Terça-feira, 23 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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CADERNO DA CIDADANIA >

Jornalista ameaçado de morte

Por Fabrício Ribeiro Pimenta em 18/08/2009 na edição 551

O jornalista Fabrício Ribeiro Pimenta, com atuação em jornalismo ambiental no Espírito Santo, está refugiado após escapar de uma tentativa de homicídio por um proprietário de uma marmoraria clandestina que havia denunciado. O fato aconteceu na manhã do dia 30 de julho e as ameaças continuaram. Sem qualquer tipo de proteção, o jornalista deixou o estado. O criminoso continua operando normalmente sua marmoraria.

No final de 2008, uma marmoraria clandestina foi instalada no bairro Praia da Baleia (Serra- ES), na quadra do mar e numa área totalmente residencial (como define o PDU/98 do município).

Como tal marmoraria estava no bairro onde o jornalista residia já há quase dez anos – sendo, inclusive, membro da direção da Associação de Moradores –, o mesmo procurou o proprietário Alessandro Carlos Silva Laranja e argumentou sobre problemas da operação da marmoraria no local, que produzia muito barulho serrando e polindo rochas e gerava muita poeira tóxica de pó de pedra, além do risco com o transporte de chapas de rochas numa rua (Manoel de Aruanda) estreita e residencial.

O proprietário não acatou os argumentos, dizendo que manteria a marmoraria até porque tinha como sócio um empresário ligado a uma grande serraria exportadora de rochas, com atuação na Serra, que certamente iria garantir o funcionamento a despeito de todas as irregularidades.

Nenhuma providência foi tomada

Ao longo do primeiro semestre de 2009 e, principalmente, em julho, a Fiscalização Ambiental e o Disk Silêncio da Prefeitura da Serra foram sistematicamente acionados. Por muitas vezes compareceram ao local, mas, estranhamente, a marmoraria seguia funcionando, mesmo com um parecer da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de que o empreendimento era irregular e que não poderia funcionar naquele local.

O jornalista Fabrício Ribeiro conversou diretamente sobre o problema com autoridades como o secretário Municipal de Meio Ambiente, Cláudio Denícoli, diretores de departamentos, chefes de fiscalização e até com o próprio prefeito da Serra, Sérgio Vidigal.

A Ouvidoria Municipal também foi acionada pelo jornalista e sua solicitação ganhou o nº14636 e recebeu o número de Protocolo 40298/2009, no dia 14/07/2009.

Infelizmente, nenhuma providência efetiva foi tomada e o caso por pouco não acabou numa tragédia ainda maior.

Risco de permanência no local

Na manhã de 30/7, pouco depois da 9h, quando o jornalista registrava com uma máquina fotográfica a presença de equipe da fiscalização ambiental na marmoraria, aconteceu a tentativa de homicídio. O agressor, Alessandro Carlos Silva Laranja, ao perceber a ação do jornalista, desferiu um golpe no alto da sua cabeça com uma chave de ferro, do tipo grifo, o que acabou provocando um ferimento com muito sangramento. O agressor tentou desferir novos golpes, mas foi contido por pessoas que testemunharam a agressão. O agressor ainda arrancou a máquina fotográfica do jornalista e a destruiu completamente.

O crime foi testemunhado por dois vizinhos, por dois fiscais ambientais da Prefeitura da Serra (um deles de nome Eleir). Também testemunharam a cena dois ou três homens que trabalhavam com o agressor. A PM esteve no local, mas disse que o criminoso fugiu do flagrante.

Veículos da imprensa capixaba, como o jornal A Tribuna, TV Tribuna, TV Vitória, Folha Vitória e jornal Tempo Novo (Serra) noticiaram o crime nos dias 30 e 31 de julho.

Após o atendimento de emergência no hospital Dório Silva (Serra-ES), onde o jornalista recebeu sete pontos na cabeça, efetuou registro da ocorrência na Delegacia de Crimes Contra a Vida (DCCV, Laranjeiras-Serra) e o exame de corpo de delito no Departamento Médico Legal (Vitória), ainda na quinta-feira (30/7), dia do crime.

No final tarde, ao retornar para casa, Fabrício Ribeiro constatou que a marmoraria continuava a funcionar plenamente. Por volta das 21h, amigos o convenceram do grande risco que era a permanência no local. Acabou seguindo para outros dois bairros da cidade durante quatro dias.

Intimidação e ameaças

No mesmo dia do crime, a marmoraria clandestina seguiu com seu funcionamento normal, mas acrescido com explosões de bombas de festim, gritos de ameaças e circulação de muita gente no seu entorno. O objetivo foi de intimidação. Na sexta-feira (31/7), o funcionamento chegou a ser suspenso, mas retornou nos dias seguintes).

Na sexta-feira, acompanhado de uma advogada, o jornalista esteve novamente na DCCV para registrar a continuidade das ameaças. O delegado acrescentou o registro e orientou acionar a Polícia Militar, através do 190, sobre as ameaças. Fabrício Ribeiro informou que isso já havia sido feito, mas que o atendente do 190 dissera para procurar a delegacia.

Através de uma fonte da Polícia Civil, foi levantado que o agressor, Alessandro Carlos Silva Laranja, já tem uma ficha policial com sete ocorrências, entre as quais lesões e ameaças. Com a continuidade do clima de intimidação, ameaças e prosseguimento do funcionamento da marmoraria clandestina – cujo proprietário e agressor tem sido visto normalmente transitando pelo bairro –, por medida de segurança, o jornalista saiu do estado na quarta-feira (4/8).

Processado ou morto

Desde o início dos anos 2000, Fabrício Ribeiro Pimenta vem cobrindo, sistematicamente, irregularidades e crimes na área ambiental estadual, principalmente no município da Serra, ES, que é o mais industrializado do estado. Várias empresas e até obras públicas foram denunciadas, o que acabou acarretando fiscalizações, multas, embargos e até prejuízos financeiros para degradadores que, sob pressão, acabavam sendo obrigados a investir em gestão ambiental e no cumprimento da legislação.

Entre as denúncias do jornalista figuraram funcionamentos irregulares de pedreiras, areais, aterros sanitários (lixões), sistemas de tratamento de água e de esgoto, descartes de resíduos industriais em áreas de preservação, invasões de áreas de preservação, desmatamentos, negligência e até cumplicidade de órgãos do Poder Público, entre outros.

Todos esses anos de trabalhos e denúncias acabaram por criar problemas e tensões para Fabrício Ribeiro que, ocasionalmente, recebia insinuações e mesmo ameaças, tanto de ser processado, como também de ser morto. O mesmo nunca levou tais questões a sério.

Entre os veículos do estado que o jornalista atuou estão o jornal semanário Tempo Novo, da Serra, e o jornal diário A Tribuna.

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