Sábado, 17 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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CADERNO DA CIDADANIA >

Marcelo Beraba

15/08/2006 na edição 394

‘O advogado João Vicente Lavieri escreve para contar o drama que viveu por confiar numa informação do ‘Guia da Folha’, o ‘roteiro mais completo de São Paulo’ encartado às sextas na edição que circula na Grande São Paulo.

Lavieri se locomove em cadeira de roda. Decidiu jantar fora e consultou o ‘Guia’ para escolher um restaurante preparado para receber pessoas como ele, com dificuldades de locomoção. Um dos gráficos usados pelo jornal é o Símbolo Internacional de Acesso, que informa que um estabelecimento possui equipamentos como rampas, banheiros adaptados e outros recursos exigidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas.

No ‘Guia’, o restaurante escolhido trazia o símbolo, mas não estava preparado, como Lavieri constatou na ‘aventura’ que resumo.

‘Primeiro, para colocarem uma rampa móvel na escada da entrada foi necessário manobrar vários carros para abrir espaço, gerando espera e grande alvoroço. A rampa ficou muito íngreme, exigindo que o manobrista tomasse distância para dar impulso e empurrasse a cadeira com força, o que me deu a sensação desconfortável de montanha russa sem cinto de segurança. Havia um outro degrau, sem rampa, que exigiu que os profissionais habilitados a carregar bandejas me carregassem. O restaurante todo parou para assistir a cena e eu me senti no centro do picadeiro de um circo, sob o olhar atento da platéia, sem desejar estar ali. Entre as mesas não há espaço para a passagem da cadeira de rodas e o garçom que me empurrava precisava pedir aos demais clientes que se apertassem contra as mesas para abrir caminho. Atrás, aos sobressaltos, ia a minha mulher, preocupada com o meu bem estar, dos demais clientes e com a exposição exacerbada a que estávamos sendo submetidos. Depois disso tudo, banheiro adaptado, então, nem pensar.’

O caso narrado por Lavieri é apenas um exemplo e por isso não identifico o restaurante. O ponto é que os dois lados -a Folha e o restaurante- têm responsabilidade num caso como esse que induziu o leitor a uma situação de desconforto e de constrangimento público. A maior parte dos restaurantes indicados semanalmente pela Folha se diz apta a receber deficientes, o que nem sempre é verdade. O mesmo vale para cinemas, teatros, casas de shows e galerias.

A Folha, por sua vez, deveria ser rigorosa na divulgação de informações de serviço. Se tudo no jornalismo está em xeque e é passível de contestação, a prestação de serviços não permite erros. O horário errado de uma sessão de cinema ou a indicação incorreta de um restaurante são desacertos irreversíveis para quem confiou no jornal.

***

‘Como funciona o ‘guia’’’, copyright Folha de S. Paulo, 13/8/06.

A editora do ‘Guia da Folha’, Lulie Macedo, explica como funciona a coleta de informações.

‘Toda a checagem do serviço publicado pelo ‘Guia da Folha’ semanalmente é feita por telefone por uma equipe do Datafolha. Dados sobre o funcionamento de bares, restaurantes e cafés, por exemplo, são fornecidos por seus proprietários ou funcionários. A equipe do ‘Guia’ também costuma fazer visitas periódicas para atualizar conteúdo e corrigir falhas.

Entendemos que o bom jornalismo de serviço deve, além de primar pela informação precisa, estar atento também aos retornos de seus usuários. Apesar de a busca pelo rigor ser o pilar da rotina no caderno, há fatos que escapam ao nosso controle -como um restaurante que fecha de supetão ou uma informação inverídica fornecida no ato da checagem. Isso não quer dizer que o imponderável nos exime da responsabilidade. Por isso, uma das idéias em discussão é a criação de vistorias sistemáticas que complementem a checagem por telefone.

Os leitores que tiverem alguma queixa sobre o serviço publicado pelo ‘Guia’ ou alguma sugestão podem escrever para guia@folha.com.br.’

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‘Dois pesos’’, copyright Folha de S. Paulo, 13/8/06.

A campanha eleitoral segue pobre, tanto sob o ponto de vista político como jornalístico. A melhor contribuição até agora foi a série de entrevistas feita pelo ‘Jornal Nacional’ ao longo da semana com os principais candidatos à Presidência da República.

O desempenho claudicante de todos os candidatos mostrou que os jornalistas William Bonner e Fátima Bernardes estavam mais bem preparados do que os presidenciáveis.

A Folha foi mal nesta cobertura. A diferença de tratamento dado aos candidatos ficou evidenciada nos títulos e nos espaços que reservou para o noticiário de cada entrevista. O jornal começou com uma cobertura pífia e benevolente na Edição São Paulo de terça-feira e terminou com uma cobertura extensa e bastante crítica na sexta. Na terça, o candidato beneficiado pela falta de vigor do jornal foi Geraldo Alckmin, do PSDB; na sexta, o candidato submetido ao rigor do jornalismo foi Lula.

Vou reproduzir os títulos da Folha e de ‘O Globo’ para os relatos das entrevistas de Alckmin e Lula para mostrar duas coisas: como o jornal deu um tratamento diferente para cada candidato, o que resulta na falta de equilíbrio; e como o jornal do Rio acabou sendo mais crítico do que a Folha na avaliação dos candidatos.

Terça-feira: ‘No ‘JN’, Alckmin defende política de segurança e promete baixar IR’ (Folha) e ‘Alckmin erra nos números da educação’ (‘O Globo’). Duas observações em relação ao título da Folha: Alckmin não prometeu baixar o Imposto de Renda no ‘JN’, mas em outro jornal; e o jornal destacou a promessa sem os necessários questionamentos.

Quarta-feira: ‘Lula ensaia temas polêmicos para entrevista na TV Globo’, ‘Após confusão no ‘Jornal Nacional’, tucano ‘cola’ números sobre a educação’ (todos na Folha) e ‘Alckmin insiste no erro sobre Saeb’ (‘O Globo’). Na Folha, portanto, o erro de Alckmin virou ‘confusão’.

Sexta-feira: ‘‘Eu afastei Dirceu e Palocci’, diz Lula, sob pressão no ‘JN´‘ e ‘Em gafe, petista diz que, no país, só o salário cai’ (Folha) e ‘Nervoso, Lula erra em entrevista’ (‘O Globo’).

O erro, evidentemente, não está na edição de sexta-feira, que mostrou que a Folha sabe fazer jornalismo político crítico quando quer. O problema esteve nos outros dias.

A maior parte das reclamações que recebo é de que o jornal trata melhor os candidatos do PSDB do que os do PT. A cobertura das entrevistas ao ‘JN’ dá razão às queixas.

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