Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > LIBERDADE DE IMPRENSA

Lúcio Flávio Pinto premiado

Por Comitê para a Proteção dos Jornalistas em 18/10/2005 na edição 351

Nova York, 17 de outubro de 2005 – O Comitê para a Proteção dos Jornalistas vai outorgar seu Prêmio Internacional da Liberdade de Imprensa a três jornalistas e uma advogada de mídia – do Brasil, da China, do Uzbequistão e do Zimbábue, porque enfrentaram espancamentos, ameaças, intimidações e prisão por seu trabalho.


Os prêmios serão oferecidos no 15º jantar anual de premiação do CPJ, no Waldorf-Astoria de Nova York, em 22 de novembro. Aqui estão os laureados:


** Galima Bukharbaeva, ex-correspondente no Uzbequistão do Institute for War & Peace Reporting (Instituto de Informação para a Guerra e a Paz), arriscou a vida cobrindo o assassinato, pelas tropas do governo, de centenas de manifestantes na cidade de Andijan, em maio. Bukharbaeva, agora exilada nos Estados Unidos, enfrenta processos criminais por suas reportagens sobre a crise de Andijan, a tortura policial e a repressão a ativistas islâmicos.


** Beatrice Mtetwa, advogada especializada em mídia, é uma incansável defensora da liberdade de imprensa no Zimbábue, onde a lei é usada como arma contra jornalistas independentes. Apesar de ter sido presa e agredida por seu trabalho, ela continua defendendo jornalistas correndo grande risco pessoal. Ela conseguiu a libertação de vários jornalistas que enfrentavam acusações criminais, incluindo dois repórteres londrinos presos durante a fortemente controlada eleição presidencial em abril.


** Lúcio Flávio Pinto, proprietário e editor da publicação quinzenal Jornal Pessoal, tem corajosamente informado sobre o tráfico de drogas, a devastação ambiental e a corrupção política e empresarial na vasta e remota Região Amazônica brasileira. Fisicamente agredido e ameaçado de morte, ele também enfrenta uma constante enxurrada de ações civis e criminais com o propósito de silenciá-lo.


** Shi Tao é jornalista free-lance para publicações da internet e editor do Dangdai Shang Bao, um jornal de economia chinês. Seus ensaios sobre reforma política, publicados em sites de notícias fora da China, atraíram a ira das autoridades. Cumprindo atualmente uma pena de 10 anos de prisão por ‘vazar segredos de Estado para o exterior’, a trajetória de Shi realça os intensos esforços chineses para controlar a informação na Internet.


O CPJ também vai homenagear o falecido âncora da ABC News Peter Jennings com o Burton Benjamin Memorial Award por toda uma vida de renomadas realizações. Jennings soube do prêmio poucas semanas antes de sua morte, em agosto. Durante 41 anos como correspondente e âncora, Jennings cobriu quase todos os momentos históricos marcantes em cada canto do mundo, obtendo reputação de independência e excelência.


‘Esses indivíduos nos inspiram a todos’, disse Paul Steiger, presidente da diretoria do CPJ e editor-executivo de The Wall Street Journal. ‘Enfrentando grandes perigos, eles mostraram extraordinária bravura, tenacidade, e dedicação em defender o livre trânsito de informações’.


A diretora-executiva do CPJ, Ann Cooper, disse: ‘Todos os premiados arriscaram suas vidas e sua liberdade para contar a verdade sobre políticos, empresários e crime. Por seu trabalho, esses jornalistas foram atacados de várias maneiras por pessoas poderosas determinadas a esconder suas ações’.


O jantar anual de premiação será presidido por Leslie Moonves, presidente da CBS. Clarence Page, ganhador do Prêmio Pulitzer, colunista do Chicago Tribune e membro da diretoria do CPJ, será o anfitrião da cerimônia de premiação.


Biografia dos vencedores


** Galima Bukharbaeva atraiu a atenção internacional para as autoridades policiais do governo uzbeque, conquistando a reputação de uma das mais ousadas jornalistas da Ásia Central. O trabalho dela para o Instituto de Informação para a Guerra e a Paz, com sede em Londres, foi focado em questões sensíveis como a tortura policial, a repressão a ativistas islâmicos e os abusos, patrocinados pelo Estado, contra ativistas de direitos humanos. Como resultado, ficou sob vigilância policial, teve sua credencial de jornalista negada e foi ameaçada de processo judicial. O governo organizou ‘protestos’ no estilo soviético na capital, Tashkent, denunciando-a como traidora.


Galima foi uma das poucas jornalistas a testemunhar e informar em 13 de maio o massacre na cidade de Andijan, no nordeste do Uzbequistão. Uma bala atravessou sua mochila, perfurando seu notebook e seu passe de imprensa quando as tropas abriram fogo contra os manifestantes. Como resultado da reportagem, a mídia estatal a acusou de ‘conduzir uma guerra de informação aberta contra o Estado’. Enfrentando represálias governamentais, ela deixou o país e vive em Nova York, onde está se graduando em Jornalismo pela Universidade de Columbia.


** Beatrice Mtetwa, proeminente advogada especializada em mídia, defendeu vários jornalistas no Zimbábue detidos e molestados. Num país onde a lei é usada como arma contra jornalistas independentes, defendeu jornalistas e a liberdade de expressão, tudo sob grande risco pessoal. Neste ano, obteve a absolvição de Toby Harnden e Julian Simmonds, jornalistas do The Sunday Telegraph de Londres, presos do lado de fora de um centro eleitoral no Zimbábue durante a eleição presidencial de abril. O governo do presidente Robert Mugabe, que restringiu severamente a cobertura independente da votação, acusou-os de trabalharem sem credenciamento.


Beatrice trabalhou para o Daily News, único jornal independente do Zimbábue até ser fechado pelo governo em 2003. Ela continua a defender os jornalistas do diário, muitos dos quais enfrentam acusações criminais por seu trabalho. Em outubro de 2003, foi presa sob a alegação de dirigir embriagada. Ela foi levada à delegacia policial, detida por três horas, agredida e sufocada, e então libertada sem acusação. Apesar de ficar impossibilitada de falar por dois dias em conseqüência da agressão, ela retornou à delegacia de polícia no terceiro dia, com provas médicas em mãos, para prestar queixa.


** Lúcio Flávio Pinto trabalha na isolada Região Amazônica do Brasil, um dos locais mais perigosos da América Latina. Como proprietário e editor do Jornal Pessoal, no estado do Pará , norte do país, cobre uma área que é quase duas vezes o tamanho do Texas e é o lar de fazendeiros corruptos e especuladores de terra. Ele tem informado sobre tráfico de drogas, devastação ambiental e corrupção política e empresarial. Em troca, tem sido ameaçado e submetido a uma onda de processos espúrios. Um poderoso proprietário de mídia local, que também é político, agrediu Lúcio Flávio num restaurante em janeiro, com socos e chutes. Os guarda-costas do agressor deram cobertura ao ataque.


Escrevendo colunas e dirigindo coberturas em seu pequeno jornal quinzenal, desafiou o poder de proeminente grupo de mídia. Em retaliação, os diretores da empresa lançaram uma enxurrada de processos legais contra ele. Juizes, políticos e empresários também entraram com ações civis e criminais contra o jornalista, que já expôs a grilagem de terra rica em madeira nobre por corporações, assim como a corrupção envolvendo títulos de terra.


** Shi Tao está cumprindo 10 anos de prisão na China sob a acusação de ‘vazar segredos de Estado para o exterior’. Trabalhava como editor do Dangdai Shang Bao (Notícias de Comércio Contemporâneo), um jornal da cidade de Xangsha, na província de Hunan. Ele também escreveu ensaios solicitando reformas políticas que foram postados em sites de notícia estrangeiros que são proibidos na China. Foi preso em novembro de 2004 por colocar na internet notas sobre resolução do Departamento de Propaganda da China que instruía a mídia na cobertura do 15º aniversário da repressão militar na Praça Tiananmen. O recurso de Shi foi rejeitado em junho. A mãe dele solicitou a revisão do recurso, alegando ‘sérios defeitos processuais’.


A prisão de Shi realça os intensos esforços do governo chinês para controlar a internet, a única alternativa à mídia oficial chinesa. O governo monitora o conteúdo da rede bloqueando sites, exigindo registro de identidade e solicitando auxílio de companhias que fazem negócios na China. Neste caso, a gigante norte-americana de internet Yahoo! ajudou autoridades a identificar Shi através de sua conta de e-mail. Metade dos 42 jornalistas encarcerados na China até o fim de 2004 foi presa pelo trabalho distribuído na internet. Muitos escreveram para sites de língua chinesa hospedados no exterior.


Burton Benjamin Memorial Award


O CPJ também vai homenagear o falecido Peter Jennings, âncora e editor-sênior do World News Tonight da rede ABC. A carreira de Jennings foi entrelaçada aos maiores eventos das últimas quatro décadas. Ele informou sobre a construção do Muro de Berlin na década de 1960 e sua demolição em 1989. Estabeleceu o primeiro escritório da televisão americana no mundo árabe, em 1968, e utilizou seu conhecimento sobre a região para cobrir as duas guerras do Iraque. Informou sobre o movimento dos direitos civis no sul dos Estados Unidos na década de 1960 e sobre a luta pela igualdade na África do Sul nos anos 70.


Jennings foi um dos primeiros repórteres a ir para o Vietnã nos anos 60, e cobriu a Bósnia nos 80. Ele estava em cena quando o movimento político independente Solidariedade nasceu num estaleiro polonês, e esteve na Hungria, na Tchecoslováquia, na Alemanha Oriental, Romênia e na União Soviética para registrar a queda do comunismo.


Na semana que se seguiu ao ataque de 11 de setembro de 2001, Jennings ancorou mais de 60 horas de cobertura noticiosa, proporcionando uma voz segura e tranqüilizadora durante a crise. Ele também conquistou a reputação de abordar assuntos complexos. Sua série especial, Peter Jennings Reporting, teve foco em assuntos internacionais vitais como as tensas relações entre Índia e Paquistão, a crise no Haiti e o comércio de drogas nas Américas Central e do Sul. Ele também abordou importantes questões domésticas, como o aborto, o controle de armas e a atenção à saúde. Jennings foi nomeado âncora e editor sênior do World News Tonight em 1983. Em mais de 20 anos no cargo, foi homenageado com quase todos os maiores prêmios concedidos a jornalistas televisivos.


O Burton Benjamin Memorial Award é concedido a personalidades cujas vidas sejam exemplo de realizações na causa da liberdade de imprensa. Seu nome homenageia o falecido produtor-sênior da CBS News e ex-presidente do CPJ, falecido em 1988.


Informações sobre o jantar

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O CPJ é uma organização independente, sem fins lucrativos, que se dedica a defender a liberdade de imprensa em todo o mundo

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