Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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CADERNO DA CIDADANIA >

Já não se fazem velhos como antigamente

Por Pedro Paulo Monteiro em 05/12/2006 na edição 410

Sophia Loren, 71 anos, uma mulher que atravessou o século e ainda é cobiçada por muitos homens. Até mesmo o arcebispo de Gênova assinalou que o Vaticano poderia liberar a clonagem humana no caso de Sophia Loren. Quem é essa mulher? Iconograficamente todos a conhecem, porém é impossível alcançar sua natureza humana. Nada está tão distante quanto a natureza de nós mesmos. Viver pela imagem é viver na ilusão.

Confesso que me rendo a Sophia Loren, ela acaba de conseguir inaugurar um novo modelo de velhice. Não digo isso em termos de biografia, talento, beleza, e sim no sentido de abrir portas a todos que serão, em breve, os velhos sociais (pessoas acima de 60 anos de idade cronológica).

Necessitamos de modelos de referências no mundo. Por assim dizer, nós estamos entrando em novos tempos, o tempo de reinventar a velhice. Na época áurea do Império Romano a expectativa de vida era de 30 anos de idade. Um indivíduo de 50 anos ou mais era considerado um milagre da natureza. Atualmente, no Japão, a expectativa média de vida chega a 85 anos.

Entretanto, é difícil reconhecer a mudança dos tempos, os mais velhos continuam depreciados nos anúncios, nos programas de televisão, nas matérias jornalísticas. Ser grisalho ainda é estigma social. Pensar a velhice no Brasil ainda nos remete à previdência falida, decadente, com perdas de poder como possibilidade.

Reinventando a vida

O renomado antropólogo belga Claude Lévi-Strauss relatou certa vez que os índios brasileiros nambiquaras utilizavam uma única palavra para ‘jovem e bonito’, e uma para ‘velho e feio’. Será preciso atravessar outro século para reconhecer que beleza é expressão e significado, e não somente estética? Não temos a mesma linguagem dos nambiquaras, mas aprendemos a perceber o mundo desse mesmo modo. Se a nossa linguagem é mais rica, por que continuamos a tratar os mais velhos como peças deterioradas? Sem dúvida o contexto histórico e cultural pode muito bem explicar, mas a questão aqui é outra. Se Sophia Loren, com 71 anos de idade, é velha, por que é tão bonita?

A tão esperada edição de 2007 do Calendário Pirelli foi apresentada à imprensa no dia 16 de novembro no Battersea Evolution Park em Londres. O tema da edição, ‘Uma cama e cinco histórias’, tem o objetivo de revelar personalidades fortes sobre o ambiente nu.

Quando era criança me lembro de apreciar as belas mulheres dos pôsteres da Pirelli pendurados nas paredes das borracharias. Nunca pensei em ver uma velha mulher como modelo, até mesmo porque a velha sempre fora a minha mãe, tia ou avó, nunca objeto de desejo.

Hoje, não me surpreendo em ver Sophia Loren na primeira página do site da Pirelli.Contudo, aguardo mudanças sem expectativas. Quero exercitar a paciência para constatar que o velho pode redescobrir o seu espaço perdido. Se o calendário da Pirelli desafia a moda, cria tendências e modifica o convencional, espero ver o novo surgir num corpo velho. Hoje foi Sophia Loren, amanhã poderá ser a velha Angelina Jolie. Enfim, todos terão espaços criativos para reinventar a vida.

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Mestre em Gerontologia pela PUC-SP, professor de Gerontologia na Universidade Católica de Petrópolis, autor de Envelhecer: histórias, encontros e transformações, A mente e o significado da vida, Quem somos nós? O enigma do corpo

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