagem orquestrada pela polícia para abafar o caso;


** o seqüestro de Celso Daniel tem ligação com um esquema de corrupção que envolve Freud Godoy, cuja atuação culminou na fracassada tentativa de compra de um dossiê contra o PSDB nas eleições de 2006.


Estes são apenas alguns dos muitos fatos já vinculados ao crime perpetrado contra Celso Daniel. Parece brincadeira de mau gosto, mas a imprensa realmente divulgou estes fatos. Não apenas isso: as notícias que estas historietas produziram foram usados como munição por partidos diversos nas campanhas eleitorais de 2002, 2004 e 2006.


… e fatos reais desaparecidos


Por outro lado, alguns detalhes realmente relevantes sumiram da imprensa. Um deles é o feirante que a quadrilha criminosa tentara seqüestrar naquela noite. Seu nome era Cleiton Kalil Menezes. Ele foi interrogado pela polícia e confirmou que usava aquele mesmo caminho para voltar para casa, mas que por algum motivo pegou um atalho diferente naquela noite. Na ocasião, apenas o Jornal da Tarde entrevistou-o e deu matéria sobre isso. E ele foi esquecido.


Hoje, pior ainda, alguns jornalistas parecem dispostos a continuar nesta trilha mirabolante. Vide a já mencionada reportagem da Folha de S.Paulo (23/11). O lide:




‘Com dez pedidos de interrogatório ou de quebra de sigilo em aberto, a delegada Elisabete Sato arquivou o inquérito sobre o assassinato do prefeito de Santo André (…) alegando falta de provas conclusivas.’


Mais adiante:




‘Um dos pedidos ignorados (…) partiu de um investigador dela (…) 33 dias antes do arquivamento do inquérito. (…) O policial pede urgência na quebra do sigilo de 34 telefones.’


Pelo que a repórter escreve, a delegada que conduz o inquérito há mais de dez meses teve pressa em encerrá-lo.


Um dado voltou a sumir na reportagem da Folha, apesar do enorme Banco de Dados de que a repórter autora da matéria dispõe. Ela se esqueceu de que dezenas de telefones já foram grampeados no caso. Pode-se argumentar que foram grampos ilegais – foi uma lista de telefones passada para um juiz numa outra investigação, sobre tráfico, e por isso considerada inválida pela própria Justiça. O que não impediu que o material fosse vazado para a imprensa. E mesmo assim a investigação não obteve o menor indício de crime político contra Celso Daniel.


Resultado: um atentado à memória do prefeito


Pouco após o crime, era perfeitamente compreensível que os investigadores procurassem elementos novelescos nele. Celso Daniel era um homem de suficiente envergadura para morrer de maneira aparentemente tão estúpida. Foi o fundador do Partido dos Trabalhadores em Santo André. Era engenheiro com mestrado em Administração, especializado em Economia, professor da PUC de São Paulo e da Fundação Getúlio Vargas. Foi também um dos prefeitos eleitos com a maior margem de votos para uma cidade com mais de 200 mil habitantes. Como coordenador de campanha de Lula em 2002, Celso era cotado para ministro. Cheio de preocupações sociais, foi, por ironia, vítima de um dos maiores problemas sociais do Brasil.


O tempo, entretanto, passou e esperava-se que com ele os fatos ficassem mais claros. Não ficaram. A confusão em torno deles sempre produziu lucros demais. Em conseqüência, conspurcou-se a memória do prefeito e a honra de muitos em torno dele. Que as pessoas responsáveis por isso, entre elas alguns profissionais da imprensa, possam dormir com esse peso na consciência.

******

Jornalista, há oito anos trabalha na Prefeitura de Santo André

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/12/2010 Marcelo Ramos

    Pessoal, olha que artigo ótimo. De marcar época.
    http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/chris-hedges-orwell-estava-certo-huxley-tambem.html

  2. Comentou em 05/12/2006 Léo Bueno

    A seqüência dos fatos precisa ficar clara. Primeiro Celso é seqüestrado e morto. No mesmo mês, a família recebe aporte de Gilberto de Carvalho, inclusive para João Francisco Daniel se defender na imprensa de acusações falsas de remessa ilegal de dinheiro para o exterior. Em seguida, a empresa de ônibus para a qual João Francisco fez lobby acaba sendo multada e é obrigada, por força de contrato, a concluir as obras que havia deixado suspensas – e o lobby, portanto, fracassa. E, logo após, João Francisco Daniel – cujas relações com o irmão mais famoso, historicamente estremecidas, haviam sido reatadas pouco tempo antes – é procurado pelo principal adversário de Celso em Santo André para compor chapa na disputa para prefeito. SÓ DEPOIS DISSO TUDO é que João Francisco fez as denúncias contra a administração, quatro meses depois da conversa que teria mantido com Carvalho.

