Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > TRÁFEGO AÉREO

Jornal Nacional cria bodes expiatórios

Por Bemildo Ferreira em 19/02/2007 na edição 421

O Jornal Nacional da Rede Globo, ao noticiar a troca dos comandantes das Forças Armadas, novamente inseriu palavras que não são dos controladores de tráfego aéreo (denominação oficial e correta, por favor). Comunicado da Federação Brasileira de Controladores de Tráfego Aéreo (Febracta) repudiou qualquer informação que dissesse que estaríamos planejando boicote às festas de Carnaval e inserir o país em novo caos. A matéria dizia o contrário, mas que chegou-se a um consenso de não confrontar as autoridades. Ridículo como caem na contra-informação da Inteligência da FAB. Somos altamente manipulados por esses estrategistas de plantão.


Ao mesmo tempo, um colega CTA do Controle de Aproximação de Salvador (APP-SV) – que é o órgão de contato com as aeronaves que confluem no espaço aéreo para o pouso e simultaneamente com as aeronaves que decolam, portanto um espaço aéreo denso – foi transferido. E daí? Daí que o suboficial tem mais de 20 anos de experiência no ATC brasileiro e uns tantos no APP-SV. Se está faltando gente, por que transferi-lo para o administrativo da BASV em data tão precedente ao Carnaval – da Bahia, não é qualquer lugarzinho sem expressão! – sendo que ainda há por lá dois estagiários, três comissionados de outro APP que precisam aprender o ofício que é exclusivo de cada órgão de controle e precisa-se de muita especificidade?


Notícia plantada


Não há o que discutir em relação a qualquer punição que queiram imputar ao colega por causa de advogar abertamente a Reestruturação do Cenário do Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (Rcctab) conforme exposto pelos representantes do SNEA (Marco Antonio Bologna), da ABAG (Adalberto Febeliano), da Infraero (brigadeiro José Carlos Pereira) e da Febracta/SNTPV (José Carlos Botelho) dentro do GTI.


Mas, em nome da segurança de vôo, prescindir num momento como este, de Carnaval fervente em Salvador e aumento de tráfego no espaço aéreo, de um controlador de tráfego aéreo extremamente qualificado par lidar com as falhas de radar, as panes ou interferências nas rádio-comunicações, proficiente até onde pode na língua inglesa e conhecedor dos problemas e soluções da região de controle da orla bahiana é atentar contra a vida humana tanto quanto um ataque terrorista pode fazê-lo tão bem.


Na iminência de um acidente em área tão populosa, mais uma vez recairá sobre os ombros dos controladores de tráfego aéreo o ônus das mortes, a desconfiança internacional de que o espaço aéreo brasileiro não é seguro, as retaliações das companhias aéreas em evitar vôos em nossa área, a falta de confiança dos que prestam o serviço ATC em si próprios, a comoção nacional e etc. etc. etc. que vocês podem imaginar, tudo por causa da sanha vingativa de oficiais comandantes intermediários.


A matéria da Rede Globo e muitas outras espalhadas por aí em outros veículos de informação não contribuem em nada para uma melhoria desta situação na medida em que publicam a notícia plantada e as denominações específicas são as que mais gostam e não as corretas (controlador de vôo, aeroporto de Cumbica, MEC entre outras, mas a Globo, por exemplo, já não chama o Galeão por esse nome: por que será? Querem tirar os vôos internacionais de São Paulo e transferi-los para o Rio de Janeiro em tentativa de revitalizar o Rio e os cofres da Platinada em decorrência. Nada contra, mas denegrir com sutilezas fonéticas é a especialidade dela).


Angústia e repúdio


Não há prevenção de acidentes aeronáuticos que vença essa mesquinharia de certos oficiais da FAB, eles próprios elos-SIPAER, ou seja, elos de uma corrente chamada Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos e ‘a corrente é tão forte quanto o seu elo mais fraco’.


Tornam-na mais fraca ainda com a retirada estratégica do suboficial do APP-SV.


É lastimável e não podemos fazer nada, a não ser confiar que a imprensa cumprirá o seu papel democrático corretamente.


Ficam expressos, então, o meu repúdio, a minha angústia, o meu alerta, minhas desculpas e meu obrigado pela oportunidade e, talvez, por levarem a sério este assunto.

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Controlador de tráfego aéreo, São Paulo, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/03/2007 Luiz Ferandes

    Está sendo discutido esse problema do tráfego aéreo com grande alarde. Na realidade a coisa é bem simples dos dois lados que estão sendo envolvidos pelo real interessado.O maior interessado nessa confusão toda é o governo federal sindicalista, interessado nas benesses de controlar mais esse segmento de serviços. É uma decisão política e ela já foi tomada. Pena que acabaremos por ter mais uma ANAC, sucesso de má gestão técnica, cheia de companheiros. No meio do processo estão os pobres controladores militares e a aeronáutica, jogados um contra o outro, separados, um pelo canto da sereia e outro pela tentativa de manter seus valores básicos de existência (hierarquia e disciplina). Convenceram os controladores que, antes de militares eles são controladores. Existem neste caso uma inversão. Depois de militares, eles se tornaram controladores e, desta forma, devem cumprir com aquilo que se comprometeram. Querem reivindicar salários diferenciados, porque se acham diferentes, tenham coragem, se demitam e façam sua campanha como civis plenamente. Mas não, ninguém quer largar o osso da estabilidade atual para correr atrás do seu prejuízo. Ora, em qualquer empresa em que haja cláusulas de que o profissional possa ser transferido de acordo com os interesses da mesma, quem não estiver satisfeito pede demissão e vai à luta. Busca algo melhor para si. CORAGEM, FALEM A VERDADE COMPLETA.

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