Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > O PETRÓLEO É NOSSO

Imprensa resiste às boas notícias

Por Luciano Martins Costa em 13/11/2007 na edição 459

Mal deu para disfarçar, mas a imprensa torceu quase explicitamente para que o anúncio da descoberta das grandes jazidas de petróleo na bacia de Santos fosse apenas um factóide do governo para distrair a opinião pública do risco de crise no abastecimento de gás combustível. Desde o anúncio oficial, na semana passada, os jornais vinham testando todas a hipóteses, até que, afinal, junto com as revistas de informação, no final de semana, chegaram à conclusão de que o Brasil está mesmo na iminência de se qualificar para ingressar no fechado clube dos exportadores de petróleo.

O fato de a descoberta ter acontecido no início do segundo mandato do presidente Lula da Silva, que sem tanto óleo já vinha navegando em ondas de altíssima popularidade, é apenas um dos aspectos a ser observado na aparente esquizofrenia que afetou a mídia nos últimos dias. Mas é bom exercício imaginar como teria sido o noticiário dez anos atrás. Melhor prática ainda é escarafunchar notícias antigas. Bingo! Todas as notícias anteriores sobre o assunto que se pode prospectar pela internet e em revistas velhas no curto período de duas horas revela que a imprensa sempre recebeu e distribuiu os informes da Petrobras sem questionar os dados apresentados, por mais otimistas que fossem.

Festival de condicionantes

No caso das reservas gigantes descobertas na semana passada – que a Folha de S.Paulo, para não abandonar seu jargão, chamou de megajazida – o que houve foi um festival de condicionantes. O Globo foi o mais reticente entre os grandes jornais. Até o final da semana, o jornal carioca ainda mantinha seu noticiário sob um tom de ceticismo. No domingo, ainda preferiu manter o otimismo isolado nas declarações do presidente da República e destacar as perspectivas de crise no abastecimento de gás.

O Estado de S.Paulo escolheu como manchete a previsão de que o Brasil deverá enfrentar ainda mais quatro anos de escassez de gás, principalmente em função do crescimento da demanda. Nenhuma referência ao fato de que a demanda cresce por conta do crescimento da economia e nenhuma citação ao fato de que o prazo previsto de crise coincide com as expectativas de ampliação da oferta de combustíveis de origem vegetal, como etanol e biodiesel. Como nos encontramos numa encruzilhada tecnológica em que novas alternativas se oferecem para a flexibilização da matriz energética, não apenas no Brasil como nos Estados Unidos e em outros países, as afirmações catastrofistas sobre a gravidade de uma crise de abastecimento de gás deveriam ser analisadas nesse novo contexto.

A Folha de S.Paulo entrevistou um especialista para afirmar que a exploração do ‘megapoço’ na Bacia de Santos vai custar muito caro, em função da profundidade da jazida, que exigirá a operação de plataformas de extração e bombeamento mais sofisticadas. Depois de ler todos os detalhes técnicos que esvaziam o entusiasmo do brasileiro com a descoberta de sua nova riqueza natural, o leitor é informado de que o entrevistado explica que, ‘para companhias dominadoras de tecnologia, como a Petrobras, é possível fazer qualquer coisa, só é preciso saber como. A empresa já sabia de tudo isso e foi avaliando todas as variáveis’, declarou o especialista. E o leitor, voltando atrás nas linhas que acaba de percorrer, se pergunta: se a Petrobras sabia das dificuldades, se a empresa tem condições de superar essas dificuldades técnicas, qual é o sentido dessa reportagem que acabei de ler?

Dificuldade com as boas notícias

Uma outra pergunta que o leitor pode fazer é: por que a imprensa brasileira não consegue simplesmente dar uma boa notícia, aceitar que o Brasil pode, sim, encontrar uma via para o desenvolvimento sem se amarrar ao círculo de influência dos Estados Unidos ou da Europa?

Obviamente, é da natureza e faz parte das obrigações da imprensa analisar tudo que brota das fontes oficiais de informação, e o senso crítico exige a permanente desconfiança de tudo que possa cheirar a propaganda governamental ou partidária.