  3. Comentou em 05/12/2006 Clerton de Castro e Silva

    Caro cidinho de Fortaleza, ou será de São Paulo? Comerciante, Hoteleiro, Gerente de Hotel, Empresário, Adm. Emp. Se faltou alguma das profissões que você costuma usar, me desculpe. Você deve fazer estas perguntas tolas ao Roberto Jefferson, pois foi ele quem disse que recebeu o dinheiro. Só que o teu partido nunca desmentiu nada, Você tem tem ótimas informações e é quem disse ser mentira do Bob, que era da tropa de choque do PT. Tambem quero o desconto de 70% em um dos seus hotéis. A turma de 1979 do Sinodal te mandou um abraço e falou prá você baixar a bola.

  4. Comentou em 04/12/2006 Clerton de Castro e Silva

    Acho muito fraquinhas e sem conteúdos as teses do Sr. Eduardo Guimarães. Ele fala que o irmão do Prefeito Celso Daniel era lobista e que vivia em guerra com o irmão assassinado, mas não apresenta nenhuma prova, como sempre cobra das outras pessoas que aqui escrevem. Para o Senhor Eduardo que sempre tem as melhores informações, (aliás ele bem podia nos informar onde consegue tão boas e verdadeiras informações, sem ser pela imprensa), o irmão do Prefeito, continuou arqui-inimigo do irmão, mesmo depois da morte brutal do mesmo. Não afirmo se foi ou não foi crime político, pois não tenho informações concretas sobre o fato. O Senhor Eduardo Guimarães, embora diga que já é avô e que tem 47 anos, ainda não aprendeu a debater e nem aceita que nenhuma outra pessoa tenha opinião diferente. Este Senhor está sempre procurando ofender e desqualificar. Aprenda, senhor Eduardo, com o Senhor Fabio Carvalho, Jornalista de Porto Alegre.

  5. Comentou em 03/12/2006 Bruno Resende

    Masoquisimo é ELEGER UM PRESIDENTE que joga seu partido prá escanteio, ressucita JÁDER BARBALHO e já articula o retorno( via projeto de lei por iniciativa popular) de um CORRUPTO confesso, A SABER Zé Dirceu. Com certeza há ESPAÇOS mais adequados a este tipo de patologia que não o OBESERVATÓRIO. Não entendo o porque dá insistência neste OBSERVATÓRIO ( Masoquismo !!).

  6. Comentou em 02/12/2006 Eduardo Guimarães

    Gente como os tais Paulo Bandarra e Clerton de Castro lê e não entende o que leu. Castro pergunta se os irmãos de Celso Daniel eram do PSDB e do PFL. Está absolutamente desinformado sobre o processo, como o Bandarra. Repetem manchetes de jornal. Não se dão ao trabalho de ler o conteúdo. Provavelmente não sabem que um dos irmãos de Celso Daniel, o lobbysta de empresas de ônibus que vivia em guerra com o irmão assassinado, o que mais acusações fez ao PT, recuou dessas acusações em acordo judicial que fez com José Dirceu. Nem imaginam que os promotores que agora desqualificam as conclusões da delegada Elizabete Sato são os mesmos que a escolheram para presidir o segundo inquérito sobre o caso. São papagaios que só sabem recitar manchetes. São pessoas que peço a Deus que faça experimentarem o linchamento da mídia para entenderem que o ônus da prova, nas democracias, é de quem acusa e não de quem é acusado. Não basta esse tipo de gente ter sido derrotada politicamente este ano. É preciso expor suas mentes doentias ao máximo para que esse tipo de anomalia mental de que padecem seja extirpado da juventude que comandará este país um dia.

  7. Comentou em 02/12/2006 Joel Telles Silva

    A delegada opina, o MP denuncia ou nao, o juiz de direito decide pelo arquivamento ou nao.

    No momento, a bola está com o MP que pode opinar pelo arquivamento ou não. Pode, também, mandar a polícia realizar novas diligências, com prazo estabelecido.

    Caso opine pela continuidade, uma boa medida seria requisitar a presença do ‘médico’ Bandarra como assistente nas investigações, pois, ao que parece, o mesmo já expressou aqui novas teorias sobre o caso, e uma imaginação tão fértil sobre o caso que o credencia a ser um bom autor de literatura policial.

