Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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CADERNO DA CIDADANIA >

Jornalista processado quer voltar à Venezuela

Por Samy Adghirni em 09/06/2015 na edição 854

Dono do tradicional jornal venezuelano “El Nacional”, Miguel Henrique Otero estava nos EUA em abril quando soube que era processado por um nome central do chavismo: Diosdado Cabello, presidente do Parlamento.

Cabello acusa Otero e outros 21 executivos da mídia local de difamação por terem repercutido uma reportagem que o liga ao narcotráfico.

Publicado em janeiro pelo jornal espanhol “ABC”, o texto cita um ex-guarda-costas de Cabello que o acusa de comandar um cartel dentro das Forças Armadas. O líder do Parlamento, que nega as acusações, ameaça processar também jornais estrangeiros –além do “ABC”, o “Wall Street Journal”, dos EUA.

Em entrevista à Folha de S.Paulo por telefone desde Miami, Otero se disse determinado a voltar à Venezuela, apesar do risco de prisão. Ele acusou a Justiça de submissão ao Executivo e negou que o “El Nacional” se alinhe à oposição.

O senhor vai mesmo voltar à Venezuela?

Miguel Otero – Sim, voltarei dentro de algumas semanas. A data depende do que meus advogados disserem e de minha movimentação no exterior. Denunciei o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos e participei da assembleia da Associação Mundial de Jornais e Publishers de Jornais [nos EUA]. Em breve irei à União Europeia. Quero potencializar a visibilidade do caso para aumentar o custo político para o governo de atacar defensores da democracia.

Não teme ser preso?

M.O. – É um risco que preciso correr. Tenho que voltar para administrar o jornal. Mas sei que posso acabar indiciado por traição à pátria, algo mais perigoso que difamação.

Qual é a sua situação jurídica?

M.O. – A presidente do Tribunal Supremo de Justiça [Gladys Gutiérrez Alvarado] decretou que Cabello é inocente e que atacá-lo é atacar a pátria. Nos processos iniciados por gente do governo, as sentenças já vêm embutidas nas medidas cautelares. As medidas adotadas pelo juiz [neste caso, proibição de sair do país, obrigação de se apresentar a um tribunal semanalmente e bloqueio de contas] já são uma sentença. O mesmo ocorre com a criminalização da dissidência. A detenção do [ex-prefeito de Chacao] Leopoldo López e dos demais presos políticos é ilegal. O Executivo usa os tribunais como bem entende.

Em que situação se encontra o “El Nacional”?

M.O. – Precária. O governo não nos permite acessar dólares [usando a taxa preferencial] para importar papel. Sobrevivemos graças à solidariedade de outros jornais da América Latina. Nosso estoque de papel não passa de três meses. Aliviamos com soluções pontuais, como cortar gastos e reduzir as páginas ao mínimo.

O governo deixou de publicar anúncios nas nossas páginas, e as empresas privadas estão em crise, o que nos deixa num grande aperto. Mas continuamos resistindo. Somos o único jornal independente em circulação no país. Todos os outros foram comprados ou cooptados.

O senhor considera o “El Nacional” independente? O jornal não se alinha à oposição?

M.O. – Somos um jornal independente. Fazemos oposição a este governo como fizemos oposição a outros governos no passado. É uma posição de princípio. Somos críticos a qualquer governo.

Foi um erro apoiar o golpe de Estado de 2002 contra o então presidente Hugo Chávez?

M.O. – Ninguém apoiou golpe nenhum. A palavra golpe nem existe [neste caso]. Apenas apoiamos a rebelião que surgiu naquele momento. O que houve foi um vazio de poder, nas palavras da Justiça.

Como o sr. vê a posição do Brasil em relação à Venezuela?

M.O. – É uma posição ambígua, fraca. Mas mudanças interessantes estão em curso. O Brasil parece mais sensível à defesa da democracia.

***

Samy Adghirni, da Folha de S.Paulo, em Caracas

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