A revista Época se serviu do mesmo pesquisador citado pela Folha. Deu um tom mais equilibrado à reportagem sobre o assunto, mas não escondeu os fatos, ao anunciar, no índice, que ‘Agora, sim, o petróleo é nosso’, e ao escolher o título ‘De comprador a vendedor’, assumindo a tese da Petrobras e do governo, de que a descoberta na Bacia de Santos pode transformar o Brasil em exportador de petróleo.

Veja deu um espaço mais modesto e não passou recibo para a Petrobras. Prendeu-se à operação de comunicação da descoberta, destacando-a como trunfo político do governo e oportunidade para lançar luzes sobre a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef. Mas não omitiu que há sinais para otimismo. O título da reportagem exprime o constrangimento da revista que faz oposição visceral ao atual governo: ‘É só teste… mas dá para comemorar’.

É conhecido o fato de que a imprensa resiste a celebrações, característica reconhecida em seminários públicos dos quais participaram recentemente editores das principais empresas de comunicação do País. Imagina-se, mesmo, que um jornal cheio de boas notícias em pouco tempo iria fazer o leitor perder o interesse. Mas não dá para esconder a desconfiança de que, no fundo, a mídia prefere ter do que reclamar do que aceitar que o Brasil pode, em algum ponto no futuro, se tornar um país habitável.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/11/2007 Thiago Conceição

    Marcelo Ramos, e por que você acha que é correto que eles lucrem com algo o qual eles não têm nada a ver? Que valor é esse a que você se refere? Não existe valor nenhum e nenhuma lógica no ufanismo e caipirismo do PT. A imprensa foi cautelosa como é de se esperar.

  2. Comentou em 19/11/2007 Thiago Conceição

    Marcelo Ramos, e por que você acha que é correto que eles lucrem com algo o qual eles não têm nada a ver? Que valor é esse a que você se refere? Não existe valor nenhum e nenhuma lógica no ufanismo e caipirismo do PT. A imprensa foi cautelosa como é de se esperar.

  3. Comentou em 18/11/2007 Thiago Conceição

    Marcelo Ramos, qual é a parte do ‘petróleo não se fabrica’ você não entendeu? O governo não fez absolutamente nada! Não se pode comparar coisas ‘coisificadas’ pelo ser humano com o petróleo, pois o petróleo é ‘coisificado’ pela natureza. O petróleo jamais trouxe felicidade a nenhum país e o que criticamos é justamente essa mentalidade ufanista de que tudo irá melhorar por causa disso quando sabemos que é justamente o oposto. A ênfase feita no anúncio, os comentários caipiras do presidente da República, a legião de bobos que festejam isso como se fosse algum tipo de revolução, tudo isso é o que criticamos. Essa propaganda política não faz o menor sentido e parece mais algo para distrair o povo do que realmente interessa do que outra coisa. O que você chama de ‘comentários negativos’ é nada mais do que a realidade.

  4. Comentou em 17/11/2007 Marcelo Ramos

    Sr. Ivan Berger, quem deixou de ler diversas coisas foi você. Não é notícia requentada, o Dines comeu mosca… e das grandes. Não se poderia dar notícia de descoberta em 2006. Primeiro, porque era mesmo pesquisa; segundo porque, se o governo em plena campanha eleitoral apenas tocasse no asssunto, ia ser acusado de propaganda eleitoral. Acho que o sr. lembra a eleição de 2006 como foi. E, agora, foi confirmação das pesquisas. Não foi notícia requentada. Para um jornalista o senhor está bem mal informado. Ou então está programado para ler apenas o que lhe interessa, como nosso outro amigo programado.

  5. Comentou em 16/11/2007 Ismael Manzotti

    Sr. Thiago, o sr. continua falando de esquerda e de partidos brasileiros de esquerda. Darei uma notícia triste ao senhor, ‘NÓS NÃO TEMOS ATUALMENTE PARTIDOS DE ESQUERDA NO BRASIL’. O que temos senhor Tiago, são governos ruins e oposições oportunistas, só isso. O PSDB nunca foi de esquerda, analise a história desse partido e os seus figurões mais atuantes, como Mário Covas, Franco Montoro, José Serra… (meu Deus!!!). E a ideologia? Aumentos de Pedágio, privatizações a esmo… (Meu Deus again!!!!)