    Em suma, penso que o indigitado médico escolheu aprofissão errada, pois seria um excelente ficcionista.

    Arrepia-me somente em imaginá-lo laborando num Instituto Médico Legal qualquer.

  8. Comentou em 01/12/2006 Augusto P. Solo Solo

    Conheci pessoalmete Celso Daniel. Engenheiro, professor e político de grande estatura, era também elegante e parecia artista de cinema. Eleito e reeleito prefeito de um dos Municípios mais importantes do país – Santo André. Era para coordenar a campanha de Lula em 2002 e, em seguida, ministro da Fazenda. Na falta dele, entrou Palocci, na coordenação e no Ministério. Eis que, de repente, Celso Daniel é sequestrado e morto. O seu corpo aparece de forma deprimente numa estrada velha. Comoção entre os petistas. O então líder do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, é recebido pelo presidente FHC e pede empenho na investigação. Nas base, os PT incluiu crime político entre as hipóteses do assassinato de Celso Daniel. A direita se açulou e alguns bilhetinhos ameaçados foram enviados a alguns petistas. Mas a polícia conclui que o crime não foi político. O PT, que teve um representante experiente supervisionando as investigações policiais, ficou satisfeito com o resultado: o crime não foi político.
    Eis que aparecem promotores anti-PT e a imprensa, idem, e começam a usar a morte dolorosa de Celso Daniel contr ao PT e o presidente Lula. Para esses ‘antis’ Celso Daniel foi morto pelos amigos corruptos: quem não conhece de Município, como eu, fala asneira dessa: corrupto não mata prefeito. Ora, matar a galinha de ovos de ouro? Então, tese derrubada, improcedente, desprezível.

  9. Comentou em 30/11/2006 Léo Bueno

    Ao contrário do que escreve o sr. Carlos Antonio, Carta Capital informa, sim, que a investigação por parte do Gaeco deve continuar. E, se o texto acima não aborda a continuidade da investigação, é por motivo simples: a informação é irrelevante para aquilo a que se propõe. Estamos analisando a imprensa, não o Gaeco.

  10. Comentou em 29/11/2006 Marco Davis

    A teoria conspiratória patrocinada pelos incansáveis promotores de justiça é tão cheia de reviravoltas mirabolantes, que se fosse um roteiro cinematográfico, iria direto para a lata de lixo, tal a falta de consistência em uma história completamente desprovida de um mínimo de realidade.
    Em Santo André todos sabem que o prefeito Celso Daniel não mantinha nenhuma relação com seu irmão João Francisco, e pouco se interessava em agradar os interesses bastante específicos de seus familiares. Hoje, bem sabemos o porquê…
    Causa-me repulsa imaginar, que até hoje, a memória de Celso Daniel seja completamente arrasada por uma ‘mídia-abutre’.
    Não se leva nem em conta que as duas instâncias da polícia que pediram o arquivamento do caso são obviamente subordinadas a Secretaria de Segurança Pública de SP, que tem como chefe de pasta um dos mais virulentos tucanos conhecidos, o Dr. Saulo. Jamais ele perderia a chance de aparecer nesse caso, se houvesse de fato, qualquer indício de que essa teoria mequetrefe dos promotores tivesse
    a possibilidade de ser provada.
    Eu só espero que algum dia Celso Daniel possa descansar em paz.
    Quanto ao comportamento de nossa imprensa, eu já perdi completamente as esperanças! Felizmente existe a internet.

  11. Comentou em 29/10/2004 amilcar pittigliani

    Apesar de tal assunto não se enquadrar na pauta do OI, gostaria que ,como o sr.Alberto Dines ( que tive o prazer de conhecer hà mais de 25 anos, na ocasião de lançamento de seu livro ‘Porque não EU ?’, quando o esteve o autor em meu colégio( Isa Prates),levado pelo então professor de Literatura Ivo Luchesi),continua na emissora,gostaria de algum esclarecimento sobre o fim do programa ‘Pensando em Você ‘,pois este era, para muitos,o único meio de manifestar-se contra os abusos cometidos por empresas e instituiçôes.
    Recentemente,li um artigo que mencionava problemas com o apresentador José Carlos Cataldi e a Radiobrás.
    Terá sido isto?
    No aguardo de uma luz ( que a Light não considere isto um gato),um

    Grande Abraço.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem