Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CADERNO DA CIDADANIA > MATO GROSSO DO SUL

Imprensa fecha os olhos e fortalece homofobia

Por Victor Barone em 23/12/2008 na edição 517

A jornalista Adriana Santana desenvolve como tese de doutorado uma pesquisa sobre o que classifica como ‘Jornalismo Cordial’. O termo, como ela explica em seu blog, remete ao conceito de ‘homem cordial’, do historiador Sérgio Buarque de Holanda, e quer retratar ‘aquele profissional que, relegando apuração e compromisso com a busca dos fatos, numa postura de agradar a todos (ou não desagradar a ninguém), acaba por não cumprir sua função social de investigador e responsável por levantar e disseminar informações do interesse dos cidadãos’.


A concessão do título de utilidade pública para a Associação dos Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS), que deveria ocorrer na quarta-feira (17/12), serve de objeto para a análise deste tipo de jornalismo que – aliado ao domínio do poder econômico sobre a definição das pautas e ao que o jornalista Washington Araújo classifica como ‘jornalismo insano‘ – está nos condenando a uma morte lenta e dolorosa.


Resumindo a ópera: desde dezembro de 2005 alguns vereadores tentam fazer aprovar no legislativo municipal de Campo Grande (MS) um projeto de lei que concederia o título à ATMS. Em 2006 a proposta foi reprovada por um placar de nove votos a oito, apesar de a entidade preencher os preceitos legais para receber o título. A oposição maciça de vereadores evangélicos e ligados a Igreja Católica foi o fator decisivo.


Qual o motivo da recusa?


O debate se estendeu por 2007, desta vez sob a batuta do vereador Athayde Nery (PPS), que reapresentou a proposta sob o projeto de Lei 6353/07, argumentando que a associação é responsável por cursos, convênios e campanhas de prevenção à Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. Ontem, em uma manobra burocrática, o vereador Pastor Sergio (PMDB), integrante da bancada evangélica da Casa, pediu vistas ao projeto, impossibilitando que ele seja votado neste ano e virtualmente condenando-o novamente ao arquivamento. O projeto tramitava há quase dois anos, mas só ontem Sergio alegou desconhecer seus detalhes técnicos…


Presentes na sessão, militantes e simpatizantes da ATMS, pastores evangélicos e religiosos quase partiram para as vias de fato, coroando um drama de caráter social que poderia render muito material de qualidade além do factual óbvio e ululante.


Poderia-se, por exemplo, aproveitando o gancho dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, questionar se os motivos que levaram as bancadas evangélica e católica da Casa a obstruírem mais uma vez a aprovação do projeto tiveram caráter homofóbico. Uma leitura rápida da Declaração mostra, inequivocamente, que pelo menos seus Artigos I, II, VI e VIII foram violados.


Também seria possível analisar o fato de a Câmara Municipal de Campo Grande ter aprovado inúmeros títulos de utilidade pública nos últimos meses (inclusive um, hoje – Projeto de Lei 6557/08). Se a ATMS tinha requisitos legais para requerer a utilidade pública municipal, qual o motivo de este benefício lhe estar sendo sistematicamente negado, quando foi garantido a inúmeras outras associações?


Sem questionar o mérito


Indo mais longe, os veículos de comunicação de Mato Grosso do Sul poderiam ligar o que ocorreu ontem na capital do estado com os movimentos nacionais e internacionais de combate ao preconceito e pela discriminação aos homossexuais. Poderia-se ter usado como gancho fatos recentes, como a declaração do porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, de que a Igreja Católica é a favor da descriminalização do homossexualismo.


O fato é que o tema poderia ter sido abordado de muitas formas, todas elas fugindo do que o jornalista Luis Weis, no artigo ‘Desafio ao leitor – e ao jornalista‘, neste Observatório, classifica como ‘a saída pelo facilitário’, isto é, pela abordagem óbvia e pouco desafiadora para o leitor.


No entanto, o que se viu na mídia sul-mato-grossense entre ontem e hoje foi somente pasmaceira e omissão.


O jornal Correio do Estado foi o veículo que mais destaque deu ao tema, dedicando-lhe manchete secundária de capa (‘Homossexuais, evangélicos e vereadores colidem’) e reportagem (na página 9A), intitulada ‘Projeto pró-homossexuais gera bate-boca na Câmara’, expondo o factual e os dois lados da questão sem, no entanto, questionar o seu mérito. O jornal O Estado de MS, por sua vez, deixou o tema de fora da capa, dando o mesmo tratamento que o Correio em matéria interna sob o título ‘Votação sobre utilidade pública de associação é suspensa após tumulto’. Outros dois jornais diários da capital, Diário do Pantanal e Folha do Povo não dedicaram uma linha sequer à polêmica.


‘Jornalismo neutro é um mito’


Ontem, o site de notícias Campo Grande News noticiou com a matéria ‘Bate-boca entre evangélicos e travestis suspende sessão‘. Mais tarde, deu espaço a uma vereadora evangélica eleita: ‘Evangélica, Rose votaria contra Associação das Travestis‘. O Midiamax não deu uma linha sequer sobre o tema, apesar de ter noticiado no dia 15 que o projeto seria votado. Na mesma linha, o site TVMorena, braço virtual da TV Morena (repetidora da TV Globo em MS), deixou o fato passar em branco, embora tenha incluído a votação da Lei em nota sobre a pauta da Câmara Municipal.


As emissoras de TV locais também ignoraram o projeto e as suas repercussões. A TV Morena, ontem (18/12), citou apenas que a Câmara Municipal havia aprovado o orçamento municipal de 2009. A TV Record e a repetidora do SBT no estado, TV Campo Grande, também passaram batidas.


Recentemente, no artigo ‘Jornalismo e assessoria de imprensa: ética e realidade‘, citei uma análise do professor Venício A. de Lima, articulista deste Observatório e pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (Nemp) da Universidade de Brasília, segundo o qual ‘…imparcialidade e objetividade são princípios irrealizáveis na prática concreta da apuração e da redação de notícias, sejam elas de política ou de outra editoria’. Para Lima, ‘o que se busca no jornalismo sério e responsável é minimizar a contaminação da cobertura pelas preferências pessoais do(a) repórter e pelos interesses dos donos dos jornais, expressos nos editoriais e nas colunas de opinião dos respectivos veículos’.


Em sua resenha do livro Políticas Públicas Sociais e os Desafios para o Jornalismo, o jornalista Luciano Milhomem aponta um caminho similar ao dizer que, apesar de estabeleceram as regras para o setor, os grandes meios de comunicação de massa não são totalmente impermeáveis a mudanças e que é nesse nicho que ‘o jornalista de sólida e vasta formação pode e deve atuar, de maneira a promover a criatividade, a inovação, a consciência crítica, a cidadania’. Segundo ele, ‘se, hoje em dia, jornalismo engajado é visto como de qualidade duvidosa ou, no mínimo, de baixa credibilidade, o jornalismo neutro é considerado um mito’.


Temas de caráter social


Talvez esteja aí o principal paradigma a ser quebrado no jornalismo para que ele volte a cumprir um papel mais importante que a mera reprodução de notícias velhas, mornas e descomprometidas com a sociedade. Não sugiro que os jornalistas devam rasgar o Código de Ética, mas que busquem um equilíbrio entre um fazer jornalístico imbuído de seriedade, que busca a verdade antes de tudo, e o que poderia ser chamado de função social da profissão.


Um dos relatórios do Fórum dos Cursos de Jornalismo, realizado em São Paulo em 2002, resume este pensamento: ‘O compromisso do jornalismo é com a cidadania e com os interesses gerais e públicos da sociedade, especialmente na defesa dos setores marginalizados, excluídos e sem espaço no sistema de comunicação. A defesa da liberdade de informação e da cidadania está acima dos interesses comerciais do mercado.’


Voltando a citar a análise de Milhomem, o jornalismo tem, inevitavelmente, responsabilidade social, seja quando se omite, seja quando assume posições e contribui, de forma significativa, para o estabelecimento de prioridades, seja no âmbito público ou privado, sendo um fator decisivo para a formulação de políticas públicas sociais.


Em sua edição de dezembro de 2006, o Jornal da ABI traz editorial no qual reforça a necessidade de um jornalismo focado nos temas de caráter social, nas questões que dizem respeito à situação da gente comum e à grande massa de deserdados. ‘É esse jornalismo de superior qualidade ética, política e social que eleva os profissionais e seus veículos a merecido destaque na copiosa massa de informações que todo santo dia se oferecem aos leitores, ouvintes e espectadores.’


Para isso, no entanto, é preciso fugir do óbvio.

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Jornalista, Campo Grande, MS, edita o blog Escrevinhamentos

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/12/2008 Paulo Bandarra

    Muito boa a lembrança deste texto lembrado e como está atual, Victor Barone.

  2. Comentou em 24/12/2008 Paulo Bandarra

    ‘principalmente os evangélicos que continuam em todo o país atrapalhando o desenvolvimento da nação, querendo impor seus preconceitos.’ Queria saber em que os evangélicos continuam atrapalhando o desenvolvimento da nação! E quem quer impor preconceito em quem? Onde está a razão absoluta para uma delas ter este sentido sobrenatural de ‘verdade’? Na moda apenas?

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