Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CADERNO DA CIDADANIA > PAQUISTÃO

Jornalista italiano seqüestrado, depois libertado 

Por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) em 20/03/2007 na edição 425

Daniele Mastrogiacomo, apesar de italiano, nasceu em Karachi (1954), pois seu pai trabalhava no Paquistão como engenheiro. Muito cedo, em 1980, começou a trabalhar como repórter. Enviado especial ao Afeganistão pelo jornal La Repubblica, depois de fazer o programa televiso do seu jornal na segunda-feira, 05/03, não foi mais visto. No dia seguinte, soube-se que havia sido seqüestrado pelos talibãs.


Corre o boato de que, nas áreas de tensão do Oriente Médio, há uma preferência em seqüestrar italianos, pois o governo paga o resgate sem discutir. Neste momento pouco se sabe sobre Mastrogiacomo, embora tenha aparecido mais de uma vez em vídeo para dizer que ‘está bem’. Bem mesmo não pode estar, uma vez que foi seqüestrado, mas permanece vivo, apesar de seu motorista ter sido decapitado sob acusação de espionagem. O prazo dado pelos talibãs esgotou-se no sábado (17/03), mas resolveram prolongá-lo. A situação até a madrugada de sábado, ainda era nebulosa.


Correspondente de guerra


Daniele tem um grande ‘defeito’, o de querer ir ao ‘local’. Um vício incurável dos verdadeiros repórteres. Os jornalistas que fazem suas matérias vendo-as na televisão de um quarto de hotel – assim como Utrillo pintava suas paisagens tirando-as de cartões postais que sua mãe lhe levava – consideram ir ao ‘local’ um pecado imperdoável. Daniele tem o estilo de procurar aquilo que não foi enquadrado pelas câmeras e por isso foi à província de Halmad. Queria encontrar os talibãs que ninguém encontrara. Agora, muitos colegas dizem que estavam para ir com ele. Mas ele estava só. Os verdadeiros jornalista que vão ao ‘local’, normalmente estão sós.


Estas são as características do verdadeiro correspondente de guerra e existem desde o advento da imprensa jornalística. Até 1840, era algo sem a magia atual. Henry Crabb Robinson (1775/1867), correspondente do Times, seguiu a campanha napoleônica no Elba em 1807, mas suas matérias levavam mais de três semanas para chegar ao destino. O leitor recebia notícias já velhas e, ainda mais, percebia que eram testemunhos indiretos.


A batalha de Balaclava


O primeiro verdadeiro correspondente de guerra foi o irlandês William Howard Russel (1821/1907), um homenzarrão tosco, barbudo, grosseiro, com a voz de barítono e um gosto todo especial por charutos e conhaque, não importando a origem ou a marca. Ele foi o primeiro a descrever a verdade e os horrores da guerra, que considerava um inferno. Um inferno no qual se sentia em seu habitat.


Seu trabalho, que é o tronco da árvore genealógica da família dos correspondentes de guerra, não teria sido possível sem o telégrafo (inventado em 1840). Tornou-se emblemática sua descrição da batalha de Balaclava, durante a guerra da Criméia: ‘Os cavaleiros avançam em duas linhas, aumentam o galope ao aproximar-se do inimigo… A mil e duzentas jardas, a inteira linha inimiga, de trinta bocas de ferro, um dilúvio de fumaça e chamas através do qual assoviam projéteis mortais…’


‘Basta inclinar-se’


Com pouco mais de trinta anos de idade, ele contava o sofrimento dos soldados nessa guerra, as condições dos feridos, a brutalidade dos cirurgiões, o que incitou a indignação e os protestos populares. Com ele nasceu o conflito entre a verdade e a segurança nacional, que ainda hoje persiste com os jornalistas que atuam nessa área. Suas denúncias contribuíram para a primeira intervenção da Cruz Vermelha nos campos de batalha.


A história de Russel, exemplar, é prova de como os correspondentes de guerra foram sempre testemunhas ‘perturbadoras’. Ele morreu com 86 anos com a Royal Victoriam Order sobre a tampa de seu caixão. Quando o condecorou, o rei Eduardo VII disse-lhe: ‘Não precisa ajoelhar, Bill, basta inclinar-se.’ Essa familiaridade entre o jornalista e o poder era nova e ele a conquistara já na velhice, junto com o reumatismo.


Correspondente de guerra não é uma profissão, e sim uma tarefa, muitas vezes excepcional, confiada a um jornalista e, nas grandes ocasiões, a escritores célebres. Rudyard Kipling, por exemplo, já Prêmio Nobel de Literatura, contou a batalha de Jutland em 1916, num texto que, passados mais de 90 anos, continua atual.


***


Em tempo – Seqüestrado há 14 dias, o enviado especial do jornal la Repubblica, Daniele Mastrogicomo, foi finalmente liberado na segunda-feira (19/3). O presidente do Conselho de Ministros italiano, Romano Prodi, anunciou o fato às 15h10 (11h10 Brasília). O jornalista foi trocado por cinco prisioneiros talibãs. Como acontece nos filmes, seus raptores ficaram numa das margens de um rio, os negociadores na outra e no meio da ponte foi feita a troca. O jornalista está em observação num hospital de campanha. Há ainda alguma coisa nebulosa, pois seu interprete não foi liberado. Ao se ver livre, as primeiras palavra de Mastrogiacomo foram: ‘Percebi que queriam me matar’.

******

Jornalista

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem