Domingo, 26 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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CADERNO DA CIDADANIA >

Jornalista se esconde do terror

Por Wladir Dupont em 10/03/2009 na edição 528

Pouco tiveram a comemorar as jornalistas mexicanas no passado Dia Internacional da Mulher. Depois do rumoroso caso da experiente escritora e colunista Lydia Cacho, há quatro anos perseguida dia e noite por suas denúncias contra uma extensa rede de pedofilia no país, com base em Cancún, assunto já relatado por este Observatório (ver ‘Um exemplo de jornalismo corajoso‘), agora vem à luz o drama de Ana Lilia Pérez, repórter da revista Contralínea, escondida há um mês e meio como única forma de evitar a prisão e livrar-se, por enquanto, da macabra condição de jurada de morte – ela e sua família. Ana escapou a tempo, mas o diretor da publicação, Miguel Badillo, ficou detido alguns dias; no fundo, um bom susto de advertência. Os dois respondem a processos por danos morais por parte de empresários do gás.

Há um ano, a revista, de acentuada linha investigativa, vinha publicando, como resultado das pacientes e sólidas investigações da repórter, escandalosos episódios de corrupção na gigantesca estatal do petróleo, a Pemex, reduto histórico, aliás, de surtida malandragem administrativa e financeira, começando com a famosa venta de plazas, ou, em bom português, venda de postos e cargos na empresa. As denúncias da revista envolvem empresários (clientes e fornecedores), graduados executivos da empresa e, outra tradição mexicana, bem à brasileira, diga-se de passagem, políticos de altíssimo nível. Sobrou até para o atual presidente da República, Felipe Calderón, atingido por resquícios da época em que foi ministro de Energia no governo anterior, de Vicente Fox.

Una pobre reportera

Jogada a podridão no ventilador, os acusados não tardaram em sair à caça do diretor da revista, Badillo, ex-repórter político do jornal El Universal, jornalista sério e competente, pressionando-o, com as ameaças de praxe – acabar com sua raça, jogá-lo nas piores prisões mexicanas, tascar-lhe em cima processos intermináveis, fechar Contralínea – para parar com a série de matérias. Dores de cabeça teve também a jovem repórter Ana Lilia, dez anos de profissão, seis na revista, que, mais amedrontada e acuada, decidiu sumir do mapa, na certeza de que seus inimigos não brincam em serviço – como já fartamente demonstrado em casos anteriores.

Enquanto seus advogados se empenham em ajudá-la impetrando habeas corpus, vão encontrando nos arquivos oficiais os registros das incontáveis vezes em que a jornalista, pressionada, notificou as autoridades judiciais, a recém-criada Promotoria de Defesa dos Jornalistas, o governo e até o Congresso mexicano, solicitando proteção à sua pessoa, recurso de qualquer cidadão ameaçado pelo Estado ou por particulares. Nunca recebeu resposta alguma de seus pedidos, mas soube depois que foi chamada pelos acusados, às gargalhadas, de una pobre reportera (uma coitada) por ter recusado fazer, em jatinhos privados, passeios aos Estados Unidos e, no caminho, compras de luxo nos shoppings locais. Cortesia dos de cima, mas em troca, por favor, !ya callate!

Uma voz escondida

Embora seja secreto o seu paradeiro (nem a família sabe onde ela se oculta), Ana Lilia continua apavorada com a possibilidade de ser encontrada, mas sabe, como boa repórter, que precisa fazer muito barulho para evitar o pior, e por isso tem dado corajosas entrevistas aos melhores jornalistas do rádio mexicano – profissionais de renome, como Carmen Aristegui, Miguel Ángel Granados Chapa, Ciro Gómez Leyva, Sergio Sarmiento e Joaquín López Dóriga. A todos, ela narra o que tem enfrentado desde que topou pegar uma pauta tão explosiva, sobretudo conhecendo a forte repressão sofrida pelos colegas de ofício por setores do governo e dos ferozes cappi do narcotráfico. Repressão crescente, assustadora, num processo que mancha e debilita a conquista, nos últimos dez anos, de um satisfatório clima de liberdade de expressão no país.

O que ela conta no rádio faz também circular numa carta aberta ao povo mexicano, lida em parques públicos, para quem quiser ouvir. E suas palavras são bem mais eloqüentes que os chatos detalhes burocráticos nas matérias contra a Pemex e os corruptos de dentro e os de fora, com minutas de contratos duvidosos entre a estatal e seus fornecedores e clientes, além de textos de grampos de conversa entre as partes:

‘… Faz dez anos que exerço o jornalismo. Tenho desempenhado minha profissão com estrito apego à ética, sem outro interesse que o de informar a sociedade. Não matei, não roubei, não violei lei alguma. Minha única arma é a palavra, e com ela fiz a única coisa que sei fazer: jornalismo, honrosa profissão com a qual me sustento com um salário ganho de forma decorosa, sem pretensões de enriquecimento, como me ofereceram os empresários e funcionários que investiguei. E sabem por que eu os investiguei? Porque é direito de todas as mexicanas e mexicanos conhecer o que se faz com sua empresa, a Pemex, cujos lucros sustentam a economia deste país e com os quais, poucos, muito poucos, se fizeram imensamente ricos…’

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Jornalista e escritor, ex-correspondente de Veja no México e América Central

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