Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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CADERNO DA CIDADANIA >

Lições de cidadania em São Bento do Una

Por Luiz Carlos Santos Lopes em 21/04/2009 na edição 534

No longínquo sertão pernambucano existe uma cidadezinha chamada São Bento do Una. Distante 204 km de Recife, com uma população estimada em 47.230 habitantes, segundo dados levantados pelo IBGE em 2007, a pequena comunidade foi objeto de uma reportagem no Jornal da Manhã (TV Globo, 17/04/2009) por causa de um estranho hábito dos moradores do lugar. Por se tratar de um comportamento raro entre o povo brasileiro, o fato despertou o faro jornalístico da equipe de profissionais da emissora e virou notícia. No início, as imagens lembravam alguma matéria sobre a seca nordestina. Com o seu andamento, porém, o que se viu foi de emocionar. O estranho hábito daquela gente humilde, perdida no interior de Pernambuco, com pouco estudo, era, tão somente, a sua consciência política.

Lá, na pequenina São Bento do Una, a fiscalização da atividade política é uma prática comum à maioria dos homens e mulheres do lugar. Todas as noites, grande número deles vai assistir às sessões da Câmara de Vereadores para acompanhar de perto o que o seu representante faz, como e o que vota, sempre cobrando as promessas de campanha. Os vereadores, coitados, desacostumados, se sentiram incomodados e quiseram se livrar daquela platéia exigente. Para tanto, apresentaram uma proposta para mudar o horário dos trabalhos legislativos para o turno matutino, pensando que em tal horário aqueles chatos não iriam vigiá-los. Mas se deram mal. No dia da votação, lá estavam os inoportunos ‘fiscais’, lotando o plenário da Câmara, exigindo que as sessões continuassem de noite porque de dia eles tinham o que fazer e lhes faltava tempo para acompanhar os estafantes trabalhos dos ilustres camaristas.

Nova consciência cidadã

Que exemplo para o resto do Brasil! Um país em que o desencanto com a política transforma o cidadão num ser apático, sem entender por que o Congresso Nacional não cumpre as suas funções constitucionais, pouco se importando com a sorte do povo brasileiro, sem entender também por que os congressistas se preocupam, sim, com os seus próprios interesses, para os quais legislam com desenvoltura. De quem é a culpa pelo mundo político brasileiro ter se desconectado completamente dos seus representados? Da apatia, do desinteresse e da cegueira política do eleitor que ‘não ouve, não fala e não vê’, como diz Bertolt Brecht (1898-1956). Quem não tem consciência política, não se interessa em escolher um nome certo para votar e, não raro, vende o voto. Até mesmo o eleitor mais esclarecido não se preocupa em cobrar resultados, vive a amaldiçoar a política e os políticos e, com freqüência, diz: ‘De que adianta votar, se tudo vai continuar na mesma?’

Este tipo de descolamento em nada contribui para solucionar os problemas que afligem o povo. O desinteresse por política é que leva o brasileiro a viver a realidade dura em que vive: empobrecimento assustador, desemprego crescente, salário mínimo vergonhoso, aposentados e pensionistas do INSS com pires na mão, funcionalismo público humilhado, falta de investimentos em educação, saúde, transporte, segurança, além de outras mazelas. É justamente a falta de consciência política do eleitor que leva deputados e senadores a fazerem farras com o dinheiro público – tão noticiadas na mídia diariamente. Alheio, o eleitor não percebe que esse tipo de político é o mesmo que reaparece em tempos de eleições com as mesmas promessas, as mesmas encenações, num círculo vicioso e interminável, gerando entre eles um profundo fosso de desalento e descrédito.

Fiscalizar, cobrar, e exigir ações moralizadoras do seu representante no Congresso Nacional, nas Assembléias Legislativas e nas Câmaras de Vereadores é uma obrigação de cada cidadão, se quiser deixar de ser refém dos políticos desonestos, dissociados da realidade que os cerca. Como é impossível ao povo assistir às sessões de todas as casas legislativas brasileiras, há outros meios que podem ajudá-lo – as novas tecnologias da informação. Os canais de televisão da Câmara e do Senado, por exemplo. As duas emissoras não são as salvadoras da pátria, mas servem para o eleitor enxergar quem é quem e se precaver contra as arbitrariedades do próprio poder Legislativo. Contra o caos que se estabeleceu no Brasil, se o eleitor fiscalizar as ações de cada político a quem deu seu voto já é bom começo. Que São Bento do Una sirva de incentivo para uma nova consciência cidadã no Brasil.

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Jornalista, Salvador, BA

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