  6. Comentou em 14/11/2007 Henrique Souza Dantas

    Parece cômico se não fosse sério. Nunca se falou em petróleo no Brasil até o PT assumir o Governo, aliás a Petrobrás nem existia. Até parece que foi o Lula que descobriu o tal poço e fundou a estatal. Cada um puxa a sardinha pra sua brasa. Uma notícia que poderia ser comemorada seria se o governo anunciasse que duplicou a verba para a educação ou para a saúde. Isso sim Luciano, seria uma boa notícia, uma notícia verdadeira de governo.

  7. Comentou em 14/11/2007 Thiago Conceição

    ‘essa jazida muda a posição geo-política do Brasil no cenário internacional’ Haha. Essa é boa. Em programação existe um termo chamado ‘vaporware’, que é quando alguma empresa faz anúncios bombásticos prometendo maravilhas sem sequer ter um protótipo, e na maioria das vezes sem sequer ter começado a desenvolver o produto. Acho que isso se aplica a essa situação do Brasil. O que mais me deixa pasmo não é o fato em si, pois ainda nem se concretizou, mas sim a sanha da esquerda em estufar o peito e fazer afirmações ufanistas e de auto-importância. E por quê? Acabou a corrupção? O nível de vida médio aumentou a níveis de primeiro mundo com um povo auto-suficiente, isto signfica sem bolsa-esmola, e esclarecido e cujas crianças não precisam de suborno do estado para tirar notas boas? Temos as maioreis 10 empresas de alta tecnologia do mundo e a maior produção científica? A maioria dos homens mais ricos são empresários brasileiros que são exemplo de nossa meritocracia e fé no trabalho? Não. Apenas porque encontraram petróleo. Qual país exportador disso é desenvolvido? Não que isso seja mal, mas dá a idéia da completa falta de noção de nossa elite política e da parcela da população que a elegeu. É muita pobreza de espírito. O que vocês querem provar para o mundo? Vocês querem um sorriso de aprovação? Isso é coisa de jeca.

  8. Comentou em 13/11/2007 Maria Izabel Ladeira Silva Silva

    A mídia preparava uma nova ‘crise’ para jogar no colo do governo, com a ladainha de sempre: incompetencia, apagão, falta disso, falta daquilo … Dessa vez seria ‘crise’ de energia, de gás, do raio que o parta … E agora??? Cadê a ‘crise’???? Há muita coisa para celebrar! Só o PIG é que não vê!

  9. Comentou em 13/11/2007 Benjamin Eurico Malucelli

    Perfeita, para dizer o mínimo, a análise do jornalista. Bad news are good news, principalmente quando se trata do atual governo. A má vontade da imprensa, em geral, com o atual governo é ‘de doer’. Quando contesto isso com os articulistas da Folha, jornal que assino, recebo algumas respostas do tipo ‘não se pode falar do deus Lula’, ou coisa do gênero. Entendo a imprensa como um órgão (se é que essa expressão está correta) que deveria ser divulgar TODAS as notícias, boas ou más. Mas, infelizmente não é o que se observa. Good news are bad news. O leitor não tem direito a ler boas notícias? Só tem direito a ler ‘m…’? Ainda bem que vocês do OI estão aí para fazer análises isentas. Certamente, muitos que acompanham o OI irão dizer que vocês são lulistas, governistas e coisas e loisas, porque são capazes de mostrar uma reportagem como essa. A esses, um grande abraço!!!!

  10. Comentou em 10/06/2005 Neusa Pinto

    Caros senhores,

    Temos, em nossa Associação, um boletim informativo onde publicamos material de interesse de nossos associados. Assim, gostaríamos de que nos fosse autorizado publicar o texto ‘A volta da velha senhora – Censores togados, reação frouxa’, de autoria do jornalista Alberto Dines.

    Agradecendo antecipadamente a atenção, solicitamos uma resposta o mais urgente possível, uma vez que temos de fechar a edição até o dia 17 próximo. Atenciosamente, Neusa Pinto – Associação dos Professores Inativos da UFF.

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