Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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CADERNO DA CIDADANIA >

Matem os escravistas

Por Demétrio Magnoli em 03/11/2009 na edição 562

Muniz Sodré é um curioso ‘observador da imprensa’. O método que utiliza no artigo ‘É necessária uma nova Abolição?‘ consiste em estabelecer um pressuposto factual falso para, em seguida, insurgir-se contra a injustiça inexistente.


O pressuposto:




‘Há uma questão atravessada na garganta de grupos empenhados na defesa das políticas afirmativas da cidadania negra. Trata-se de saber por que os jornalões (nome talvez mais palatável do que `grande mídia impressa´) brasileiros não dão voz alguma a quem se manifesta favorável a medidas como a instituição das cotas ou ao Estatuto da Igualdade Racial.’


É mesmo?


A afirmativa não é só dele, nem a pergunta. Escreve Sodré:




‘Foi essa a questão debatida nos dias 14 e 15 de outubro, durante o seminário `Comunicação e Ação Afirmativa: o papel da mídia no debate sobre igualdade racial´, realizado na Associação Brasileira de Imprensa por entidades como Comdedine, Cojira e Seppir.’


Deixo de lado o fato de que ele se refere à Seppir como uma ‘entidade’, quando se trata de um ministério. Anoto, porém, que o governo, por meio da Seppir, acusa os principais jornais do país de não dar ‘voz alguma a quem se manifesta favorável a medidas como a instituição das cotas ou ao Estatuto da Igualdade Racial’. Quando o Estado se torna ‘observador da imprensa’, algo vai mal. Quando intelectuais como Sodré veiculam as opiniões de um Estado convertido em ‘observador da imprensa’, sente-se de longe o antigo desejo stalinista de calar a opinião divergente.


Opinião editorial é livre


Na dupla qualidade de jornalista e professor titular de uma universidade pública, Sodré deveria se preocupar com certos detalhes, como a consistência interna de seu texto. Mas a ideologia fala mais alto e ele, poucas linhas depois de enunciar seu pressuposto, admite a falácia. Está lá:




‘É bem sabido que há vozes discordantes das opiniões oficiais dos jornalões, por parte de jornalistas de peso, alguns dos quais pertencentes aos quadros desses mesmos jornais. É o caso de Elio Gaspari, Miriam Leitão e Ancelmo Gois.’


Ah, sim? Então?


Então, para formular uma hipótese benigna, talvez Sodré queira dizer coisa diversa daquela que escreveu. Não haveria, por exemplo, um desequilíbrio no material opinativo dos ‘jornalões’ sobre a introdução de leis raciais no país? Imagino que Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S.Paulo, os maiores jornais do país, sejam os ‘jornalões’ de Sodré. Entre os três jornais, há apenas quatro colunistas fixos que abordam com alguma frequência o tema das políticas raciais: os próprios Gaspari, Leitão, Gois, além de Ali Kamel e eu mesmo. A seção da Folha de S.Paulo dedicada a artigos externos de opinião mantém o critério de dividir meio a meio seu espaço entre defensores e críticos do racialismo. O Globo e O Estado de S.Paulo não têm seções similares, mas adotam critério idêntico para artigos opinativos sobre o assunto que acompanham eventualmente o noticiário. Desafio Sodré a provar objetivamente que há desequilíbrio.


Ele não provará, pois não pode, mas isso em nada alterará a sua posição – nem a da Seppir e das demais ‘entidades’ da sopa de letrinhas congregada para acusar a ‘mídia’ de parcialidade. É que o problema deles com os principais jornais é outro: a opinião expressa nos editoriais. Os três ‘jornalões’ posicionaram-se editorialmente contra a introdução de leis raciais – opinião, aliás, compartilhada pela maioria esmagadora dos brasileiros de todas as cores, como indica pesquisa encomendada por uma entidade favorável à introdução dessas leis. A opinião editorial é livre, numa sociedade democrática. Então, qual é o sentido do ataque de Sodré (que, sempre é bom lembrar, emana de um evento com participação estatal)?


Inimigos externos


A resposta está na conclusão do artigo de Sodré. Eis o trecho:




‘(…) os jornalões, intelectuais coletivos das classes dirigentes, não fazem mais do que assim se confirmarem ao lhes darem voz exclusiva em seus editoriais e em suas páginas privilegiadas, ao se perpetuarem como cães de guarda da retaguarda escravista’.


Fica-se sabendo assim que: 1) os intelectuais e ativistas críticos da introdução de leis raciais, pessoas de todas as cores e das mais variadas preferências partidárias e ideológicas, constituem a ‘retaguarda escravista’; 2) os ‘jornalões’ são os ‘cães de guarda’ dos escravistas. O que faria Sodré se estivesse no poder?


Um jornalista não está isento da exigência de rigor histórico, quando aborda temas históricos. Mas Sodré olha para o passado como quem duela ideologicamente no presente. O resultado é um cartum anacrônico, composto pela tesoura que corta fragmentos de citações e amparado por uma extensa ignorância histórica. O Alberto Torres caricatural que ele fabrica não passa num exame básico de graduação universitária. Recomendo, para quem quiser conhecer a posição de Torres, no cenário do intenso debate sobre a “questão racial” que crepitava no Brasil do início do século 20, uma consulta a meu livro Uma gota de sangue – história do pensamento racial.


Mas Sodré não tem nenhum interesse histórico no pensamento de Torres (ou de Oliveira Vianna). Ele só os menciona para inventar supostos “escravistas” atuais – e, com isso, substituir o argumento pela violência verbal. Nas democracias, a violência verbal é um sucedâneo da violência física contra opositores, interditada pela lei. Nas ditaduras, é um sinal anunciador da repressão. A violência verbal atinge seu paroxismo quando a voz dissonante é equiparada ao discurso abominável do inimigo externo. Cuba tem um ‘jornal único’, pois divergir da linha oficial implica operar a serviço da CIA, um inimigo que é externo no sentido geográfico. A acusação de Sodré é que os ‘jornalões’ são os arautos de um inimigo externo no sentido histórico: os ‘escravistas’. Inimigos externos devem ser calados, senão presos e fuzilados.


Sodré empastelaria jornais, se pudesse. Ele não está só, neste Observatório.

******

Sociólogo, autor de Uma gota de sangue – história do pensamento racial (SP, Contexto, 2009)

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