Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CADERNO DA CIDADANIA > LEI DO CANGAÇO

Jornalista espancado por dono de jornal

25/01/2005 na edição 313

O jornalista Lúcio Flávio Pinto, 54 anos, editor do Jornal Pessoal, do Pará, foi brutalmente agredido na sexta-feira (21/1) por Ronaldo Maiorana, diretor do grupo que edita o diário O Liberal. Na presença de muitas testemunhas, num restaurante de Belém, o empresário teve ajuda de dois seguranças – na verdade policiais militares contratados na função de capangas – para espancar o jornalista e alguns de seus companheiros de mesa. A agressão foi seguida de ameaças de morte, num episódio que lembra aos brasileiros a fragilidade de nossa democracia: continuam em vigor no país algumas práticas da ditadura e, pior, o uso da força na solução de conflitos. No Pará, esta é uma rotina obstinada, seja no campo ou na cidade, entre proprietários de terra ou de jornais, para letrados e iletrados.

O Diário do Pará [ver texto nesta rubrica] identifica no ataque uma retaliação ao artigo ‘O rei da quitanda’ (www.amazonia.org.br/opiniao/artigo_detail.cfm?id=143080), que Lúcio Flávio publicou na edição de seu Jornal Pessoal da primeira quinzena de janeiro. No artigo o jornalista condena, como sempre fez, o uso antiético do poder da mídia pelo presidente-executivo do Grupo Liberal, Rômulo Maiorana Junior, irmão mais velho de Ronaldo Maiorana. ‘Ronaldo gritava que ia me matar, senão me matasse ali naquele momento seria em outro lugar, mas que eu nunca mais iria escrever sobre a família dele’, contou Lúcio Flávio em entrevista ao sítio Amazônia.org.br [ver texto seguinte].

Pai de dois filhos, Ronaldo Maiorana tem 36 anos e é formado em Jornalismo, afirmam vários textos sobre ele na internet – muitos deles publicados em seus próprios veículos. Exerce o cargo de diretor e editor-corporativo de O Liberal, o jornal da família Maiorana. Seu diário é filiado à Associação Nacional de Jornais (www.anj.org.br/), cuja ‘Missão’ prega, no primeiro parágrafo:

‘Defender a liberdade de expressão, do pensamento e da propaganda, o funcionamento sem restrições da imprensa, observados os princípios de responsabilidade, e lutar pela defesa dos direitos humanos, os valores da democracia representativa e a livre iniciativa.’

Como associado, Ronaldo Maiorana já moderou mesa de debate em simpósio da entidade. Portanto, conhece o protocolo do ofício – pode-se dizer que nasceu nele, como herdeiro de Rômulo Maiorana. No site da ANJ seu comportamento ainda não merecera registro no domingo (23/1). Na Associação Brasileira de Imprensa também não, mas seu presidente, Maurício Azedo, disse ao Diário do Pará, na própria sexta-feira, que a reação do empresário-jornalista era ‘típica de intolerância’. Para a Federação Nacional dos Jornalistas, foi um ato ‘bárbaro e deplorável’. Segundo o vice-presidente da Fenaj, Fred Ghedini, ‘quem age ou reage desta forma é uma ameaça à sociedade’, informou o site O Jornalista (www.ojornalista.com.br/).

‘Quando o negócio da informação se reduz a uma quitanda, o poder jornalístico se torna uma fonte de poder pessoal’, escreveu Lúcio Flávio em seu artigo do Jornal Pessoal. Quando o dono de um jornal espanca um jornalista crítico, a liberdade de imprensa está à mercê da lei do cangaço.

Cobertura

A imprensa do Sul do país demorou para dar-se conta da gravidade do fato. Até terça-feira (25/1), apenas o jornal eletrônico Último Segundo (www.ultimosegundo.com.br) havia destacado o assunto, em matérias sucessivas e bem-apuradas. O sítio Amazônia (www.amazonia.org.br) entrou na história logo na primeira hora. E foi só na terça que Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e O Globo acordaram para o caso, ocorrido quatro dias antes: o primeiro deu uma nota de 210 palavras, o segundo um pirulito de um parágrafo e, o último, a melhor matéria do dia, assinada pelo repórter Ismael Machado.

A estranhar o silêncio da TV Globo, cujos telejornais de rede sequer mencionaram o episódio da agressão. Convém lembrar que a TV Liberal, controlada pela família do agressor do jornalista Lúcio Flávio Pinto, é afiliada da Rede Globo. Seria pedir demais que telejornais locais noticiassem o caso. (Luiz Egypto e Marinilda Carvalho)

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/04/2011 Ana Lucia Schmidt

    Hoje me deparei com uma notícia estarrecedora:
    http://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/ex-moradora-de-rua-comeca-vida-nova-em-casa-da-cohab/22653.
    Nessa matéria que tratava de pessoas beneficiadas com moradias ‘dadas’ pela prefeitura, toda a vida de uma cidadã foi exposta , com riqueza de detalhes de sua vida pregressa , como drogadição, abuso sexual na infância, contaminação pelo HIV… Muito mais me chocou, porque conheço pessoalmente a moça em questão, por eu ser sua médica. Não sei até que ponto ela tem noção do que foi exposto, se concordava com isso, e principalmente, qual o intuito desse tipo matéria de um site oficial, a não ser o cunho de um sensacionalismo chulo, para chocar duramente outros cidadãos, mostrando a ‘prefeitura-boazinha-que dá casas-para-pobres coitados-viciados em crack-aidéticos ‘ etc.
    O que pode se rfeito??? Quem se responsabiliza na hora em que os vizinhos começarem a discriminá-la? Ou à sua filha, agora uma recém- nascida? Sim, porque até fotos com a bebê de 2 meses aparece…Escrevi para a assessoria de imprensa do tal site, aguardo resposta.

  2. Comentou em 28/01/2005 Vanilce Santi

    A constatação da inércia da imprensa expressa por Luiz Egypto e Marinilda Carvalho conferem a importância desses fatos. Sugiro levar pauta para debate televisivo.
    Abrir foco sobre essas causas e reações para evitar essas deliberadas, ou novas ações.

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